Posições políticas, interesses de curto prazo e a certeza de um futuro pouco agradável


escafandro,

1. Imperdoável. Cavaco tem posições políticas e age em função delas. Em 1987, Soares podia tê-las e fazê-lo. Em 2005, Sampaio podia tê-las e fazê-lo. Em 2015, Cavaco – eleito em sufrágio directo à primeira volta mas não socialista – devia limitar-se a assinar de cruz o que as mentes progressistas, bem pensantes – sempre elas, neste malfadado país – lhe dizem para assinar.

 

2. Na Alemanha, essa nação que odiamos porque recusamos admitir invejá-la, os socialistas entraram para o governo após negociações longas e duras – mas francas. Por cá, os socialistas, com uma sede de poder que caracteriza bem a parte do mundo a que Portugal na realidade pertence, escolhem os seus interesses de curto prazo (que, da sobrevivência política de António Costa à obtenção de sinecuras, passando pelo controlo de processos judiciais sensíveis, são muitos e variados) em detrimento do país. Quem ainda tinha esperanças deve perdê-las: não apenas nunca atingiremos o nível de vida alemão como será uma sorte não cairmos para o nível de vida venezuelano.

 

3. Governo de gestão, governo PS com apoio ilusório do PC e do Bloco ou governo PS com programa definido por PC e Bloco? Para o país, a primeira hipótese. Mas venha o diabo e escolha. O que, do ponto de vista da esquerda, é mais ou menos o que acontecerá.

0 comentários em “Posições políticas, interesses de curto prazo e a certeza de um futuro pouco agradável”

  1. Para o país, [governo de gestão]

    O José António acha que é minimamente viável que um governo de gestão PSD-CDS, no atual clima político, seja capaz de fazer aprovar um Orçamento de Estado pela Assembleia da República?

    E, se não fôr capaz, o José António acha que é minimamente viável coisas como hospitais e universidades viverem com um orçamento por duodécimos? Sem qualquer capacidade de fazer compras por atacado para um ano inteiro? A ter em cada mês que passa que fechar contas e demonstrar que tudo bate certo?

    Eu acho que essa ideia do governo de gestão é completamente louca.

      1. Eu não acho péssimo, José António, eu acho completamente inviável.

        E repare, não é um mês a viver de duodécimos, são pelo menos nove. Porque o próximo Presidente da República está proibido, pela Constituição, de dissolver a Assembleia nos primeiros seis meses do seu mandato. Pelo que, se esse Presidente tiver a triste ideia de ser tão sectário quanto Cavaco Silva (porque o próximo Presidente pode ser menos sectário e decidir, como se impõe, empossar um governo de esquerda), o país ficará parado durante quase um ano. Só um louco pode pensar que as estruturas poderão funcionar assim.

        E você levanta uma questão em que é muito útil pensar: e se novas eleições derem o mesmo resultado que as anteriores? Que garantia temos nós de que novas eleições conduzirão alguém a ter maioria absoluta sem a participação do PCP e do BE?

        1. A Constituição não impede o próximo Presidente da República de dissolver a legislatura nos primeiros seis meses do mandato. O impedimento é de outra ordem: a Assembleia da República não pode ser dissolvida nos primeiros seis meses de funcionamento, a contar da data de posse dos deputados – ou seja, não poderá ser dissolvida antes de 23 de Abril de 2016. Por outras palavras, uma nova eleição legislativa não poderia ocorrer antes do fim de Junho. Com as formalidades acrescidas, esse executivo entraria em funções lá para o fim de Julho. Parece-me impensável termos um “governo de gestão” que dure nove meses.

          1. Obrigado por ter feito as contas. Portanto: se Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa forem ambos doidos, o país viverá por duodécimos durante nove meses.

            Isso talvez seja viável para uma repartição de finanças. Para um Estado com as extensas funções do nosso, é inviável. O noss Estado é, em muitos setores, uma empresa; e nenhuma empresa é capaz de viver com dinheiro a cair às pinguinhas.

            E tudo isso para quê? Para no fim termos umas eleições que, possivelmente, darão o mesmo resultado que as anteriores?

            Só tenho esperanças de que Marcelo Rebelo de Sousa seja mais equilibrado que Cavaco Silva.

        2. “Que garantia temos nós de que novas eleições conduzirão alguém a ter maioria absoluta sem a participação do PCP e do BE?”

          Nenhuma. E aí estaremos mesmo §?#$%&. Mas, pelo menos, de forma clara e inatacável – ninguém poderá dizer que votou no PS sem ter consciência da possibilidade de uma coligação à esquerda.

          1. Até lá, o Seguro que se deixe estar, onde está que ninguém o chamou nem quer chamar.

  2. Foi lindo ver o Eurico Bastos dizer que votar contra o PS não é “bom para mim, em primeiro lugar, nem para o partido”. Da sua própria consciência e do que é melhor para País (tendo em conta a afirmação das suas conviccões anteriormente) nada. Que tipo vertical. É desta massa manhosa que parece que alguns são feitos.

    1. Não vi. Mas, infelizmente, não me surpreende. É exactamente o oposto daquela frase célebre (não me recordo agora de quem) segundo a qual primeiro está o país, depois o partido, por fim os interesses pessoais.

      1. Eu vi e é realmente patético eleger deputados que não têm coluna vertebral.
        A esmagadora maioria deles não está lá a fazer nada, estão lá porque subiram na íngreme escada dos arranjos e arranjinhos partidários que começam na junta de freguesia mais modesta até ao ministério mais relevante.
        Para quem ainda tivesse duvidas acerca da farsa que é a nossa democracia elas estão a desaparecer por estes dias.

  3. ” não apenas nunca atingiremos o nível de vida alemão como será uma sorte não cairmos para o nível de vida venezuelano.” Já agora acrescente que se espera que nunca tenhamos fornos crematórios.

    1. Perguntava-me quanto tempo demoraria alguém a usar esse argumento tão relevante para a questão. Vá lá, não foi no primeiro nem no segundo comentário.

      (Só por curiosidade: você não é anónimo que há dias exigia equidade na menção dos crimes da direita e da esquerda e agora deixou de lado o Gulag, os campos de reeducação e todos os outros exemplos gloriosos das políticas de esquerda, pois não?)

      1. “esse argumento tão relevante para a questão” Sim, queimar judeus é irrelevante. Nós queremos imitar a Alemanha. Em tudo, não só no que nos interessa.

        1. Talvez um dia, quando pessoas como o Anónimo ganharem alguma maturidade, possamos vir a ter políticos como estes em Portugal:

          “But at a joint press conference with Netanyahu on Wednesday, the German chancellor, Angela Merkel, made it clear she saw no need for a shift in interpreting history, saying: ‘We abide by our responsibility for the Shoah.’

          “Earlier, her spokesman Steffen Seibert said the Holocaust was ‘very much’ a German crime. ‘Speaking on behalf of the German government, I can say that all of us Germans know very precisely the history of the murderous racial fanaticism of the National Socialists that led to the break with civilisation that was the Shoah,’ Seibert told journalists in Berlin.

          “’This is taught in German schools for good reason. It must never be forgotten. And I don’t see any reason that we should change our view of history in any way whatsoever. We know that responsibility for this crime against humanity is German and very much our own,’ he said.”

  4. É toda uma nova forma de olhar para um processo eleitoral:

    Se os resultados agradam é legítimo, se não, repete-se até dar os resultados que agradam.

    Repare que eleitoralmente não estamos num impasse há forças políticas que garantem uma maioria ao governo. O facto de não serem do agrado de Cavaco não inviabiliza as eleições.

    Houve um comedor de bolo-rei que em tempos, não muito recuados, disse que só dava posse a um governo de maioria.

    1. Aponte-me lá onde é que eu escrevi ser ilegítimo um governo socialista com apoio – ainda que em jeito de castelo de cartas – do PC e do Bloco.
      Mas muita gente recusa aceitar (ou até perceber) que Cavaco também tem completa legitimidade democrática – como antes a tiveram Soares e Sampaio – para tomar posições políticas, as quais podem passar – como antes sucedeu com Soares e Sampaio – pelo favorecimento de novas eleições.

      1. Cavaco tem a legitimidade de nomear quem quiser. Pode nomear um amigo, um correligionário, um genro, o idiota da rua, etc. Faz é figuras tristes.

        Pode nomear quem quiser mas não pode garantir que o Programa do Governo passa.

  5. “(…) não apenas nunca atingiremos o nível de vida alemão como será uma sorte não cairmos para o nível de vida venezuelano.”

    É bem verdade. Mas, chegados aqui, resta saber se não é isso afinal o que quer o povo português.

    Um povo que dá ao PS a votação que obteve nas recentes eleições, depois das mais que demonstradas responsabilidades deste partido na nossa queda no buraco onde estamos e estaremos, sem nunca disso assumir as suas responsabilidades, e da geral atitude pesporrenta de detentores por direito divino do poder e do regime, estando-se mesmo – histórica declaração – “a cagar ” para a lei (o que, tudo indica, resultará na generosa sinecura da presidência da Assembleia da República).

    Um povo que vai mantendo ao longo dos anos – com variações que não invalidam esse facto – a dimensão eleitoral do PC (e não CDU, pois o apêndice verde serve apenas para o que já foi neste blogue demonstrado), e faz crescer como fez crescer o BE. Uma e outra agremiações fiéis e impenitentes repositórios do pior que a humanidade foi capaz de fazer nos últimos cem anos.

    O voto de protesto e a mais que legítima saturação de anos de pesadíssima austeridade – quantas vezes aplicada de forma inegavelmente desigual e ofensiva, protegendo os de sempre e castigando os de sempre -, por si sós, temo, não o explicam. Não, desde logo, face a essas alternativas. A leviandade eleitoral que permitiu chegar a esta situação, da qual, seja qual for o seu desfecho, resultará seguramente a perda de parte considerável (pelo menos) do que, com tanto esforço, injustiça suportada, mesmo desonra de tanta gente de bem, se conseguiu, não parece possível de explicar de outra forma que não a vontade expressa de que as coisas assim sejam.

    A conduta de António Costa é absolutamente inqualificável; a arrogância do PS perante o país é (e é mais do que conhecida desde há décadas) repugnante; do PC e do BE nada há a esperar que não a ortodoxia comunista que só admite pactuar com a democracia para a minar por dentro e destruir; um logro em que já só cai quem quer.

    Mas se está a acontecer o que está a acontecer, é porque há um povo que – soberano – dispôs por forma a permiti-lo. Não como a consequência civilizada, lógica, legítima dos resultados eleitorais, é certo. Mas bem nos pode merecer dúvida que este seja um país, este seja um povo, que se rege pela civilidade, a lógica, a legitimidade.

    Costa

    1. “Uma e outra agremiações fiéis e impenitentes repositórios do pior que a humanidade foi capaz de fazer nos últimos cem anos”.

      Desculpe, fala do Vietname? do Iraque? do Pinochet? dos crimes da CIA? do Afeganistão? etc. etc.

      Pode elucidar-me?

      1. Reporto-me, como você estará farto de saber, ao comunismo. Que matou mais do que o nazismo e, como este, tem no seu passado (e não apenas passado) generosa lista de crimes contra a humanidade. Para si, sem dúvida, está tudo isso muito bem.

        Costa

    2. Toda a gente sabe que o povo (os povos em geral) é estúpido e ignorante. A democracia é uma treta, o poder deve ser exercido por quem sabe ou é superior, de preferência os arianos. Acabe-se com o voto dos ignorantes. Não acha?
      Jorge Mendes

      1. O povo, só por sê-lo, não age infalível e necessariamente bem, e sempre guiado pelos mais elevados valores. A história dá-nos exemplos.

        Daí a etiquetar de antidemocrata quem admita essa falibilidade, vai um passo que eu não dou – é para mim um risco da democracia; ainda de facto o pior de todos os regimes, à excepção de todos os outros – mas você, decerto com a certeza das vanguardas que pretendem falar um nome do povo, sujeitando-o (nada) curiosamente a ditaduras, não hesita em dar.

        Nos regimes dessas vanguardas, ao menos, não vota ninguém. Ignorante ou não, ariano ou não. A não ser em fantochadas – há que o reconhecer sabiamente coreografadas – que invariavelmente resultam em impressionantes maiorias eternizadoras do partido único e da dinastia (deu nisso, o comunismo…) reinante. É de facto tudo muito mais simples e previsível.

        Sempre em nome do povo. Que evidentemente, apesar de sempre elaboradamente louvado na sua sabedoria, heroísmo, o que seja, não é nisso nem tido nem achado. E convém que não “faça ondas…”.

        E para si, está visto, assim é que deve ser.

        Costa

    3. “A conduta de António Costa é absolutamente inqualificável; a arrogância do PS perante o país é (e é mais do que conhecida desde há décadas) repugnante; do PC e do BE nada há a esperar que não a ortodoxia comunista que só admite pactuar com a democracia para a minar por dentro e destruir; um logro em que já só cai quem quer.”

      Assino por baixo.

  6. A urgência de Costa em governar não faz sentido. “Doesn’t add up” como dizem os Americanos. A única explicação plausível é que estão a ser comandados pelo imperativo maçónico de proteger os seus e precisam de chegar rapidamente ao poder para controlar a Justiça, apesar do desvio a toda a tradição democrática e programática do PS. O objectivo é substituir o Procurador antes que o pior aconteça e mais coisas aconteçam. Isto explicaria o tom de cáfila das diversas figuras do partido.

    1. Honestamente, acho que muita gente tem – ou, em alguns casos, teve – uma ideia errada de Costa. Ele nunca soube perder, convenceu-se (até pelos elogios deslocados que foi recebendo) de que possui o direito quase absoluto ao lugar de 1º ministro, é suficientemente limitado para achar que o país se governa como se fosse a autarquia de Lisboa e, mais do que qualquer outro, depende inteiramente da política (pelo menos na primeira linha desta).

        1. Longe de mim estar a querer moderar o seu blogue, mas acha que afirmações racistas como as do anónimo das 16:14 devem ser publicadas sem qualquer reparo?

          Já chegámos ao país das bestas?

          1. Racistas?? Supunha os leitores deste blogue mais inteligentes. Cada um é como Deus o fez.

        2. Por aqui falta de nível e de educação é o pão nosso de cada dia. Civismo, esse anda pelas ruas da amargura, por aqui e quando alguém tenta chamar a atenção, lá vem a falta de urbanidade.

          1. Reconheço que tem toda a razão e que me tenho excedido. Vou alterar o meu vocabulário

  7. Costa não se limitou a “roubar” o António..

    Rouba-nos a esperança…. Se os portugueses votantes o quisessem como 1º.M ter-lhe-iam dado a maioria.!
    Infelizmente, ele é ganancioso e um despeitado…

    ” Como posso encarar o Seguro” …. pensa ele” É este pensamento que o leva a aventura de destruir o país…

  8. Então e se o programa do governo chumbar e o PR se recusar a dar posse a um governo minoritário do PS (só com o apoio parlamentar da Chapitoa e do “muralha d’aço”) e o Passos Coelho se recusar a governar por duodécimos e o PR sentindo-se ultrajado se demitir ainda antes de acabar o mandato, como é?
    Governa o gajo do PAN dada a selva em que isto se transforma?

  9. O PCP … não respeita o voto popular… O “braço” no ar é sua matriz!

    Em que país comunista ou ex há ou ouve eleições livres e partidárias?

    Só isto é, mais do que suficiente para os encarar como antidemocratas!

    São tão sectários e “cegos” que se abstiveram de condenar o MPLA ( Angola) pelos presos políticos!

    Não são flor que cheire! São um embuste!

  10. Quando os exemplos recentes (dos últimos 4 anos) são péssimos, Costa sente-se no direito de fazer mais do mesmo (usurpar o poder) e se após as eleições que foram há 15 dias a convergência de esquerda seria algo com pouca viabilidade, o PR pelas suas acções tem criado o cimento que a tem solidificado.
    Espero que exista bom senso de dar posse a um governo de Esquerda para que rapidamente se tirem daí as ilações necessárias em futuras eleições e não se queira prosseguir com a táctica tão portuguesa de empurrar os problemas com a barriga.
    Quanto aos alemães e sermos como eles lamento desiludi-lo mas não seria com este governo Paf ) que lá chegaríamos, basta analisar as escandaleiras dos últimos 4 anos incluindo a de hoje sobre a a MANIPULAÇÃO dos dados relativos a uma eventual devolução da sobretaxa do IRS

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *