Rex Stout e um teste de geografia


escafandro,

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Teria treze anos. Acabei o teste de Geografia em pouco mais de metade do tempo disponível. Como não era possível sair antes da hora, saquei da pasta o livro Duplo Crime na Rádio, de Rex Stout (editado na saudosa colecção Vampiro), e pus-me a ler. A professora (muito aprumadinha mas, a esta distância, pouco marcante) não gostou. Perguntou-me se estava certo de já ter acabado e se não achava melhor rever as respostas. Disse-lhe que sim e que não, respectivamente. Já não me recordo da nota que tive mas creio ter sido ligeiramente pior do que seria de esperar (modéstia à parte, à época era bom aluno), o que, evidentemente, só pode atribuir-se a despeito. Contudo, lembro-me do prazer que extraí do livro, o primeiro que li com essa personagem peculiar, Nero Wolfe. 

Wolfe terá sido um dos últimos detectives clássicos, que descobriam o assassino quase exclusivamente através do raciocínio – das «celulazinhas cinzentas», como lhes chamava Hercule Poirot. Gordo, apaixonado por comida e orquídeas, raramente saía de casa e mais raramente ainda deixava os casos perturbarem-lhe a hora das refeições ou o tempo destinado a cuidar das orquídeas. Era o seu assistente, Archie Goodwin, quem calcorreava as ruas de Nova Iorque e visitava os apartamentos dos suspeitos. Archie, sendo em grande medida um puro Watson (ao ponto de narrar as aventuras), talvez ainda assim fizesse a ligação à modernidade: era altivo mas boa pessoa, céptico mas disposto a correr riscos, mordaz mas não agressivo, fisicamente apto mas intelectualmente mediano. Digamos a mistura de uma parte de Philip Marlowe com três de inúmeras personagens de livros e séries televisivas desde então (as NCIS actuais, por exemplo).

Já não lia um livro de Stout há décadas quando, no ano passado, aproveitei uma promoção da Amazon e comprei um para o Kindle. Encontrei um estilo de escrita bastante menos básico do que temia e obtive um prazer quase tão elevado quanto recordava.

Faz hoje 40 anos que Rex Stout morreu.

 

(Foto recolhida num blogue – infelizmente já inactivo – sobre a colecção Vampiro.)

0 comentários em “Rex Stout e um teste de geografia”

  1. Um dos meus autores preferidos. Nunca deixou de o ser, desde que o li pela primeira vez, aos 12 anos. ‘O Detective Imperfeito’ foi esse primeiro título – da gloriosa Colecção Vampiro.

  2. Wolfe é um mago de eficiência dedutiva ao meu estilo de ginasta de sofá.
    Stout é um dos meus escritores favoritos.
    O Archie é um dançarino exímio a todos os níveis.
    Os cozinhados têm um aroma a mistério.
    Tenho imensos vampiros de bolso, que vou relendo quando quero sentir-me aconchegada. Tenho coleções de livros policiais que de antigos quase se desfazem nos mistérios que encerram 🙂

    1. Eu também tenho cerca de uma centena (e mais umas dezenas da série Vampiro Gigante, de Agatha Christie e Erle Stanley Gardner). Por falta de espaço, estão a quase 200 quilómetros, em casa dos meus pais.

      1. Dos gigantes, colecionei tudo o que saía, e que a manha mãe ainda mantém numa estante amarelecidos mas desempoieirados : Agatha Christie, Conan Doyle, Ellery Queen, Earl Stanley Gardner, Raymond Chandler…
        Os Vampiros de bolso mais velhinhos que tenho são do Dashiel Hammet, só uns 4 se não estou em erro.
        Com 11 anos , o sangue na guelra e a mania dos romantismos, li num só verão todas as aventuras de Tarzan do Edgar Rice Borroughs… 🙂 … quando o tempo era doce, mansarrão e de borla… saudade 🙂

        1. Eu já tinha os Ellery Queen e os Chandler de bolso (e os Conan Doyle noutra edição qualquer) quando começaram a sair na Vampiro Gigante. Quanto ao Tarzan, li vários antes de começar nos policiais. Requisitava-os na biblioteca da terrinha onde nasci (Oliveira do Hospital, perto da Serra de Estrela – agora cidade, na altura vila).

          Ainda hei-de escrever um dia destes é sobre Edgar Wallace, que li numa edição do Círculo de Leitores. Durante uns tempos, foi das influências mais perniciosas que tive (através dos quatro homens justos, transformou o assassinato numa coisa fixe).

  3. Comprei muitos livros da Colecção Vampiro, em segunda mão (uma história triste dum senhor que os pôs à consignação na Livraria Ler, corrigidas as gralhas a lápis).

    Os meus preferidos nunca foram os clássicos (Rex Stout, Ellery Queen e quejandos), mas uns que apareciam, a meus olhos, do nada como o fantástico Erro Judiciário de Anthony Berkeley (tive de ir verificar os nomes, mas lembro-me perfeitamente da capa e da história).

    1. Tenho quase a certeza de que também li Anthony Berkeley mas já não me lembro de nada. Na próxima visita a casa dos meus pais (como escrevi acima, é onde estão todos) vou ter de verificar.

      Eu adorava os Ellery Queen que tinham “desafio ao leitor”. E os John Dickson Carr / Carter Dickson com as suas situações aparentemente impossíveis.

      1. Ah, de certeza que se lembra daquela história fantástica do homem a quem o médico dá 6 meses de vida e resolve usá-los o melhor que pode. Para se aconselhar resolve convidar para jantar meia dúzia de amigos de bom conselho (um bispo, um juiz, etc) e levar a conversa para esse lado sem lhes contar nada e, para seu grande espanto, parecem estar todos de acordo que, nessas circunstâncias, o melhor servido prestado à humanidade seria livrá-la dum desses tiranetes domésticos que enfrenizam a vida de alguém à sua volta. Etc, etc. 🙂

  4. !! E eu que já não me lembrava de Rex Stout e Nero Wolfe!! Que falha! Deveria ter os mesmos 13 anos, logo após devorar os Agatha Christie finquei-me nestes e não larguei… Mas talvez por ser menos falado a memória foi-se desvanescendo… Obrigada pelo walk down memory lane, sou capaz de ir buscar uma destas reliquias para as reler 🙂

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