Diário semifictício de insignificâncias (8)


escafandro,

Passo três quartos de hora a aspirar o chão. É inevitável: fico a transpirar como o Nadal após cinco sets em Melbourne Park. Não percebo. Cozinho sem transpirar (fico só a cheirar mal); passo a ferro sem transpirar (mas irrito-me à brava com as peças finas, que não consigo manter estendidas sobre a tábua); faço a cama sem transpirar (apenas me ficam a doer as costas, quando é preciso mudar os lençóis). Porém, aspiro dez minutos e começo a pingar água – mesmo no Inverno. Deve ser da posição. Ou dos movimentos repetidos, para a frente e para trás, para a frente e para trás. Sim, agora que penso no assunto, também noutras situações este tipo de movimentos deixa-me muitas vezes a transpirar. (Enfim, será mais exacto escrever «quase 100% das vezes»; muitas é exagero – ou talvez aspiração.)

E a coisa não fica pelo desconforto nem pelo facto de ter de ir tomar banho de cada vez que aspiro migalhas de pão na cozinha (ainda hei-de estimar os custos em água, sabonete e champô). Também atrapalha o processo. As gotas de suor caem no chão junto ao bocal do aspirador e são espalhadas e aspiradas por este. Não sei porquê mas acho isto um bocadinho nojento, pelo que tento evitá-lo. Ando com um pano e baixo-me para as limpar – o que só gera mais suor. Mas não as posso deixar no chão, especialmente nas partes em madeira. Considerando os efeitos que tem na minha pele, o meu suor é certamente corrosivo. Já bastam as marcas causadas pelas areias trazidas na sola dos sapatos. E pela minha crescente tendência para deixar cair objectos. Um dia destes escrevo sobre isso. Ou não. É coisa para me fazer sentir senil.

0 comentários em “Diário semifictício de insignificâncias (8)”

  1. Aprecio este tipo de escrita.
    E de detalhe sobre o real quotidiano e da soma das pequenas (mais ou menos…) tribulações do dia a dia da vida.

    Boa análise.

    1. Obrigado, BELIAL. Como a minha vida está cheia de insignificâncias, estou convencido de que esta série poderá durar algum tempo.

      (Ou não; já deixei de dar garantias quanto a séries de posts.)

  2. J.A.A., veja o que uma mulher sofre. A nossa vida (doméstica) não tem a mínima graça. É um desalento.
    Como eu gostei do seu post … e não é que apesar de toda essa sensaboria me fez sorrir.

    1. Nem todas as mulheres aspiram o chão, Maria. E, das que aspiram, nem todas transpiram. Mas, sim, a vida doméstica é uma sensaboria. E, no que me diz respeito, também uma fonte de estranheza e preocupação: quando varro ou aspiro, encontro tantos cabelos que não entendo como não estou careca…

      1. Ah, então é isso, é bem capaz de ter razão 😉 Realmente, eu não suo na testa, um pouco na face, mas não a ponto de me caírem gotas. E o suor do corpo é, em grande parte, absorvido pela roupa.
        Aspirar é um horror, principalmente no Verão.

  3. “Passo três quartos de hora a aspirar o chão”
    A casa é grande? O “aspirador” lento? Um perfecionista?

    Aspirar/Cozinhar/Passar a Ferro/Mudar os Lençóis
    Um retrato perfeito de um homem ocidental, uma cultura em vias de extinção, pois, com os recém chegados que, nos tempos mais próximos, não pararão de chegar, talvez, em breve, quando forem maioria (em certas cidades da suécia, já o são) vão substituir todos esses velhos costumes, de homens ocidentais domesticados.
    Quanto às mulheres, aquelas que bateram palminhas, distribuíram flores, abraços e beijinhos, aos recém chegados, vão descobrir e ter saudades dos tempos passados porque, deixarão de ser as únicas dentro de casa, para sair só acompanhadas por um macho, passarão a vestir aquilo que os homens mandarem, parir em quantidade e terem a exclusividade das lides domésticas 😉
    Suponho que, realmente, só se sabe dar valor, àquilo que se perde 🙂

    Falando de “aspirações”, pelo que se tem visto, querer é poder e, até parece que se voltou à idade das cavernas, algo que, por aqui, ainda não se nota, devido a factores negativos que, neste caso, até viraram positivos e vão adiando o inevitável.
    Mas, neste caso, basta ser otimista e saber ver as desgraças noutra perspectiva, talvez… menos de uma década e, quem sabe, vai parar de suar, pelo menos, nas lides domésticas e satisfazer mais… outras “aspirações” quem sabe, em triplicado porque, se quiser mais, tem de comprovar capacidade económica, para poder sustentar mais de três 😉

    1. Enorme. Os três quartos de hora nem chegaram para aspirar a biblioteca, o ginásio, a sala de música, a sala de jogos e o salão de baile.

      Três mulheres? Credo. Não, obrigado. Um destes dias – esta piada é capaz de correr mal – ainda se vai descobrir que alguns supostos radicais islâmicos se fazem afinal explodir por já não suportarem o inferno da poligamia…

      1. Francamente nem sei como explicar mas estive uns bons minutos sem conseguir parar de rir, foi até às lágrimas que me caíram no teclado… primeiro foi com o salão de baile, imaginando-o a bailar com o aspirador e depois aquela do inferno da poligamia…
        Ainda hoje estive a ver uma reportagem em que um falava, ter arranjado a 2ª mulher porque a primeira, não conseguia tomar conta dos filhos e ir buscar a água que era muito longe, depois como a segunda não tinha força para trazer os baldes teve de arranjar uma terceira, agora imagine trazer a três para a Europa e ficarem as três sentadas no sofá a ver novelas… mais um que não vai aguentar

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