Diário semifictício de insignificâncias (6)


escafandro,

Cinco e quarenta e cinco da manhã e as gaivotas outra vez em alvoroço. Pareciam feirantes enraivecidos. Isto numa rua que nem fica perto do mar.

Não as percebo. Parecem manter-se permanentemente entre o desdém e a ira – o que, vejo-o agora, até as torna semelhantes a alguns humanos (que também não percebo). Vocalizam um e outra em voos circulares ou pousadas no topo dos prédios, pescoço esticado, goelas bem abertas, como que se imaginando dinossauros (T-Rexes minúsculos mas vitoriosos no final de um Jurassic Park). Frequentemente, sinto que estão prestes a atacar-me. Volteiam sobre mim, guinchando como se as tivesse ofendido. Há meses, uma rasou-me a cabeça (traiçoeira, viera em silêncio). Nas últimas semanas, escapei duas vezes, por curtíssima distância, a um banho de dejectos. E o seu olhar não admite dúvidas: fosses mais pequeno e dava cabo de ti; mesmo assim, talvez ainda dê. Não custa perceber onde Du Maurier foi buscar a ideia para o conto em que Hitchcock baseou o filme.

Chego a ponderar se serão os animais mais irritantes que existem. Depois lembro-me dos mosquitos e das melgas. E dos humanos, claro. Afinal, às seis e cinco alguém começou a martelar na rua.

0 comentários em “Diário semifictício de insignificâncias (6)”

  1. Os humanos, sem dúvida. E, quanto a eles, “mais irritantes” será uma bondosa e bem tolerante qualificação.

    Quanto ao resto, esse alvoroço das gaivotas, dia ou noite e quando menos se esperaria, é para mim, “mouro” pelo acaso do nascimento e pela inflexível imposição da vida, sinal de que estou na Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto.

    Onde nunca me canso de estar. E como poderia?…

    Costa

    1. Mas é que elas parecem mesmo fazer questão de andar no Porto. Até há pouco mais de dois anos residi em Vila Nova de Gaia e não me lembro de as ouvir. E, se calhar, não gostam de mim exactamente por perceberem que vim de fora.

  2. Tenho experiência similar. Também vivi em Gaia, agora na Foz e trabalho em Matosinhos. Não sei se me faço entender… 😉 Todavia ao vê-las, voar, pairar, pousar em qualquer lugar, sem predadores visíveis – era em larídeo que gostava de reencarnar… Pombo , não. Embora, vária vezes ao ano, dê pedacinhos de pão às duas, armado em cuidador divino.

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