Na semana passada, por entre uma miríade de outras promessas, António Costa garantiu ir colocar os interesses dos inquilinos à frente dos dos senhorios. Nesse sentido, aliciou os primeiros com limitações à subida das rendas e ameaçou os segundos com obras coercivas em caso de degradação dos imóveis. Do ponto de vista eleitoral (diga-se o que se disser, ainda e sempre sinónimo de «os fins justificam os meios»), tem lógica: existem mais inquilinos do que senhorios e parecer defender os pobres contra quem os explora (sim, já vamos aqui: para o PS, os senhorios são oficialmente exploradores capitalistas) é uma atitude que recolhe sempre alguma simpatia instintiva. Na prática, as ideias de Costa são não apenas contraditórias mas contraproducentes: impedido de obter um rendimento adequado, nenhum senhorio se predisporá a manter os imóveis em boas condições. No limite, preferirá mantê-los devolutos. Cai-se desta forma no problema que foi levando à degradação das cidades portuguesas e que apenas este governo atacou, com uma lei das rendas passível de críticas mas ainda assim melhor do que praticamente tudo o que a antecedeu (expressão que define quase toda a acção do actual governo).
Mas pior é o PS não se ficar pelas rendas. Seguindo uma velha tradição socialista (frequentemente reforçada por partidos que se afirmam outras coisas – entre os quais PSD e CDS), aplica esta lógica e impõe estas consequências a muitas outras áreas. Costa e os socialistas acham mesmo que forçar preços irrealistas, umas vezes pelo lado da limitação administrativa dos mesmos, outras pelo lado da imposição de custos acrescidos (energéticos, salariais, contributivos), outras ainda por ambas as vias em simultâneo (como no caso das rendas), não gera consequências negativas. Obviamente, estão enganados.
E pior ainda é o problema ultrapassar em muito os devaneios populistas de António Costa e as dificuldades de Portugal. A política de juros negativos e de aumento de balanço dos Bancos Centrais (que, no que respeita ao BCE, a esquerda tende a considerar insuficiente) segue a mesma lógica implícita: evitar aquilo que os anglo-saxónicos chamam price discovery, ou seja, a aplicação do preço adequado para cada bem e serviço. O que os Bancos Centrais vêm fazendo, pressionados por governos e partidos variados, é estimular o aumento da dívida numa economia que já está afogada nela e em que, por efeito dos juros absurdamente reduzidos, quase tudo tem um valor altamente «alavancado» (para usar um termo na moda). Torna-se, aliás, curioso seguir a evolução da cotação das principais moedas em relação ao dólar. As variações ocorrem não tanto por existirem dados concretos provindos da economia «real» (se é que o conceito ainda tem razão de ser) mas consoante os comentários de responsáveis da Reserva Federal norte-americana ou do BCE são mais optimistas ou mais cautelosos, num jogo que parece ter feito nascer uma nova categoria de exegetas, permanentemente ocupados a tentar detectar indícios em palavras muitas vezes banais. Mas o modo como a Reserva Federal vem adiando o início do processo de normalização das taxas de juro mostra bem quão armadilhado se encontra o terreno (de vez em quando, alguém até fala na necessidade de um quarto programa de Quantitative Easing nos EUA). De tal modo que alguns bancos comerciais, assustados, já vieram pedir mais regulação, no fundo admitindo que não conseguem travar a bola de neve. E Draghi, por entre profissões de fé na melhoria da situação europeia, vai alertando que nenhum estímulo resultará se não for acompanhado por reformas estruturais da economia.
Nada disso importa. Para Costa e Galamba, para Tsipras, Varoufakis e Iglesias, para Nicolau Santos e Paul Krugman, para, no fundo, todos os que defendem que se continue a subir a parada, inventando ainda mais dinheiro que alguém algum dia terá de pagar, interessam acima de tudo a retórica, a ligeira folga proporcionada pelas taxas de juro negativas e a ilusão de um futuro em que, por magia e contra as evidências (demográficas, por exemplo), tudo se compõe (*). E isto torna ainda mais extraordinário que, em plena pré-campanha eleitoral, Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque não se coíbam de continuar a falar em medidas pouco agradáveis, como o corte de 600 milhões de euros nas despesas da Segurança Social. No Reino Unido, os eleitores preferiram a honestidade. Em Portugal, por muito que clamem contra as mentiras dos políticos, veremos se continuam afinal a preferir acreditar em promessas que só podem ter um de dois destinos: ser renegadas (como Passos Coelho foi forçado a fazer em 2011) ou contribuir para piorar a situação do país.
(*) Aquilo que vale para o Syriza vale, sob forma mais suave, para vários outros discursos políticos. Sempre que o apelo ao sonho e à utopia se tornam recorrentes, é sinal que os mecanismos regressivos estão a funcionar. A realidade tende a eclipsar-se ou a dissolver-se no próprio discurso, deixando, em termos práticos, de existir. O discurso basta-se a si mesmo e, por um passe de mágica, pretende ser a prova da sua própria justeza. É regressão mesmo. E é também deprimente.

Como vem hoje relatado num artigo do Negócios, há bairros de Lisboa onde os habitantes passaram a ser, esmagadoramente, turistas.
O que se passa é que é frequente que “jovens empreendedores” se façam passar por interessados em arrendar casas a senhorios muitas vezes idosos, crédulos, incapazes de lobrigar chicos-espertos, fazem umas obritas para disfarçar os estragos mais visíveis das casas, e toca mas é a alugar O QUE NEM DELES É a bandos de turistas estrangeiros.
Claro que impostos pagos no meio desta esperteza lisboeta, nem vê-los. Sai do bolso duns e entra logo directamente no de outros.
Li com atenção, José, sua reflexão. Mas parece-me que o José anda desatento.
Diz assim: “E isto torna ainda mais extraordinário que, em plena pré-campanha eleitoral, Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque não se coíbam de continuar a falar em medidas pouco agradáveis, como o corte de 600 milhões de euros nas despesas da Segurança Social. No Reino Unido, os eleitores preferiram a honestidade. Em Portugal, por muito que clamem contra as mentiras dos políticos, veremos se continuam afinal a preferir acreditar em promessas que só podem ter um de dois destinos: ser renegadas (como Passos Coelho foi forçado a fazer em 2011) ou contribuir para piorar a situação do país”.
Porém, a Maria e as outras Marias que vão com as outras não dizem isso que afirma. Aliás, eles nem sabem o que dizem: 7-Ministra-das-Financas-assegura-que-nao-e stao-previstos-mais-cortes-nas-pensoes
http://expresso.sapo.pt/politica/2015-05-2
Quanto ao RU. No Reino Unido eles preferiram o apoio às famílias, através de injecção monetária, da baixa de impostos e da promessa de um referendo à saída do RU da UE, entre outras promessas que já estão em prática.
Portanto, essa sua visão muito rigorosa, austera, certinha e alinhavadazinha não colhe perante a realidade. Creio que não passa de uma espécie de Bovarismo, isto é, do personagem que se apaixona pelo amor e não é capaz de vivê-lo.
Mas não terminamos aqui.
Se bem se recorda, a lei das tendas foi introduzida como uma programa de alavancamento da economia. E chegámos à conclusão que em matéria de hidráulica não existe poder e força para elevar a alavanca quanto mais a economia. Mas não ficamos por aqui, o mercado imobiliário não acompanha a realidade do país, é especulativo na retenção dos stocks e, consequentemente, pratica preços irreais que não estão de acordo com as políticas austeritárias implementadas.
Eu compreendo o seu problema. O José pretende uma austeridade libertária e aleatória que faça de um senhorio um agente fora desta realidade, podendo agir em roda livre, e do inquilino uma espécie de vassalo numa relação feudal ultrapassada.
Acontece que Costa tem razão. Se as pessoas perdem poder de compra e arbitrariamente se lhes retira o rendimento, o mercado das rendas tem de voltar a ser regulado de forma forte e firme.
Quanto às restantes reflexões que profere sobre a economia mundial. O que o José propões é ou a estagnação ou a degradação, deste que feita à conta dos miseráveis.
No Reino Unido, o Labour de Ed Miliband averbou uma esmagadora vitória.
O RU anda entre copo meio cheio e copo cheio. Nós andamos entre copo meio vazio e copo vazio.
Não, não me tirem o direito de sonhar como eu aprendi a sonhar. Essa realidade é feia, nem sequer tem Rei Midas…
Penso que o José António tem toda a razão e que os portugueses vão apreciar quem está mais próximo da realidade e irão castigar os sonhadores. Isto, mesmo que a comunicação social não trate bem o assunto e embarque nas promessas do Costa e outros bem instalados nas capitais, em Lisboa ou Porto.
Há gente que nunca apreende nada, por muitos anos que viva. Há gente que não entende que o congelamento das rendas das habitações e apenas em Lisboa e Porto, decretadas pelo Salazar, foi um erro enorme.
Há gente que pelos seus interesses vende a alma ao diabo.
“Mal acomparado”, como se diz na minha terra, o que o BCE anda agora a fazer é o que fez em Portugal o Alves dos Reis há +/- 90 anos, mas com uma diferença: o Reis usou esse dinheiro para investir, nomeadamente em Angola. O BCE está a usar as rotativas para pagar as dividas publicas que os governos não conseguem pagar para manter um estilo da vida insustentável, porque só se pode distribuir a riqueza que se cria.
Todos sabemos como é que isto vai acabar: MUITO MAL! a ressaca e o desmame dos juros negativos vai ser terrivel.
A propósito de “…promessas que só podem ter um de dois destinos: ser renegadas (como Passos Coelho foi forçado a fazer em 2011)…”, qual o significado de dizer que Passos Coelho foi “forçado”. Quer dizer que ele estava determinado a cumprir as promessas que tinha feito depois de avaliar cuidadosamente a situação do país mas, forças que lhe eram estranhas e antes desconhecidas o “forçaram” a renegar as promessas?
O Sócrates, ao menos, cumpriu tudo o que tinha prometido. À excepção de ir parar ao EPE, obviamente.
O Sócrates tinha prometido que não ia parar ao EPE de Évora?