Contraste


escafandro,

No centro comercial: homem e mulher com aspecto gótico levam pela mão uma miúda (quatro, cinco anos no máximo) vestida como uma princesinha de conto de fadas.

Fico a vê-los afastarem-se. Por instantes, sinto estar a observar uma cena de um filme dos bons velhos tempos de Tim Burton. Há ternura no contraste. Como se a miúda lhes tivesse caído no colo de surpresa, vinda de um universo paralelo ao deles, e procurassem ainda a forma adequada de reagir. Ou, melhor, como se tanto ela como eles viessem de universos paralelos a este e se tivessem juntado para tentar navegá-lo.

Depois de abandonarem o meu campo de visão ponho-me a pensar mais a sério. Será possível que uma miúda daquela idade já tenha capacidade para recusar o exemplo dos progenitores e impor um aspecto tão distinto do deles? Neste caso, quão desconcertante (todos os pais se imaginam modelos para os filhos) será para eles? Ou será desejo dos pais mantê-la num mundo de encanto e inocência, em que claramente não acreditam, até tão tarde quanto possível? E constituirá o exagero uma tentativa de compensar essa falta de crença?

Ou então – a minha faceta racional e mais do que um nadinha cínica estraga-me sempre as divagações – são apenas tios e sobrinha.

0 comentários em “Contraste”

  1. Perdi-me ali onde escreve “num mundo de encanto e inocência, em que claramente não acreditam”… Esta observação prende-se pelo aspecto gótico? Olhe que poderá ser um engano. E quantas pessoas que vê com um chamado aspecto normal, acredita nesse mundo de encanto e inocência de que fala? Olhe que eu não sou gótica e também já deixei de acreditar no Pai Natal há muito tempo 😉

    1. Nestas coisas não há garantias. O aspecto gótico tem normalmente um fundamento de desencanto, de niilismo até, mas por vezes pode ser apenas uma fachada – um meio de defesa.

      E não ser gótico não significa que se acredita no Pai Natal… Ser gótico e acreditar é que talvez fosse um pouco estranho. A menos – lá está – que se tratasse de um Pai Natal à Tim Burton, com o trenó puxado por renas zombie e o saco cheio de presentes macabros. 🙂

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *