Cinco e quarenta e cinco da manhã e as gaivotas outra vez em alvoroço. Pareciam feirantes enraivecidos. Isto numa rua que nem fica perto do mar.
Não as percebo. Parecem manter-se permanentemente entre o desdém e a ira – o que, vejo-o agora, até as torna semelhantes a alguns humanos (que também não percebo). Vocalizam um e outra em voos circulares ou pousadas no topo dos prédios, pescoço esticado, goelas bem abertas, como que se imaginando dinossauros (T-Rexes minúsculos mas vitoriosos no final de um Jurassic Park). Frequentemente, sinto que estão prestes a atacar-me. Volteiam sobre mim, guinchando como se as tivesse ofendido. Há meses, uma rasou-me a cabeça (traiçoeira, viera em silêncio). Nas últimas semanas, escapei duas vezes, por curtíssima distância, a um banho de dejectos. E o seu olhar não admite dúvidas: fosses mais pequeno e dava cabo de ti; mesmo assim, talvez ainda dê. Não custa perceber onde Du Maurier foi buscar a ideia para o conto em que Hitchcock baseou o filme.
Chego a ponderar se serão os animais mais irritantes que existem. Depois lembro-me dos mosquitos e das melgas. E dos humanos, claro. Afinal, às seis e cinco alguém começou a martelar na rua.

Os humanos, sem dúvida. E, quanto a eles, “mais irritantes” será uma bondosa e bem tolerante qualificação.
Quanto ao resto, esse alvoroço das gaivotas, dia ou noite e quando menos se esperaria, é para mim, “mouro” pelo acaso do nascimento e pela inflexível imposição da vida, sinal de que estou na Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto.
Onde nunca me canso de estar. E como poderia?…
Costa
Mas é que elas parecem mesmo fazer questão de andar no Porto. Até há pouco mais de dois anos residi em Vila Nova de Gaia e não me lembro de as ouvir. E, se calhar, não gostam de mim exactamente por perceberem que vim de fora.
Tenho experiência similar. Também vivi em Gaia, agora na Foz e trabalho em Matosinhos. Não sei se me faço entender… 😉 Todavia ao vê-las, voar, pairar, pousar em qualquer lugar, sem predadores visíveis – era em larídeo que gostava de reencarnar… Pombo , não. Embora, vária vezes ao ano, dê pedacinhos de pão às duas, armado em cuidador divino.