O léxico mingua. Camilo conglobava uma miríade de vocábulos hoje alóctones. Qual filigrana rococó, Aquilino desembuçava concatenações multifárias e buriladas. Hoje, bulhufas. Mas as sarandalhas palmeiam. Pascácios conjecturando-se paladinos do discernimento coagem a aceleração da declividade, assestando vitupérios na Internet sobre almas ensimesmadas que se afoitam à geração de verbetes prenhes de ímprobas lexias. Pelejar é supervacâneo. Antes arriar.
Destes tempos de simplicidade, quiçá de involução linguística
escafandro,

Ou seja,
falta-nos alguém no governalho!
Neste campo, o governalho só serve para eliminar consoantes mudas.
Em nome da simplificação, claro, um dos grandes objectivos dos tempos actuais.
Òbviamente!
P.S.: Esta acentuação faz-se com uma vénia a Vitorino Magalhães Godinho, que não concordando com o acordo ortográfico – não este mas o anterior – sempre fez questão de colocar o acento grave os advérbios de modo que provinham de palavras acentuadas, da mesma forma que o J.A.Abreu, e uma enormidade (de enorme) de muitos outros incluindo eu próprio, o faz em relação às consoantes mudas.
Camilo, Aquilino tinham um luxo que hoje não há: escreviam para um elite.
Hoje escreve-se para o facebook
Ou para o Twitter, onde certas palavras (talvez não portuguesas mas, sei lá, alemãs) nem devem caber… 🙂
Por acaso, cabem: ords
https://en.wikipedia.org/wiki/Longest_w
Camilo não escrevia para elites. É certo que quem sabia ler era uma minoria, mas os leitores de Camilo não eram as elites. E julgo que os seus romances eram publicados em folhetim, nos jornais. Quanto à riqueza do léxico camiliano, ou aquiliniano, não lhe vem pela erudição mas pelo vocabulário popular que era (e é) rico. Na província, por exemplo, creio haver mais riqueza lexical que nos meios urbanos. Chega a ser confrangedor a pobreza lexical da juventude.
Nunca mais me esqueço de um casal de velhos analfabetos que, no exercício da minha profissão, me diziam que a água corria pela alcorca do talude. Disfarcei a ignorância e chegando ao gabinete corri ao dicionário. Espantei-me que mestrados, habituados a ler, desconheçam, por exemplo, a palavra epíteto.
É assim que se vai matando a língua. Com a era informática o massacre agudizou-se. Não só pelos anglicismos inevitáveis mas pela confusão em distinguir o virtual do real. Tira-me do sério quando o computador e os colegas me pedem para “visualizar” o que aparece na pantalha. Que raio, nunca precisei de computadores para visualizar o que quer que fosse pois imaginação não me falta, mas sei muito bem ver o que me põem diante dos olhos. No computador vejo o que lá aparece, na minha cabeça, com a capacidade imaginativa, visualizo, até de olhos fechados, o parvalhão que entendeu substituir o ver por visualizar. E já não vou falar de “contratualizar”, outra inexistência, porque parto para a violência.
É uma gabela gentiaga que nunca saboreou o bordado de um Aquilino ou de um Camilo. À falta de riqueza de vocabulário, afofam-se e alçam o bestunto só porque “contratualizam” o alquilé das bestas. E assim, com a altivez e a ignorância ajoujadas, vão lendo os “aitâmes” do contracto. Pelo amor da santa! Quando é que vão perceber que item é latim e não inglês, essa língua de bárbaros? Insulta-se Séneca e Virgílio para fazer cócegas a Shakespeare.
Um dia destes, se me aparece uma seresma ou um taranta, a pedir-me que visualize um raio que os parta ou a inglesar o latim, mando-lhe com os guantes aos gorgomilos. Depois não digam que fui eu quem começou a zanguizarra!