Em nome do Pai


cronicasnofeminino,

A Páscoa é ter três ou quatro anos, um vestido azul-turquesa de fazenda vestido que me picava, era capaz de jurar que tinha a saia pregueada, e estar às cavalitas de um amigo dos meus pais. A Páscoa é tremer de medo com a procissão dos farricocos em Braga nesse mesmo dia do vestido azul-turquesa que me picava mas me aterrorizava menos que aquelas figuras tétricas sem rosto a fazer barulho cidade fora. A Páscoa era não haver politicamente correcto e poupar a criança do vestido azul-turquesa de fazenda àquele susto. A Páscoa é Beira-alta. A Páscoa é Tibaldinho e a festa da aldeia, o povo engalanado nas suas melhores farpelas. A Páscoa é esperar. A Páscoa é esperar pacientemente sem meter dedo ou dente perante uma mesa cheia de doces, bolos, folares pela hora do almoço, controlar o ímpeto de criança, obedecer aos meus pais e portar-me bem lá nessa casa dos doces, bolos e folares e dinheiro por baixo de uma laranja na mesa. A Páscoa é esse sacrifício. A Páscoa é o padre chegar e trazer uma imagem e dar-nos a beijá-la e todos a beijarem. Diz que era Cristo menino mas nunca entendi porque se havia de não comer bolos, haver dinheiro em cima da mesa e beijar uma imagem naquele tempo. A Páscoa é a procissão do enterro do Senhor pelas ruas de Viseu. A Páscoa é ter muitas dúvidas que dos mortos nunca ninguém voltou e não me consta que Jesus Cristo apreciasse tanto fausto, tanta celebração, alguma ostentação. A Páscoa é estar num qualquer sítio do mundo e pensar Olha, hoje é Domingo de Páscoa. A Páscoa é a esperança de dias longos, dias novos. A Páscoa é leite-creme queimado com a pá de ferro que vai passando de geração em geração. A Páscoa é e será sempre pão-de-ló com queijo da Serra. A Páscoa será sempre o pão-de-ló que fiz, que se fazia para o meu pai. A Páscoa é ele sorrir-me com os olhos amendoados e dizer-me Está uma maravilha, filhota. A Páscoa é comer o pão-de-ló em sua homenagem. Hoje e sempre.

18 comentários em “Em nome do Pai”

    1. Obrigada, Ana. Beijos e uma óptima Páscoa. Quem parte nunca parte verdadeiramente. Estão em nós e nas memórias gratas que nos deixaram como a mais bela das heranças.

  1. Muito bem.

    Eu acrescentaria, da minha lavra, que a Páscoa é ter que ouvir em todo o lado desejos de “boa Páscoa” quando não se tem Páscoa, não se quer Páscoa, se quer que a Páscoa se… É como dizer a um ateu: “Santo Natal!”. E ter um gajo que ficar calado quando não ter mesmo que retribuir. Porque a liberdade (religiosa, no caso) é sempre a liberdade dos vencedores.

  2. Leonor, boa Páscoa, ainda bem que há pessoas que escrevem e pensam como tu. Páscoa, para mim, é o pintar de ovos na quinta-feira com o meu tio, tudo preparado para comermos os folares que as minhas tias faziam. É voltar atrás, portanto. Beijo P

  3. Grande texto, Leonor. Para mim, Páscoa, no que respeita a beijar a cruz, é fazê-lo em casa dos pais e depois sair para o fazer na dos tios e na dos avós (sendo que a ordem variava). E é também muitas amêndoas mas apenas brancas, amarelas e cor-de-rosa.

    1. Obrigada. Cruzes nunca me lembro de beijar mas é capaz de ter acontecido. Só me lembro de ter passado a Páscoa em Viseu até à adolescência. Depois disso não sei foram as hormonas ou se deixámos de lá ir nessa altura 🙂 Inclino-me mais para a segunda, se bem que as hormonas são tramadas.

  4. Passo por aqui diariamente porque sei que, num qualquer dia, encontro pérolas como esta.
    Nasci em Lisboa, sou dos que não tenho terra, e quando ouço: “vou passar o Natal à terra”, “vou passar a Páscoa à terra”, fica-me sempre uma melancolia miudinha.
    Laico que sou, tenho para com o Natal, para com a Páscoa, uma solução simples: chamo-lhes a festa dos amigos.
    Lembro-me de António Gedeão a dizer: “claro que eu não sou capaz de perguntar quem criou isto tudo. Por isso não pergunto.”
    Obrigado.
    Boa Páscoa.

    1. Eu é que agradeço as suas palavras.
      Eu também nasci em Lisboa e sinto-me mais do Sul que do Norte. Ficar cá era ficar em casa e era muito bom.
      Para mim Natal e Páscoa são mais dos amigos do que qualquer outra coisa. Não sou mulher de fé religiosa.
      Boa Páscoa também.

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