Alguns álbuns de 2015: “Ones and Sixes”, dos Low


escafandro,

Não obstante terem iniciado a carreira em 1993, os Low (o casal Mimi Parker e Alan Sparhawk, de Duluth, no Minnesota, apoiados pelo baixista Steve Garrington) parecem continuar um segredo reservado a uma mão-cheia de fiéis. Evidentemente, a sonoridade intensa mas dolente da música que fazem nunca lhes permitirá atingir as posições cimeiras das tabelas de vendas ou de streaming. Mas uma voz tão singular merecia mais. E Ones and Sixes até consegue ser um dos seus álbuns mais acessíveis.

(O vídeo acima – do primeiro single – é bem representativo da sonoridade deles. Mas não resisto a mostrá-los num tema mais animado, também do último álbum.)

Álbuns álbuns de 2015. “Marks to Prove It”, dos The Maccabees


escafandro,

Não haverá muitas bandas que mantenham uma evolução consistente do primeiro ao quarto álbum. Os Maccabees conseguiram-no. Marks to Prove It tem uma sonoridade tipicamente britânica, com ecos da década de 1980 (U2, Echo & the Bunnymen, The Cure), e inclui um conjunto de temas nos quais a faceta épica amplia desencantos (por exemplo, com a gentrificação da zona de Londres onde os elementos da banda cresceram) em vez de servir como sinal de optimismo.

Alguns álbuns de 2015: “Return to the Moon”, dos El Vy


escafandro,

El Vy é um projecto de Matt Berninger, dos The National, em colaboração com Brent Knopf (Ramona Falls, Menomena). O álbum de estreia inclui temas que soam bastante a The National e temas que soam menos a The National. Os primeiros são bons mas fazem-me desejar um novo álbum dos The National. Os segundos dividem-se entre supimpas e assim-assim, sendo que mesmo os assim-assim são interessantes (digam lá isto em voz alta sem cecear) pelo que revelam da vontade de Berninger em fugir por momentos à grandiosidade aconchegantemente depressiva dos The National e abraçar uma vertente mais ligeira e auto-irónica: afinal, o homem de I’m the Man to Be (no vídeo) é uma estrela rock que obtém 8,4 em críticas que recusa ler, gozando uma paz duvidosa num quarto de hotel onde recebe prostitutas e mantém o dick apanhando luz do Sol (como toda a gente sabe, ter o pénis bronzeado é sinal de verdadeiro sucesso); isto, claro, se a sugestão de auto-asfixia erótica não for para levar a sério.

Alguns álbuns de 2015: “Quarto Crescente”, de Márcia


escafandro,

Cresci noutros tempos. Sou um ouvinte de álbuns. Não faço playlists e raramente uso funções de escolha aleatória. Nos dias que correm, até rádio evito – excepto as estações noticiosas, numa tendência masoquista que mereceria análise psiquiátrica. Ainda assim, há álbuns que me são excessivos. É-me difícil ouvir algumas obras de fado de uma só vez, por exemplo. O excesso de fatalismo – e, embora contrariado, sou fatalista – incomoda-me.

Algo similar ocorre quando escuto a música de Márcia. Tomadas individualmente, acho as canções deste último álbum magníficas. Ouvidas em sequência, começam a cansar-me. Encontro-lhes uma faceta ligeiramente lamurienta que me força a uma pausa. O trabalho é óptimo: sólido, coerente, pleno de bom gosto. Mas ainda um dia gostava de ouvir Márcia arriscar um pouco mais. Arriscar um grito. Uma bofetada. Um gemido verdadeiramente raivoso.

Virgem (apesar da «geringonça»)


escafandro,

O deputado socialista (e, dizem alguns – eu tentarei evitar os insultos -, reputado economista) Paulo Trigo Pereira, co-autor do programa de estímulo ao consumo com que o PS se apresentou às eleições, escreveu um artigo para o Observador. Nele, após considerações de cariz político-filosófico, estranha a ânsia demonstrada por PCP e Bloco em repor a semana das 35 horas de trabalho na função pública. Pede contenção, alerta para as fragilidades da economia, faz questão de mencionar que sempre defendeu a «durabilidade» e a «estabilidade» das políticas. O termo mais adequado para descrever a minha reacção é – lamento – asco. Ou nojo. Ou náusea. Ou – tentemos alguma contenção; não quero mesmo tombar em insultos – repulsa. Este pessoal, equipado com cérebros putativamente brilhantes, surpreende-se afinal com o que qualquer humanóide provido de dois neurónios funcionais (e o segundo operando apenas como redundância) percebeu no momento em que António Costa abriu os braços (sim, «os braços»; a última coisa que desejo é insultar) a comunistas e bloquistas: estes não são prudentes nem se acham vinculados ao «programa do PS», sobre o qual estas alminhas ingénuas (trata-se de um termo carinhoso, não de um insulto) clamam haver-se fundado a «geringonça». Não perceberam, aliás, ainda outra coisa: António Costa estava inteiramente disponível para aceitar o que quer que fosse a troco da conquista do poder – e conserva idêntica disposição quando o objectivo é mantê-lo. Nada ingénuos (vêem? aqui não há insulto mas também não há carinho), comunistas, bloquistas e sindicalistas perceberam-no no primeiro instante. Repare-se no extraordinário momento de stand-up comedy protagonizado ontem por Ana Avoila, quando inquirida sobre o processo negocial em torno da tal questão das 35 horas: «O governo marcou a reunião para 28 e nós pedimos para ser 28 de manhã porque à tarde temos muito trabalho de preparação para a greve.» Que é como quem diz: «Vão-se fazer inserir um objecto rombo num tracto digestivo da vossa conveniência.» (Acredito que ela também não deseja insultar.) Avoila sabe ter a «geringonça» na mão e sabe ainda que qualquer homem (António Costa – e isto até enforma uma espécie de elogio – não será excepção) entra num particular estado de fragilidade quando alguém lhe agarra essa parte da anatomia. 

No fundo, é um bocadinho como se Trigo Pereira, tendo ignorado avisos e mantido relações sexuais sem protecção num bordel tailandês (preferindo, pode escolher Cuba ou a Venezuela, que na Coreia do Norte não devem existir), estranhasse ter apanhado um esquentamento. Ou como se, três meses após o primeiro acto sexual consumado (não daqueles à Bill Clinton), desejasse recuperar a virgindade. Lamento mas das duas, uma: se percebeu finalmente o sarilho que António Costa arranjou ao enfiar a «geringonça» pelo tracto digestivo dos portugueses, que salte fora e então – ainda que heterossexual, sou sensível a covinhas no queixo – terá direito a um módico de apreço; caso contrário, mais vale o silêncio. Para as mulheres existem operações mas, num homem, a virgindade é irrecuperável. Especialmente depois de ter sido perdida com uma «geringonça» disforme.

Alguns álbuns de 2015: “At Least For Now”, de Benjamin Clementine


escafandro,

Vencedor do Mercury Prize, o álbum de estreia de Clementine (inglês do norte de Londres, leitor da Bíblia e da poesia de William Blake enquanto adolescente, fã da música de Antony & the Johnsons e de Erik Satie sensivelmente pela mesma altura, vagabundo das ruas de Paris no início da idade adulta) voga entre a pop, o jazz e – empurrado pelo timbre de voz como que para um destino – o classicismo crooner.

Eternos cultores do curto prazo


escafandro,

Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque propunham-se economizar nos juros, antecipando pagamentos ao FMI. Como José Sócrates e Teixeira dos Santos em 2009 (relembre-se a delícia que constituiu a renegociação dos contratos das PPP), Costa e Centeno preferem assumir mais juros e adiar o pagamento das dívidas. A partir de 2018 (terá entretanto ocorrido nova crise económica? Permanecerão os mercados de dívida abertos para Portugal? Será comportável o custo de a eles aceder?) logo se verá como pagar. Sendo improvável que os cofres continuem cheios, pode sempre exigir-se um perdão.

Alguns álbuns de 2015: “Art Angels”, de Grimes


escafandro,

O outro concentrado de sonoridades do ano, impossível de apreender num único tema (talvez por isso o vídeo oficial inclua dois). Grimes (a canadiana Claire Boucher) faz apenas pop mas é pop que mistura e reinventa todas as regras. Ao contrário do que sucedia no álbum anterior (Visions, de 2012), nem sequer evita pisar os terrenos do kitsch.

Alguns álbuns de 2015: “Coming Forth by Day”, de Cassandra Wilson


escafandro,

Fraco conhecedor do universo do Jazz, remeto os fãs para um texto recente do José Navarro de Andrade. Contudo, não posso deixar de assinalar o lançamento do melhor álbum de Cassandra Wilson em mais de uma década. Com a ajuda do produtor Nick Launay (PiL, Kate Bush por alturas de The Dreaming, Nick Cave and the Bad Seeds e mais uma data de gente talentosa), Wilson elaborou um tributo a Billie Holliday que é ao mesmo tempo sólido e etéreo, escuro e iluminador, rouco e deliciosamente suave.

Alguns álbuns de 2015: “Sprinter”, de Torres


escafandro,

Torres chama-se na verdade Mackenzie Scott. Num bom exemplo da geografia móvel de tantos norte-americanos, nasceu em Brooklyn (em Janeiro de 1991), cresceu em Macon, na Georgia, e mudou-se para Nashville após o ensino secundário. A música do seu (já) segundo álbum funciona num permanente jogo de tensões (medos, raivas, desejos, arrependimentos) que remete para algumas cantoras surgidas na década de 1990 – e, mais especificamente, para P. J. Harvey. Resta esperar que, saída da fase de pós-adolescência, Mackenzie (o nome «Torres» faz-me pensar num tipo alto e com bigode, ligado ao futebol) seja capaz de construir um percurso tão consistente e relevante como o da britânica.

Alguns álbuns de 2015: “Carbono”, de Lenine


escafandro,

Há um conceito por trás do álbum, uma tentativa de transferir para o plano humano a alotropia (capacidade de um elemento químico apresentar formas e propriedades distintas) do carbono. Ele pode encontrar-se na mistura de sonoridades (que vão da tradição sertaneja ao rock mais desbragado) e no cariz humanista das letras (preocupadas com o equilíbrio ecológico mas, de forma quase geral, louvavelmente desprovidas de declarações grandiosas ou de proclamações políticas). No entanto, como tantas vezes sucede em casos similares, é perfeitamente possível apreciar-se este lote de canções sem o conhecer.

Alguns álbuns de 2015: “Natalie Prass”, de Natalie Prass


escafandro,

O primeiro álbum de Natalie Prass, gravado em 2012 e deixado a marinar até 2015, encontra-se repleto de canções delicadas assentes em orquestrações ambiciosas. Na Pitchfork escreveram que se destacou dos restantes trabalhos de música de autêntica raiz americana (definida em pinceladas largas como uma mistura de soul, country e sonoridade dos musicais da Broadway) não pela sua genuinidade (disso há aos montes, aparentemente) mas pela sua artificialidade. Talvez tenham razão. Há no trabalho um lado cerebral, polido, meticuloso, que poderia revelar-se excessivo e afastar o ouvinte. Em vez disso, mantém-no envolvido e expectante.

 

(Numa análise rápida, é possível que este vídeo também pareça demasiado artificial e, acima de tudo, demasiado colorido para o Inverno; e, todavia – desculpem-me desde já mas ao sábado permito-me o ocasional excesso -, um raio de Sol por entre a chuva gera quase sempre um arco-íris.) 

“A Quinta”, edição candidatos à presidência


escafandro,

A falta de desteridade que há muito pulverizou as minhas esperanças de conseguir uma carreira brilhante (embora discreta) no carteirismo, bem como as dimensões minúsculas das teclas do telecomando (seguirá queixa para a Anacom), levaram a me encontrasse, impreparado como um recém-nascido (excepto pela nudez, que o Inverno chegou finalmente), a assistir ao debate de ontem entre Marcelo Rebelo de Sousa e Sampaio da Nóvoa. Foi muito estranho. Não obstante sentir imediatamente uma forte vontade de mudar de canal, permaneci incapaz de o fazer, o corpo paralisado, os olhos esbugalhados e a boca semiaberta num arremedo de sorriso. Mais tarde, o cérebro já liberto por acção da publicidade (quem diria…), percebi que era afinal lógico: não passara do conhecido efeito dos reality shows. E, nessa perspectiva, a minha crítica tem de ir para Clara de Sousa. Apenas ela destoou, ficando longe de fazer esquecer Teresa Guilherme.

Balanço provisório, antes de Costa cumprir as promessas e começar a reabrir tribunais


escafandro,

Percebo quase nada das minudências do sector da Justiça e espero bem assim poder continuar. Mas lembro-me dos ataques suscitados pela acção de Paula Teixeira da Cruz, muitos dos quais feitos por representantes importantes do próprio sector. Sendo certo que existiram falhas, comprova-se agora – de novo – que ataques desse género indiciam a realização de um bom trabalho.

Alguns álbuns de 2015: “The Abyss”, de Chelsea Wolfe


escafandro,

Na música como noutras artes, o niilismo tem uma vertente reconfortante: existe afinal alguém com quem partilhar raiva e desencanto. Nos álbuns anteriores, as canções da californiana Chelsea Wolfe (intituladas Feral Love, Destruction Makes the World Burn Brighter ou They’ll Clap When You’re Gone) pareciam encontrar-se sempre à beira da explosão – mas esta nunca ocorria. Nos quatro primeiros temas de The Abyss, Wolfe permite que a sua música se expanda e entre quase no território do heavy metal. Depois acalma, como que percebendo a inutilidade do exercício.