Centeno: Evitar novo resgate “é a minha principal tarefa”.
Há momentos que separam os técnicos (por moldáveis que sejam) dos políticos. Mário Centeno poderia ter dito que falar de um novo resgate não faz sentido. Que a economia está bem e vai melhorar ainda mais; que o país se encontra no caminho certo; que, «virada a página da austeridade», Portugal é agora – e não antes – um caso de sucesso. António Costa tê-lo-ia feito, com a displicência a que tantos chamam «optimismo». Centeno fez diferente. Aceitou a hipótese como credível. E isto diz tudo sobre o que realmente pensa – ou, no mínimo, sobre os medos que o assaltam.
(Note-se que lampejos de sinceridade como este não o desculpam: destroçado o cenário no qual baseou a sua acção, continua no governo a fingir que tudo vai bem. Lampejos como este demonstram apenas que a maior diferença entre técnicos e políticos nos momentos em que se torna necessário manter uma ficção é – como também vimos no tempo de Sócrates e Teixeira dos Santos – a consistência.)

não o desculpam: destroçado o cenário no qual baseou a sua acção, continua no governo a fingir que tudo vai bem
Não: ele continua no governo a servir o seu país. Ao contrário de Durão Barroso e de António Guterres, que fugiram. Ele está desculpado porque, embora tenha errado nas suas previsões e cenários, tenta servir o seu país e corrigir o seu erro, ao contrário de outros que fugiram cobardemente.
“tenta servir o seu país e corrigir o seu erro”
Há momentos em que o humor cândido até funciona.
Não é humor nenhum. Julga que ser ministro das Finanças de Portugal, na atual situação, é tarefa fácil e agradável para seja quem fôr? Eu acho que não é, e que é preciso ter espírito de serviço para o continuar a ser. Não duvido que, para Centeno, seria muito mais fácil e gratificante, do ponto de vista pessoal e intelectual, continuar na sua universidade a dar aulas e a elaborar modelos teóricos sobre o mercado de trabalho (dos outros). Centeno não é um políico profissional e não tem necessidade de estar ali a fazer aquele trabalho duro e desagradável. Fá-lo porque quer servir o país dele.
Mas esta não é uma época fácil, de crescimento económico, em que a austeridade ficou para trás? Ser Ministro das Finanças do governo Passos Coelho é que deve ter sido difícil…
(Quanto aos modelos académicos, ele já admitiu que não têm utilidade quando se chega ao governo. Para quê perder tempo com eles?)
“Há momentos em que o humor cândido até funciona.”
Humor …??? Não será antes “Amor”? E cego, completamente ceguinho ….
Um sorriso aberto encanta muita gente. Ainda que ultimamente pareça um tudo-nada amarelo.
O problema é que não se vê onde está o “corrigir o seu erro” !… (porque é cada vez mais evidente que houve e ainda há “erro” !…)
Calma, ainda provoca um torcicolo mental ao Lavoura…
O Lavoura laborando gloriosamente numa das mais sedimentadas tradições portuguesas: um político a sério nunca se demite, pois o facto de ser político – ou estar na política – tudo permite, mesmo o pior, mesmo quando de toda a evidência arrasta consigo a sorte de muitos.
Tudo permite e tudo desculpa (nem há que desculpar, pois um político – político de esquerda, evidentemente – está acima dessas coisas; da lei, desde logo); do erro de boa-fé cometido, ao dolo mais descarado.
Quando da actuação deste governo resultar nova descida aos infernos dos “ajustamentos” (mesmo que com outro nome, cheio de esperança e certeza e decerto “de esquerda”), direi aos meus credores que me desculpem. Não lhes poderei pagar, porque houve um erro. Que nem foi meu.
Seguramente que, perante isso, me mandarão em paz, as dívidas saldadas, e se declararão ansiosos por me conceder mais crédito…
Costa
Ninguém “fugiu cobardemente” …
António Guterres demitiu-se e retirou-se depois do seu partido ter tido 2 derrotas eleitoriais sucessivas num contexto de marasmo económico. Foi uma opção coerente e digna. Fez depois carreira nas Nações Unidas ocupando-se de refugiados e é hoje um sério candidato ao cargo de Secretário Geral.
Durão Barroso não perdeu eleições nem deixou o governo num momento dificil. Na verdade apenas optou por aceitar um cargo europeu de prestigio. Um PM também tem o direito de ter ambições pessoais e mudar de emprego. Ninguém é insubstituivel. Foi útil à UE e honrou o nome do seu pais no exercicio das funções de Presidente da Comissão.
Já Mário Centeno, se fosse mais coerente e menos carreirista, poria o seu lugar à disposição numa altura em que está à vista que falhou redondamente nas suas previsões e nos resultados da politica seguida.
Acho imensa graça às narrativas que acusam o Durão de fugir, mas saúdam indivíduos como o Costa que fez exactamente o mesmo.
Se o Lavoura não gostasse do personagem a narrativa mudaria para “está agarrado ao cargo” etc, etc….
O alvo aqui é abater Centeno. Centeno diz aquilo que pensa ter de dizer nem mais nem menos. Critica-se Centeno quando o PSD está cheio de figurinhas que falam por falar porque quando falam não dizem nada, a não ser nada. Olhe para o Barroso e Maria Luís que aceitaram cargos em instituições não por capacidade, mas para darem informações que só eles têm. Estes sim, devem ser alvos de
críticas, Centeno é economista e a economia o que hoje é, amanhã já não é.
“Centeno é economista e a economia o que hoje é, amanhã já não é.”
Magnífica tirada! Lembremo-nos dela dentro de algum tempo quando a austeridade – que terá outro nome, evidentemente – nos revisitar em pleno.
Costa
“Centeno é economista e a economia o que hoje é, amanhã já não é”
Das melhores definições da mentalidade socialista que tenho visto. Mas há um ano – como tanta gente alertou – já muitas coisas “eram” na economia. Só não convinha a Centeno – nem a Costa, nem a Galamba, nem a Trigo Pereira, … – admiti-lo.
De resto, sobre o papel a que Centeno se prestou, escrevi isto durante a fase das negociações para a formação da «geringonça»:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/ya nis-c-ou-talvez-mario-teixeira-dos-78331 38
Hoje apenas o reforcei. Porque as coisas são o que são.
E está coberto de razão.
Quer queiramos, quer não, todos, mas mesmo todos, nos enganam. Não há volta a dar. E o Zé sempre a arcar(pagando) com os erros destes iluminados Srs. Professores Doutores. E de que nos valeu o estudo encomendado por António Costa a 12 economistas do PS, com o objectivo de ser elaborado um plano que levava à salvação da economia?
http://www.jornaldenegocios.pt/economia/
O Anónimo em dois comentário anteriores sou eu : Fernando S.
As minhas desculpas.
“Centeno é economista”
Mas é mau economista … pelo menos para Ministro das Finanças num pais como o nosso na fase actual !…
Centeno é um economista feito na Universidade pública, Maria Luís é uma economista que para o ser, teve de ir para a Universidade Lusíada porque na pública não teve cabimento.
Ser “economista” não é nenhuma garantia de qualidade.
Também não interessa a escola de onde se vem.
Em matérias essenciais metade dos “economistas” diz o oposto da outra metade.
O que conta é a compreensão que se tem da economia e a eficácia das medidas de politica que se defendem e promovem.
Há “economistas” que ainda não perceberam como funciona verdadeiramente a economia e que por isso se enganam sistemáticamente e redondamente nos diagnósticos e nas politicas.
Há gente comum que, sem precisar de ter um canudo de “economia”, não tem dificuldade em perceber que, por exemplo, não se pagam dividas gastando mais do que se tem.
Mas há “economistas” que até acreditam que sim.
Por mais brilhantes e sofisticados que sejam, são forçosamente maus “economistas”.
Centeno já mostrou ser um deles !…
De acordo Fernando S.
Interessa a escola de onde vêm e de que maneira. Ponha um economista da Pública, Católica e da lusíada em busca de emprego e veja quem são os preferidos. São preferidos sem qualquer margem para dúvidas os da Pública e da Católica. Quando se tem uma dívida impagável não se pode pôr indefinidamente os cidadãos a pagar, o impagável. Já tivemos quatro anos de austeridade brutal e qual foi a resultado? Aumento da dívida. Se a dívida aumentou é porque a receita não funciona, logo há que aliviar os cidadãos, dar-lhes melhores condições de vida porque só se vive uma vez e renegociar a maldita dívida. Maria Luís, Passos Coelho e companhia não têm razão nenhuma e para os desmentir temos Victor Gaspar com as umas declarações que fez.
“Ceteris paribus”, os preferidos são os da … Católica !… ponto e parágrafo.
Mas há também outros critérios, obviamente.
E muito tem a vêr com as preferências do empregador e as caracteristicas da função.
Para o efeito aqui em discussão, o da politica, a escola de origem tem então ainda menos importância.
Para além de competências técnicas que resultam sobretudo da experiência passada do candidato, o que mais conta é aquilo que o candidato defende e se mostra em condições de fazer.
Há gente da Católica que diz e faz grandes asneiras e há gente que nem sequer o canudo tem e que diz e faz coisas acertadas.
Quando a divida é “impagável” vai-se à falência e suportam-se todas as consequências, incluindo a descredibilização por muito tempo ou até para sempre.
Nalguns casos até se vai para a cadeia.
A divida pública do nosso pais não é “impagável”.
Pode ir sendo paga ao longo do tempo desde que seja devidamente gerida e pode até ser diminuida desde que o pais consiga gerar excedentes.
Mas para tal tem de se ter claramente esses objectivos e tem de ser seguida uma politica económica adequada.
Não o fazer é que é condenar o pais a uma divida impagável e levá-lo inevitávelmente à falência.
Anunciar publicamente que não há a vontade e a intenção de o fazer é perder ainda mais a confiança dos credores e dos investidores acelarando assim a marcha para a falência.
O que o meu amigo defende é o calote puro e simples e ainda por cima dizendo alto e a bom som que o vai fazer com ou sem o acordo dos credores.
Ao erro de politica junta-se a estupidez auto-mutiladora pura e simples !…
A politica seguida entre 2011 e 2015 não falhou. Antes pelo contrário.
A divida pública aumentou porque só podia aumentar : o pais foi levado à bancarrota pelo governo anterior e teve de ser resgatado.
Ora, como toda a gente sabe, um resgate é … receber dinheiro que vai para divida !!…
O que era então preciso, e era para mais e naturalmente a condição exigida pelos credores, era tomar medidas urgentes e estruturais que corrigissem o forte desequilibrio das contas públicas e da economia.
Basicamente medidas de austeridade, obviamente.
A cura resultou. E até muito rápidamente. Em apenas 2 a 3 anos o pais saiu da emergência financeira, reduziu déficits, estabilizou a divida, retomou o crescimento económico e do emprego, voltou a ter crédito nos mercados em condições aceitáveis.
A divida não diminui porque não se repara um desastre da dimensão da nossa bancarrota em poucos anos. Mas o ritmo de progressão da divida foi fortemente reduzido e, em relação ao Pib, então já a crescer, a divida até começou a diminuir.
Isto é, a divida foi controlada e passou a ser gerivel, sustentável, pagável (os prazos de reembolso foram respeitados), e até passou a ser susceptivel de ser progressivamente reduzida nos anos que se seguem.
Este processo virtuoso, reconhecido como tal pela generalidade dos mercados e analistas, foi em boa medida interrompido com a mudança de governo e de politica.
O que, menos de 1 ano depois, se está já a revelar um fracasso é a politica do novo governo : práticamente todos os indicadores económicos e financeiros se têm vindo a degradar e, entre eles, “the last but not the least”, a famigerada … divida !!… Afinal !?!…
Vitor Gaspar nunca “desmentiu” a politica que foi seguida pelo anterior governo e que ele próprio aplicou como Ministro das Finanças na fase talvez mais dificil.
A sua carta de demissão foi na altura mal interpretada e, sobretudo, instrumentalizada pelos detratores da politica que ele próprio defendera e aplicara.
Nessa carta, Vitor Gaspar diz explicitamente que a politica seguida era necessária, que não havia alternativa e que deveria continuar a ser seguida.
A única passagem de desconforto é a que se refere ao forte aumento do desemprego, sobretudo jovem, mais do que fora inicialmente estimado.
Mas o próprio Gaspar reconhece na carta que a politica de ajustamento seguida deveria levar a uma recuperação do emprego a prazo.
As razões da demissão de Gaspar não são todas politicamente escrutináveis. Algumas são provávelmente de natureza estritamente pessoal. Mas todos sabemos que a razão principal teve a vêr com discordâncias com o lider de um dos partidos da coligação, com Paulo Portas.
O próprio Vitor Gaspar viria posteriormente a confirmar esta leitura, em declarações e até num livro-entrevista entretando publicado.
Engraçado que ainda há pessoas que acreditam que Portugal foge a outro resgate sem renegociação da divida e no Euro.
A política, e a análise política, manifestam-se num Dicionário de Eufemismos em constante enrequecimento.
Governar, governar-se, são apenas subtilezas linguísticas.
A esquerda precisa de ser eliminada fisicamente — caso contrário vão matar-nos a todos para alimentar o seu funcionalismo público indolente, que seca toda a criatividade e vontade de existir em Portugal. Precisamos de fazer desaparecer o Estado.
Não devia escrever ser tomar a medicação. Eliminar fisicamente?
Exagero retórico. Mas enquanto a “esquerda” tiver a expressão artificial (e duplicada a sua força por 50%+1 de abstenção) conferida pelo método de cálculo representativo e for possível fazer coligações pós-eleitorais absurdas que radicalmente e com cinismo desfazem o trabalho de governos legítimos —que o povo quis e que eram direcções políticas que o povo determinou…— enquanto isso acontecer não vamos a lado nenhum.
O problema é que as elites, nas pessoas do António Guterres e Durão Barroso, fugiram das sua responsabilidades. Durão vai para a Goldman Sachs e Guterres, provavelmente será ou não, o big chief das Nações Desunidas.
o 1º por ser de direita e do PS, não tem direito a fazer pela vida, tal como Jorge Sampaio, e o Guterres é abençoado por estar a prestes a ser o DDT DA ONU.
O que fica para a história, e´que ambos da classe das elites impolutas, fugiram.
Centeno, na sua vaidade em pretender revelar uma tarefa titânica de suas funções, fez uma afirmação bizarra que o cola aos discursos de seus opositores, que pretendem transformar a realidade hoje vivida numa tragédia grega.
Acontece que quer Portugal, quer Espanha, quer a Grécia, quer a Irlanda, quer a Itália e outros mais não serão submetidos a qualquer resgate nos termos que conhecemos. A política, depois da calamidade que causou com os resgates e com o ir para além da troika, que até deixou o Deutsche a “chiar”, mudou de paradigma.
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