Os blogues e a vida real


escafandro,

Começa-se sem saber bem no que vai dar. Mantêm-se imensas ilusões mas temem-se a indiferença e o desprezo, bem como a incapacidade de estar à altura da tarefa. Responde-se de forma desajeitada às primeiras – e memoráveis – pessoas que estabelecem relação. Quem chega mais tarde obtém uma realidade parcial. Tentar descobrir o que ficou para trás pode reforçar –  ou fazer desvanecer – a atracção mas dá trabalho e poucos o fazem. Quase sem dados concretos elaboram-se imagens e verdades, que permanecem apesar de serem  desmentidas uma e outra vez. Há quem fique pouco tempo e, desinteressado quando não desiludido, logo desapareça. Há quem se empenhe – aconselhe, critique, procure moldar – e resista durante períodos surpreendentemente longos. Há o cansaço que, de um lado e do outro, se instala e as pausas que urge introduzir. Há os erros, as hesitações, as desilusões, os entusiasmos repentinos, as discussões estimulantes e as discussões cansativas – pelo momento, pelo tom mas, acima de tudo, por já terem ocorrido inúmeras vezes. Há afinidades que se referem com frequência e ódios de estimação que também se referem com frequência mas em tom completamente diferente. Há a passagem do tempo e a ideia de que se tem afinal menos controlo, menos originalidade e menos relevância do que era suposto.

Os blogues não são a vida real mas arranjamos sempre forma de tudo parecer a vida real. Talvez por a consciência – esse factor que nos diferencia dos restantes animais – nos permitir intuir que, em grande medida, a vida real é uma ficção.

5 comentários em “Os blogues e a vida real”

  1. Como no crowndfunding e tudo o que é voluntário, o resultado final depende um pouco de todos; procurar ser factual em vez de crente ajuda um blog a crescer porque a informação é formação; a tolerância pelo contrario ,e diversidade de opiniões fazem o resto. Deixemos que cada um faça a sua triagem e assuma a responsabilidade pelas "leituras" sem nunca passar pela cabeça aceitar um qualquer lápis azul.
    Vejo aqui os trolls por vezes enervados com os anónimos e assusta-me a tendência e consequências de holandinhos de pacotilha decidirem que temos todos de ser charlies.

  2. Só a ideia de abordar este assunto já é brilhante.
    Se atendermos à forma como é desenvolvida, então, teremos de reconhecer que estamos perante um texto superior.
    Parabéns!
    A propósito, gostava de sublinhar que, por mais que me esforce, não consigo compreender por que é que, em cada um de quase todos os blogues, há sempre um maior menor grupo que injuria sistematicamente quem discorda do tom geral.
    Há blogues que chegam até a silenciar os discordantes, mesmo que estes não respondam na mesma moeda. Aconteceu-me isso no Insurgente.
    E não compreendo porque não sei qual o gozo de ficarem a falar sozinhos.
    É que, para mim, se todos estamos de acordo, então não há nada para comentar!…
    Sinceramente, não entendo!

    1. Eu diria que um blogue é – é também – um porto de abrigo.

      Será um local de debate e de confronto de ideias, confronto desejavelmente civilizado (mesmo que firme). O que, admita-se, nem sempre é conseguido. E se há zelotas que rejeitam qualquer desvio ao que tomam como a linha do “seu” blogue, mesmo ou sobretudo que nele simples comentadores, há também os que por lá passam, apenas e sistematicamente para discordar. Discordar de tudo, da mais reflectida análise de uma questão política, económica, social, o que seja. Até mesmo de uma opção estética (feminina ou outra).

      Discordar porque sim, amiúde, sem preocupação de especial fundamentação ou refugiando-se numa subjectividade que tanto legitima, afinal, a sua opinião como a do autor ou comentador tão pressurosa e vivamente criticado. Há quem escreva, num blogue, em desvio da perspectiva nele dominante (o que dentro da civilidade está muito bem) e há quem nele comente, uma e outra e outra vez, sabendo de antemão que vai colidir – e frequentemente colidir de forma grosseira, de forma e conteúdo – com essa perspectiva dominante. Fazendo-o, dir-se-ia, de forma deliberadamente provocadora e sem outra perspectiva que não perturbar.

      Porque um blogue é também um porto de abrigo. Onde procuramos quem pense como (ou perto) de nós. O que, sendo um blogue coisa privada, é absolutamente legítimo. E nada há nisso que encerre a nulidade, o pejorativo, de “falar sozinho” ou “nada ter a comentar”. É tão natural debater ideias diversas, como o é procurar a partilha e consolidação de ideias comuns.

      Ou não haveria blogues de esquerda e blogues de direita, creio (a permanecer agarrados a tal critério). Sendo que ser de um ou outro desses lados não encerra por si e sem mais a virtude e a razão. E de esquerda ou de direita, não há felizmente blogues de regime, de frequência obrigatória. Só os frequenta quem quer; só neles comenta e escreve quem quer. E tenha algo de útil (pelo menos que sinceramente lhe pareça) a escrever.

      Ou assim deveria ser.

      Costa

  3. Um texto muito verdadeiro e inteligente. Fez uma comparação perfeita. Sentimos aquilo tudo e passamos por todas aquelas fases. É incrível! Os blogues e a vida real confundem-se, por vezes, ou há quem nos confunda.
    “A gente vai continuar, a gente não vai parar..” (espero não ter deturpado a letra)assim canta Jorge Palma.
    Abraço, José António Abreu!

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