Música recente (20)


escafandro,

 Radiohead, álbum A Moon Shaped Pool.

Os estratagemas de marketing e a insatisfação – parte niilismo, parte lamúria – com o estado do mundo podem começar a irritar, mas a música permanece motivo suficiente para continuar a prestar atenção aos Radiohead. E por vezes Thom Yorke acerta em cheio nas letras: a low flying panic attack é uma imagem brilhante.

Música recente (19)


escafandro,

Miossec, álbum Mammifères.

O francês está longe de ser a minha língua favorita. Ainda assim, de vez em quando forço-me a prestar atenção a alguma música que se vai fazendo pelo Hexágono. Christophe Miossec tem uma carreira longa, baseada em música mais eléctrica e «barulhenta» do que a constante deste álbum. Há quem diga que vem amolecendo. Talvez. Afinal, em On y Va, canta «On a changé, on a vielli». Acontece a todos. 

Diário semifictício de insignificâncias (6)


escafandro,

Cinco e quarenta e cinco da manhã e as gaivotas outra vez em alvoroço. Pareciam feirantes enraivecidos. Isto numa rua que nem fica perto do mar.

Não as percebo. Parecem manter-se permanentemente entre o desdém e a ira – o que, vejo-o agora, até as torna semelhantes a alguns humanos (que também não percebo). Vocalizam um e outra em voos circulares ou pousadas no topo dos prédios, pescoço esticado, goelas bem abertas, como que se imaginando dinossauros (T-Rexes minúsculos mas vitoriosos no final de um Jurassic Park). Frequentemente, sinto que estão prestes a atacar-me. Volteiam sobre mim, guinchando como se as tivesse ofendido. Há meses, uma rasou-me a cabeça (traiçoeira, viera em silêncio). Nas últimas semanas, escapei duas vezes, por curtíssima distância, a um banho de dejectos. E o seu olhar não admite dúvidas: fosses mais pequeno e dava cabo de ti; mesmo assim, talvez ainda dê. Não custa perceber onde Du Maurier foi buscar a ideia para o conto em que Hitchcock baseou o filme.

Chego a ponderar se serão os animais mais irritantes que existem. Depois lembro-me dos mosquitos e das melgas. E dos humanos, claro. Afinal, às seis e cinco alguém começou a martelar na rua.

Diário semifictício de insignificâncias (5)


escafandro,
C. disse-me que a minha posição sobre a nadadora Yulia Efimova demonstra quão volúveis são os homens, por muitas declarações que façam – que eu faça – em contrário. No caso de mulheres desportistas, disse ela, nunca escolhem quem apoiar em função da qualidade atlética. Fazem-no sempre com base na aparência física.

Um: não acho que faça assim tantas declarações em contrário. Dois: achei típico que a minha ironia lhe tivesse passado ao lado. Três: acho irónico que a acusação venha de alguém que é fã confessa de Hugh Jackman, Michael Fassbender e Tom Hiddleston, e que, detestando futebol, não perde uma oportunidade de observar o Cristiano Ronaldo, em especial quando ele despe a camisola.

Mas ela tem alguma razão, claro. Quando nada mais se sabe da pessoa, a beleza é fundamental. Atrai ou (por mecanismos de competição e despeito) repele. E a verdade é que na natação (como, até certo ponto, no atletismo, mas não noutras modalidades) se torna difícil escolher por factores de índole técnica. Eu torcia pela Kim Clijsters devido à forma cheia de garra como ela jogava ténis, não por me atrair fisicamente. Ao ver as provas de ginástica artística, e ainda que nada perceba do grau de dificuldade dos movimentos, há exercícios que me suscitam mais admiração do que outros. Em tempos fui fã da equipa de voleibol da Polónia não porque as suas jogadoras fossem mais atraentes do que as de outras selecções (à época, as holandesas eram deslumbrantes), mas porque vi um jogo em que, estando quase sempre atrás no marcador, elas nunca desistiram de lutar (ainda assim, perderam).

Na natação, contudo, é-me impossível distinguir entre o estilo de Efimova e o de Lilly King, a norte-americana que a derrotou nos 100 metros bruços. Ou entre os de Sarah Sjöström, Katie Ledecky e Federica Pellegrini. E, por conseguinte, a decisão sobre quem apoiar (e ver desporto sem estar a torcer por alguém não é a mesma coisa) depende exclusivamente de factores extra-competição. Do país de origem. Da postura. De um trejeito. Da observação de um comentador. Da beleza. Por isso o meu coração balançava entre Sjöström e Pellegrini, durante a final dos 200 metros em estilo livre. De nada serviu. Ganhou o fenómeno Ledecky, uma espécie de Phelps no feminino. E anteontem Efimova foi novamente batida, desta feita nos 200 metros bruços, pela japonesa Rie Kaneto. Ou eu dou azar (chamemos-lhes a sina do sportinguista) ou a beleza é pouco útil dentro de uma piscina. No caso de Efimova, pode até especular-se se os Jogos Olímpicos estarão sujeitos aos critérios de Hollywood, segundo os quais um vilão nunca pode ganhar. Mas penso que não: duas medalhas de prata para a vilã dos Jogos dificilmente seria considerado um desenlace adequado por qualquer argumentista lá dos States. A mim, pareceu-me um final razoavelmente feliz.

Critérios… er, jornalísticos?


escafandro,

Ontem, a RTP1 abriu o telejornal com os incêndios. Depois passou para os últimos dados do INE sobre a evolução da economia portuguesa. A TVI também abriu o noticiário das 20 horas com os incêndios. E depois também passou para os últimos dados do INE sobre a evolução da economia portuguesa. Por seu turno, a SIC abriu o noticiário com os incêndios. Depois fez intervalo. Depois continuou com os incêndios. Depois passou para a peregrinação a Fátima. Depois para um alcoolizado apanhado em contramão na A22. Depois para os protestos dos lesados do BES. Depois para os Jogos Olímpicos. Depois para a abertura do campeonato nacional de futebol. Depois para a presença de Paulo Bento no Olympiakos. Depois para reportagens turísticas em São Miguel e no Porto. Depois para o Festival Sol da Caparica. Depois para a previsão meteorológica. E depois Rodrigues Guedes de Carvalho desejou-nos boa noite e bom fim-de-semana.

Dívida e crescimento económico em tempos de «geringonça»


escafandro,

Não obstante a austeridade ter acabado e já não ser preciso compensar um défice de 10% através das tranches dos empréstimos da Troika, a UTAO estima que a dívida pública tenha subido para 131,6% do PIB. Ressalva, porém, a existência de factores que poderão fazê-la aproximar-se do valor previsto pelo governo para o final do ano (124,8%): a amortização da Obrigação de Tesouro com maturidade em outubro de 2016, e a utilização de depósitos da administração central para recompra de dívida pública e/ou amortização do empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI). Avisa depois que também existem riscos, entre os quais o de um crescimento económico abaixo do objectivo.

A UTAO quase tem razão. A areia na engrenagem é o último factor já não constituir um risco, mas uma certeza: basta analisar os números saídos hoje para o perceber. (Tsk, tsk, quem poderia alguma vez ter antecipado que a «geringonça» causaria uma quebra no investimento?) E, assim sendo, no final do ano, uma de duas: ou a dívida pública terá aumentado significativamente ou os tão polémicos «cofres cheios» de Maria Luís Albuquerque terão sofrido um grande rombo. Em condições normais, a escolha dependeria de uma análise aos efeitos mediáticos de cada opção (esvaziar os cofres talvez passasse despercebido). O governo, todavia, possui dois trunfos: a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e a eventual venda com prejuízo (ou não-venda) do Novo Banco. Qualquer destes acontecimentos será ouro sobre azul, permitindo não apenas disfarçar a parte da história do aumento da dívida que convém manter escondida como, ainda por cima, transferir responsabilidades para o governo anterior.

Sócrates e Teixeira dos Santos também o sabiam: os falhanços apenas são graves no momento em que já não é possível escondê-los.

A esquerda dos direitos


escafandro,

Portugal arde. O ministro do Ambiente afirma que os valores de área ardida são inferiores aos de 2015. Portugal continua a arder. O primeiro-ministro manda dizer que interromperá as férias para se deslocar à Protecção Civil. Portugal arde cada vez mais. O governo parece sair finalmente do estupor veranil. O Funchal arde. O primeiro-ministro promete enviar 30 elementos para ajudar no combate às chamas, entre bombeiros, polícias e elementos da protecção civil. Depois aumenta a oferta para 110. Ainda assim, Portugal continua a arder. Várias pessoas morrem. O governo pede ajuda aos parceiros europeus. Espanha envia dois aviões. A ministra da Administração Interna mostra-se insatisfeita com a resposta europeia ao pedido de ajuda. O primeiro-ministro diz que a União Europeia tem que ter noção de que é necessário um reforço de meios. Um representante da União Europeia lembra que os meios são limitados, pertencem aos países-membros e que vários destes também enfrentam incêndios (França, por exemplo) ou encontram-se em situação de risco elevado. Entretanto, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista vão discretamente exprimindo preocupação e – pasme-se – impotência.

A «geringonça» transformou Portugal num dos paradigmas da esquerda actual. Só existem direitos. O direito a receber ajuda imediata e sem condições (seja ela financeira ou material); o direito a violar as regras; o direito a manter políticas que os parceiros europeus consideram erradas; o direito a fazer o que, soberanamente, muito bem se entender. Para os outros, ficam os deveres.

Diário semifictício de insignificâncias (4)


escafandro,

O pastor alemão estava outra vez na Praça da Galiza à hora de almoço. Acho estranho, a dona fazê-lo correr com este calor. Mas lá andavam, ela parada à sombra, ele em sprints desenfreados atrás de um pau, a língua balançando fora da boca. Parei um instante a observá-lo. A certa altura, a dona deve ter achado que já bastava e parou de lançar o pau. Ele sentou-se, arfando, a língua ainda e sempre pendurada, o olhar oscilando entre a face da dona e o galho caído na relva.

Fico maravilhado com a capacidade de coordenação de movimentos dos cães. Não quando correm atrás de um pau ou de uma bola, como aquele fizera momentos antes. Nessas alturas, até me parecem desengonçados. Mas quando os vejo ofegantes, com cinco centímetros de língua de fora, surpreende-me que consigam sempre fechar a boca sem a trincar. Tenho vontade de lhes fazer festas e de lhes dizer: «Bom trabalho.» De lhes dar um biscoito. A minha língua é muito mais curta, tento mantê-la dentro da boca em quase todas as circunstâncias (mesmo no Verão, em que suo as estopinhas) e, ainda assim, mordo-a com frequência.

Não devia generalizar a partir da minha experiência, mas há uma inteligência profunda em evitar os erros mais básicos que os humanos têm vindo a perder.

Trump e outros populismos


escafandro,

A maior tragédia da candidatura de Donald Trump seria a sua eleição. Felizmente, tal começa a parecer improvável.

A segunda maior tragédia da candidatura de Donald Trump – como, de resto, da maioria dos populismos, sejam estes de direita ou de esquerda – é distorcer o debate, afastando-o dos temas e das soluções que verdadeiramente importaria discutir.

As políticas de Barack Obama, que Hillary Clinton prosseguirá, são passíveis de inúmeras críticas: o aumento exponencial da dívida, a que correspondeu apenas um crescimento tímido da Economia; os riscos gerados pela política financeira, de – não obstante a retórica em contrário – apoio a Wall Street; a estagnação dos níveis salariais; o recrudescimento da violência racial; a tendência para o aumento de impostos; as hesitações e contradições da política externa. Seria fundamental que existisse uma oposição à altura, chamando a atenção para estas e outras questões (mas questões verdadeiras, não as que se baseiam em números inventados ou em sensações, como o putativo aumento da criminalidade) e avançando com propostas alternativas, concretas e viáveis. No mínimo, a discussão forçaria o Partido Democrata a clarificar e a refinar propostas. Nada disso está a acontecer. As frases ocas de Trump, a sua incoerência e a sua incapacidade para manter a discussão no plano das ideias (invariavelmente, e ao melhor estilo autocrático, ele responde a críticas de cariz político com descabelados – perdoe-se-me o trocadilho – ataques pessoais) deixa terreno aberto a Clinton para que possa ser eleita não apenas com relativa facilidade mas sem ver o seu programa devidamente escrutinado.

Isto é terrível para a democracia. Os populismos são perigosos por criarem realidades alternativas e fazerem muitas pessoas acreditar no impossível, mas também por (1) levarem os adversários a entrar por seu turno na baixa política dos ataques pessoais e das promessas irrealistas (ou, a prazo, prejudiciais), (2) diminuírem a extensão e qualidade do debate sobre o que verdadeiramente é possível fazer, e (3) queimarem pontes para compromissos futuros. Mesmo que os populistas não vençam as eleições, a conjugação destes factores aumenta a probabilidade de que sejam (ou continuem a ser) implementadas políticas erradas. E o resultado de políticas erradas é o aumento da insatisfação e dos populismos. O círculo vicioso perfeito. O círculo vicioso em que o Partido Republicano se deixou aprisionar. (A terceira maior tragédia da candidatura de Donald Trump é o modo como fragiliza o partido de Abraham Lincoln, ainda que – sejamos honestos – o processo tenha começado antes dela.) O círculo vicioso que, com ligeiras variantes, elegeu o Syriza, deu força ao Podemos, ao UKIP, à AfD e à Frente Nacional, destruiu o PASOK e ameaça o PSOE, e poderá vir a esvaziar ou a fragmentar o PS, se – e talvez fosse mais adequado escrever «quando» – o falhanço da demagogia em curso forçar uma crise.

Diário semifictício de insignificâncias (3)


escafandro,

O fumo no ar do Porto, causado por incêndios florestais nos arredores, era hoje um pouco menos intenso. Ainda assim, continua a notar-se, mesmo dentro de casa, onde parece ter já entranhado tecidos, livros e objectos de decoração. Não deixa de ser curioso: quando vim para a cidade pensei que os incêndios florestais ficariam remetidos para os ecrãs de televisão. Que a visão das chamas nas encostas da Serra da Estrela ou do Açor, e o cheiro do fumo, recordações fortes da minha infância, passariam a fazer parte do passado. Foi verdade no caso da visão das chamas, não do cheiro. Residindo no centro do Porto, e antes disso em Vila Nova de Gaia, quase todos os anos o sinto. Ontem, acompanhado pelas imagens televisivas que chegavam do Funchal (linhas e pontos cor de laranja tremendo numa encosta mergulhada na escuridão), fez-me relembrar essas noites veranis, nas quais a minha mãe mantinha um estado de ansiedade constante, ainda que as chamas estivessem a quilómetros de distância, e o meu pai fingia um grau de despreocupação raramente verdadeiro. Comportamento que provavelmente terão recuperado, um e outro, nos últimos dias.

(Devia ter-lhes ligado. Agora são onze e meia, já é tarde. Ainda que a minha mãe – pelo menos ela – deva estar acordada.)

Diário semifictício de insignificâncias (2)


escafandro,

Na segunda temporada da série televisiva Happy Valley, da BBC, há uma mulher que se apaixona por um assassino cumprindo pena. Para ela, um rapaz tão atraente não pode ser um verdadeiro criminoso. Este é o género de problema que me surge quando, nos filmes ou nos livros, as vilãs atraentes são punidas (ainda me lembro da comoção que, há trinta e tal anos, me causou a morte de Milady de Winter, n’Os Três Mosqueteiros). De alguma forma (injusta, eu sei), uma criatura bela por fora não pode ser feia por dentro. Seria um desperdício.

Assisti à final dos 100 metros bruços nos Jogos Olímpicos pensando que devia estar a torcer pela lituana Rūta Meylutitė ou por uma das norte-americanas. O problema é que na pista 5 se encontrava Yulia Efimova, russa, associada a casos de doping – mas dolorosamente bela. Não sendo lituano ou norte-americano, como resistir? (Algum do público presente na piscina conseguiu fazê-lo, vaiando-a à entrada, mas havia por lá muitos nadadores, familiares de nadadores e treinadores de outros países.)

Efimova acabou em segundo lugar, entre as duas norte-americanas. Chorou. Só pode estar inocente.

Música recente (16)


escafandro,

PJ Harvey, álbum The Hope Six Demolition Project.

Vinhetas cruas sobre locais geograficamente tão distantes como o Kosovo e os arredores de Washington DC, que arranjaram problemas a PJ por não ficar evidente uma posição pessoal (e sentimental). Aparentemente, nos tempos que correm é proibido confiar na capacidade de interpretação do receptor. Inteligente e corajosa (ao contrário, por exemplo, do escritor Ian McEwan, numa polémica recente sobre pessoas transgénero), ela tomou a atitude correcta: permaneceu em silêncio.

 

(Para eventuais interessados: PJ estará no Coliseu de Lisboa no dia 27 de Outubro.)

Diário semifictício de insignificâncias (1)


escafandro,

O calor põe o meu corpo a lutar consigo próprio. Na face interior dos cotovelos e dos joelhos desenvolvem-se áreas vermelhas que ardem como feridas tratadas com álcool. É como se a minha pele fosse tóxica para ela mesma. Ou como se fosse tóxica, tout court (não passa assim tanto tempo encostada a outras peles para que me seja possível ter certezas). O calor faz-me sentir uma rã dos trópicos, húmida e venenosa. (Agora – que estupidez – estou a pensar no filme de animação Rio 2.) E o problema não surge apenas nos cotovelos e nos joelhos: o suor queima-me os olhos; nos ombros surgem-me pequenas crostas. Todo eu pareço exsudar veneno. Entre o desespero e a auto-ironia (a distância é curta), procuro convencer-me de que existe um lado positivo. De que talvez seja terapêutico. De que talvez seja o veneno que vou acumulando ao longo do ano – a bílis fermentada – a sair. Só espero que não destrua o ozono ou faça aumentar o teor de dióxido de carbono na atmosfera.

A festa do caminho para a pobreza


escafandro,

Hoje elegemos aqueles que prometem gastar mais e prometem conseguir da UE a autorização para nos tornar mais pobres. O facto do senhor alemão nos emprestar dinheiro para gastarmos mais no Estado, não nos faz mais ricos, faz-nos mais pobres. Mesmo que parte desse dinheiro que pedimos emprestado para pagar o Estado nos venha a beneficiar, vamos ficar a dever a totalidade desse dinheiro. Na verdade, só parte do dinheiro que gastamos no Estado beneficia o país e, no entanto, o país assume a totalidade da dívida. Tal como no passado o escudo desvalorizava nas nossas carteiras, hoje os euros que temos vão desaparecendo porque ganhamos alguns, mas ficamos a dever muitos.

(…)

Mas se estarmos no euro e não termos moeda própria criou este efeito de pedirmos aos nossos políticos para que nos tornem mais pobres e ataquemos os comissários europeus que tentam impedi-lo, há um efeito que, não sendo positivo, é esperançoso para os nossos filhos. Esse efeito é que a dívida que está sobre a cabeça dos nossos filhos, resolve-se em 30 anos, mas também se resolve em 250 km. Como os filhos de milhares de pessoas neste país que deixaram de ter este problema porque foram trabalhar para outras zonas desta economia que vai de Lisboa até Vilnius. Aos poucos, Portugal vai desaparecendo da frente do Estado português. A maioria já nem vai votar porque, na verdade, é irrelevante para as suas vidas. E muitos começaram já a usar o facto de serem europeus para mandarem Portugal para trás das costas. Este povo que faz força por ser pobre, felizmente tem filhos que recusam sê-lo. Se é verdade que vamos empobrecendo porque vamos criando uma dívida ao mesmo tempo que trabalhamos e isso não nos afeta no imediato, para quem está a começar a vida isso funciona como um tampão, porque uma sociedade que vive para pagar impostos, não tem empregos. A nossa recusa em aceitar os conselhos da comissão europeia, leva-nos aquilo que de mais importante temos: o futuro.

Por isso estamos mais pobres a cada dia que passa e é por isso que os senhores da comissão insistem connosco. E não estamos mais pobres por azar, estamos porque merecemos e escolhemos. O mesmo ministro das Finanças alemão disse há umas semanas que a sua maior preocupação era Portugal. E isso é bom, que ele se preocupe connosco. O mau, é nós não nos preocuparmos nada e continuemos a fazer festas porque vamos para mais pobres. O lado positivo da coisa é que pode ser que os nossos filhos venham visitar os pais cá na terra. Talvez por altura das festas…

João Pires da Cruz, no Observador.

Música recente (14)


escafandro,

Esperanza Spalding, álbum Emily’s D + Evolution.

Complexo, desafiante, vogando sem complexos entre a pop, o r&b e o jazz, o álbum mais recente de Spalding – ódio de estimação dos fãs de Justin Bieber, após derrotar o canadiano no Grammy para melhor novo artista em 2011 (chegaram a vandalizar-lhe a página da Wikipedia) – é um caldeirão intoxicante.

 

(Nota: A versão deste tema presente no álbum é bastante mais curta.)