Diário semifictício de insignificâncias (5)


escafandro,
C. disse-me que a minha posição sobre a nadadora Yulia Efimova demonstra quão volúveis são os homens, por muitas declarações que façam – que eu faça – em contrário. No caso de mulheres desportistas, disse ela, nunca escolhem quem apoiar em função da qualidade atlética. Fazem-no sempre com base na aparência física.

Um: não acho que faça assim tantas declarações em contrário. Dois: achei típico que a minha ironia lhe tivesse passado ao lado. Três: acho irónico que a acusação venha de alguém que é fã confessa de Hugh Jackman, Michael Fassbender e Tom Hiddleston, e que, detestando futebol, não perde uma oportunidade de observar o Cristiano Ronaldo, em especial quando ele despe a camisola.

Mas ela tem alguma razão, claro. Quando nada mais se sabe da pessoa, a beleza é fundamental. Atrai ou (por mecanismos de competição e despeito) repele. E a verdade é que na natação (como, até certo ponto, no atletismo, mas não noutras modalidades) se torna difícil escolher por factores de índole técnica. Eu torcia pela Kim Clijsters devido à forma cheia de garra como ela jogava ténis, não por me atrair fisicamente. Ao ver as provas de ginástica artística, e ainda que nada perceba do grau de dificuldade dos movimentos, há exercícios que me suscitam mais admiração do que outros. Em tempos fui fã da equipa de voleibol da Polónia não porque as suas jogadoras fossem mais atraentes do que as de outras selecções (à época, as holandesas eram deslumbrantes), mas porque vi um jogo em que, estando quase sempre atrás no marcador, elas nunca desistiram de lutar (ainda assim, perderam).

Na natação, contudo, é-me impossível distinguir entre o estilo de Efimova e o de Lilly King, a norte-americana que a derrotou nos 100 metros bruços. Ou entre os de Sarah Sjöström, Katie Ledecky e Federica Pellegrini. E, por conseguinte, a decisão sobre quem apoiar (e ver desporto sem estar a torcer por alguém não é a mesma coisa) depende exclusivamente de factores extra-competição. Do país de origem. Da postura. De um trejeito. Da observação de um comentador. Da beleza. Por isso o meu coração balançava entre Sjöström e Pellegrini, durante a final dos 200 metros em estilo livre. De nada serviu. Ganhou o fenómeno Ledecky, uma espécie de Phelps no feminino. E anteontem Efimova foi novamente batida, desta feita nos 200 metros bruços, pela japonesa Rie Kaneto. Ou eu dou azar (chamemos-lhes a sina do sportinguista) ou a beleza é pouco útil dentro de uma piscina. No caso de Efimova, pode até especular-se se os Jogos Olímpicos estarão sujeitos aos critérios de Hollywood, segundo os quais um vilão nunca pode ganhar. Mas penso que não: duas medalhas de prata para a vilã dos Jogos dificilmente seria considerado um desenlace adequado por qualquer argumentista lá dos States. A mim, pareceu-me um final razoavelmente feliz.

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