Perto de Oliveira do Hospital, 2013.
Fotografias tiradas por aí (273)
escafandro,
1. Não vou discutir questões de pedagogia. Os exames do quarto ano podem ou não fazer sentido. Mas a inexistência de qualquer análise prévia à decisão de os eliminar, bem como a não implementação de outro método para avaliar escolas e professores, faz com que a pedagogia seja pouco relevante. Muitos pais aplaudirão: é menos «stresse» para os filhos e hoje em dia o mais importante é as crianças não sentirem «stresse», em especial porque ele se reflecte nos pais. Quase todos os professores e directores de escola aplaudirão: é menos um elemento de avaliação do seu trabalho. O novo ministro da pasta… Ora, o que importa o que o novo ministro pensa quando os superiores interesses do Bloco e do PCP se levantam?
2. Em 2012, Vítor Gaspar implementou a Lei dos Compromissos e Pagamentos em Atraso. O objectivo era forçar as entidades do sector público a pagar a horas. Desde então, a dívida global das autarquias reduziu-se para cerca de metade (1500 milhões de euros em vez de 3000 milhões) e o montante em dívida há mais de 90 dias caiu para menos de um quinto (300 milhões em vez de 1600 milhões). Agora, o recém-empossado secretário de Estado das Autarquias Locais (por extraordinária coincidência, ex-presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras) promete revê-la. Não se esperava outra coisa.
3. Ontem, no Parlamento, Costa respondeu às reservas de Jerónimo com a cristalina frase: «Aquilo que o PCP não está disponível para apoiar, é aquilo que nós não estamos disponíveis para propor». Já sabíamos que o programa do governo não é o mesmo que o PS levou às eleições onde foi derrotado. Já desconfiávamos que, mais do que uma obra do PS, será o que PCP e Bloco desejarem que seja. Ontem, Costa confirmou que as famosas «linhas vermelhas» são mesmo as do PCP.
4. Ainda ontem, ainda no Parlamento, o deputado do PSD Miguel Morgado citou um livro de Mário Centeno para ilustrar a contradição entre as ideias que este defendia para o mercado de trabalho e as ideias defendidas pelo governo que Centeno agora integra – e, com a sua pretensa imagem de seriedade, cauciona. A resposta do ministro foi a mais extraordinária de toda a sessão: «Não tente transpor conclusões de artigos científicos para a legislação nacional, porque se tentar fazer isso é um passo para o desastre.» Centeno admite pois ter andado a inventar e a defender modelos não passíveis de aplicação prática. Mais: estende esse carácter puramente teórico a qualquer conclusão de qualquer estudo científico. Seriedade? Não fosse a inconsciência, tê-la-ia pelo menos na assumpção da hipocrisia.
Começa-se sem saber bem no que vai dar. Mantêm-se imensas ilusões mas temem-se a indiferença e o desprezo, bem como a incapacidade de estar à altura da tarefa. Responde-se de forma desajeitada às primeiras – e memoráveis – pessoas que estabelecem relação. Quem chega mais tarde obtém uma realidade parcial. Tentar descobrir o que ficou para trás pode reforçar – ou fazer desvanecer – a atracção mas dá trabalho e poucos o fazem. Quase sem dados concretos elaboram-se imagens e verdades, que permanecem apesar de serem desmentidas uma e outra vez. Há quem fique pouco tempo e, desinteressado quando não desiludido, logo desapareça. Há quem se empenhe – aconselhe, critique, procure moldar – e resista durante períodos surpreendentemente longos. Há o cansaço que, de um lado e do outro, se instala e as pausas que urge introduzir. Há os erros, as hesitações, as desilusões, os entusiasmos repentinos, as discussões estimulantes e as discussões cansativas – pelo momento, pelo tom mas, acima de tudo, por já terem ocorrido inúmeras vezes. Há afinidades que se referem com frequência e ódios de estimação que também se referem com frequência mas em tom completamente diferente. Há a passagem do tempo e a ideia de que se tem afinal menos controlo, menos originalidade e menos relevância do que era suposto.
Os blogues não são a vida real mas arranjamos sempre forma de tudo parecer a vida real. Talvez por a consciência – esse factor que nos diferencia dos restantes animais – nos permitir intuir que, em grande medida, a vida real é uma ficção.
Atente-se no gráfico sobre o investimento: até 2003, em Portugal investiu-se sempre mais do que na Irlanda – com muito piores resultados. Não interessa: há quem continue a ver o Estado como o principal dinamizador da economia. Repare-se também no gráfico sobre a despesa pública: após o disparo causado pelo salvamento dos bancos, a Irlanda centrou a correcção nos cortes de despesa e regressou a níveis inferiores a 40% do PIB. Portugal não atinge esse patamar desde a década de 1980; não atinge sequer um nível em torno dos 42% ou 43% – que já seria incrivelmente libertador para a economia – desde a de 1990. Não importa: há quem continue a defender que um Estado pesado não trava o desenvolvimento de uma economia débil. Veja-se o curioso gráfico acerca dos trabalhadores sindicalizados: com um modelo menos apoiado no sector público, a Irlanda consegue apresentar uma percentagem mais elevada. De somenos: o papel dos sindicatos é defender leis laborais rígidas e a manutenção de empresas deficitárias na esfera pública. Analise-se a taxa de mortalidade infantil (um dos justificados orgulhos de Portugal, que afinal a Troika não destruiu): parece que também pode ser garantida por um sistema de saúde em que o Estado chegou a despender anualmente menos 1,5% do PIB (conforme o gráfico sobre os gastos públicos com saúde). Que importa? Os números não dizem tudo; a saúde tem a ver com «pessoas». Mas, a propósito de pessoas, estude-se o gráfico sobre o coeficiente de Gini: com menos dinheiro público, a Irlanda criou uma sociedade mais igualitária (nota adicional: ao contrário do que afirmam muitas vozes, em Portugal não houve aumento da desigualdade com a chegada da Troika mas uma ligeira redução). Vergonhoso, fazer tal referência: o papel do Estado é apoiar quem precisa, sem olhar a custos. Notem-se ainda o saldo das contas públicas, o PIB per capita (indicador de produtividade e justificação de factores tão irrelevantes como o nível salarial), a taxa de desemprego, o nível da poupança (depauperado em Portugal e na Grécia pelo crédito barato e por estímulos públicos errados), o valor dos salários. Irrelevante, uma e outra vez: o modelo de desenvolvimento seguido em Portugal e na Grécia está correcto. Os problemas advêm do euro, da «austeridade» e da Alemanha.
Uma e outra vez, recusamos as evidências e cometemos os mesmos erros. Guterres sabia o que era necessário fazer mas desistiu antes de começar. Durão foi eleito prometendo fazê-lo mas fugiu quando isso se revelou difícil. Sócrates garantiu tudo e o seu oposto e só fez o oposto. Apenas Passos avançou realmente no sentido correcto. Timidamente. Com erros, constrangimentos (incluindo os gerados por facções dentro do PSD e CDS), adiamentos (fatais, num país de tamanha inércia). Enfrentando bloqueios constitucionais e níveis recordes de demagogia (por parte do PS, que levara o país à beira do abismo, mas também de inúmeras vozes com direito a tempo de antena). Obteve resultados ténues (tudo isto demora, exige paciência e capacidade de perseverança) mas encorajadores. Nos próximos meses, Costa e Centeno, agrilhoados às fantasias utópico-revolucionárias de Jerónimo, Catarina e Arménio, inverterão o ciclo. O sector público será novamente privilegiado à custa do privado. O investimento e o emprego (este muito em particular se a CGTP conseguir juntar o reforço da contratação colectiva e a limitação dos recibos verdes ao já programado aumento do salário mínimo) ressentir-se-ão. É verdade que, no imediato, haverá mais dinheiro disponível e tudo parecerá correr melhor. Depois, os problemas regressarão – mais graves, esgotada a acção do BCE e o capital de simpatia conseguido junto dos parceiros europeus, com os investidores cada vez menos predispostos a apostar num país que muda de ideias a cada governo e uma economia mundial que dificilmente escapará a uma crise (basta a FED subir as taxas de juro e os BRICs ressentir-se-ão).
Em Portugal – como na Grécia, como na maioria dos países da América Latina, como até em Itália e em França -, continua a acreditar-se que a riqueza é gerada através da despesa pública, da governação por decreto, da perseguição ao lucro. Acontece desta forma porque os cidadãos temem a mudança e porque dá jeito aos políticos que assim seja: um Estado leve, com menos a distribuir (empregos, contratos, obras, apoios), não liberta apenas a economia; liberta também os eleitores.
Treze gráficos. E podiam ser mais. Mas para quê? Em Portugal, poucos os querem ver, menos ainda os desejam perceber.
Oito páginas. Tenho oito páginas de rascunhos na área de gestão do blogue. A vinte rascunhos por página, são cento e sessenta rascunhos. Bom, cento e cinquenta e dois porque na última página só há doze. É também verdade que uns quantos estão repetidos e que vinte ou trinta contêm apenas fotografias ou vídeos musicais que, por alguma razão, não publiquei mas também não apaguei (custa-me apagar coisas). Ainda assim. É uma catrefada de textos começados e largados a meio ou acabados e deixados a definhar. E porquê? Nuns casos porque a oportunidade para a sua publicação se desvaneceu (ainda lá estão dois ou três sobre Vítor Gaspar), noutros porque perdi o ímpeto para os finalizar, na esmagadora maioria dos casos porque são uma… er… trampa. Sim, digamos trampa.
Ter tantos rascunhos poderia denotar uma criatividade espectacular. Infelizmente, não é o caso. Apenas mostra que o meu cérebro consegue produzir muito mais dejectos do que qualquer outra parte do meu corpo – como inúmeros leitores, baseando-se apenas nos textos publicados, foram certamente percebendo (há gente que exsuda perspicácia). Mais perturbador ainda: entre tantos rascunhos deveriam encontrar-se várias obras-primas. Dois, três, quatro textos tão subtis que, se publicados, a inveja levaria Pedro Mexia a arrancar cabelos e penugem facial ou tão verrinosos que Vasco Pulido Valente gaguejaria de despeito durante horas. A velha história do macaco que, posto a martelar teclas durante tempo suficiente, acaba por escrever os Lusíadas… Mas não. Decididamente, não. Não este macaco. Na melhor das hipóteses, grassa por todos aqueles textos uma ofensiva mediania. Encontram-se, os completos e os incompletos, mais ou menos ao nível deste. Razão pela qual será melhor deixá-lo também como rascunho. Será o décimo terceiro da oitava página. Daqui a uns dias, a umas semanas ou a uns anos talvez o publique. Quando tiver dezasseis páginas de rascunhos.
Governo de iniciativa presidencial liderado por António José Seguro.
Confesso uma incapacidade antiga, que poderei talvez exprimir usando o primeiro texto publicado neste blogue por Tiago Mota Saraiva (intitulado, sem ponta de ironia, «aprender, aprender sempre»). Nele, Tiago declarou-se comunista. Afirmou depois, em resposta a um comentador segundo o qual agora só falta um nazi ao grupo de colaboradores do Delito, gostar de uma boa gargalhada mas o nazismo não lhe provocar sequer um sorriso. Entendo e partilho a segunda posição. Considerando a falta de liberdade, as perseguições políticas, os milhões de mortos do comunismo, não entendo a primeira – nem como compatibilizar ambas.
Devolver cortes para estimular o consumo, garantem. É provável que nisto tenham razão. Que estimule. Com péssimas consequências a prazo mas ignoremo-las por um instante e avaliemos a outra hipótese: a de que afinal não estimule assim tanto. Seria curioso ver os portugueses mostrarem-se cientes da fragilidade de um futuro construído por Costa, Catarina, Jerónimo e Arménio e optarem antes por reforçar poupanças – dentro e, quase certamente, fora dos bancos. Improvável? Admito que sim. Porque com essa mentalidade não seriam portugueses. Seriam alemães. Enfim, seriam talvez alemães; é difícil imaginar a Alemanha moderna a braços com um governo de convicções terceiro-mundistas.
(E a propósito: há pouco mais de 20 anos Portugal chegou a ter níveis de poupança ligeiramente superiores aos da Alemanha; em 2010, não atingiam 40%.)
Mesmo local, duas semanas depois e um pouco mais tarde no dia.
Ao ler Zazúbrin, pensamos finalmente num terceiro autor, mestre no domínio do sarcasmo político e do ódio de classe: Vladímir Lenine. E principalmente no seu estilo telegráfico, que nem John dos Passos ou Hemingway seriam capazes de sonhar. Para compreender todo o realismo de Zazúbrin, é preciso ler alguns telegramas desse «homem, o mais humano dos homens», como o qualifica a propaganda do partido.
«Ao camarada Zinóviev, em Petrogrado:
Camarada Zinóviev! Acabamos de saber hoje, no Comité Central, que em Petrogrado os operários querem responder ao assassínio de Volodarski com um terror de massas e que você os impediu. Protesto energicamente! Fazer isso é comprometer-nos: mesmo nas resoluções do Soviete agitamos a ameaça do terror de massas, mas assim que se trata de passar à acção, travamos a iniciativa revolucionária, perfeitamente justa, das massas. Isso é impossível! É preciso encorajar a energia e o carácter de massas do terror.»
26 de Novembro de 1918
«Ao comité executivo de Penza:
É indispensável aplicar um terror de massas sem piedade contra os kulaks, os popes e os guardas brancos. Fechar os suspeitos num campo de concentração fora da cidade. Telegrafar execução.»
9 de Agosto de 1918
«Ao camarada Fiódorov, presidente do comité executivo de Nijni-Nóvgorod:
Em Nijni prepara-se manifestamente uma insurreição dos guardas brancos. É preciso mobilizar todas as forças, aplicar imediatamente o terror de massas, fuzilar e deportar as centenas de prostitutas que embebedam os soldados, os antigos oficiais, etc. Sem perder um minuto.»
9 de Agosto de 1918
«Ao camarada Chliápnikov em Astracã:
Aplique todas as suas forças em apanhar e fuzilar os prevaricadores e os especuladores de Astracã. É preciso ajustar contas com essa escumalha de modo que nunca mais se esqueçam.»
12 de Dezembro de 1918
«Telegrama ao camarada Pajkes em Saratov:
Fuzilem sem perguntar nada a ninguém e sem delongas imbecis.»
22 de Agosto de 1918
Hoje os reformadores oficiais do sistema soviético atribuem todos os pecados a José Estaline, filho de sapateiro, embranquecendo o governo de Vladímir Lenin, filho de professor, «justo e justificado», porque se começamos a criticar também esse período da história soviética, o partido perderá tudo o que lhe resta, e em primeiro lugar a justificação do seu poder actual. Lenine criou a Tcheka num dos seus primeiros decretos. Os bolcheviques, que tinham tomado o poder através de um golpe de Estado militar (eles próprios não qualificavam Outubro de 1917 como revolução; esse mito nasceu mais tarde), não poderiam continuar a ocupá-lo sem essa máquina de extermínio e de terror. De facto, a história do poder soviético é precisamente a história da Tcheka, desde os primeiros anos do terror «de classe», entre os mais cruéis que existiram, até à transformação da Tcheka-NKVD no KGB moderno, cuja esfera de acção abrange todas as coisas, passando pelo período estalinista que custou a vida a milhões de vítimas (os historiadores chegam hoje a um número superior a trinta milhões de mortos).
Do prefácio de Dmitri Savitski ao livro O Tchekista, de Vladímir Zazúbrin, editado em 2012 pela Antígona com tradução de António Pescada. Tanto o prefácio como o livro tiveram publicação original em 1989, apesar do segundo – ler crítica aqui – estar escrito desde 1923. Os telegramas foram recolhidos pelo russo Venedikt Eroféiev. Como seria de esperar, Zazúbrin acabou fuzilado (em 1938).
Dedicado a quem, ainda hoje (ver comentários), tenta usar Estaline para desculpar Lenine.
A mão dada ao PS também não é surpresa. Há quarenta anos que o PCP tenta arrastar o PS para uma “maioria de esquerda” (expressão inventada pelo PCP), e nunca como agora o PCP e o BE precisaram tanto do poder: o PCP, para conservar os seus sindicalistas, ameaçados pela concessão dos transportes públicos; e o BE para tentar fixar, com os recursos do Estado, uma base de apoio volátil.
[…]
Um governo do PS nas mãos do PCP e do BE agravará despesas e impostos até onde contribuintes e credores do Estado aguentarem, mas suspenderá as reformas no país. É essa a questão.
O problema português é que demasiada gente (empresas, corporações, classes profissionais, etc.) vive de “rendas”, isto é, de rendimentos que dependem unicamente do poder político. São estas as clientelas com que os oligarcas contam para exercer influência ou para ganhar eleições. O ajustamento de 2011-2014 abalou o sistema. Caíram grupos financeiros, o sindicalismo do sector público viu-se ameaçado, e a justiça expôs a promiscuidade político-empresarial. A eventual “maioria de esquerda” será, no fundo, o último e desesperado esforço de sobrevivência daquele regime que, antes da crise, era encarnado por Ricardo Salgado, a CGTP e José Sócrates. Para oxigenar o velho sistema, os oligarcas confiam no BCE, nos fundos estruturais e na máquina fiscal. E para impedirem reformas, confiam no PCP e no BE: em 1975, eles foram uma ameaça aos poderes então dominantes; agora, pelo contrário, são a sua garantia.
Será curioso ver, num futuro não assim tão longínquo, o governo dos derrotados nas eleições, acossado por Bruxelas, abandonado pelos parceiros de conveniência, exigir aos vencedores dessas mesmas eleições que se lhe juntem na aprovação de medidas que, sendo de austeridade, terão recebido outra designação. Exigi-lo, note-se, com toda a veemência dos detentores de direitos adquiridos.
Teria treze anos. Acabei o teste de Geografia em pouco mais de metade do tempo disponível. Como não era possível sair antes da hora, saquei da pasta o livro Duplo Crime na Rádio, de Rex Stout (editado na saudosa colecção Vampiro), e pus-me a ler. A professora (muito aprumadinha mas, a esta distância, pouco marcante) não gostou. Perguntou-me se estava certo de já ter acabado e se não achava melhor rever as respostas. Disse-lhe que sim e que não, respectivamente. Já não me recordo da nota que tive mas creio ter sido ligeiramente pior do que seria de esperar (modéstia à parte, à época era bom aluno), o que, evidentemente, só pode atribuir-se a despeito. Contudo, lembro-me do prazer que extraí do livro, o primeiro que li com essa personagem peculiar, Nero Wolfe.
Wolfe terá sido um dos últimos detectives clássicos, que descobriam o assassino quase exclusivamente através do raciocínio – das «celulazinhas cinzentas», como lhes chamava Hercule Poirot. Gordo, apaixonado por comida e orquídeas, raramente saía de casa e mais raramente ainda deixava os casos perturbarem-lhe a hora das refeições ou o tempo destinado a cuidar das orquídeas. Era o seu assistente, Archie Goodwin, quem calcorreava as ruas de Nova Iorque e visitava os apartamentos dos suspeitos. Archie, sendo em grande medida um puro Watson (ao ponto de narrar as aventuras), talvez ainda assim fizesse a ligação à modernidade: era altivo mas boa pessoa, céptico mas disposto a correr riscos, mordaz mas não agressivo, fisicamente apto mas intelectualmente mediano. Digamos a mistura de uma parte de Philip Marlowe com três de inúmeras personagens de livros e séries televisivas desde então (as NCIS actuais, por exemplo).
Já não lia um livro de Stout há décadas quando, no ano passado, aproveitei uma promoção da Amazon e comprei um para o Kindle. Encontrei um estilo de escrita bastante menos básico do que temia e obtive um prazer quase tão elevado quanto recordava.
Faz hoje 40 anos que Rex Stout morreu.
(Foto recolhida num blogue – infelizmente já inactivo – sobre a colecção Vampiro.)