A vida na aldeia e um bolo de morangos


cronicasnofeminino,

Dizem-me que a cidade me falta e que bastarão uns fumos poluentes logo ali na Calçada de Carriche para que se me libertem os humores e os meus dias se encham de sol. A cidade falta-me, é verdade. Falta-me muitas vezes. Faltam-me os lugares-comuns da luz de Lisboa e falta-me o bulício de cidade, pessoas que se cruzam de um lado para o outro, correrias e idiossincrasias várias. Não que me sinta citadina ou urbana mas as grandes urbes são como ímans onde sonho sempre regressar.

A vida na aldeia não é como a vida na cidade. A vida na aldeia é comandada pelos passos lânguidos de um tempo muito próprio, de uma outra dimensão, como se as horas tivessem uma medida de tempo oculta vagarosa, uma clepsidra feita de vagares que se alternam noite e dia, e se alongam entre conversas várias no meio do largo ou em plena rua indiferentes a carros ou quaisquer outros veículos. Na aldeia reinam as pessoas e os vagares.

Na aldeia não reinam só os vagares. Na aldeia reina a alma de gente que tem o negócio no sangue. Se puderem vender nunca ficarão parados, jamais calados perante as qualidades indiscutíveis dos seus bens e irredutíveis na arte de convencer a freguesia. Não há como eles. A arte está-lhes nos genes. Na aldeia não há isso de trabalho infantil, há a necessidade de dar um jeito quando os adultos se ausentam para um qualquer propósito, uma responsabilidade que se incute sem que daí venha mal ao mundo. Desde tenra idade é vê-los diligentes nas demasias e a destrocar dinheiro enquanto elogiam as batatas ou bendizem os morangos e perguntam se queremos ovos caseiros, na cidade diz que são biológicos.

Foi hoje pela fresca. Um almoço de família ditaria uma sobremesa para a qual me faltava fruta. Rumei à mercearia que agora se acomodou no largo da igreja mas desta feita quase de frente para a igreja e isto porque, suspeito, o tempo em que estiveram de costas para a igreja o negócio murchou como grelos ao sol. Seguiu-se um breve período em que a venda tinha lugar numa carrinha. Uma vez aberta desvendavam-se cores e aromas, formas rotundas e longilíneas de legumes e frutos diversificados. Uma festa para os sentidos. Ainda estou para perceber porque aquele poema do Cesário Verde nunca me convenceu.

Estava lá o João. Tem uns nove anos, quem sabe, uns olhos azuis acinzentados encantadores e a ginga do negócio no corpo. Estava a jogar um jogo no computador literalmente virado de cangalhas, a noventa graus e com o ecrã apoiado em cima duns caixotes, enquanto atendia uma anciã insatisfeita com a cor tão desmaiada do açúcar amarelo. Os meus olhos saltaram para uns abacates bem rotundos, um regalo para os olhos, e quando murmurei algo sobre os ditos, o João saiu da caixa e ensinou-me, pegando num abacate Quer ver, disse, aproximando-o de mim, Se se ouvir o caroço lá dentro está maduro e pegando num outro exemplificou, abanando-o levemente Está a ouvir? Sim, estava.

Comprei morangos para o bolo de almoço de família, não havia ameixas e as nêsperas não me convenceram. Voltei vagarosa. Perscrutei os patos e galinhas da vizinha a caminho de casa, a exuberância dos limoeiros e fui cumprimentada pela fragrância da glicínia à entrada do jardim.

Há dias em que tenho saudades da cidade. Hoje não foi um deles. 

Cratês e outras manobras reloaded


cronicasnofeminino,

Nuno Crato autoriza escolas a separar bons dos maus alunos. Meus amigos, isto é gente perigosa, muito perigosa. Um assunto da gravidade destes não pode ser deixado ao critério do Conselho Pedagógico nem ao bom-senso dos órgãos de gestão. A propósito, o que é isso? Um assunto destes nem sequer devia ser assunto. Criar turmas só de bons e só de maus alunos? 

Cratês e outras manobras


cronicasnofeminino,

Na Revisão da Estrutura Curricular o Ministério da Educação aumentou a carga horária da disciplina de Português no Ensino Secundário em 45 minutos semanais. Muito bem. Medida aplaudida, pelo menos pela parte que me toca, mesmo tendo consciência que 45 minutos apenas no 12º ano são manifestamente pouco. Ontem soube-se que o número de alunos por turma vai aumentar, podendo as turmas ter até trinta alunos. Alguém me explica esta lógica? Ou aumentaram a carga horária exactamente porque, à maneira subreptícia deste governo, já tinham em mente aumentar o número de alunos por turma? E já que tanto se brada, e às vezes acertadamente, porque o ensino é público e está a ser pago pelos contribuintes que tal exigir do Ministério da Educação um minímo de condições e de respeito pela forma como o dinheiro de todos é aplicado na educação? Com trinta alunos por turma não estão reunidas condições para o sucesso. É impossível chegar a todos. Os que têm explicações e ajuda dos pais conseguirão ‘aguentar-se’, os que infelizmente não têm nem uma nem outra serão um número, um número, ouviram bem, um número incómodo nos relatórios da OCDE e quejandos. Nuno Crato sabe disso, sabe disso muito bem, mas a governite deu-lhe forte, Gaspar explicou-lhe muito devagar os milhares em caixa, Passos Coelho perorou com as balelas dos mercados e a imagem no ‘estrangeiro’ e o resto é conversa fiada. Como a educação neste país.

Elevadores. Resposta a José António Saraiva


cronicasnofeminino,

Uma belíssima resposta a uma aberração destas já denunciada aqui. Para ler e pensar.

 

Sim. Ando de elevador muitas vezes. Às vezes inclino a cabeça, admito. Muitas vezes uso os braços de modo que ache confortável. Estas coisas acontecem quando começo a pensar em coisas, ou observo o mundo ao meu redor. Creio que algo bastante comum em qualquer pessoa que trabalhe e passe a vida a criar mundos imaginários para cinema. Nasci bom observador, admito que não por escolha, e tive a sorte de encontrar maneira de ajudar a criar emoções e memórias através de imagens em movimento.

Elevadores. Passagens tão temporárias e interessantes. Elevadores sempre me fascinaram, por criarem um espaço forçado de observação. Tão pequeno, mas cheio de detalhes. Quem veste o quê, quem olha para onde, quem tosse quando.

Imagino ser aquele rapaz. Podia perfeitamente ser eu. Aliás, fui eu há uns meses. Em Setembro. Estive em Portugal e trouxe o meu namorado para ele conhecer a minha família, que tanto me adora e respeita, e também para conhecer o país onde cresci, as ruas onde andei e os edifícios que me rodeavam em criança. Sou gay e sempre fui. Nunca tive dúvidas e nunca foi uma escolha. Ninguém escolheria alguma vez ser gay, porque muito provavelmente isso traria uma vida de desafios como ter de educar uma pessoa como José António Saraiva. E já agora, caso isto seja novidade, também ninguém escolhe ser heterossexual.

Ir a Portugal com o meu namorado foi um passeio de redescoberta de um país que sempre me trouxe muitas memórias. Desde memórias péssimas de ser violentamente gozado na escola, a nível físico e psicológico, por ser gay. Desde memórias óptimas a criar um grupo de amigos que nunca me trataram de maneira diferente quando eu inclino a cabeça, ou mexo os braços, ou pouso os pés no chão.

Tive a sorte de ter uma família acolhedora, mas conheço muitos casos em que tal não acontece. Se há coisa que aprendi foi a não julgar os outros. Acho que não há nada mais precioso na vida do que aprender com a individualidade de cada um. Talvez seja por isso que tenha conseguido ser tão bem sucedido tanto em Hollywood como em Silicon Valley.

E, apesar de ser gay, ajudei a criar imagens que marcaram o mundo. Imagens que inspiraram adultos e crianças a acreditarem num mundo melhor. Um mundo em que dois robots se podem apaixonar, ou dois escuteiros se podem conhecer em crianças e viver juntos a vida inteira, ou um mundo em que um astronauta encontre um melhor amigo num simples cowboy. Sem falar de um rato que pode cozinhar… Estes não existem na verdade, mas transmitem um ideal de um mundo em que eu acredito ser possível viver. Em que cada pessoa é como é, e em que cada um de nós tem a oportunidade de trazer algo mágico às pessoas que se cruzam na nossa vida.

Não sei em que mundo o José António Saraiva vive, mas pela maneira como publicamente julga os outros deve ser um espaço bastante triste. Tenho pena de não ter estado naquele elevador, naquele momento. Pelo menos, poderia ter olhado para ele, sorrido e, quem sabe, mostrar que o Portugal de agora é um país muito mais acolhedor do que alguma vez foi. Um país em que posso trazer o meu namorado e criar memórias novas para o resto da nossa vida. Um país em que nos podemos casar como qualquer outra pessoa.

Aqui na Califórnia, sinto-me em casa. Sinto-me em casa porque sei que posso andar de elevador, e muito provavelmente vou conhecer alguém que se calhar com apenas vinte anos criou uma empresa que está a mudar o mundo. Ou alguém que se calhar inclina a cabeça de certa maneira, e me faz sorrir por saber que pertenço a um mundo em que podemos ser verdadeiros, genuínos e nós próprios.

E entretanto vou criando outros mundos imaginários. Que muito provavelmente irão fazer sorrir os filhos, netos ou bisnetos do José António Saraiva.

 

Afonso Salcedo

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cronicasnofeminino,
Sete e vinte da manhã. O despertador toca, o despertador do telemóvel. Nos tempos modernos os despertadores despertadores tornaram-se bichos obsoletos e é mais fashion ter o Blackberry a acordar-me.  Há que manter o estilo. Clico no dismiss, ‘a língua inglesa fica sempre bem’ e levanto-me. Pés no chão, um de cada vez, ter os pés assentes na terra tem-me custado muitas palpitações nos dias que correm, ponho os óculos, sim, esta que vos escreve é míope mas que isto não vos sirva de desculpa para defender ‘certas e determinadas’ pessoas, outra expressão de que gosto, arrebanho umas calças do roupeiro, um blazer azul escuro, um colar tipo Carmen Miranda, não quero parecer fúnebre aos meus alunos, uma série de outras peças de roupa a cujos detalhes vos poupo e rumo à casa de banho. Lavo o manto da noite num revigorante duche matinal e desço as escadas acompanhada da Julieta, uma das madrugadoras, as outras gatas reservam-se o direito de longos e preguiçosos sonos devido à idade vetusta e respeitável. Depois de um pequeno almoço frugal acompanhado das notícias matutinas, hábito que vou ter de perder se me quiser poupar uns anos, pego no carro que me guincha com falta de gasolina e grita-me em letras vermelhas NÍVEL DE COMBUSTÍVEL BAIXO. Temos pena. Chego à escola. Está lá ainda. A bela da escola azul-cueca. Entro aos bons-dias, subo à sala de professores, tiro a chave da sala C7, lê-se no garrafal porta-chaves, dirijo-me à sala e dou graças aos deuses por ainda lá ter o meu emprego. Com as manobras na penumbra deste governo chegará o dia em que Leonor Barros será uma entrada vã no sistema aliviado por se ter visto livre de mais um fardo e eu, como tantos outros, serei uma página em branco, quem sabe décadas de trabalho arrumadas numa página em branco, amarfanhadas como lixo num qualquer cesto dos papéis tecnocrata, um url perdido na voracidade destes tempos para os quais me faltam adjectivos. PAGE NOT FOUND. 

Aviso à navegação


cronicasnofeminino,

Amigos e amigas que passeiam no Chiado, amigos e amigas que se vestem de preto, amigos e amigas que “cruzam as mãos uma sobre a outra e inclinam ligeiramente a cabeça”, saibam que reunem três sinais quase inequívocos da vossa ‘larilice’ e que a confirmar-se “nas relações homossexuais há um niilismo assumido, uma ausência de utilidade, uma recusa do futuro. Impera a ideia de que tudo se consome numa geração – e que o amanhã não existe. De resto, o uso de roupas pretas, a fuga da cor, vão no mesmo sentido em direcção ao nada. ” Uns inúteis, portanto. E gays ainda por cima. Tudo isto numa crónica perto de si e num jornal que se intitula de Sol. Alguém que envie luz a este senhor que lá das trevas a escrita não lhe está a sair bem.

Mágoas


cronicasnofeminino,

Dou por mim nos últimos tempos a usar os termos de indignação que usei nos tempos do governo de Sócrates e que muitos dos que agora dão vivas a Passos Coelho usaram. E não porque é meu hábito ou prazer ‘malhar’ nos governos, mas porque como tem sido amplamente noticiado este governo falta à verdade tal como Sócrates faltou, usa estratégias rasteiras para atraiçoar os cidadãos que os elegeram e todos os dias se lembra de nos surpreeender com propostas que a terem sido no tempo socrático teriam chovido meteoritos de críticas. O Sócrates pelo menos era mais giro que Passos Coelho, porque em termos de carácter estamos na mesma: faltar à verdade parece estar inscrito no ADN dos políticos portugueses. E isto magoa, achincalha, humilha. O meu país dói-me.

Em nome do Pai


cronicasnofeminino,

A Páscoa é ter três ou quatro anos, um vestido azul-turquesa de fazenda vestido que me picava, era capaz de jurar que tinha a saia pregueada, e estar às cavalitas de um amigo dos meus pais. A Páscoa é tremer de medo com a procissão dos farricocos em Braga nesse mesmo dia do vestido azul-turquesa que me picava mas me aterrorizava menos que aquelas figuras tétricas sem rosto a fazer barulho cidade fora. A Páscoa era não haver politicamente correcto e poupar a criança do vestido azul-turquesa de fazenda àquele susto. A Páscoa é Beira-alta. A Páscoa é Tibaldinho e a festa da aldeia, o povo engalanado nas suas melhores farpelas. A Páscoa é esperar. A Páscoa é esperar pacientemente sem meter dedo ou dente perante uma mesa cheia de doces, bolos, folares pela hora do almoço, controlar o ímpeto de criança, obedecer aos meus pais e portar-me bem lá nessa casa dos doces, bolos e folares e dinheiro por baixo de uma laranja na mesa. A Páscoa é esse sacrifício. A Páscoa é o padre chegar e trazer uma imagem e dar-nos a beijá-la e todos a beijarem. Diz que era Cristo menino mas nunca entendi porque se havia de não comer bolos, haver dinheiro em cima da mesa e beijar uma imagem naquele tempo. A Páscoa é a procissão do enterro do Senhor pelas ruas de Viseu. A Páscoa é ter muitas dúvidas que dos mortos nunca ninguém voltou e não me consta que Jesus Cristo apreciasse tanto fausto, tanta celebração, alguma ostentação. A Páscoa é estar num qualquer sítio do mundo e pensar Olha, hoje é Domingo de Páscoa. A Páscoa é a esperança de dias longos, dias novos. A Páscoa é leite-creme queimado com a pá de ferro que vai passando de geração em geração. A Páscoa é e será sempre pão-de-ló com queijo da Serra. A Páscoa será sempre o pão-de-ló que fiz, que se fazia para o meu pai. A Páscoa é ele sorrir-me com os olhos amendoados e dizer-me Está uma maravilha, filhota. A Páscoa é comer o pão-de-ló em sua homenagem. Hoje e sempre.

E respeito pelos portugueses, não se arranja por aí?


cronicasnofeminino,

Num dia afirma-se de forma peremptória ao vivo e a cores que o corte nos subsídios vigoraria em 2012 e 2013, à tarde era afinal até 2014 e hoje diz-se que afinal não houve contradição nenhuma. Nós merecíamos mais respeito, senhores governantes. Deve ter sido por isso que, cansados das trapaças anteriores, os elegeram. Merecíamos mais.

O cilício, depressa, que o país não pode esperar!


cronicasnofeminino,

O país anda cheio de problemas. E graves. Muito mas muito graves. E que exigem mão pesada e umas bordoadas valentes, ah como gosto desta expressão! Desta vez foi o João Gobern. Comentador num programa da RTP sobre futebol e essas coisas que fazem vibrar a nação, João Gobern que, pelo que sei, é benfiqusita dos setes costados, festejou um golo do Benfica quando estava no ar. Não dizem que futebol é paixão? Diz ele que se penitencia pelo gesto e pôs o lugar à disposição depois do episódio. E o que aconteceu? Foi corrido. Ó que piadinha! Num país em que se rouba desalmadamente, os governantes mentem ao povo como se dissessem verdades insofismáveis com ar bento de honestidade de plástico, o João Gobern é dispensado da RTP por um episódio absolutamente irrelevante e justificável pela impulsividade tão comum a essas ‘coisas da bola’. E se usassem esta celeridade punitiva para outras áreas da vidinha portuguesa, não seria melhor? Não. Corramos com o Gobern. Quem se mete com a RTP leva.

Com os Holandeses ou a arte da crítica


cronicasnofeminino,

Corria o ano da graça de dois mil e nove, era mês de Abril e estava um calor inusitado para aquele mês. O povo tinha saído à rua. Literalmente. A pé, de bicicleta, de qualquer maneira e feitio e pairava no ar a atmosfera festiva de que só os dias radiosos de sol são capazes, ainda mais se tivermos em conta um país onde Setembro é quase mês de Inverno, anoitece com as galinhas, a bruma instala-se sem cerimónia e o frio húmido entra-se-nos pelas frestas da roupa e esgueira-se para as profundezas da alma. Mas aquele era dia de muito calor. Tinha acabado de sair de uma dessas lojas de roupa barata, as únicas que frequento em tempos de crise e não crise, o calor foi a desculpa perfeita pata comprar uma camisa fresca, quando o telefone tocou. Atendo o telemóvel na praça, no meio da multidão esfusiante por aquela bênção fora de tempo e enquanto falo vou reparando nas pessoas à minha volta. Nos corpos tão pálidos mas indiferentemente expostos ao sol de Abril, nos turistas que na sua condição de turistas nunca passam anónimos numa qualquer multidão, a máquina fotográfica sempre em punho e o olhar inquiridor sobre tudo e mais alguma coisa sempre mesclado com uma pitada de desconfiança e os outros, os que não sendo nem uma coisa nem outra andavam saltitantes nas suas vidinhas repentinamente soalheiras.

Ora neste preciso momento, o meu olhar de turista aterra num objecto circular, na verdade cónico, bem plantado no meio da praça e com homens em redor. Não se pense que se tratava de um altar de testosterona onde os homens largavam as suas preces, desconfio até que os homens têm pouco dessas atitudes tementes e virtuosas. Uns segundos depois vejo um dos homens apertar a braguilha, reparem na propriedade da palavra, e uma vez aliviados das cervejas e líquidos que se lhes haviam descido para as partes baixas, os homens seguiam assim mesmo, sem mãos lavadas, a higiene relegada para milionésimo lugar, os seus caminhos. Isso mesmo. Um urinol amovível sem qualquer privacidade, ali no meio da praça, qual instalação contemporânea, e sem mais questiúnculas de decências e moralidades. Não se lhes pode criticar a falta de sentido prático. Era sexta-feira, numa praça rodeada de bares e restaurantes e em vez de inundarem o lugar com o cheiro fétido nauseabundo, nada como instalar aquele curioso objecto. Na segunda-feira desaparecera.

E vem tudo isto a propósito do livro de Rentes de Carvalho Com os Holandeses. Sempre os achei algo rudes de tão práticos e pragmáticos, sem rodriguinhos e salamaleques, algo que colide com os nossos costumes tão decentezinhos e tão agradavelmente acolhedores. O livro, escrito em 1971 e reeditado recentemente, é um relato dos quinze primeiros anos que Rentes de Carvalho viveu na Holanda e do inevitável choque cultural. Dá-nos um olhar por dentro da personalidade e carácter dos holandeses, vista e sentida lá do território onde turista algum consegue penetrar e bem longe dos campos de tulipas, Van Gogh e Rembrandt, e a léguas da imagem da alegada tolerância de coffee shops e prostitutas nas montras, como se toda a Holanda fosse Amesterdão e como se mulheres nas montras fossem só por si sinal de tolerância.

Escrito de forma escorreita e irrepreensível, Rentes de Carvalho não tem complacências com o politicamente correcto ou o socialmente aceitável. Não tem papas na língua e não se atemoriza perante os ditames dos discursos da multiculturalidade de plástico. Consegue num estilo único só permitido aos grandes:  criticar sem ofender, ser frontal sem nunca resvalar para a grosseria. E isto é muito. A força do livro consiste ainda neste desabafo, como Rentes de Carvalho o classifica, e no amor e afeição que acabou por desenvolver pela Holanda. Contraditório depois de tanta crítica? Os amores grandes são feitos de máculas e virtudes, de mistérios insondáveis e perguntas por responder. Tal como o que nutre pelo país que escolheu como seu.

Fiquei no entanto a pensar o que aconteceria em Portugal se alguém ousasse escrever um livro expondo sem cerimónias as nossas desvirtudes, que belo eufemismo, ainda por cima se um estrangeiro o fizesse. O bruá, a indignação, posts calorosos e a dignidade lusa de oitocentos anos de História ofendida de morte com palavras certeiras, honestas, directas. Somos bons nas ofensas. Diz Rentes de Carvalho que na Holanda não foi assim. Agradeceram-lhe a franqueza. Que diferença de Portugal.

“Amsterdam não precisa de mim para lhe cantar a beleza. Os canais, a torres, as casas apertadas nos bairros pobres e as outras, senhoriais à beira de água, falando de fortunas passadas e presentes, têm tido melhores poetas, melhores pintores. (…) A cara com que me recebeu num chuvoso dia de Março não foi das mais hospitaleiras. Mas essa primeira impressão cedo se desfez, e quando finalmente me habituei ao que durante muito tempo foi para mim um labirinto de canais e ruas estranhamente idênticas, dei-me conta de que se se não tratava de amor à primeira vista, com certeza a afeição entre nós ia ficar para  a vida.”

Rentes de Carvalho, Com os Holandeses.

fotografia minha

Também aqui.

Um muro de letras


cronicasnofeminino,

Na altura em que o tomate Raf estava a dois euro e quarenta e nove cêntimos, eles entraram a meu lado no supermercado. Vinham algures pela direita e demos passagem uns aos outros, eu dei-lha a eles, eles deram-ma a mim, e entretanto, sem saber já quem entrou primeiro, absolutamente irrelevante no contexto, encontrei-me dentro do estabelecimento propriamente dito. Comecei pela habitual ronda das saladas, há que viver saudável e os vegetais, diz-se, são parte integrante do bem-estar físico, que naturalmente produz efeitos imediatos, assim se espera, sobre essa nebulosa da harmonia interior anunciada e vendida também nos coloridos suplementos dominicais. Os frutos vermelhos, por exemplo, são antioxidantes poderosos. Quem sabe levada por isso abeirei–me da enorme banca onde estavam dispostos os tão apregoados Raf, feios, mas saborosos, a publicidade naqueles dias era inequívoca.

Do lado oposto ao meu, debruçado sobre o mesmo expositor, encontrava-se o casal com quem me cruzara à entrada. Julgava-os deambulando algures noutro corredor, a decisão das saladas nem sempre é pacífica e na languidez do dia que entardecia deixara a pressa amarrada ao poste do stresse pretérito. Abordaram-me entretanto Ó menina, a que preço é o tomate? O preço estava bem visível: dois euro e quarenta e nove o quilo e, não fora a intervenção rápida da mulher, leitora perspicaz de rostos alheios, jamais teria compreendido a razão da pergunta. Lamentarei o resto da vida a expressão desconfiada e incrédula que soltei sem sequer balbuciar palavra. A mulher acrescentou então em auxílio do marido A gente não sabe ler. Preferia pensar que o meu rubor era reflexo dos frutos à minha frente e não o constrangimento perante a situação. Respondi de imediato e fui à minha vidinha cheia de letras e números e sinais e símbolos que sei descodificar e que me orientam por esse mundo fora. Não era o caso do casal que deixara para trás. A realidade conhecida, em Portugal a taxa de iliteracia não é prestigiante, tinha, a partir de agora, dois rostos desorientados perante um mero preço de supermercado, a diferença significativa entre as estatísticas e as pessoas. Um homem e uma mulher à mercê da disponibilidade alheia, prisioneiros da sua incapacidade de descodificar mensagens escritas. Dois mundos separados por um muro de palavras e letras incompreensíveis.

E assim é em pleno século XXI. Enquanto os sorrisos pendurados alardeiam as virtudes das novas oportunidades, selados com beijos e apertos de mão vigorosos, e o choque tecnológico ocupa o lugar cimeiro das preocupações governamentais, alguns permanecem excluídos. Não têm rosto, não ficam bem na fotografia e não dão votos. Não são ninguém.

 

 

Fui repescar este texto escrito há uns anos a pedido do ‘nosso’ Pedro Correia para o Corta-Fitas, porque encontrei as pessoas retratadas neste post na minha escola para a frequência das Competências Básicas, vulgo Alfabetização. Afinal as Novas Oportunidades servem para alguma coisa e ainda há esperança de que um dia sejam autónomos e não precisem da ajuda alheia para orientação no mundo envolvente.

Opções editoriais ou lá o que é


cronicasnofeminino,
Leio e ouço em alguns órgãos de comunicação social que ontem a polícia carregou sobre os manifestantes em Lisboa. Diz que no estangeiro, esse território mítico onde tudo corre bem excepto num país também à beira-mar plantado com quem alguns de nós não se querem paracer nem por nada deste mundo, também se falou da carga policial sobre os jornalistas, diz-se ainda que os jornalistas têm de se identificar para não levar tareia, porque o resto do povo pode levar à vontade. O Público também deve achar que foi ‘diz que disse’ para optar por esta eloquente primeira página.

A excepção da excepção à excepção excepcionalmente


cronicasnofeminino,

As administrações das empresas Parque Expo, TAP, ANA, CTT e EMA (Empresa de Meios Aéreos) ficam de fora do limite salarial equivalente ao do primeiro-ministro, por estarem “em processo de privatização, de extinção ou liquidação”. Venham-me depois com a conversa moralista de que não há dinheiro e de que todos temos de fazer sacríficios. Depois, que agora fui ali dar largas à profunda náusea que tenho por tudo isto. 

Carta a professores, alunos, pais, governantes, cidadãos e quaisquer outros que possam sentir-se tocados e identificados.


cronicasnofeminino,

As reformas na educação estão na boca do mundo há mais anos do que os que conseguimos recordar, chegando ao ponto de nem sabermos como começaram nem de onde vieram. Confessando, sou apenas uma das que passaram das aulas de uma hora para as aulas de noventa minutos e achei aquilo um disparate total. Tirava-nos intervalos, tirava-nos momentos de caçadinhas e de saltar à corda e obrigava-nos a estar mais tempo sentados a ouvir sobre reis, rios, palavras estrangeiras e números primos.

 

Depois veio o secundário e deixámos de ter “folgas” porque passou a haver professores que tinham que substituir os que faltavam e nós ficávamos tristes. Não era porque não queríamos aprender, era porque as “aulas de substituição” nos cansavam mais do que as outras. Os professores não nos conheciam, abusávamos deles e era como voltar ao zero.

Eu era pequenina. E nunca me passou pela cabeça pensar no lado dos professores.Até ao dia 1 de Março.

 

Foi o culminar de tudo. Durante semanas e semanas ouvi a minha mãe, uma das melhores professoras de Inglês que conheci,  o meu pilar, a minha luz, a minha companhia, a encher a boca séria com a palavra depressão. A seguir vinham os tremores, as preocupações, as queixas de pais, as crianças a quem não conseguimos chamar crianças porque são tão indisciplinadas que parece que lhes falta a meninice. Acreditem ou não, há pais que não sabem o que estão a criar. Como dizia um amigo meu: “Antigamente, fazíamos asneiras na escola e quando chegávamos a casa levávamos uma chapada do pai ou da mãe. Hoje, os miúdos fazem asneiras e os pais vão à escola para dar a dita chapada nos professores”. Sim, nos professores. Aqueles que tomam conta de tantos filhos cujos pais não têm tempo nem paciência para os educar. Sim, os professores que fazem de nós adultos competentes, formados, civilizados. Ou faziam, porque agora não conseguem.

 

A minha mãe levou a maior chapada de todas e não resistiu. Desculpem o dramatismo mas a escola, o sistema educativo, a educação especial, a educação sexual, as provas de aferição e toda aquela enormidade de coisas que não consigo sequer enumerar levaram deste mundo uma das melhores pessoas que por cá andaram. E revolta-me não conseguir fazer-lhe justiça.

 

Professores e responsáveis pela educação, espero que leiam isto e acordem, revoltem-se, manifestem-se (ainda mais) mas, sobretudo e acima de qualquer outra coisa, conversem e ajudem-se uns aos outros. Levem a história da minha mãe para as bocas do mundo, para as conversas na sala dos professores e nos intervalos, a história de uma mulher maravilhosa que se suicidou não por causa de uma vida instável, não por causa de uma família desestruturada, não por dificuldades económicas, não por desgostos amorosos mas por causa de um trabalho que amava, ao qual se dedicou de alma e coração durante 36 anos.  

 

De todos os problemas que a minha mãe teve no trabalho desde que me conheço (todos os temos, todos os conhecemos), nunca ouvi a palavra “incapaz” sair da boca dela. Nunca a vi tão indefesa, nunca a conheci como desistente, nunca pensei ouvir “ando a enganar-me a mim mesma e não sei ser professora”. Mas era verdade. Ela soube. Ela foi. Ela ensinou centenas de crianças, ela riu, ela fez o pino no meio da sala de aulas, ela escreveu em quadros a giz e depois em quadros electrónicos. Ela aprendeu as novas tecnologias. O que ela não aprendeu foi a suportar a carga imensa e descabida que lhe puseram sobre os ombros sem sentido rigorosamente nenhum. Eu, pelo menos, não o consigo ver.

 

E, assim, me manifesto contra toda esta gentinha que desvaloriza os professores mais velhos, que os destrói e os obriga a adaptarem-se a uma realidade que nunca conheceram. E tudo isto de um momento para o outro, sem qualquer tipo de preparação ou ajuda.

 

Esta, sim, é a minha maneira de me revoltar contra aquilo que a minha mãe não teve forças para combater. Quem me dera ter conseguido aliviá-la, tirar-lhe aquela carga estupidamente pesada e que ninguém, a não ser quem a vive, compreende. Eu vivi através dela e nunca cheguei a compreender. Professores, ajudem-se. Conversem. E, acima de tudo, não deixem que a educação seja um fardo em vez de ser a profissão que vocês escolheram com tanto amor.

Pensem no amor. E, com ele, honrem a vida maravilhosa que a minha mãe teve, até não poder mais.

 

Sara Fidalgo

 

Honrando a memória de quem partiu.