Notícias de um país desprovido de austeridade


escafandro,

Dívida pública aumentou mais de 8,5 mil milhões de euros no primeiro semestre.

 

Valor do IMI vai depender da exposição solar e da qualidade da vista.

Nota 1: Quem avaliará? Um «especialista» em vistas? Um algoritmo informático programado por um nerd especialista em vistas? Uma empresa idónea de um ex-assessor do governo?

Nota 2: À atenção das universidades – cursos de «avaliação de vistas e exposição solar» poderão vir a ter muita procura.

Na Guerra e no Amor


escafandro,

«A coisa de que Amílcar Tinoco mais tinha orgulho na vida era um garanhão chamado Pégaso. A segunda, uma égua chamada Epona (ele tinha a mania de escolher nomes da mitologia que ninguém por aqui entendia). Com uma ajudinha de Pégaso, ela trouxera ao mundo dois dos cavalos que mais lucro lhe tinham proporcionado. A terceira coisa de que ele mais se orgulhava era um podengo alentejano chamado Tejo (os cães não lhe mereciam as mesmas honras que os cavalos). A quarta era a herdade, a quinta, o muito dinheiro que tinha, a sexta, a filha, a sétima, a amante, a oitava, um bom copo de vinho, a nona, o filho, e a décima talvez fosse a mulher. Toda a gente o sabia e, se quanto à ordem dos últimos pontos ainda podia haver discussão, os primeiros dois eram evidentes para qualquer pessoa.»

«Já sei isso tudo. E depois?»

Encolho os ombros. Ele tem quarenta e sete anos mas continua a pessoa totalmente incapaz de raciocinar para além do que lhe dizem (ou seja, de raciocinar, pura e simplesmente) que sempre foi. Deve dizer algo sobre mim ter gerado um filho assim. Se bem que – convém não esquecer – a mãe também nunca teve imaginação ou queda para raciocínios elaborados. Coisa que, no caso dela, até calhava bem. Serafim (nunca gostei do nome mas Alice insistiu – «apesar de tudo, era o nome do meu pai, coitado») deve ter saído a ela. Não na beleza, porém. Alice aguentou-se até ao fim com uma aparência invejável e uma quantidade surpreendentemente baixa de rugas, até mesmo no pescoço, a zona onde quase toda a gente acaba por parecer um peru. Sei que estou pior do que ela estava. Pior do que ela estava há dez ou quinze anos, até. Careca, barrigudo, com pêlos saindo-me das narinas e das orelhas que não vale a pena cortar (voltam passados dias, se não horas), expressão de permanente resignação que a maioria (este idiota do meu filho, por exemplo) toma por mau humor. Estou acabado. Mas permaneço vivo.

Estamos sozinhos na sala. A mulher dele – uma lisboeta magra que se diz gestora e que quando não é histérica se limita a ser incoerente – seguiu para Lisboa de comboio. Por causa das crianças, disse. Duas raparigas, de onze e nove anos, a caminho de serem tão tontas quanto os pais (mas adoro-as, atenção – que alternativa tenho?). Serafim insistiu em passar cá a noite – «Não aceito que fiques sozinho.» Ora merda. Como se fosse mais fácil estando com ele. Expliquei-lhe que amanhã ao nascer do Sol já aqui estarão várias pessoas, dentro de casa e lá fora, a tratar dos animais. Nada feito. «Não quero que passes o tempo a pensar na mãe», explicou. Que mal faria? Seria melhor do que aguentar este arremedo de conversa. E Alice merecia que se pensasse nela. Podia não ser imaginativa mas era prosaica e sensata. Serafim também se acha sensato (ser ou não prosaico nunca lhe deve ter passado pela cabeça) mas é apenas chato.

«Sempre deixaste entender que havia mais qualquer coisa por trás da forma como vocês acabaram por casar», diz ele. Está sentado num dos sofás individuais que, de repente (constato-o com um choque que por instantes me leva a não processar as palavras dele), me parecem extraordinariamente antigos, apesar de Alice e eu os termos comprado ainda nem há dez anos. E então percebo que tudo ficou umas dezenas de anos mais velho nas últimas vinte e quatro horas, incluindo eu.

Tento lembrar-me do que ele disse.

«Não deixei entender nada», respondo. «Disse-to uma vez, tinhas tu dezoito anos.»

Permite-se um sorriso. Tem um copo na mão. Foi buscá-lo logo que chegámos. Despejou dois dedos de whisky lá para dentro e veio sentar-se. Agora mantém-no suspenso sobre o braço do sofá. Uma pose, toda a sequência. Influenciada por filmes americanos e por telenovelas que os copiam. Uma cópia em terceiro grau, portanto.

«Por causa da Francisca. O que é feito dela?»

«Casou, emprenhou, engordou. Mais ou menos o mesmo que tu. Excepto a parte do emprenhar.»

«Hoje podes dizer o que quiseres, eu recuso chatear-me.»

«Ora merda, então onde está a piada?»

Cumpre a promessa e ignora a provocação, o balofo bastardo – não, bastardo não, que ele é de facto meu produto infeliz. Quem diria que os meus genes, misturados com os de Alice, dariam nisto? Bom, convenhamos que, apesar do código genético dele poder ser mais parecido com o meu (e com o dela) do que com o de qualquer outro ser humano, não deixa de ser quase tão parecido com o de um orangotango como com o nosso.  

«Numa coisa tinhas razão. Disseste-me que eu não a amava.»

«Disse-te que não sabias o que era o amor.»

«Isso.»

«E ainda não sabes.»

«Não comeces. Eu e a Liliana damo-nos muito bem.»

«Excelente.»

«Achas mesmo que a tua relação com a mãe era diferente? Só por causa das dificuldades que o pai dela vos causou?»

«Não, não é só por isso.»

«Então?»

Como é que se consegue que um idiota sem imaginação perceba que a realidade era muito diferente quando ele ainda nem na fase de espermatozóide se encontrava? Como é que se descrevem as décadas de cinquenta e sessenta do século passado numa povoação atrasada de um país atrasado a um frequentador de centros comerciais e praias algarvias?

«A minha relação com a tua mãe assentava em esforços e sacrifícios que tu nem consegues imaginar.»

«Sempre achei piada às tuas tentativas para vos fazer passar por Romeu e Julieta. Quer dizer, às vezes só achava ridículo.»

«Romeu e Julieta… Não é tão descabido como pensas.»

«Vocês não morreram por amor. Aliás, duvido que fosses capaz de morrer por amor.»

«Ai achas? Bom, talvez tenhas razão. Nunca o faria havendo outras possibilidades.»

Consulta o relógio. «Vou para a cama», diz.

Devia deixá-lo ir. Devia deixá-lo ir dormir e amanhã seguir para Lisboa e voltar à sua vidinha modorrenta, ao lado da mulher que conheceu num escritório, que atraiu com meia dúzia de lugares-comuns, com quem foi para a cama ao segundo ou terceiro encontro, cujos pais sorridentes encontrou pela primeira vez depois de ir para a cama com ela, e que ama o suficiente para, de longe a longe, aceitar ser arrastado para duas horas de O Lago dos Cisnes no Coliseu ou para uma exposição de garrafas vazias penduradas do tecto no Centro Cultural de Belém. Em vez disso, digo:

«Eu era filho de camponeses analfabetos e, ainda por cima, o teu avô tinha fama de bêbado – e de comunista. Apesar de beber e de não gostar do Salazar, não era nem uma coisa nem outra. Eu tinha feito a quarta classe mas trabalhava a tratar de cavalos e vacas e nunca havia de fazer outra coisa. O teu avô Serafim tinha terras, gado, considerava-se um latifundiário. Queria lá um vagabundo como eu para genro.»

«A mãe também só tinha a quarta classe.»

«De onde já podes ver a mentalidade dele. Podia tê-la mandado estudar. Mas era mulher, não valia a pena. Tinha era de lhe arranjar um marido decente. E eu nunca o seria.»

«Caramba, postas as coisas assim, parece que vivias na Idade Média!»

E é este gajo licenciado em direito. O meu filho. Incapaz de ver um palmo à frente do nariz. Nascido numa década de sessenta em que efectivamente muitas zonas deste país de merda mal tinham saído da Idade Média mas sem qualquer noção disso; sem qualquer noção de que o mundo em que se tornou adulto era já um mundo diferente. E, no fundo, por que haveria de a ter? Para os padrões locais, cresceu rico, sem preocupações. Teve brinquedos e televisão, foi ao cinema, desfrutou de viagens frequentes a Lisboa. Nunca pegou numa enxada a não ser para fingir que cavava. No passado, tentei muitas vezes que o percebesse, para grande ofensa dele e grande aflição da mãe. Desta vez fico calado.

Ele abana o copo com o whisky e diz: «Uma coisa que sempre estranhei é que gostavas mesmo dela.»

Ignoro a provocação – que mostraria alguma capacidade de raciocínio não fosse a constatação de duas realidades óbvias para qualquer pessoa que alguma vez tenha passado dez minutos comigo e com Alice: a de que a amava e a de que sempre fui um sacana – e centro-me no essencial. É verdade. Amava-a. Durante uns tempos cheguei a pensar fazê-lo por não querer admitir ter feito um mau investimento. Afinal, consegui-la exigira tanto. Mas não; amava-a e pronto, vá-se lá saber porquê. A explicação mais cínica que consigo arranjar, e se calhar também a mais realista, é que sou demasiado teimoso para mudar de ideias. Se aos vinte anos decidi amá-la, era para continuar a fazê-lo até ao fim. E foi.

«Porquê? Não tenho capacidade para amar?»

A mão dele imobiliza-se mas o whisky fica ainda a rodar dentro do copo.

«Para ser sincero, era isso que parecia na maior parte das vezes.»

«Óptimo, alguma sinceridade, finalmente.»

«Nunca tivemos conversas destas.»

«E tens pena?»

Ele fica a pensar na resposta e eu aproveito para continuar: «Outra coisa que toda a gente sabia é que Tinoco era amigo do Salazar. E outra ainda…»

«Por que é que insistes nessa história? O que me interessa o Tinoco? Sei perfeitamente o que se passou.

«Outra ainda é que era um sujeito que fervia em pouca água. Detestava ser contrariado e zelava pelos seus interesses de uma forma quase maníaca. Uma vez apanhou um sujeitinho de Lisboa debaixo de uma azinheira a tentar desempenhar o papel do Pégaso com a filha dele (a tentar cobri-la, para pôr as coisas de forma que não te faça pensar muito) e deu-lhe um tal enxerto de porrada que o rapaz, que hoje é um velho como eu, continua a coxear lá pelas calçadas de Lisboa.»

«Sim, e então?»

«Então o Tinoco detestava o teu avô e o teu avô detestava o Tinoco. Questões de terras e de política. As coisas andavam de tal maneira que o Tinoco tinha morto a tiro um cão do teu avô que lhe apareceu lá perto de casa e ainda se gabou do feito.»

«Eu sei, e então o cavalo apareceu morto e o Amílcar Tinoco, convencido do que tinha sido o meu avô a mandar matá-lo, matou o avô. Já sei isso tudo. Ouvi a história milhares de vezes. E então?»

Ignoro-o.

«Com uma forquilha espetada na barriga. Os dentes da forquilha tinham sido afiados com uma lima. Foi descoberto de manhã, já morto, mas deve ter agonizado durante horas. Ninguém conseguiu segurar o Tinoco. Pegou na pistola e partiu à procura do teu avô. Quase nem o deixou falar. Meteu-lhe uma bala na cabeça e mais duas no peito, as do peito já depois de ele estar no chão. Pelo menos morreu mais depressa do que o cavalo.»

«A tua indiferença é comovedora.»

Uma tentativa de humor. Quase sorrio. Este idiota, que se leva sempre tão a sério, escolhe este preciso momento para tentar uma piada.

«Por que é que havia de fingir tristeza?»

«Era o pai da mulher com que querias casar. O meu avô.»

«Nem mais. O único impedimento ao nosso casamento. Por que é que eu havia de estar triste?»

A compreensão chega-lhe aos olhos como uma cortina semitransparente descendo sobre uma janela. Tem uma certa piada. A compreensão devia iluminar, não escurecer.

«Não estás a falar a sério.»

«Eu lá costumo brincar. Ainda por cima, hoje.»

«Foste tu quem matou o cavalo?»

Encolho os ombros. «Nunca ouviste dizer que na guerra e no amor vale tudo? Quando o amor é a sério, claro.»

A noite de Lua Nova, em meados de Agosto, estava escura, apesar do céu estrelado, e quente, muito quente – abafada como um quarto fechado. Eu transpirava enquanto deslizava pela propriedade de Amílcar Tinoco, fazendo uma volta para não alertar os cães. Levava na mão a forquilha preparada de véspera e usá-la-ia neles, se fosse preciso, mas preferia evitar o ruído. Não sentia medo. Tinha um objectivo e sabia como o atingir. Trabalhava lá, conhecia o terreno, os edifícios, o cavalo. O que poderia correr mal? Nada. E nada correu mal. Correu tudo conforme esperara. A morte do cavalo, que tombou à segunda vez que o espetei com a forquilha e ficou a estrebuchar quase em silêncio, a reacção do Tinoco, o fim do cabrão do velho que não me deixava aproximar de Alice, a ideia generalizada de que tinha sido mesmo ele o responsável pela morte do cavalo (a descoberta da forquilha com os dentes afiados num barracão da propriedade ajudou). Tudo perfeito, então e em todos os anos que se seguiram. O único momento em que senti uma ponta de remorso foi ao ver Alice chorar a morte do pai. Mas passou-me depressa.

Ele levanta-se, ainda a segurar o copo de whisky. Parece-me que a mão lhe treme mas pode ser impressão minha. Já não tenho tantas certezas como quase toda a gente – incluindo este meu filho – julga que tenho. Mas dá-me ideia que disfarço bem.

«A mãe sabia?»

«A tua mãe nunca teve grande imaginação. Como tu.»

Procura um lugar onde pousar o copo. Diz: «Vou-me embora.»

«Tem cuidado na estrada.»

«És um filho da puta.»

«Não, isso não. O único homem com quem a tua avó teve relações foi o teu avô e desconfio até que ele nunca a viu nua.»

Ele parece querer falar mas não saber o que dizer. (Caralho, não é meu filho e, para mais, advogado?) Desiste. Encaminha-se para a porta. No caminho, pousa o copo junto ao televisor desligado. Pára. Roda. Pergunta: «Só mais uma coisa: valeu a pena?»

Olhamo-nos nos olhos.

«Diz-me tu. Não existirias se eu não o tivesse feito.»

Consegue empalidecer ainda mais um pouco. Abana ligeiramente a cabeça, roda outra vez e sai, deixando a porta da sala aberta.

Permaneço sentado. Ouço o ruído da porta da rua e, segundos depois, o do motor do carro. Acho que não penso em nada enquanto o som do motor e dos pneus no cascalho se desvanece. Depois disso, o silêncio parece absoluto. A casa está fria e vazia. Os animais estão calados. Nem o frigorífico, na cozinha do outro lado do corredor, emite o zumbido do costume. Fico sentado durante muito tempo. Podia ir para a cama mas ainda é cedo. De qualquer modo, Alice não vai lá estar à minha espera. Não vai queixar-se de eu demorar, nem dizer que não consegue adormecer antes de eu chegar, nem aquecer os pés nos meus, nem passar a noite toda a acordar e a virar-se na cama porque eu ressono como um motor de rega. Respondo à pergunta que o meu filho me fez: sim, valeu a pena. Até hoje – até ontem – valeu a pena. Depois, cedo ou não, levanto-me e vou para a cama.

 

(Republicado.)

Música recente (10)


escafandro,

Car Seat Headrest, álbum Teens of Denial.

Não obstante problemas de copyright, que forçaram a alterações num tema e à destruição de CDs já produzidos, e à circunstância pouco relevante de, após algum tempo de audição, a voz de Will Toledo começar a bulir-me com os nervos, o álbum está cheio de excelentes canções, num estilo ligeiramente retro.

Música recente (9)


escafandro,

The Magnetic North, álbum Prospects of Skelsmerdale.

Quatro anos após um álbum dedicado às ilhas Orkney (se não conhecem, façam um favor a vós mesmos e ide aqui apreciar um dos temas pop mais belos do milénio em curso), o regresso faz-se evocando uma comunidade habitacional dos anos sessenta, integrada na segunda fase do programa britânico New Town. Com uma componente nostálgica tão forte, custa-me perceber que os The Magnetic North não sejam mais conhecidos em Portugal, o país do fado e da saudade.

Os coveiros da União Europeia


escafandro,

Com a realidade cada vez mais à porta, António Costa e demais «geringonceiros» intensificam os ataques à União Europeia. Não surpreende. Diogo Noivo já o referiu: arranjar um inimigo externo para disfarçar incompetências internas (ou, no caso, um descarado assalto ao poder, da única forma que se encontrava disponível) é manobra clássica para cerrar fileiras e calar dissidências. Na União Europeia, usa-a neste momento a «geringonça» como antes a usou o governo do Syriza. (E como a usam partidos, de direita e de esquerda, sequiosos de formas simples de ganhar votos – programas consistentes dão trabalho, obrigam a fazer escolhas e são frequentemente incompatíveis com a ideologia professada.) Na sequência disto, apenas ingénuos podem admirar-se de que os sentimentos anti-UE cresçam um pouco por todo o lado. Afinal, como estranhar que a vontade de um alemão médio (ou holandês, ou austríaco, ou luxemburguês, ou finlandês, ou polaco, ou checo, ou eslovaco, ou letão, ou lituano, ou estónio, ou esloveno, ou sueco, ou dinamarquês, ou britânico, ou belga, ou até mesmo francês ou irlandês), informado de que a situação económica de certos países piorou devido à acção dos mesmos políticos que, com a aparente concordância dos seus cidadãos, lhe surgem nos ecrãs televisivos e nas páginas dos jornais a imputar todos os problemas à União Europeia, seja mandar estes gajos à merda?

Os amigos dos especuladores


escafandro,

Uma das muitas ironias ligadas à acção da «geringonça» é como tem vindo a ajudar os «especuladores» dos mercados financeiros. Para estes, dívida pública de países pertencentes à União Europeia (ainda uma excelente caução, noutra ironia assinalável em tempos de ataque feroz às suas regras e instituições) com taxas de juro de 3% constitui um óptimo investimento quando muitas outras rondam o zero. É verdade que o investimento só é bom enquanto Portugal for pagando e sabemos que, por vontade do Bloco e do PCP, Portugal não pagaria – mas nesse caso também não obteria mais dinheiro, o que talvez gerasse efeitos desagradáveis (diz-se que a fé move montanhas mas poderá não imprimir euros). Continuemos pois a aplicar políticas que fazem subir as taxas de juro. Cedo ou tarde, a bolsa dos portugueses ressentir-se-á, mas os «especuladores» agradecem.

Eu e Ronaldo


escafandro,

Informação nº 1: percebendo apenas um pouquinho mais de futebol do que de termodinâmica ou de mulheres, sigo os campeonatos de clubes tão pouco quanto a comunicação social e a decrescente destreza dos meus dedos na manipulação do telecomando televisivo me permitem.

Informação nº 2: a capacidade da minha memória diminuiu tanto nos últimos anos como… caramba, juro que ainda agora tinha uma analogia perfeita.

Avancemos. Não obstante tudo o que está atrás ser 100% verdade (OK, exagerei num ponto: sei o bastante sobre termodinâmica para estar consciente de que dois corpos em fricção causam aumento de temperatura e tendem a gerar trabalho), lembro-me do Cristiano Ronaldo dos tempos do Sporting. Um rapaz muito verde (desculpem, não resisti à piada; caso vos seja insuportável, pensem numa folha em branco) mas já com potencial futebolístico para chegar a estrela. Nos anos seguintes, sem prestar grande atenção mas sem conseguir evitá-lo (como poderia?), fui dando conta do nascimento dessa estrela. Tinha e tem duas facetas: a de jogador excepcional, mescla de talento inato e dedicação maníaca, e a de prima-dona, dentro do relvado (ah, aquelas poses na marcação dos livres, que Sepp Blatter tão bem parodiou, antes de infelizes acontecimentos o afastarem de um cargo que distraídos como eu chegam a pensar ser vitalício) e fora dele (carros, mulheres, declarações variadas, campanhas publicitárias, bling bling de gosto duvidoso, microfones e a tendência para exibir aquele torso de Photoshop, exasperante para qualquer macho humano normal). Mesmo consciente de que a segunda faceta podia estar a chegar-me distorcida pela duvidosa acribia (sim, estou a tentar meter nojo) dos títulos dos jornais e dos rodapés dos noticiários televisivos, ainda assim ela impedia-me de ser um fã de Ronaldo. Achava que ele tinha todo a direito a estar orgulhoso do que alcançara (falsas modéstias são-me tão irritantes como textos nos quais os autores procuram desesperadamente introduzir humor) mas descoroçoava-me que ele mostrasse o orgulho de formas ostentatórias e por vezes agressivas. Para ajudar à minha má-vontade, Ronaldo raramente jogava ao mais alto nível nos encontros da selecção (os únicos em que o via), apesar de todos os outros jogadores parecerem ter sido convocados apenas porque as regras não permitiam que jogasse sozinho (manobras de Blatter, certamente).

E depois chegou anteontem e aquela final no Instituto Entomológico de Paris (achei estranho irem incomodar as traças, confesso). Num encontro em que praticamente não jogou, Ronaldo mostrou-me outro Ronaldo. Mostrou-me uma espécie de Ronaldo dos tempos do Sporting, actualizado para um homem de 31 anos. Um Ronaldo esforçado, sincero, sem poses. Um jogador de equipa, que não desiste e dá o seu melhor, até mesmo quando não o pode fazer dentro do campo. Anteontem, num encontro em que o jogador fora de série não pôde surgir porque levou uma cacetada antes dos dez minutos (Ça Alors!, Par Toutatis! e Mille Sabords!), Ronaldo fez-me respeitá-lo como raramente o conseguira antes.

E pronto. Lamento o anticlimático final piegas mas este texto não passa da nota de arrependimento e apreço de um ex-crítico. As piadas foram só uma tentativa para disfarçar o incómodo.

Tensão no estacionamento (Ou: Mais do que o jogo, importa a celebração?)


escafandro,

Partilho a alegria e acho muito bem que se venha festejar para as ruas: em tempos de individualismo, os momentos de comunhão só podem ser benéficos. O que me confunde é a rapidez com que surgiram as caravanas de veículos. Ainda Ronaldo não começara a coxear pelas escadas acima em direcção à taça e a cacofonia nas ruas do Porto – mais serenas do que numa manhã de São João durante o encontro – já era indescritível (um adjectivo muito útil para os momentos em que não sabemos como descrever as coisas). Honestamente, fica-me a ideia de que antes de Éder desferir aquele rematezito fulminante já centenas de pessoas estavam sentadas dentro dos carros, aguardando no escuro a oportunidade de poderem sair a apitar.

Música recente (7)


escafandro,

 Grandfather’s House, álbum Slow Move.

O primeiro álbum de mais uma banda de Braga. Perturbando-me um nadinha, o vídeo ajuda a confirmar a minha antiga sensação de que Braga esconde inúmeros segredos e perversões. (Uma sensação que terá nascido com os Mão Morta e sido reforçada ao aperceber-me da quantidade de festas macabras e procissões lúgubres que por lá ocorrem.) Ou então passa-se apenas que o senhor é o avô e a sua casa necessita de restauro.

 

(Quem preferir ver uma actuação ao vivo, pode ir aqui.)

Avalanche


escafandro,

Os crentes na política de estímulos monetários deveriam hoje sentir-se no paraíso. Aquilo que defendem anda a ser feito por todos os grandes blocos económicos, com bancos centrais e governos entretidos a manipular taxas de juros e moeda, num esforço cada vez mais desesperado para adiar a inevitável correcção, que apenas agrava os problemas dos vizinhos. Este artigo de Ambrose Evans-Pritchard, no The Telegraph, explica como a China, pendurada numa montanha de mau investimento, está a aproveitar o Brexit para violar garantias de estabilidade da moeda, amplificando tendências deflacionistas e criando cada vez mais dificuldades para a economia mundial.

No meio da loucura, meia dúzia de nações da União Europeia, com a Alemanha à cabeça, vêm tentando remar contra a maré. Fazem-no timidamente, é certo, até por estarem conscientes de que a correcção também os afectará. Ainda assim, são vilipendiadas todos os dias. Mas talvez haja lógica nisto: é sinal de estupidez procurar deter uma avalanche. Pelo menos tão grande quanto tentar surfá-la.