Incentivos ao investimento


escafandro,

Na entrevista à CNBC, o ministro das Finanças não se limitou a afirmar que a sua principal missão é evitar um novo resgate. Também garantiu que o governo aposta na captação de investimento. Sabemos todos que, no que respeita ao passado, isto é mentira. Tirando expulsá-los fisicamente do país (lá chegaremos, numa fase mais avançada do glorioso trajecto para o Chavismo), a «geringonça» fez tudo o que podia para alienar os investidores: reverteu privatizações e concessões, anulou reformas fiscais, aumentou o poder dos sindicatos, atacou instituições privadas. Que Centeno conseguisse dizer que o governo incentiva o investimento sem esboçar sequer um sorriso (logo ele) é prova de que, não obstante o lapso ocasional, já vai conseguindo comportar-se como um político (não é elogio). Ou então não estava a mentir; estava a referir-se ao futuro. O governo iria a partir de agora fazer todos os esforços para captar investimento.

Não. Apesar das garantias do ministro lá no estrangeiro, o ataque aos investidores vai continuar. Possui o apartamento onde reside e mais um par deles, comprados e/ou herdados ao longo da vida? Paga IRS sobre os rendas que recebe e IMI sobre o valor patrimonial de cada um? Gasta regularmente milhares de euros a mantê-los em condições adequadas? Não chega. Apostou em bens que não mudam de sítio, merece ser alvo de mais um imposto. Ou então venda-os (acredite em mim: a prazo, um prejuízo moderado revelar-se-á um lucro) e emigre.

 

Adenda: É comovente verificar como Bloco e PCP se digladiam na reivindicação da paternidade do novo imposto. E como o PCP, sentindo-se ultrapassado, exige mais.

Diário semifictício de insignificâncias (12)


escafandro,

Pausa para café. Invariavelmente, discute-se o tempo. As previsões, com destaque para o sempre crucial fim-de-semana, mas também as condições do momento, sujeitas a interpretações, gradações e comparações («ainda está sol mas já está mais frio», «o vento aumentou», «ontem de manhã estava nevoeiro mas hoje apanhei chuva na VCI»). No fundo, nada de novo; comentários normais, repetidos ao longo dos séculos, desde que se substitua «VCI» por «Via Ápia» ou por outra via mais apropriada. Arriscando uma nota de pomposidade (ninguém lê esta treta), diria mesmo que é natural: as condições climatéricas marcam o tempo e o tempo marca a vida.

Mas depois, claro, saca-se do aparelho responsável pelo que talvez seja a mais revolucionária evolução da mais tradicional das conversas desde que alguém olhou para o horizonte, lambeu a ponta do dedo, espetou-o no ar e disse: «Não há vento; o céu está cor-de-laranja; amanhã não chove.» O aparelho que enfiou um meteorologista no bolso (ou na mala) de cada pessoa. Que consegue fazer muitas sentirem-se meteorologistas.

Nenhuma discussão sobre o estado do tempo fica hoje completa sem se compararem as previsões de várias apps de smartphone.

Música recente (26)


escafandro,

 

Nick Cave & The Bad Seeds, álbum Skeleton Tree.

No ano passado, um dos filhos de Nick Cave morreu ao cair de um penhasco em Brighton. Apesar de vários temas incluídos em Skeleton Tree serem anteriores ao acontecimento, ele marca todo o álbum, talvez o mais intenso e pessoal da carreira de Cave.

 

(Não resisti a incluir vídeos de dois temas, um mais agreste, o outro – bom, o outro será apenas a mais tocante balada que Cave já escreveu e interpretou.) 

Mas afinal existe esse risco?


escafandro,

Centeno: Evitar novo resgate “é a minha principal tarefa”.

Há momentos que separam os técnicos (por moldáveis que sejam) dos políticos. Mário Centeno poderia ter dito que falar de um novo resgate não faz sentido. Que a economia está bem e vai melhorar ainda mais; que o país se encontra no caminho certo; que, «virada a página da austeridade», Portugal é agora – e não antes – um caso de sucesso. António Costa tê-lo-ia feito, com a displicência a que tantos chamam «optimismo». Centeno fez diferente. Aceitou a hipótese como credível. E isto diz tudo sobre o que realmente pensa – ou, no mínimo, sobre os medos que o assaltam.

 

(Note-se que lampejos de sinceridade como este não o desculpam: destroçado o cenário no qual baseou a sua acção, continua no governo a fingir que tudo vai bem. Lampejos como este demonstram apenas que a maior diferença entre técnicos e políticos nos momentos em que se torna necessário manter uma ficção é – como também vimos no tempo de Sócrates e Teixeira dos Santos – a consistência.)

Música recente (25)


escafandro,

Kevin Morby, álbum Singing Saw.

Esteve em Paredes de Coura há um par de semanas. Os anos sessenta e setenta – de Bob Dylan a Lou Reed, passando por Leonard Cohen – andam por aqui. E, talvez por alguma iconografia religiosa, também me lembra os EUA de Flannery O’Connor. 

 

(Se a última referência não fizer despertar o Adolfo Mesquita Nunes da letargia blogosférica em que anda mergulhado, desconheço o que poderá consegui-lo.)

Diário semifictício de insignificâncias (10)


escafandro,

Caminhava pelo passeio, esforçando-me por ouvir o que me diziam pelo telefone por sobre o ruído do trânsito. Uma rapariga estendeu-me uma prancheta com a mão esquerda e uma esferográfica com a direita. Tentei passar-lhe ao lado. Ela moveu-se no mesmo sentido que eu. Desviei-me mais um pouco e contornei-a, ignorando o seu trejeito de desagrado. Depois de desligar o telefone, reflecti que poderia ao menos ter visto qual a finalidade da petição. Mas logo a seguir mudei de ideias. Sou homem; não faço multitasking.

Da dependência como estratégia política


escafandro,

O governo e a sua maioria parlamentar todos os dias maldizem a UE, mas dependem totalmente da Comissão Europeia e do BCE, e nada fazem para diminuir essa dependência. É este o mecanismo da dependência em Portugal: quanto maior a dependência da população em relação ao Estado, maior a dependência do Estado em relação às instituições europeias.

(…)

Não é possível imaginar a liberdade política sem cidadãos independentes e uma sociedade civil forte. Mas o açambarcamento de recursos pelo Estado reduziu a independência da classe média a um ideal sem futuro. Só os juros e o petróleo baratos compensam, por enquanto, o assalto fiscal. Se acrescentarmos a isso o enfraquecimento das grandes instituições tradicionalmente autónomas (Forças Armadas, Universidade, Igreja), ou a descapitalização das empresas, a conclusão é óbvia: o único freio e contrapeso dos governos em Portugal já não está dentro do país, mas fora. Só a Comissão Europeia e o BCE, na medida em que condicionam o financiamento do Estado, limitam neste momento o poder governamental sobre uma sociedade cada vez mais envelhecida, empobrecida e dependente. E é por isso que tudo isto, tanto como um problema económico, é um problema político.

Rui Ramos, no Observador.

 

É por isto que o PCP acaba por ser o membro mais honesto da «geringonça»: não esconde a aversão à União Europeia e ao euro. Os comunistas sabem que a utilização da dependência como estratégia política funciona durante pouco tempo num sistema em que não se controla a impressão de dinheiro e no qual as crises de financiamento obrigam a cortes de rendimento que a inflação não disfarça, bem como à venda de empresas públicas a grupos privados (para mais, quase sempre estrangeiros, dado os nacionais irem ficando sem capacidade financeira). A União Europeia é pois um travão ao caminho para a sociedade integralmente subjugada aos interesses do Estado que os comunistas desejam, ignorando estoicamente nunca ter sido possível implementá-la em grande escala e com sucesso em lugar algum, e também que todas as tentativas realizadas levaram à pobreza e à opressão (mas os pobres são menos exigentes e mais fáceis de controlar por qualquer Estado).

Já o PS e a facção que controla o BE pretendem algo ligeiramente diferente: uma sociedade de dependentes, sim, mas com ilusões de cosmopolitismo que exigem um nível de vida razoável. (No PS muita gente sabe que o modelo do PCP é uma aberração e no Bloco, paradigma da esquerda ‘intelectual’ e caviar, predomina a retórica – e, sendo caridoso, o voluntarismo – sobre qualquer modelo real.) Para conseguir – ou, mais precisamente, para manter – esta sociedade de dependentes do Estado apenas moderadamente infelizes, socialistas e bloquistas dispõem-se a suportar actos de subserviência regulares perante os parceiros da União Europeia, aceitando reprimendas e jurando intenções de mudança que nunca concretizam na totalidade. (O BE tem aqui uma vantagem competitiva: estando – ao contrário do Syriza – fora do governo, até pode manter o discurso enquanto engole pequenos sapos.) Claro que ciclicamente a situação fica insustentável – o dinheiro acaba e é necessário tomar medidas duras em troca de mais. Mas é nestes momentos que os partidos de centro-direita (cuja existência o PCP tolera mal) revelam a sua utilidade. Num país de dependentes do Estado, serão sempre – e apenas – a brigada de limpeza. PS e BE sabem-no. Quanto ao PCP, neste tema muito menos hipócrita, espera a sua grande oportunidade – a saída de Portugal da União Europeia.

Música recente (24)


escafandro,

The Divine Comedy, álbum Foreverland.

A carreira de Neil Hannon enquanto The Divine Comedy tem variado entre o estilo crooner e a pop irónica, passando por um mal compreendido mas sublime Regeneration (2001), onde arriscou uma sonoridade mais ‘suja’ (o falhanço comercial do álbum foi lamentável não apenas porque é excelente mas porque terá feito Hannon retrair-se e abandonar experiências radicais). Lançado na sexta-feira passada, ainda não tive tempo para ouvir Foreverland com a atenção que certamente merece. Mas qualquer álbum de Neil Hannon, por muito derivativo que seja, me é imprescindível – até os dois que fez sob o nome The Duckworth Lewis Method, em colaboração com Doug Walsh, dos Pugwash, inteiramente dedicados a esse desporto estranho: o cricket.

 

 (Sticky Wickets, um dos álbuns dos The Duckworth Lewis Method, tem uma das minhas capas de discos favoritas – nada condizente com a célebre fleuma britânica.)

Música recente (23)


escafandro,

Róisin Murphy, álbum Take Her Up to Monto.

Há uma meia dúzia anos, vi Róisin na Sala 2 da Casa da Música. Pareceu-me existir nela uma tendência excessiva para o perfeccionismo, denotada por lampejos de irritação quando as coisas não corriam como desejava (por exemplo, com a qualidade do som ou com a fluidez na colocação e retirada de casacos e outras vestimentas). A sonoridade do álbum Hairless Toys, de 2015, deu-me ideia de alguém que amadurecera um pouco. Este novo álbum confirma a sensação. Talvez haja na música um pouco menos de energia e imediatismo, mas também há uma tendência nítida para fugir ao óbvio.

 

Diário semifictício de insignificâncias (9)


escafandro,

Para Agosto, o trânsito tem andado mauzito. Bastante melhor do que noutros meses, mas mauzito. Talvez menos portuenses tenham ido para fora do que em anos anteriores. Ou quiçá o acréscimo de viaturas se deva exclusivamente aos turistas espanhóis. Ou se calhar muita gente anda a gastar combustível para ajudar as contas públicas. Ou então o fumo dos incêndios e o calor excessivo das primeiras semanas do mês deixaram o meu pessimismo numa fase particularmente aguda, que me leva a ver mais carros do que em anos anteriores.

Realisticamente (se um optimista é um pessimista mal informado, um realista é um pessimista capaz de fazer escolhas), inclino-me para uma conjugação das hipóteses 1, 2 e 4 – as reportagens televisivas mostram praias algarvias cheias, circulam nas ruas muitas matrículas espanholas, e eu não posso estar bem quando também me parece andarem por aí menos mulheres atraentes em trajes de Verão de que noutros anos. Mas, seja a verdade qual for, sinto falta de uma cidade calma, em modo de pausa. Turistas nos passeios e nas esplanadas não me incomodam; fazem-me sentir num destino de férias e até conferem cosmopolitismo à minha decisão de aqui permanecer. Mas, por algum motivo, o trânsito arruína a sensação de que a cidade é uma espécie de cenário megalómano, feito exclusivamente para mim e para meia dúzia de outros residentes tão esclarecidos como eu – pessoas disponíveis para a cidade nesta altura do ano por saberem que é agora que ela atinge o grau máximo de disponibilidade.

Por outro lado (diabos levem esta necessidade de manter os pés no chão, dispensada com estonteante leveza pelos optimistas), «esclarecido» pode não ser o termo mais correcto para designar quem fica a trabalhar em Agosto.

Blogue da semana


escafandro,

Os excelentes textos sobre literatura (muitos dos quais publicados na Ler, no Sol ou no i) conseguem fazer-me deglutir o português pós-Acordo Ortográfico sem me ficar na boca mais do que um travozinho vagamente reminiscente de óleo de fígado de bacalhau (pergunto-me se alguém com menos de 40 anos conhecerá o sabor…). Ainda por cima, de acordo com os meus inatacáveis padrões abstracto-meta-pós-pop-neoclássico-figurativo-realistas, trata-se de um espaço bonito. Coração Duplo, de Filipa Melo, é o blogue da semana.

Diário semifictício de insignificâncias (8)


escafandro,

Passo três quartos de hora a aspirar o chão. É inevitável: fico a transpirar como o Nadal após cinco sets em Melbourne Park. Não percebo. Cozinho sem transpirar (fico só a cheirar mal); passo a ferro sem transpirar (mas irrito-me à brava com as peças finas, que não consigo manter estendidas sobre a tábua); faço a cama sem transpirar (apenas me ficam a doer as costas, quando é preciso mudar os lençóis). Porém, aspiro dez minutos e começo a pingar água – mesmo no Inverno. Deve ser da posição. Ou dos movimentos repetidos, para a frente e para trás, para a frente e para trás. Sim, agora que penso no assunto, também noutras situações este tipo de movimentos deixa-me muitas vezes a transpirar. (Enfim, será mais exacto escrever «quase 100% das vezes»; muitas é exagero – ou talvez aspiração.)

E a coisa não fica pelo desconforto nem pelo facto de ter de ir tomar banho de cada vez que aspiro migalhas de pão na cozinha (ainda hei-de estimar os custos em água, sabonete e champô). Também atrapalha o processo. As gotas de suor caem no chão junto ao bocal do aspirador e são espalhadas e aspiradas por este. Não sei porquê mas acho isto um bocadinho nojento, pelo que tento evitá-lo. Ando com um pano e baixo-me para as limpar – o que só gera mais suor. Mas não as posso deixar no chão, especialmente nas partes em madeira. Considerando os efeitos que tem na minha pele, o meu suor é certamente corrosivo. Já bastam as marcas causadas pelas areias trazidas na sola dos sapatos. E pela minha crescente tendência para deixar cair objectos. Um dia destes escrevo sobre isso. Ou não. É coisa para me fazer sentir senil.

Música recente (21)


escafandro,

Mesa, álbum Loner.

No segundo trabalho da era pós-Mónica Ferraz dá-se a mudança para o inglês. Não obstante achar que os Mesa nunca conseguiram moldar o português da forma como outras bandas o fazem (pense-se nos Clã), hoje sinto falta da ligeira incongruência que o esforço parecia introduzir-lhes na música. Em inglês, soam-me mais normais.

Diário semifictício de insignificâncias (7)


escafandro,

Início da manhã, em Aveiro. O nevoeiro ia-se dissipando. O Sol estava quente mas ainda suave, intensificando de tal forma as cores que era como se quase tudo tivesse acabado de receber uma demão de tinta. Algumas pessoas passeavam os cães, os primeiros barcos com turistas ronronavam pela ria. Senti vontade de ficar sentado, a apreciar um daqueles momentos em que as cidades – algumas cidades – conseguem mostrar-se belas, pacíficas, acolhedoras.

Mas não podia – e o homem com quem me encontrei não estava satisfeito. Explicou-me que já por duas vezes tivera que adiar as férias. «Se não conseguir tirar a semana que vem, ainda dou em doido.»

«Vai para o Algarve?».

Disse que sim. Se conseguisse. «Nem é pela praia. Preciso é de variar.»

«Mas tem sorte», disse eu, apontando para o canal onde passava mais um barco. «Vive numa zona fantástica. Uma zona turística por excelência.»

Esboçou um sorriso. Disse: «Sim, é verdade.» Depois encolheu ligeiramente os ombros.

No regresso, pus-me a pensar que a habituação é uma coisa traiçoeira. Faz perder a capacidade de ver a beleza (e não apenas do local de residência; frequentemente, também das pessoas com quem se reside). Como tantos outros, ele precisa de mudar de sítio não para conhecer algo diferente (já terá estado no Algarve), nem para fazer algo de substancialmente diferente (deitar-se-á na praia e sentar-se-á em esplanadas, comerá gelados e beberá cervejas, lerá livros e consultará a internet no telemóvel), mas para fazer quase o mesmo, longe de casa.

Acredito que necessitamos de mudança. Mas dá-me ideia que normalmente apenas procuramos – e, por conseguinte, apenas obtemos – a ilusão de mudança. Ainda que, em vez de conduzir até ao Algarve, voemos para Cabo Verde, Cuba ou Istambul. (Há dias contavam-me a história de alguém que, temendo os assaltos, não saiu do carro alugado durante a visita a Nápoles.) Sem o sabermos, somos turistas acidentais, constantemente em busca do que nos é familiar (note to self: ler outro livro de Anne Tyler). Mas sabemos que alguma coisa está errada. Por isso tantas vezes apenas dizemos das férias que «já acabaram», e passamos o ano a renovar as ilusões.

 

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