Diário semifictício de insignificâncias (3)


escafandro,

O fumo no ar do Porto, causado por incêndios florestais nos arredores, era hoje um pouco menos intenso. Ainda assim, continua a notar-se, mesmo dentro de casa, onde parece ter já entranhado tecidos, livros e objectos de decoração. Não deixa de ser curioso: quando vim para a cidade pensei que os incêndios florestais ficariam remetidos para os ecrãs de televisão. Que a visão das chamas nas encostas da Serra da Estrela ou do Açor, e o cheiro do fumo, recordações fortes da minha infância, passariam a fazer parte do passado. Foi verdade no caso da visão das chamas, não do cheiro. Residindo no centro do Porto, e antes disso em Vila Nova de Gaia, quase todos os anos o sinto. Ontem, acompanhado pelas imagens televisivas que chegavam do Funchal (linhas e pontos cor de laranja tremendo numa encosta mergulhada na escuridão), fez-me relembrar essas noites veranis, nas quais a minha mãe mantinha um estado de ansiedade constante, ainda que as chamas estivessem a quilómetros de distância, e o meu pai fingia um grau de despreocupação raramente verdadeiro. Comportamento que provavelmente terão recuperado, um e outro, nos últimos dias.

(Devia ter-lhes ligado. Agora são onze e meia, já é tarde. Ainda que a minha mãe – pelo menos ela – deva estar acordada.)

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