Esboço de orçamento para enganar papalvos


escafandro,

A trafulhice não surpreende: imagem de marca dos governos socialistas recentes, só confirma as suspeitas sobre a falta de seriedade intelectual de Costa e de Centeno. Mas classificar como extraordinárias medidas que obviamente representam despesa corrente constitui tamanho insulto à inteligência alheia que ainda incomoda ligeiramente – e acima de tudo envergonha, por recuperar o lugar-comum do português que utiliza todos os expedientes para tentar evitar o que tem de fazer. Depois disto, será lícito esperar respeito por parte de técnicos e ministros das finanças europeus? Há um ano, Varoufakis perdeu a consideração dos colegas por arrogância (faça-se-lhe a justiça: claramente assumida); Centeno, com o sorriso cada vez mais parecido com o de um vendedor de carros usados (as minhas sinceras desculpas aos vendedores de carros usados), irá perdê-la por esperteza saloia.

Mas enfim, sejamos positivos: pelo menos como espectáculo para consumo de pipocas, a coisa promete. Vai ser divertido assistir ao braço de ferro entre governo, comissão europeia, bloco de esquerda e partido comunista. E pode ser que entretanto a DBRS resolva juntar-se à festa. Nesse caso, os tempos ficarão mesmo muito, muito interessantes.

O regresso dos maus da fita e o poder do pensamento positivo


escafandro,

Moodys afirma que esboço do orçamento de Estado é optimista e repete erros do passado.

Fitch considera que orçamento assenta em pressupostos de crescimento «irrealistas» e ameaça descer rating de Portugal.

Não será altura de a intelligentsia nacional começar novamente a bramir contra as agências de rating? (Poupando a DBRS, claro – por enquanto.)

 

Governo acredita que por cada euro de estímulos, retoma devolve quatro.

Funcionou bem em 2009 e 2010, não foi? E as PPP até se pagaram a elas mesmas…

A música pop e a idade


escafandro,

O meu consumo de música pop começou a declinar por volta dos vinte anos e qualquer coisa, cerca de meados dos anos oitenta, e aos trinta a minha ignorância na matéria já atingia proporções cósmicas. Uma desgraça para alguém que, em tempos de pré-adolescência, sabia de cor os nomes de todos os membros de muitos grupos rock, inclusive alguns que, por pudor, não ousaria hoje nomear. Ainda tentei algumas vezes, sem muita convicção, e a conselho de amigos, ouvir coisas novas, mas, tirando uma vez ou outra, não percebi ou não me interessou. Continuei a ouvir, é claro, de tempos a tempos, música que ouvia em tempos passados (os Beatles ou os Kinks, ou os RoxyMusic, por exemplo) e certas coisas novas feitas pelas pessoas que eu costumava ouvir: Leonard Cohen, Zappa, LouReed às vezes, algum Dylan – e David Bowie, em primeiro lugar. Não se nasce impunemente em 1960.

Suponho que, com estes ou outros nomes, é uma experiência comum. As pessoas crescem, esquecem, envelhecem, e depois já é tarde demais para voltar a aprender um entusiasmo ou outro.

Paulo Tunhas, no Observador.

 

Será uma experiência comum mas baralha-me há muito. Estou ciente do poder da inércia mas estranho a capitulação. Percebo que se vão adquirindo outros gostos (raras pessoas ouvem A Love Supreme, de John Coltrane, ou a oitava sinfonia de Mahler aos dezoito anos) mas confunde-me que isso suceda através de um processo de substituição. Para mais, quando este é incompleto: não se abandonam os gostos da juventude, apenas se prescinde de ganhar outros.

Nada disto ocorre no cinema: muitos podem preferir os filmes do tempo em que cresceram, ou mesmo os «clássicos», mas nenhum fã de cinema se recusa a assistir e, quando entende adequado, a elogiar os actuais. (Pelo contrário: ficar preso a filmes «antigos» é visto com estranheza.) Não ocorre também na literatura: mesmo quem pensa que todas as grandes histórias já foram escritas não se sente impelido, por desagrado ou inércia, a evitar as obras de autores contemporâneos. Em qualquer arte, conhecer trabalhos do passado (e, em particular, os que marcaram a evolução dessa arte) evita gritos extemporâneos de originalidade mas não obriga ao desinteresse. As obras que descobrimos na juventude são com frequência as mais marcantes mas não têm o poder de se impor como exclusivas. Excepto na música pop/rock.

Precisamente: falamos de música pop/rock, argumentarão alguns. Por já não constituírem desafio suficiente, filmes e livros de certos géneros também se vão abandonando com a idade, mantendo-se apenas uma relação cúmplice com aqueles que nos encantaram na juventude. Talvez. Mas será a boa música pop/rock assim tão simples e evidente? Eu arrisco dizer que pelo contrário. Que há nela uma dificuldade especial, maior do que a existente na literatura e no cinema contemporâneos, que a torna problemática para todos aqueles a quem (desculpem lá) a idade entorpece. A melhor música pop/rock recusa-se não por ser básica e repetitiva mas por – de forma algo similar à música «clássica» contemporânea – ainda conseguir ser estranha. No cinema e na literatura, a estranheza instintiva, quase epidérmica, já é rara. Tristam Shandy tem um quarto de milénio. O monólogo de Molly Bloom (depois dele, será possível estranhar alguma coisa na literatura?) aproxima-se do século. No cinema, Un Chien Andalou surgiu há quase noventa anos e depois do surrealismo de Buñuel tivemos muitos outros, incluindo o de David Lynch. O minimalismo e o grau de exigência de Bergman e Dreyer prepararam-nos para quase todos os filmes «lentos» que vieram depois e a sequência final do 2001: Odisseia no Espaço não nos permite grande surpresa quando assistimos a The Tree of Life, de Terrence Malick. Mas a música pop/rock tem uma história relativamente curta e a estranheza ainda é frequente. De tal modo que, muitas vezes, a renúncia é temporária: há bandas que são postas de lado à primeira audição mas que, anos depois, mais ou menos entradas na consciência colectiva (para não escrever no cânone do pop/rock), já se apreciam. No fundo, o que os Animal Collective (novo álbum dentro de dias) faziam por volta de 2010 não era substancialmente diferente do que David Bowie ou os Velvet Underground levavam a cabo por volta de 1970, os Joy Division por volta de 1980 ou os Nirvana por volta de 1990: moldavam sons e palavras em canções que primeiro se estranham e depois se entranham. Todavia, embora certamente recordados de quão incompreensível lhes era na adolescência a indiferença (quando não a hostilidade) dos seus pais em relação à música que ouviam, poucos «adultos» actuais se dispuseram a prestar-lhes atenção. Talvez dentro de mais uns anos.

Alguns álbuns de 2015: “In Colour”, de Jamie XX


escafandro,

E pronto. Vinte e cinco álbuns depois (não necessariamente os melhores de 2015; ouvi uma ínfima parte dos que mereceriam atenção e deixei de fora não apenas vários que poderia ter incluído como todos aqueles que já salientara ao longo do ano), acabemos isto com uma obra representativa dos aspectos negativos e positivos de tanto já ter sucedido na música pop/rock, não obstante as suas poucas décadas de existência.

O uso intensivo de samplers pode ser visto como um modo de fugir às dificuldades de criar algo verdadeiramente novo mas é também uma forma de admitir, questionar, comentar e reinventar o passado. Digamos que Jamie XX, como a banda de que faz parte (os XX), produz metamúsica. A qual, num mês não particularmente simpático para os fãs da pop, até me permite terminar com uma nota de optimismo:

Corte de cabelo e um voto nulo (mas útil)


escafandro,

Certa vez um cliente chamou-lhe «salão» e tanto Mário como Octávio pararam de cortar e olharam um para o outro com ar aparvalhado. «Isto é uma barbearia», resmungou Mário enquanto recomeçava a dar aos dedos. 

Trata-se de um espaço rectangular com cerca de cinco metros de comprimento por menos de três de largura. Quem entra pela porta dupla de metal e vidro, colocada numa das paredes mais curtas, depara-se com duas cadeiras de barbeiro voltadas para a esquerda, na direcção de um espelho que ocupa quase toda a área de parede acima de aproximadamente meio metro de altura. Ao lado da porta existe um bengaleiro e, ao lado deste, uma mesinha onde um rádio portátil sintonizado para a estação local debita canções pedidas por ouvintes que as dedicam a familiares e amigos. O espaço por trás das cadeiras de barbeiro é limitado, pelo que, das seis cadeiras de metal com assento e encosto forrados a napa verde-azeitona que aí se encontram, apenas as duas das pontas podem ser usadas sem que as pernas dos ocupantes compliquem a vida a Mário ou Octávio nas suas deambulações em torno dos clientes. Ao fundo, junto à porta de acesso a uma área reservada (onde presumo existir uma casa de banho), há um lavatório no qual é lavada a cabeça dos raros clientes que o desejam.

Mário é baixo, magro e usa bigode à treinador de futebol dos anos 70. Octávio é alto, tem cabelo branco em ondas que flutuam em torno da sua cabeça e uma dezena de quilos a mais. Mário é o patrão e essa circunstância está sempre implícita. Fala mais e de forma mais categórica. Octávio é o filósofo, embora um filósofo de tiradas curtas e frequentemente irónicas. Eu prefiro que seja ele a cortar-me o cabelo e ambos o sabem. Se é Mário que está disponível quando chega a minha vez, ele resmunga para o cliente seguinte: «Pode vir», o que deixa o homem indeciso, olhando dele para mim, tentando perceber se sou eu que não quero ser atendido por Mário, se é este que recusa atender-me. E, em qualquer dos casos, porquê. Contudo, apanhados de surpresa, ninguém tem coragem para expressar a dúvida em voz alta.

Apesar de lá cortar o cabelo há mais de trinta anos, sempre de dois em dois meses, sempre ao sábado de manhã, e de nunca ter mudado o estilo de corte, Octávio faz questão de perguntar: «Então como vai ser hoje?» Às vezes brinco com a ideia de lhe dizer para estar à vontade e cortar como lhe apetecer mas refreio-mo: por um lado, sou conservador, pelo menos no que respeita ao meu aspecto; por outro, julgo que os únicos estilos alternativos que Octávio e Mário conhecem são os permitidos pelos pentes das máquinas de corte.

A barbearia fica no largo municipal, vendo-se o edifício da Câmara quase em frente. No passeio estão sempre a passar pessoas. Quando no interior falta assunto de conversa, Mário (nunca Octávio) usa-as para evitar silêncios demasiado prolongados, de acordo com critérios que nunca percebi mas presumo estarem ligados ao seu estado de espírito (por vezes suporta longos períodos sem necessidade de falar, de outras parece incapaz de estar calado mais do que alguns segundos).

Hoje Mário apara os poucos cabelos existentes na cabeça de um idoso cujas feições me recordam alguém – seria funcionário na escola secundária nos tempos em que a frequentei? – enquanto Octávio me faz o corte do costume. À espera, encontra-se apenas mais um cliente, um homem franzino, com barba que parece não ser cortada há uma semana e cabelo que parece não ser lavado há três. Mário esteve a protestar contra o dinheiro injectado nos bancos, «que ainda por cima cobram cada vez mais comissões». Mas o filão esgotou-se e nos últimos trinta segundos só se ouviu Tony Carreira e o som das tesouras.

«O Antunes passa mais tempo na rua do que talho», diz Mário.

«Deve ir aos correios», diz Octávio. «Agora que deixou de receber cartas em casa.»

Octávio está entre mim e a porta e, de qualquer modo, está a dar os últimos retoques no corte do meu cabelo, pelo que não posso rodar a cabeça para ver quem passa na rua.

«O Magalhães continua a lá ir.»

«Acho que não foi, durante uns tempos.»

«Foi. Às escondidas, noutro horário.»

«Ah. Ele vai estar nas mesas de voto, desta vez?»

«Não sei. Deve estar.»

«E se acontece outra vez?»

«Pois, só a hipótese devia fazê-lo ficar em casa. Mas deve estar. Olha quem.»

Octávio pergunta-me se já chega. Digo-lhe que sim. Ele desaperta o pano branco que evita que o cabelo cortado entre para dentro da minha roupa (desconfio que os fazem a partir de lençóis velhos). Saio da cadeira.

«O que aconteceu?, pergunto.

«Não sabe?»

Digo-lhe que não faço ideia enquanto retiro uma nota de dez euros da carteira.

Naquele espaço é Mário quem conta as histórias mas, não gostando particularmente de mim, hesita. Depois decide-se.

«Toda a gente de cá conhece a história», resmunga. «Não se falou de outra coisa.» Ignoro o remoque. Ele mordisca o bigode e continua: «O Antunes está sempre numa mesa de voto. Nas últimas eleições estavam a contar os votos, tudo a correr como de costume, quando apareceu um em que alguém tinha escrito em letras grandes: ‘A mulher do Antunes do talho anda metida com o carteiro’.»

Fica à espera da minha reacção. Rio-me. Por causa da história e da formulação da mensagem anónima: só numa terra destas alguém escreveria “anda metida”. Mantenha-se a decência, mesmo quando o tema são indecências.

O cliente seguinte intervém subitamente, enquanto se levanta da cadeira: «Ele chegou a ir a casa do Magalhães pedir satisfações mas não o encontrou e ainda foi insultado pela mulher. Pela mulher do Magalhães.»

«Isso é só gente a falar», diz Octávio. Estende-me quatro euros de troco, na mão aberta.

«Não», garante o homem. «A minha cunhada assistiu.»

Deixo dois euros na palma da mão de Octávio. Pergunto: «E era verdade, o que o escreveram no boletim?»

Mário funga. «Se fosse só com o carteiro…»

«Se calhar até foi ciúme», diz Octávio.

«Ele não reconheceu a letra?»

«Estava em maiúsculas», responde Mário.

«E ainda bem que não conheceu», diz Octávio. «O voto é secreto.»

Claramente, o tema já originou muitas piadas.

Mário sorri, demonstrando alegria genuína pela primeira vez. «A denúncia quase nem foi o pior. O Antunes é do PS. Sofre mais pelo PS do que pelo Benfica. E, como o boletim tinha a cruz no PS, queria que fosse válido.»

Octávio abana a cabeça, em sinal de respeito. «Pôr lá a cruz foi de mestre. Quem fez a coisa dava-se a requintes de malvadez.» Indica ao cliente seguinte que suba para a cadeira.

Despeço-me e saio. O céu está carregado mas não chove. Vou caminhando pelo passeio, em direcção a um dos cantos da praça. Ao passar junto ao talho, espreito lá para dentro. Não vejo o tal Antunes. Apenas uma mulher baixa e gorducha, com mais de cinquenta anos. Deve ser uma funcionária. 

Alguns álbuns de 2015: “Short Movie”, de Laura Marling


escafandro,

Da depressão resultam excelentes obras de arte. Once I Was An Eagle, o álbum anterior de Laura Marling, era um trabalho minimalista de auto-análise dorida e raivosa, que suscitou elogios unânimes. Short Movies é menos intenso – porque Marling terá recuperado estabilidade emocional (felizmente: sofrer pela arte é um conceito bonito mas convém fazer pausas) e porque só podia ser, após quatro trabalhos (antes dos 24 anos de idade*) em contínua ascendência qualitativa. Não se trata de um álbum pacífico ou estagnado: apresenta laivos de electricidade (foi composto na Gibson ES-335 do pai) e inclui toda a inquietação habitual em Marling, particularmente no que respeita às relações amorosas (a necessidade, a desilusão, a ameaça à autonomia). Mas revela uma certa falta de coesão (talvez até de propósito) e, acima de tudo, teve o azar de suceder a um álbum sublime.

 

* Fica a informação de que agora tem 25 e fará 26 no próximo dia 1. Só para o caso de estarem interessados em enviar-lhe uma mensagem de parabéns. Ou, sei lá, um pastel de nata.

Do «presidente de todos os portugueses» a Marcelo


escafandro,

1. Intróito com auto-citação

Permitam-me recuperar parte de um texto pré-histórico (bom, de Julho de 2009):

O conceito de «presidente de todos os portugueses» é, pelo menos na forma como habitualmente surge, um logro. Nenhum presidente representa «todos os portugueses» no sentido de ter que agir como cada um deles deseja. Seria, aliás, impossível. Não pode também pretender-se que represente os portugueses que elegeram o governo acima dos que o elegeram a ele. (Aconteceria se permanecesse em silêncio perante todas e quaisquer medidas do governo.) Também não é, como muitas vezes se defende, um «árbitro». Se o papel do presidente fosse apenas arbitral, bastar-lhe-ia conhecer as regras «do jogo» (definidas na Constituição) e a ideologia seria irrelevante, uma vez que não decidiria em função dela. Aliás, pura e simplesmente não decidiria e elegê-lo configuraria um contra-senso: poderia ser nomeado ou até sorteado entre os portugueses. Um presidente é eleito depois de apresentar um conjunto de posições e de convicções e deve presidir em função delas. Obviamente, não tendo poder executivo deverá procurar consensos com o governo e só o afrontar quando achar indispensável fazê-lo. Mas tem o direito de o fazer. Mais: tem o dever. Em função das suas próprias convicções, cada cidadão decidirá então se ele está ou não certo. Mas não o pode criticar por falar.

 

2. Candidatos de quase todos os portugueses

Mantenho a opinião: «presidente de todos os portugueses» é um conceito que só faz sentido como tentativa de impedir que os presidentes manifestem posições de centro-direita. Após observar a campanha nestas últimas semanas – com uma traumática excepção, de relance, que o meu sistema imunitário anda frágil – devo, no entanto, admitir a existência de «candidatos de quase todos os portugueses». Não por defenderem ideias claras mas altamente consensuais (seria impossível) mas por procurarem agradar a gregos e a troianos; por apresentarem platitudes com ar de quem apresenta soluções; por tentarem parecer assertivos enquanto evitam comprometer-se com medidas e cenários concretos. E, se quase todos os candidatos são culpados disto, é forçoso reconhecer que nenhum o fez com tanto denodo como Marcelo Rebelo de Sousa.

 

3. Os snobes de esquerda têm razão e o pessoal de direita é estúpido?

A esquerda, cosmopolita por inerência, tende a classificar os indivíduos que não concordam com as suas ideias (i.e., todos aqueles à direita do centro-esquerda) como retrógrados, trogloditas e/ou simplesmente estúpidos (mas como é que 38% dos portugueses ainda votaram na coligação PSD-CDS?). Olhando para a forma como Marcelo desprezou o eleitorado de centro-direita, considerando-o no bolso, dá vontade de admitir que, pelo menos no que concerne à parte da estupidez, a sobranceria da esquerda se justifica. À primeira vista, só a estupidez dos eleitores de centro-direita parece explicar que, após uma campanha decorrida inteiramente no terreno da esquerda, sem um único candidato a defender posições como o primado da liberdade de escolha dos cidadãos, a responsabilidade fiscal do Estado ou a necessidade de assentar a redistribuição numa economia capaz de a suportar, eles ainda se dêem ao trabalho de ir às urnas. Porém, embora lhes fosse certamente agradável poder um dia votar numa pessoa (ou num partido) com quem estivessem de acordo em todos os assuntos fundamentais, os eleitores de centro-direita são, acima de tudo, pragmáticos. Encontram-se habituados a escolher o mal menor – e ainda assim a perder quase sempre, nem que seja na secretaria.

 

4. O mal menor, portanto

Na era pós-4 de Outubro de 2015, ao centro-direita (e por conseguinte, na minha opinião, ao país) só interessam eleições quando existir uma razoável probabilidade de PSD e CDS conseguirem maioria absoluta. Sampaio da Nóvoa estaria disponível para as convocar na altura mais conveniente para António Costa. Maria de Belém estaria disponível para as convocar na altura mais conveniente para o PS (e, por conseguinte, para Costa). Marcelo deverá manter uma política de não-hostilidade em relação a Costa (porque se dá bem com ele e porque – inteligentemente – não desejará ser acusado de força de bloqueio) mas, não obstante toda a sua inconstância, tenderá menos a permitir-lhe manobrar os timings. Pagaremos uma factura elevada mas é necessário deixar António Costa governar – até ficar evidente que, com a ajuda dos parceiros de «geringonça», leva (de novo) o país na direcção do abismo.

 

5. Por exclusão de partes e por cansaço

Ponderei seriamente votar em Henrique Neto, o único candidato que assumiu algumas posições com as quais concordo. Não o farei por dois motivos:

a) O pesadelo que seria ter Belém ou – credo – Nóvoa na Presidência (as hipóteses de qualquer deles ganhar na segunda volta parecem reduzidas mas – pragmatismo acima de tudo – mais vale não arriscar);

b) O desejo de terminar com este circo deprimente tão depressa quanto possível.

Votarei pois em Marcelo Rebelo de Sousa.

Mário Centeno da Nóvoa


escafandro,

Como é que o défice desce, apesar das medidas de reversão?

«Através de uma política orçamental que consiga materializar as direcções que nós definimos como objectivos. Através de uma contenção daquilo que é a execução orçamental, um crescimento muito contido na dinâmica orçamental, e com um conjunto de medidas que reforça o potencial de crescimento da economia portuguesa, desde logo o que é a recomposição fiscal, desde logo o que é o apoio à recuperação dos rendimentos da população.»

Ah, pronto. Assim sendo…

Alguns álbuns de 2015: “Me”, de Empress Of


escafandro,

Se Florence exorciza o final de uma relação amorosa através de música por vezes bombástica mas sempre melodiosa, a norte-americana de ascendência hondurenha Lorelei Rodriguez, movendo-se na mesma área (digamos pop dançável baseada em sintetizadores), aposta na estranheza e na fragilidade para examinar a relação estagnada (bem como as dificuldades económicas) de uma imigrante em Nova Iorque. Dona de uma voz menos adequada a hinos grandiosos do que Florence, Lorelei assenta a maioria dos temas em letras cruas («Nothing comes between us/ But a piece of latex/ When you tear my clothes off/ Like I was a paycheck») e numa sonoridade sincopada, menos imediata. Todavia, Me vai mais além: inclui um par de canções nas quais, lírica e musicalmente, ela promete parar de olhar tanto para dentro e para trás («our memories are a threat», garante) e começar a olhar mais para fora e para diante. Afinal, depois de se tornar imperatriz dela mesma, resta-lhe partir à conquista dos outros. Dos fãs de Florence, por exemplo.

Alguns álbuns de 2015: “How Big, How Blue, How Beautiful”, de Florence and the Machine


escafandro,

O primeiro álbum foi uma surpresa e uma desbunda que não possibilitava nem merecia questões mesquinhas. O segundo forçou-as. O terceiro trouxe respostas contraditórias: a várias letras letras mais confessionais, de alguém que procura sentido para o fim de uma relação amorosa (sim, em grande medida trata-se de outro break up album), contrapõe-se uma sonoridade grandiosa, de música pronta para encher estádios. Mas talvez Florence esteja certa. Talvez esta esquizofrenia devesse estar presente em qualquer final de relação: o lamento submergido não apenas por uma fúria regeneradora mas por uma imensa e quase deslocada crença nas próprias capacidades. Aguardemos pelo quarto.

Alguns álbuns de 2015: “The Other Side of Desire”, de Rickie Lee Jones


escafandro,

Rickie Lee Jones não lançava um álbum de originais há uma dezena de anos. Conseguiu o dinheiro para produzir The Other Side of Desire através de uma campanha de crowdfunding e da venda de material de palco. O resultado não foge muito ao que seria de esperar mas, neste caso, a formulação deve ser considerada elogio. Trata-se de uma mistura de rock e de blues, com Nova Orleães – a morada mais recente de Jones – em pano de fundo.

Olá, Mariana; não, podes roçar o cotovelo à vontade


escafandro,

«É uma decisão que envergonha o Tribunal Constitucional, os deputados que a exigiram, que degrada a nossa democracia. Eu repudio esta decisão e não me conformarei com ela.»

«Envenenada, mesquinha, inconsistente, vergonhosa – a decisão do Tribunal Constitucional sobre as pensões dos titulares políticos.»

 

Durante os últimos anos manifestei desagrado por muitas decisões do Tribunal Constitucional, várias das quais relacionadas com «direitos adquiridos». Nessa linha, gostaria de o voltar a fazer a propósito da que garante subvenções vitalícias a governantes, deputados e – cof, cof – juízes do TC que tiveram a sorte de exercer os seus cargos antes de 2005. Mas estranho ver elementos do Bloco de Esquerda, para quem ainda há poucos meses a mais leve crítica à Constituição ou ao TC configurava um atentado à democracia, ao meu lado.

Alguns álbuns de 2015: “Currents”, de Tame Impala


escafandro,

Estou longe de ser um grande apreciador de disco sound. Prefiro não apenas ver Travolta dançar em Pulp Fiction a vê-lo dançar em Saturday Night Fever como – e principalmente – escutar a música ao som da qual ele dança: o falsetto de Barry Gibbs deixa-me capaz de magoar gatinhos indefesos. As recorrentes sonoridades disco do último álbum dos Tame Impala podiam assim ser-me tão agradáveis como uma visita ao dentista. Acrescente-se a histeria que tomou de assalto os críticos por alturas da saída de Currents (dir-se-ia que, à la Mars Attack, Kevin Parker acabara de salvar o universo recorrendo a um loop de sintetizador) e a minha boa vontade encontrava-se em parte incerta aquando das primeiras sessões auditivas.

Mas Currents (que afinal raras publicações elegeram como álbum do ano) merece elogios. Trata-se de um cocktail psicadélico mas de um psicadelismo íntimo, assente não apenas em sonoridades condizentes (dizem-me) com trips induzidas pelo consumo de alucinogénios (situação em que vai-se a ver e até a voz de Barry Gibbs soa bem) mas nas fragilidades de um ser humano que, como tantos outros, voga entre o desejo da solidão e do contacto humano; entre a auto-análise da música assente em palavras que expõem a alma e a desbunda entorpecedora da música de dança.