Estado de negação


escafandro,

Em grande medida, o PS perdeu por abandonar o centro e virar à esquerda. E agora, em vez de extrair lições do resultado e perceber que, na votação do programa de governo e do próximo orçamento, lhe resta a abstenção – ainda que “violenta” -, dá sinais de pretender governar, o que o forçaria a virar ainda mais à esquerda e a tornar-se refém do PC e do Bloco.

Mas neste momento a desilusão é tanta que se perdoam alguns desvarios.

Dos riscos que se correm quando reflicto demasiado


escafandro,

Em 2009 deu nisto:

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Em dia de reflexão eleitoral, as duas fotos que coloquei nos posts anteriores têm água. Superfícies amplas de água convidam à reflexão. Como também o fazem planícies extensas ou um céu estrelado. A imensidão faz-nos pensar. Torna-nos humildes. Abre-nos à consideração de outras hipóteses e ajuda-nos a redimensionar problemas. No caso da água, há um temor instintivo. Medo do afogamento e de criaturas estranhas e malignas, reais ou imaginárias. Mas há também fascínio, uma possibilidade de fantasia, de seres de histórias de encantar. E, mergulhado no que Freud chamou inconsciência, um desejo de regresso ao ventre (ao materno e ao primordial).

Perante uma superfície ampla (o mar, uma planície a perder de vista), o céu reage e torna-se também maior e mais presente. Junto ao oceano, a um rio largo ou a um lago, ficamos entre a água e o céu, conjugações improváveis de poeira cósmica presas entre a vontade de voar e a de mergulhar.

 

 

Credo! Por favor, altere-se a Lei Eleitoral.

Os passos de Passos não foram perdidos


escafandro,

1. Governo

Em Janeiro de 2013, estavam os sinais de retoma económica ainda escondidos pelas peculiaridades da quarta dimensão (o extra-Euclidiano «tempo» e a sua patusca componente «futuro), escrevi que, não obstante muitos defeitos – tinha imensos, já na altura –, achava este governo um dos melhores, se não o melhor, da Terceira República. Muitas coisas ocorreram desde então: os chumbos mais mediáticos do Tribunal Constitucional, as revisões para cima dos objectivos do défice, a crise da «irreversibilidade» de Paulo Portas, o início da descida da taxa de desemprego, o desvanecimento da tão-certa-quanto-maligna «espiral recessiva», o aumento sustentado das exportações, o saldo das contas externas positivo pela primeira vez em décadas, o fim do programa de assistência financeira sem necessidade de segundo resgate ou de programa cautelar, o escândalo dos Vistos Gold, a reforma do mapa judiciário, a confusão na abertura do ano lectivo de 2014, o colapso do Grupo Espírito Santo, o processo de privatização da TAP. Embora acomodando mais algumas discordâncias e desilusões, a minha opinião manteve-se. E gostaria hoje, a dois dias das eleições, de regressar a dois destes temas, que me parecem definir um traço fundamental no governo e, muito particularmente, em Pedro Passos Coelho: a crise provocada pela demissão de Paulo Portas e a falência do Grupo Espírito Santo.

 

2. Desilusão 

Como os políticos gostam de dizer, permitam-me começar por um enquadramento. Na sexta-feira imediatamente anterior às eleições de 2011, escrevi:

9. Gostei da clareza do programa do PSD, apesar de existirem pontos em que não me revejo e outros em que receio se vá demasiado longe no futuro. […] Desconfio de muitas pessoas que rodeiam Passos Coelho e detesto os aparelhistas e os caciques do partido. Não gosto da falta de clareza que o CDS manteve durante a campanha em relação a vários assuntos delicados, incluindo possíveis cenários de coligação. Considero que nos últimos anos fez uma oposição mais coerente do que do que a do PSD e prefiro, apesar de tudo, a equipa que rodeia Portas, por inexperiente que seja – ou talvez por causa disso.

10. Os próximos anos vão ser muito, muito difíceis.

11. Até domingo decidirei em que partido voto.

Votei CDS. Arrependi-me, acima de tudo por causa das tentativas que Paulo Portas foi fazendo para se dissociar – e dissociar o CDS – das medidas mais impopulares que o governo aplicava. Mesmo gostando pouco de organizações pejadas de gente com mais interesses do que convicções (como são todos os grandes partidos), se PSD e CDS concorressem separados às eleições do próximo domingo, o CDS perderia o meu voto e PSD ganhá-lo-ia.

 

3. Surpresa

Portas pode ter frustrado as minhas expectativas (reconheço-lhe, não obstante, uma capacidade de trabalho notável, que ajudou aos bons resultados das exportações) mas Passos ultrapassou-as – largamente. Contra uma esquerda radical ululante, contra um PS populista que sempre recusou assumir responsabilidades na situação a que o país chegara e colaborar nas medidas para o tirar dela, contra os «barões» do PSD, muitos dos quais afirmando o contrário do que antes haviam defendido, contra uma miríade de comentadores e «especialistas», contra sectores do Estado gordos, ineficientes e pouco habituados a constrangimentos, contra grupos económicos muito habituados aos negócios provenientes do Estado, contra quase toda a comunicação social, de maneira serena e sem autoritarismos (nunca ninguém teve razões para lhe chamar «animal feroz»), Passos aguentou o barco durante quatro anos e meio. Cometeu erros mas soube ultrapassá-los, aguentando firme ou recuando quando se tornou evidente que a alternativa seria pior – para ele, claro, mas também para o país.

 

4. «Não» a Portas

Quiçá por, em 2011, ter derrotado um Sócrates tão combativo, manipulador e histriónico como sempre mas bastante debilitado pelo falhanço clamoroso do rumo que insistira em seguir, muita gente continuou a subestimar as capacidades políticas de Passos Coelho até aos dias que se seguiram à demissão de Paulo Portas, no Verão de 2013. Nesses dias, ele mostrou que – não obstante o virulento cepticismo dos «pais» da República – era afinal um político de primeira. Nesses dias, fez algo que – admito – não julguei possível: manter o governo em funções, forçar Portas a reconsiderar, usando para isso o próprio CDS, e, na sequência dos esforços de Cavaco Silva para arranjar uma solução que envolvesse os socialistas, manter inteligentemente disponibilidade para negociar, ciente de que António José Seguro estava manietado por radicais que não aceitariam – como ainda não aceitam – compromissos. (Os quais – oh, ironias – lhes teriam dado em 2014 o que talvez não venham a conseguir em 2015.) Mais: partiu desse momento crítico para deixar de lado animosidades pessoais e criar uma melhor relação com Portas, bem visível durante a presente campanha. (Passos aproveitou a fraqueza de Portas, que ficara sem margem para novos erros, mas obviamente – até porque estas coisas são mais instintivas do que racionais – este terá parte do mérito na evolução que se constata.)

No Verão de 2013, nasceu outro Passos: o político que ninguém pode subestimar. Algo que os resultados das sondagens vêm confirmando, para surpresa e irritação de quase todos os socialistas, dos «barões» do PSD e de muito comentadores.

 

5. «Não» a Salgado

Se a crise provocada pela demissão de Portas revelou o político, o colapso do GES confirmou que Passos tem uma visão para a Economia. Ao longo destes quatro anos, teve de implementar muitas medidas que certamente lhe desagradam, começando pelos vários aumentos de impostos. Mas nunca tergiversou num ponto: a Economia desenvolve-se à base da iniciativa privada; esta deve funcionar em concorrência e assumir os riscos decorrentes da má gestão.

É ponto assente que o Banco de Portugal foi demasiado suave para com Ricardo Salgado durante demasiado tempo. O governo não. No período democrático (i.e., Terceira República excluindo PREC), nenhum antecessor de Passos teria recusado salvar Ricardo Salgado. Como – estou absolutamente convencido disto – não o teria recusado António Costa, se fosse primeiro-ministro. Há dias, no programa Conversas Cruzadas, da Rádio Renascença, Daniel Bessa (ex-ministro socialista) e Álvaro Santos Almeida (professor de Economia na Universidade do Porto) foram tão claros sobre o assunto que apenas me resta citá-los:

Daniel Bessa (1): Não tenho nenhuma dúvida de que o acto fundador – para o melhor e para o pior com todas as consequências que aí estão – partiu de Passos Coelho e Maria Luís que disseram ‘não’ ao Dr. Ricardo Salgado.

Daniel Bessa (2): Um ‘não’ proferido quando o Dr. Ricardo Salgado lá foi e não foi sozinho. Até conheço quem o acompanhou nessa diligência, mas não vou dizer. Até não foram só dois, mas saíram de lá com uma ‘nega’ redonda. O regime caiu aí.

Álvaro Santos Almeida: Se não fosse por mais nada este governo teria valido a pena só por esta decisão.

É cedo para aferir os custos decorrentes do colapso do Grupo Espírito Santo e, ainda que se perceba a intenção subjacente (não permitir impactos no défice), terá sido um erro tentar vender o Novo Banco à pressa. Seja como for, até prova em contrário, a resolução foi a escolha com menos inconvenientes. Mas nem é tanto isso que aqui me interessa. Interessa-me a posição de Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque diante do dono disto tudo, absolutamente extraordinária num país onde o cruzamento de interesses entre o Estado e os principais grupos económicos tem imperado, com custos enormes para o bem-estar geral.

 

6. Do passado ao futuro

Critiquei-o várias vezes. Em Março de 2010, num texto intitulado Os passos de Passos não serão perdidos (no qual – de vez em quando sou ainda melhor do que julgo ser – previ que se realizariam eleições em Junho de 2011), cheguei a admitir preferir Paulo Rangel para líder do PSD. Desconfio que, numa perspectiva de imagem para o futuro, seria melhor para Passos perder tangencialmente no próximo domingo. Dentro de vinte ou trinta anos, o seu nome estaria associado ao salvamento (provavelmente temporário) do país; à criação de uma (provavelmente desperdiçada) oportunidade. Vencendo sem maioria absoluta, enfrentará (mais) um período turbulento, o qual, dependendo da versão do Partido Socialista que sair das eleições, pode acabar mal. Mesmo com uma improvável maioria absoluta, está por demonstrar que é possível fazer crescer este país de forma saudável sem a presença de uma forte tutela externa, tão numerosos e poderosos são os interesses instalados (veja-se como o governo, que até se comportou razoavelmente para ano eleitoral, acaba de ceder aos enfermeiros). E ainda há os riscos externos: tirando Centeno e Galamba, alguém acredita que a Economia mundial escapará a um novo solavanco – passe o eufemismo – durante os próximos quatro anos? Seja como for, levando em conta as alternativas, ainda bem que Passos Coelho está na corrida. Se em grande medida o meu voto no próximo domingo configura a recusa de males maiores (a democracia é o jogo do possível; as utopias acabam mal), em parte serve também como reconhecimento do trabalho desenvolvido e (por vezes convém suspender o cinismo e, ainda que sem entusiasmos excessivos, apostar em alguma coisa) sinal de esperança no trabalho a desenvolver pelo homem mais contestado de Portugal.

Desculpem lá mas é um desabafo que tenho mesmo de fazer


escafandro,

Em 2009 lutei pela vitória da prudência e do realismo. Perdi. Lixei-me. Como eu, milhares de outros (a maioria até mais do que eu mas uma fatia dos que se lixaram tinha optado pelo risco). Em 2015, sem ilusões de que a opção se revele perfeita, luto novamente pela vitória da prudência e do realismo. É possível que perca outra vez. É também muito possível que me lixe outra vez. Como eu, milhares de outros. Uma parte terá novamente escolhido uma opção de risco mais elevado. No futuro, não me peçam para os lamentar.

Se não agora, talvez depois da quarta ou quinta bancarrota (é preciso ter esperança)


escafandro,

Surpreende que a coligação possa vencer as eleições. Talvez – como sucedeu no Reino Unido – muitos eleitores tenham finalmente percebido que nem há almoços grátis nem as ilusões pagam contas. Mas é possível que – ao invés do que sucedeu no Reino Unido – desta vez ainda sejam insuficientes. Nesse caso, ficará para uma próxima.

Papéis inesquecíveis quase esquecidos. 4: Simone Signoret, em Casque d’Or.


escafandro,

Na década de oitenta, já ela falecera, Yves Montand teve um comentário cruel: «Apaixonei-me pela Casque d’Or, encontrei-me a viver com Madame Rosa.» Referia-se a dois papéis de Simone Signoret: a luminosa Marie, com a sua cabeleira dourada (Casque d’Or / Aquela Loira, 1952), e a idosa e pouco atraente Madame Rosa, sobrevivente de Auschwitz, ex-prostituta, ama de filhos de prostitutas, do filme de 1977 La Vie Devant Soi, baseado no livro de Romain Gary com o mesmo título (última edição portuguesa em 2011, pela Sextante, ainda em português não mutilado).

Em abono de Montand, deve salientar-se que a perda de beleza de Signoret não quebrou a relação de décadas que mantiveram e que terminou apenas com a morte dela, em 1985, na sequência de cancro do pâncreas (Montand faleceu seis anos mais tarde e foi sepultado a seu lado, no cemitério Père Lachaise). De resto, ainda que cruel, o comentário mostra-se relativamente exacto (a rodagem de Casque d’Or correspondeu ao período inicial da relação entre ambos, tendo Montand – que não entrava no filme – assistido à filmagem de muitas cenas) e, acima de tudo, útil para perceber o temperamento de Signoret, que fumava e bebia em excesso, era senhora do seu nariz e se mostrava pouco preocupada com a manutenção da beleza da juventude (algo aparentemente impensável para as actrizes – e actores – dos dias de hoje, que começam a esticar a pele da cara mal saem da adolescência) mas muito preocupada com a genuinidade das suas interpretações. (Haverá certamente por aí quem se lembre dela na série policial Madame Le Juge, de 1978, transmitida pela RTP há cerca de 35 anos.)

Nasceu Simone Kaminker no ano de 1921, em Wiesbaden, na Alemanha, ocupada pelos franceses na sequência da Primeira Guerra Mundial. O pai era um judeu de ascendência polaca que servia no exército e mais tarde seria tradutor (em 1934, traduziu em directo para a rádio um famoso discurso de Hitler em Nuremberga). Signoret era o apelido da mãe. A família fixou-se nos arredores de Paris e Simone deixou-se atrair pelos círculos intelectuais, tornando-se parte do grupo de escritores e artistas que frequentava o Café de Flore. Passou a Segunda Guerra Mundial desempenhando pequenos papéis em filmes, sem licença de trabalho devido ao pai, que fugira para Inglaterra em 1940. Em 1944 iniciou uma relação com o realizador Yves Allégret, o qual, numa fase em que já era relativamente conhecida, viria a dar-lhe dois papéis cruciais – em Dédée d’Anvers (Vidas Tenebrosas), de 1948, e em Manèges, de 1950. Teve uma filha com Allégret em 1946 e casou-se com ele em 1948 mas no ano seguinte conheceu o tal rapaz – jovem cantor e actor também nascido em 1921 – que se apaixonou pela Casque d’Or e acabou casado com Madame Rosa. Foi um coup de foudre que resultou em três décadas e meia de vida em comum, durante as quais Simone participou em alguns filmes fundamentais na história do cinema: Les Diaboliques (1955), de Henri-Georges Clouzot, Room at the Top (1959), de Jack Clayton (que, muito justamente, lhe valeu o Óscar de melhor actriz em 1960), Ship of Fools (1965), de Stanley Kramer (ao lado de Viven Leigh, no último desempenho desta), L’Armée des Ombres (1969), de Jean-Pierre Melville.

Como tantas vezes no início da carreira, em Casque d’Or desempenha o papel de uma prostituta. Na Paris dos primeiros anos do século XX, Marie é a preferida de Roland, um criminoso que não vê com bons olhos a entrada em cena de Georges Manda (Serge Reggiani), carpinteiro desde que saiu da prisão por crimes que nunca ficam claros. Numa luta nas traseiras de um bar, Manda mata Roland. Leca, líder do bando a que Roland pertencia e também ele de olho em Marie, incrimina Raymond, amigo de infância de Manda. Para evitar que o amigo seja guilhotinado, Manda tem que escolher entre a liberdade (e Marie) e a confissão que o conduzirá à guilhotina no lugar do amigo.

O filme baseou-se numa história verdadeira ocorrida em 1898 e não teve grande sucesso em França aquando da estreia (ao contrário do que sucedeu em Inglaterra, onde Signoret ganhou um BAFTA). O tom de tragédia iminente terá algo a ver com o assunto, como talvez a recusa em fazer julgamentos de moral (Manda não julga o passado de Marie, a esta não interessa o dele) e a falta de tiradas grandiosas e de juras reiteradas de amor. A relação entre Marie e Manda desenvolve-se muito mais à base de gestos, posturas e, acima de tudo, olhares do que de palavras: Manda quase não se dirige a Marie em todo o filme e esta pouco fala com ele. Tem lógica (as palavras são supérfluas para pessoas que já viram muito e estão cientes da fragilidade da situação e da necessidade de aproveitar o pouco tempo disponível) mas terá sido um pouco desconcertante para o público (e para os críticos) de então. Porém, em grande medida, é este à-vontade imediato, instintivo, que transmite a sensação de estarmos perante um encontro de almas gémeas  (estar confortável com os silêncios é algo que costuma ocorrer muito mais tarde nas relações). Jacques Becker, um realizador lento, perfeccionista, discretamente romântico, que – como Jean Renoir, de quem foi assistente – gostava de filmar em exterior sempre que possível (o que fazia disparar os custos), reforça esta sensação através de imagens luminosas, precisas, sem elementos supérfluos, ainda que frequentemente pontuadas com detalhes do quotidiano.

(Casque d’Or pode não ter tido sucesso comercial mas marcou várias pessoas, entre as quais uma rapariga chamada Eunice Waymon, nascida na Carolina do Norte em 1933, que adoptaria o nome artístico Nina Simone em homenagem ao desempenho de Signoret.)

Becker – que nunca obteria um grande sucesso de bilheteira – não foi o primeiro realizador a pegar no projecto de Casque d’Or. Porém, torna-o seu conferindo-lhe uma simplicidade e uma fluidez desarmantes (características dificílimas de obter mas tantas vezes desvalorizadas). Intuindo-se que dificilmente o final será feliz, há na forma como a história se encontra apresentada uma faceta de redenção, de aproveitamento pleno do pouco tempo disponível, que a torna estranhamente optimista – talvez uns quantos dias de felicidade absoluta valham mais do que uma vida de frustrações. Signoret e Reggiani eram actores com estilos muito diferentes – ela mais instintiva, ele mais necessitado de «habitar» a personagem – mas criam ambos figuras memoráveis. Sem uma ponta de overacting, Reggiani compõe um solitário de poucas palavras que não deseja problemas mas não recua perante eles e a quem o destino surge sob a forma de um amor incontornável. Quanto a Signoret, imbui Marie de uma dignidade e de uma força por vezes roçando a insolência (é ela quem escolhe Manda desde o início, circunstância que torna o final ainda mais pungente) que transformam a Casque d’Or numa das personagens femininas mais marcantes da história do cinema e viriam a caracterizar muitos outros papéis seus (recorde-se, por exemplo, a amante preterida de Room at the Top). Nos melhores e nos piores momentos, Marie domina – e ilumina – a tela. Esteja o seu cabelo de ouro apanhado ou caindo-lhe esplendorosamente sobre os ombros.

Diabos, um optimista até poderia começar a ver nisto uma mudança estrutural…


escafandro,

Procura externa vale 85% do crescimento económico português.

Então não tinha sido o consumo interno, estimulado pelas decisões do Tribunal Constitucional, o único responsável pela subida do PIB?

Enfim, para ser honesto, até estou surpreendido com um valor tão elevado. Mas resta-me um consolo: se chegarem ao poder, Costa, Centeno e Galamba depressa tratarão de o «corrigir».

Amor e água limpa


escafandro,

O que é que nos fazia pensar que, se alguém não nos consegue amar, é porque está magoado, deficiente, com algum tipo de disfunção? E nos casos em que nos substituem por um deus, ou uma virgem em pranto, ou o rosto de Cristo num pano sagrado – aí tratamo-los por doidos. Iludidos. Regressivos. Estamos tão convencidos da nossa própria bondade, e da bondade do nosso amor, que não suportamos acreditar que haja algo que seja mais digno de amor do que nós, mais digno de devoção. Os cartões de felicitações dizem muitas vezes que toda a gente merece amor. Não. Toda a gente merece água limpa. Nem toda a gente merece amor a toda a hora.

Zadie Smith, Dentes Brancos. Edição D. Quixote (2002), tradução de Manuel Cintra.

 

Pois não. Mas dói, aceitá-lo. E recusar fazê-lo talvez constitua parte do que nos faz humanos. Como, de resto, desejar amar.

Avaliar o passado ou tentar prever o futuro?


escafandro,

Será humano, votar para avaliar a acção do governo cujo mandato termina. Usa-se até a expressão com naturalidade, sem reflectir muito sobre os inconvenientes do método: «A governação Sócrates foi avaliada em 2011», «O governo de Passos Coelho e Paulo Portas será avaliado no dia 4 de Outubro». Porém, esta forma de decidir o sentido de voto tem problemas: ignora os efeitos duradouros de políticas desastrosas e potencia populismos, seja através de um estilo de governação irresponsável por parte dos partidos ditos «do sistema», seja do aparecimento de forças anti-sistema, desprovidas de soluções.

O primeiro problema é fácil de compreender mas, para muita gente, difícil de aceitar. Quando um governo, através das suas políticas, condiciona fortemente a acção do seguinte (como foi manifestamente o caso na transição entre o governo de Sócrates e o de Passos Coelho), pretender que tudo o que este faz decorre de sua livre decisão só pode ser classificado como miopia. Qualquer governo que tivesse sucedido ao do PS teria hoje que explicar muitas medidas difíceis e, em alguns casos, a razão por que o país ainda se encontrava mergulhado em resgates.

O outro ponto é mais insidioso e também mais preocupante. Analisando os últimos 30 anos da democracia portuguesa (e poderia recuar-se mais), verifica-se que, de facto, os portugueses tenderam a votar para penalizar ou premiar o governo em funções e não para criar uma solução de futuro. Em 1985, penalizaram o PS pelo período de austeridade que a governação da AD tornara inevitável, escolhendo uma incógnita (Cavaco Silva e o PSD). Em 1987, premiaram o governo do PSD e voltaram a fazê-lo em 1991, após Cavaco – com ajuda de fundos comunitários – aplicar uma política de investimento em infra-estruturas e de reformulação do funcionalismo público, criando o que viria a ficar conhecido por «o monstro». Em 1995, fartos do estilo autoritário do PSD e de Cavaco que, para mais, haviam sido obrigados a aplicar medidas de contenção de despesa (algo que nem Guterres nem Sócrates teriam a coragem – e a hombridade – de fazer), elegeram o PS e António Guterres. Em 1999, saindo de um período de euforia que culminara na Expo 98, premiaram uma governação mãos-largas, não obstante existirem indícios de que nem tudo corria bem. Em 2001, os indícios haviam-se transformado no «pântano» de Guterres e os portugueses substituíram o governo. Mas não gostaram das medidas correctivas que o seguinte implementou (ou tentou implementar) nem das trapalhadas dos seis meses de governação Santana Lopes e, em 2005, deram a Sócrates e ao PS uma maioria absoluta. Em 2009 tornaram a ignorar indícios preocupantes (agora óbvios) e, numa reacção quase pavloviana, votaram em quem acabara de aplicar políticas populares (a descida do IVA, o aumento salarial dos funcionários públicos, a aposta desenfreada nas obras públicas). Perceberam as consequências em 2011, apeando o PS do governo. E deste modo trouxeram o país a 2015.

Em eleições, mais importante do que julgar o passado deveria ser avaliar as perspectivas para o futuro. O passado pode e deve servir como auxiliar mas torna-se perigoso que condicione por inteiro a orientação de voto. Em 2009 (como em 1999 e até em 1991), a avaliação do governo premiou actos irresponsáveis. Em 2015 (como em 1985), provavelmente penalizará uma governação que teve de aplicar medidas impopulares mas, mais falha, menos falha, foi globalmente correcta. Em 2009 (como em 1999), porque o governo fora simpático na distribuição de receitas (que não tinha), ignoraram-se os alertas sobre as dificuldades que se avizinhavam. Em 2015 (como, até certo ponto – os seis meses de Santana e a Troika impedem um paralelismo adequado -, em 2005), porque o governo foi muitas vezes antipático, corre-se o risco de eleger quem apresenta (novamente) riscos muito superiores para a sustentabilidade da economia nacional e, por conseguinte, para o bem-estar a prazo dos portugueses.

Mas votar com base em reacções epidérmicas aos acontecimentos do passado recente não aumenta apenas a probabilidade de que os governos sigam políticas irresponsáveis e recusem aplicar medidas antipáticas mas indispensáveis. Aumenta também o risco de, mais tarde ou mais cedo, surgirem partidos anti-sistema, com mensagens baseadas na exploração da insatisfação, os quais, se algum dia tivessem poder para governar, levariam o país a becos sem saída e, mesmo sem atingirem esse escalão, podem dificultar soluções governativas estáveis (*).

Avalie-se o passado, com certeza. O recente, o menos recente, os defeitos e as qualidades dos governos, a forma como geraram folgas ou constrangimentos herdados dos anteriores. Mas, acima de tudo, avaliem-se os riscos para o futuro e as melhores formas de evitar que se convertam em realidade. Porque fazer de outro modo é cair na armadilha mais preocupante para a democracia, visível em tantos países onde a retórica promete o céu mas o bem-estar geral nunca surge: a que a transforma num leilão entre vendedores de banha-da-cobra.

 

 

(*) Marinho e Pinto anda a proclamar que as culpas da situação nacional caem por acção nos partidos do «arco governativo» e por omissão nos da oposição. Apetece perguntar o que deveriam CDU e Bloco ter feito: um golpe de Estado? Concorde-se ou não com as políticas que defendem – e eu não concordo, de todo – fizeram oposição contínua ao longo dos anos, em todos os locais onde a poderiam fazer: no Parlamento, nos meios de comunicação, nas ruas. Exactamente o que quer Marinho dizer? E, já agora, que políticas defende?

Bolhas e cenários macroeconómicos


escafandro,

Schäuble afirmou recentemente que há riscos de criação de uma bolha financeira. Só podia estar a conter-se, a ser tão político como técnico. Porque o que realmente existe – e ele sabe-o – é o risco de as várias bolhas existentes, criadas pelas manipulações dos Bancos Centrais, rebentarem. E as manipulações, como o novo (o quinquagésimo quinto) adiamento da subida das taxas de juro por parte da Reserva Federal norte-americana demonstra, estão longe do fim. Os Bancos Centrais, hoje mais importantes do que os governos mas seguindo estratégias exigidas por estes, encontram-se presos numa armadilha: geraram crescimento baseado em dívida e em especulação, e sempre que avançam a hipótese de aumento das taxas (sendo que a maioria nem sequer a avança) os mercados tremem, ameaçando a recuperação económica (ou, no caso Chinês, o ritmo do crescimento), e forçam-nos a continuar o jogo. Por enquanto, os efeitos são mais positivos do que negativos mas um dia destes perceber-se-á não apenas que quase tudo está sobreavaliado (na China, houve quem o percebesse no início do Verão) mas também que as armas dos Bancos Centrais são hoje bastante menos potentes do que a retórica dos seus líderes procura transmitir. E, nesse instante, todos os cenários macroeconómicos demasiado optimistas, com os seus «factores multiplicadores» teóricos e a sua fé no reequilíbrio futuro de contas afectadas por medidas de incentivo ao consumo, comprovadamente frágeis por experiência vivida há não muitos anos e já ameaçados por outras situações externas com impacto dificilmente quantificável a nível económico, social e político (a crise dos refugiados, a instabilidade – e as possíveis intervenções militares – no Médio Oriente, os problemas crescentes dos países emergentes), revelarão o que efectivamente são: desvarios suicidas.

Mas, como sabemos, Schäuble não passa de um velho gagá e a tradicional política monetária e financeira alemã (baseada em moeda forte e taxas de juro correspondentes) de um anacronismo histórico. Costa, Centeno e Galamba é que sabem.