Schäuble afirmou recentemente que há riscos de criação de uma bolha financeira. Só podia estar a conter-se, a ser tão político como técnico. Porque o que realmente existe – e ele sabe-o – é o risco de as várias bolhas existentes, criadas pelas manipulações dos Bancos Centrais, rebentarem. E as manipulações, como o novo (o quinquagésimo quinto) adiamento da subida das taxas de juro por parte da Reserva Federal norte-americana demonstra, estão longe do fim. Os Bancos Centrais, hoje mais importantes do que os governos mas seguindo estratégias exigidas por estes, encontram-se presos numa armadilha: geraram crescimento baseado em dívida e em especulação, e sempre que avançam a hipótese de aumento das taxas (sendo que a maioria nem sequer a avança) os mercados tremem, ameaçando a recuperação económica (ou, no caso Chinês, o ritmo do crescimento), e forçam-nos a continuar o jogo. Por enquanto, os efeitos são mais positivos do que negativos mas um dia destes perceber-se-á não apenas que quase tudo está sobreavaliado (na China, houve quem o percebesse no início do Verão) mas também que as armas dos Bancos Centrais são hoje bastante menos potentes do que a retórica dos seus líderes procura transmitir. E, nesse instante, todos os cenários macroeconómicos demasiado optimistas, com os seus «factores multiplicadores» teóricos e a sua fé no reequilíbrio futuro de contas afectadas por medidas de incentivo ao consumo, comprovadamente frágeis por experiência vivida há não muitos anos e já ameaçados por outras situações externas com impacto dificilmente quantificável a nível económico, social e político (a crise dos refugiados, a instabilidade – e as possíveis intervenções militares – no Médio Oriente, os problemas crescentes dos países emergentes), revelarão o que efectivamente são: desvarios suicidas.
Mas, como sabemos, Schäuble não passa de um velho gagá e a tradicional política monetária e financeira alemã (baseada em moeda forte e taxas de juro correspondentes) de um anacronismo histórico. Costa, Centeno e Galamba é que sabem.

Muitos comentários:
as várias bolhas existentes, criadas pelas manipulações dos Bancos Centrais
As bolhas são inerentes aos mercados financeiros. Já existiam bolhas muito antes de existirem Bancos Centrais. A existência de Bancos Centrais pode favorecer a geração de bolhas, mas não são eles em si mesmos quem as gera; é o comportamento ganancioso e irracional dos investidores quem gera as bolhas.
os mercados tremem, ameaçando a recuperação económica
Não é por os mercados financeiros tremerem que a recuperação económica para. Os mercados financeiros estão hoje em dia largamente desacoplados da economia.
quase tudo está sobreavaliado
Como todos os valores são relativos, é impossível que quase tudo esteja sobreavaliado. Ademais, a sobreavaliação é um bocado subjetiva. Uma pessoa pode achar que os preço das casas são irracionalmente altos, outra achará que são perfeitamente adequados.
Em grande medida, os mercados financeiros têm sido a recuperação da economia. É por isso que se diz – com alguma razão – que os ricos têm ficado mais ricos enquanto o rendimento da maioria dos restantes estratos sociais estagnou ou decresceu (e não me refiro apenas a Portugal).
E viu-se como a queda do Lehman Brothers foi irrelevante.
a queda do Lehman Brothers foi irrelevante
Foi muito relevante para quem tinha o seu dinheiro sob a forma de ações, obrigações, etc.
De resto, a crise já tinha começado muito antes da queda do Lehman Brothers, e prosseguiu o seu curso como teria prosseguido de qualquer forma. A queda do Lehman Brothers apenas lhe veio dar um dramatismo acrescido, mas a crise já se tinha iniciado e prosseguiria inevitavelmente.
Há muitíssimas crises dos mercados financeiros que não provocam crise económica, exceto passageira. O que sugere que não é a crise financeira quem provoca a crise económica.
Como o José António deve saber, os economistas continuam a discutir intensamente o que causou a crise que começou em 2007. E não é unânime a opinião de que ela tenha sido causada pela especulação financeira. Por exemplo, o recente livro House of Debt defende que ela foi causada pela abundância de dívidas e não propriamente pela especulação (embora, sem dúvida, muitas das dívidas estivessem ligadas a aplicações especulativas).
Schauble lá sabe o que diz sobre as bolhas. Eu percebo que ele entenda de tal assunto, tendo em conta a Grécia como exemplo onde se injecta papel sem valor, dizendo que se empresta dinheiro, para receber em dinheiro vivo e lavar a cara à banca do seu país.
Mas tudo bem, JAA. Eu estou de acordo que existem imensas bolhas, as que estão nos pés de muitos por lhes faltar o dinheiro para comprar solas para os sapatos.
Como era de esperar temos o populismo marxista do Vento.
Centenas de milhões de pessoas saíram da pobreza na última década devido ao abandono das ideias que o Vento defende…
Quem o lê até pensa que as políticas que têm sido propostas por Schäuble e caninamente seguidas pelos seus criados produziram um crescimento e um bem estar ímpar na Europa. Pena que não seja assim.
A especulação com os juros anormalmente baixos que tem estado a ser feita pela Alemanha é também uma filha desta política.
Quanto a demasiado otimismo, experimente ir var as metas definidas pelos planos de ajustamento e o seu resultado real. A não ser que pense que aquilo não é demasiado otimismo. É matéria de fé e como tal não pode ser discutida.
Aconselho-o a ler sobre o que a Alemanha fez no final da década de 90 e no início da de 2000 para perceber como pode estar hoje na situação relativamente privilegiada em que está. Ou o que fizeram os países nórdicos no início da de 90.
Pessoas que pensam como você nos Estados Unidos, antecipam que a America se transforme no zimbabwe há pelo menos 8 anos. E no entanto… népia…
http://bpp.mit.edu/usa/
Não é preciso exagerar. Não é questão dos EUA ficarem como o Zimbabué – têm o dólar, uma dimensão, um sistema político e social, um dinamismo, uma economia muito diferentes. Mas quem acredita que não haverá solavancos graves nos próximos anos é um optimista. Que – honestamente – espero que esteja certo. Só não apostaria as minhas fichas nisso.
Em especial se o jogo das taxas nulas ou negativas e da invenção de dinheiro prosseguir.
O link que coloquei mostra que não há qualquer indício de que o que tem sido feito leve a inflacção, não neste contexto económico.
Como sugere que uma família remediada se deve comportar em face destes fenómenos, que não tendo muito capital possui alguns bens tangíveis e sempre foi muito regrada nos gastos ?
Em relação ao que descreve estou inteiramente de acordo consigo, eu penso que o crescimento que se fala por aí é apenas virtual, resulta da “valorização” (na medida do possível) de activos financeiros sem correspondência com a realidade dos bens tangíveis.
A deflação está camuflada por uma politica de QE a nível global mas creio que vai aparecer novamente em breve.
Penso que enquanto a economia de casino estiver com rédea solta QE + Juros quase a 0) nada irá mudar e os efeitos nefastos irão ser muitos maiores.
No caso Português o que espera (?), sabendo que a politica económica do PS não é exequível pois o seu programa foi desenhado com base em números e previsões irreais mas em contrapartida a coligação Paf também não apresentou números alguns e faz opções económicas em base da navegação á vista ou por pressões externas a que Portugal estará sempre sujeito nas próximos 20 anos mesmo que a situação internacional melhore ou pelo menos estabilize o que não creio que aconteça.
Se os EUA não tivessem um século de credibilidade, industria, força militar e dimensão não estariam hoje no Zimbabue mas na Venezuela.
A única coisa que tem salvado a situação é o capitalismo que força a deflação dos produtos principalmente os de base tecnológica.
Hoje um pobre pode ter um produto que há 20 anos nem o tipo mais rico do mundo poderia ter.
O que diz é irrelevante para o ponto em questão. Os economistas voodoo (americanos, por isso terão em conta os factores que enuncia) têm-se se farto de avisar que vem aí inflação e que o FED precisa de aumentar as taxas de juro. Já estão nisto há quase 8 anos. Estão errados há oito anos.
Se passar tempo suficiente, poderá um dia por outros factores aumentar a inflação, mas nesse caso serão como um relógio parado: está certo duas vezes ao dia.