Rewind


escafandro,

«Se houver um problema, tem que se ajustar a meta do défice», diz um dos socialistas que tem acompanhado as negociações.

 

E subitamente, sem pelo menos rejuvenescermos meia dúzia de anos, regressámos a 2009. Com a diferença essencial para transformar a tragédia em farsa: na altura, o PS conduziu o país ao abismo a partir de uma vitória; hoje, fá-lo-á a partir de uma derrota.

Papéis inesquecíveis quase esquecidos. 5: Audrey Hepburn, em Two for the Road.


escafandro,

Em 2010, o Pedro Correia escreveu um texto sobre Breakfast at Tiffany’s. Da primeira letra do título ao último ponto final concordo com tudo. Breakfast at Tiffany’s também é um dos filmes da minha vida, como o são vários outros agraciados com a presença luminosa de Hepburn (Roman Holiday, Sabrina, Charade, My Fair Lady). Todavia, sendo esta uma série de textos acerca de obras menos recordadas hoje em dia, é sobre a Audrey de Two For The Road (Caminho para Dois), realizado por Stanley Donen em 1967, que desejo falar.

Mais ainda do que Breakfast at Tiffany’s, Two For The Road é um filme agridoce. Ambos possuem momentos divertidos, leves, que geram optimismo, mas onde Breakfast at Tiffany’s tem melancolia, Two for the Road apresenta quase sempre acidez. Isto faz com que seja mais difícil gostar dele. E a estrutura – fragmentada, com saltos temporais constantes – não ajuda. (Como seria de esperar, o trailer, mostrado acima, evita quase totalmente os momentos de infelicidade.)

O conceito do filme é simples: seguimos Mark (Albert Finney) e Joanna (Hepburn) numa série de viagens através de França. A mais antiga corresponde àquela onde se conheceram e apaixonaram. As restantes, a diferentes fases da relação. Viajam quase sempre sós, num dos casos acompanhados por outra família. O filme salta entre as viagens sem aviso, obrigando o espectador a situar-se através dos veículos utilizados (progressivamente menos irreverentes), das roupas, dos estilos de penteado e, acima de tudo, do ponto da relação (progressivamente menos feliz).

O guião foi escrito por Frederic Raphael, autor de guiões para filmes como Darling, de John Schlesinger (protagonizado por uma Julie Christie em início de carreira, talvez ainda surja nesta série) e Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick. Raphael admitiu tê-lo baseado nas suas próprias viagens com a mulher. Mas – e também isto ele admite – o diálogo não é exactamente realista. Por num ou noutro momento as terem usado, todos os casais com vários anos de relacionamento reconhecerão as acusações, as indirectas, as ironias. Mas ninguém consegue réplicas tão rápidas e mordazes, tão elegante e certeiramente cruéis, de forma tão consistente. Como num filme ou numa série de um dos mais conhecidos argumentistas actuais, Aaron Sorkin, Two For The Road depura a realidade, concentrando-a em duas horas de encenação.

A realização é de Stanley Donen e custou-me sempre conciliar este filme com os musicais que lhe marcaram a carreira – On the Town (1949), Singin’ in the Rain (1952), Seven Brides For Seven Brothers (1954) – ou mesmo com o seu outro grande filme da década de 60, o já referido (no primeiro parágrafo) Charade. Fica-me a sensação de que, ao apoiar Raphael, que lhe propôs a ideia antes de escrever o guião, esperava um balanço mais claramente voltado para a comédia romântica. Mas não parecem ter existido discordâncias entre os dois, pelo que talvez Donen quisesse mesmo alterar o seu registo habitual.

A história de Audrey Hepburn é conhecida. Das dificuldades enfrentadas durante a Segunda Guerra Mundial ao trabalho de apoio à UNICEF, quase tudo foi já discutido até à exaustão. A rodagem de Two for the Road não terá coincidido com um dos períodos mais felizes da sua carreira – a que, excepto por umas quantas aparições fugazes, Audrey colocaria um ponto final dois anos mais tarde. A decisão da Warner Bros. de dobrar a sua voz nas canções de My Fair Lady – e a reacção de alguns críticos a esse facto – magoara-a. Pior: vivia dificuldades no casamento com Mel Ferrer, que durava desde 1954 e incluíra dois abortos espontâneos mas também o filho que sempre desejara. Em Two for the Road, encontra-se extremamente magra. Muitas das palavras que tem de dizer e ouvir seriam mais do que palavras escritas por um estranho, remetendo certamente para discussões com Ferrer. Mas nada disso transparece. Os momentos de tristeza parecem genuínos (e como aqueles olhos transmitiam tristeza) mas os momentos de alegria também parecem genuínos (e como aquela voz e aquele riso conseguem ser mais eficazes que qualquer antidepressivo). De resto, Joanna constitui a face optimista do casal. Mark é resmungão e agressivo ao ponto de chegar a sentir-se vontade de entrar no filme e lhe dar um murro no nariz. De dizer a Joanna: larga-o e parte para outra (ou talvez mais exactamente para outro, sendo que um espectador masculino nunca deixa de se colocar no papel desse «outro»). Mas Joanna não desiste, o que pode ser difícil de aceitar para algum público actual (especialmente feminino) porque hoje parece desistir-se mais cedo. Escolheu Mark (na viagem em que se conheceram, ele parecia mais interessado numa colega dela – Jacqueline Bisset, em estreia no ecrã), vê nele o que muitas vezes ele não consegue ver em si mesmo, sabe que grande parte das palavras que lhe saem da boca não são para levar a sério. Mantêm-se estóica, luminosa, quase sempre optimista. No final verifica-se que, pelo menos no ecrã (Hepburn e Ferrer divorciar-se-iam em 1968), havia razões para isso.

Anos mais tarde, questionado sobre a actriz com quem preferira trabalhar (uma pergunta que tende a ser respondida de forma politicamente correcta), Albert Finney não hesitou: «Audrey Hepburn.» Já Gregory Peck considerara as filmagens de Roman Holiday como as mais felizes da sua carreira. Não surpreende. Audrey era um caso especial. Como qualquer pessoa percebe ao ver os seus filmes.

 

Adenda: Como o Luís Naves e o Pedro Correia já salientaram, Maureen O’Hara (outra presença luminosa) morreu ontem. Um dia destes ainda aparecerá nesta série.

Resistindo ao desejo de gastar seis euros


escafandro,

Em pé junto ao expositor da Fnac, leio do princípio ao fim a excelente entrevista de Francisco José Viegas a Pedro Mexia incluída no último número da revista Ler. Noto que a revista traz uma segunda entrevista, ao israelita David Grossman, bem como artigos sobre Camilo Castelo Branco (falecido há 125 anos, merecia muito mais atenção do que aquela que recebe), Susan Sontag (alguém que me irrita e fascina em igual medida) e literatura síria (que desconheço em absoluto). Sinto uma enorme vontade de a comprar. Não o faço. Mas ainda reparo que a tiragem já desceu até aos 7 mil exemplares.

Posições políticas, interesses de curto prazo e a certeza de um futuro pouco agradável


escafandro,

1. Imperdoável. Cavaco tem posições políticas e age em função delas. Em 1987, Soares podia tê-las e fazê-lo. Em 2005, Sampaio podia tê-las e fazê-lo. Em 2015, Cavaco – eleito em sufrágio directo à primeira volta mas não socialista – devia limitar-se a assinar de cruz o que as mentes progressistas, bem pensantes – sempre elas, neste malfadado país – lhe dizem para assinar.

 

2. Na Alemanha, essa nação que odiamos porque recusamos admitir invejá-la, os socialistas entraram para o governo após negociações longas e duras – mas francas. Por cá, os socialistas, com uma sede de poder que caracteriza bem a parte do mundo a que Portugal na realidade pertence, escolhem os seus interesses de curto prazo (que, da sobrevivência política de António Costa à obtenção de sinecuras, passando pelo controlo de processos judiciais sensíveis, são muitos e variados) em detrimento do país. Quem ainda tinha esperanças deve perdê-las: não apenas nunca atingiremos o nível de vida alemão como será uma sorte não cairmos para o nível de vida venezuelano.

 

3. Governo de gestão, governo PS com apoio ilusório do PC e do Bloco ou governo PS com programa definido por PC e Bloco? Para o país, a primeira hipótese. Mas venha o diabo e escolha. O que, do ponto de vista da esquerda, é mais ou menos o que acontecerá.

Blogue da semana


escafandro,

Uma das primeiras fotografias que coloquei no meu blogue pessoal, cerca de dois anos antes de ser convidado a colaborar no Delito, mostra um homem a ler, sentado na soleira de uma porta no centro de Madrid. Quem gosta de livros tende a sentir-se instintivamente ligado a pessoas que os lêem. Tende também a desejar saber que livro é lido – uma bisbilhotice inócua que tablets e leitores electrónicos tornam quase impossível. No Numa de Letra há uma série de posts com imagens de pessoas a ler. A autora do blogue vai mais longe do que eu fui (incomoda-me sempre pensar que incomodo) e mete conversa com elas, descobrindo não apenas o que estão a ler mas também o que fazem. Há ainda outras fotos, textos sobre livros, anúncios de exposições, vídeos musicais.

Isto é tudo um… er… huh… raios partam a minha moral burguesa!


escafandro,

Com Garcia Pereira ocupado na elaboração da autocrítica, o mítico Arnaldo Matos faz prova de vida, atacando pela esquerda os «revisionistas» do PC e as «meninas oportunistas» do Bloco.

São momentos sublimes e inesquecíveis. Obrigado, António Costa.

Aqui entre nós, que (a menos que isto seja lido em voz alta) ninguém nos ouve


escafandro,

Já tinha saudades de estar a 100% na oposição. É muito mais fácil e muitíssimo mais divertido. Estivesse eu protegido das consequências do desvario de António Costa e a possibilidade de passar uns tempos deste lado da barricada, torpedeando políticas insanas, seria quase irresistível.

A esquizofrenia e o PS


escafandro,

José Sócrates. António Costa. Parece impossível, numa democracia alegadamente pertencente ao primeiro mundo, um partido de governo apresentar em tão pouco tempo dois líderes com tal capacidade para moldar a realidade aos seus interesses pessoais. Arrogante e agressivo, contra todos os avisos e todas as evidências, Sócrates conduziu Portugal ao limiar do abismo. Pomposo e imune ao ridículo como qualquer caudilho, Costa acaba de declarar ao Financial Times que o «acordo» com Partido Comunista e Bloco de Esquerda «é como se estivéssemos a deitar abaixo o resto do muro de Berlim» (ver actualização das 10:02).

 

Adenda

Reconheça-se, porém, que ambos têm pelo menos um mérito: fazem incidir uma luz nova sobre ex-líderes socialistas como António José Seguro e António Guterres. Percebe-se até melhor a razão por que o último recusou voltar à política nacional. Ao pântano.

Da dieta comunista


escafandro,

“O PS tem condições para formar Governo, apresentar programa e entrar em funções. Quanto aos desenvolvimentos futuros, eles resultarão da identificação da política que for possível fazer. Como sempre, quer esse Governo, quer os trabalhadores e o povo, em particular, poderão contar com a nossa activa participação para assegurar todas as medidas que correspondam aos direitos, interesses, rendimentos, salários dos trabalhadores, reformados. Tudo o que não corresponda, contarão com a oposição do PCP”, disse Jorge Cordeiro, da comissão política do comité central comunista.

 

Nem disfarçam o plano. Os comunistas podem já não comer criancinhas ao pequeno-almoço mas preparam-se para cozinhar e engolir socialistas adultos. A mim causar-me-iam problemas de digestão mas a História demonstra que os comunistas têm estômagos resistentes.

Das consequências não antecipadas


escafandro,

Parece que há quem tenha votado no PS convencido de que este nunca se uniria ao Bloco e ao PC. Algumas destas pessoas – Luís Aguiar-Conraria, por exemplo – têm vindo a mostrar desagrado pelo comportamento de António Costa. É de alguma utilidade que o façam mas não me peçam simpatia. Antes das eleições, Costa nunca terá afirmado taxativamente poder vir a formar governo em coligação com ou apoiado parlamentarmente pela esquerda (ainda por cima, depois de as perder). Mas, da Grécia às obras públicas, Costa disse tudo e o seu contrário sobre todos os assuntos. Costa rasgou um acordo que estabelecera de livre vontade com António José Seguro para correr com ele da liderança do partido. Costa rasgou um acordo (para a reforma do IRC) que o PS estabelecera de livre vontade com o governo. Costa recusou sempre fazer uma avaliação crítica dos governos socialistas chefiados por Sócrates. Costa apresentou-se como líder de confiança mas ameaçou rejeitar um orçamento antes de o conhecer. Costa distribuiu cordialidade e sorrisos quando em ambiente controlado e mostrou os dentes quando apanhado desprevenido.  Costa foi – é – o político de carreira que tantos acusaram Passos Coelho de ser (e se podem atribuir-se a Passos ideias liberais – muito mais do que práticas -, a Costa é impossível atribuir uma ideia que seja). Costa foi invariavelmente aquilo que os seus adversários disseram dele e apenas interesses próprios, ingenuidade atroz ou teimosia (nuns casos decorrente de «clubismo», noutros de uma recusa primária em avalizar a política da coligação) terá levado ainda tanta gente a votar num Partido Socialista liderado por ele. Vários dias antes das eleições, escrevi: Talvez a maior façanha de António Costa nesta campanha: ter cingido as opções de voto útil de qualquer pessoa sensata à que poderá evitar a chegada ao poder do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda. Muita gente optou afinal por não a excluir. Não me venham agora com lamentos.

Frente fria de esquerda


escafandro,

Afinal, António Costa não apenas está muito longe de constituir o Salvador da Pátria anunciado com trombetas e panegíricos pelos seus apoiantes como se revela muito pior do que os seus adversários afirmavam. Entende-se o motivo por que se agarra à liderança do PS – para onde iria, abandonada a Câmara de Lisboa e a hipótese de uma candidatura às presidenciais? – mas não é bonito ver alguém tão desesperado por manter a relevância após uma derrota clara, ainda por cima tendo forçado a saída do líder anterior com o argumento de que este ganhava «por poucochinho». Evidentemente, os estados de alma de Costa seriam um detalhe irrelevante, um momento de reality show merecedor da mescla de pena e desprezo com que se encaram os mini-dramas do Big Brother ou da Casa dos Segredos, não fosse apesar de tudo o PS essencial ao sistema político português – em qualquer instante e em particular num cenário como o resultante das eleições do passado domingo (a que acresce a fragilidade da situação económica). Mas Costa parece considerar mesmo a hipótese de vir a liderar um governo formado por Partido Socialista, Bloco de Esquerda e Partido Comunista. Tratar-se-ia, como qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe, de um governo colado a cuspo: que entendimento seria de esperar entre os três partidos nos assuntos europeus, na resposta aos compromissos assumidos junto da NATO ou mesmo perante as reivindicações da CGTP? Na verdade, a «solução» apresenta tais possibilidades burlescas que quase me fazem desejá-la. Mas convém manter algum bom senso. Seria um desastre para o país. E também para o PS. Se, em 2011, PSD e CDS obtiveram 50% dos votos, nas próximas eleições atingiriam 55% ou 60%. E o PS desceria para cerca de 20%. Haja alguém por lá que meta juízo na cabeça do homem.

 

 

Nota sobre o título: a frente é fria porque me provoca um arrepiozinho – entre o horror e o prazer mórbido.

Das viabilizações


escafandro,

Do discurso de António Costa parecia retirar-se que os vencedores apenas teriam condições para governar se o fizessem com as políticas do derrotado. No fundo, a rábula habitual do PC e do Bloco que, no PS, dificilmente poderia ser levada a sério. Quando, em meados de 2016, fosse possível efectuar novas eleições, os socialistas pagariam um preço altíssimo por terem mergulhado o país no caos. Passos e Portas sabem-no. Na fase de perguntas e respostas, Costa mostrou também o saber.