A Páscoa é ter três ou quatro anos, um vestido azul-turquesa de fazenda vestido que me picava, era capaz de jurar que tinha a saia pregueada, e estar às cavalitas de um amigo dos meus pais. A Páscoa é tremer de medo com a procissão dos farricocos em Braga nesse mesmo dia do vestido azul-turquesa que me picava mas me aterrorizava menos que aquelas figuras tétricas sem rosto a fazer barulho cidade fora. A Páscoa era não haver politicamente correcto e poupar a criança do vestido azul-turquesa de fazenda àquele susto. A Páscoa é Beira-alta. A Páscoa é Tibaldinho e a festa da aldeia, o povo engalanado nas suas melhores farpelas. A Páscoa é esperar. A Páscoa é esperar pacientemente sem meter dedo ou dente perante uma mesa cheia de doces, bolos, folares pela hora do almoço, controlar o ímpeto de criança, obedecer aos meus pais e portar-me bem lá nessa casa dos doces, bolos e folares e dinheiro por baixo de uma laranja na mesa. A Páscoa é esse sacrifício. A Páscoa é o padre chegar e trazer uma imagem e dar-nos a beijá-la e todos a beijarem. Diz que era Cristo menino mas nunca entendi porque se havia de não comer bolos, haver dinheiro em cima da mesa e beijar uma imagem naquele tempo. A Páscoa é a procissão do enterro do Senhor pelas ruas de Viseu. A Páscoa é ter muitas dúvidas que dos mortos nunca ninguém voltou e não me consta que Jesus Cristo apreciasse tanto fausto, tanta celebração, alguma ostentação. A Páscoa é estar num qualquer sítio do mundo e pensar Olha, hoje é Domingo de Páscoa. A Páscoa é a esperança de dias longos, dias novos. A Páscoa é leite-creme queimado com a pá de ferro que vai passando de geração em geração. A Páscoa é e será sempre pão-de-ló com queijo da Serra. A Páscoa será sempre o pão-de-ló que fiz, que se fazia para o meu pai. A Páscoa é ele sorrir-me com os olhos amendoados e dizer-me Está uma maravilha, filhota. A Páscoa é comer o pão-de-ló em sua homenagem. Hoje e sempre.
Em nome do Pai
cronicasnofeminino,

Páscoa é ler textos excelentes, como este. Que valem ainda mais do que qualquer iguaria da quadra. Um beijinho, Leonor. Boa Páscoa.
E chegar aqui e ter comentários assim, Pedro. Fiquei comovida. Beijo grande
Que ternura de texto, Leonor! Fizeste-me lembrar o meu pai e uma semana santa em Sevilha que nunca mais esqueci. Um beijo e boa Páscoa.
Obrigada, Ana. Beijos e uma óptima Páscoa. Quem parte nunca parte verdadeiramente. Estão em nós e nas memórias gratas que nos deixaram como a mais bela das heranças.
Gostei tanto deste texto, Leonor!
Obrigada, Ivone. Ia dizer que foi escrito com o coração mas quase tudo do que escrevo tem o mesmo órgão a guiar-me pelas palavras que desenho.
Muito bem.
Eu acrescentaria, da minha lavra, que a Páscoa é ter que ouvir em todo o lado desejos de “boa Páscoa” quando não se tem Páscoa, não se quer Páscoa, se quer que a Páscoa se… É como dizer a um ateu: “Santo Natal!”. E ter um gajo que ficar calado quando não ter mesmo que retribuir. Porque a liberdade (religiosa, no caso) é sempre a liberdade dos vencedores.
A Páscoa é o que cada uma de nós queira que ela seja. Como vês, a minha de religiosidade tem muito pouco. Felizmente temos ainda essa liberdade de escolha.
Uma boa Páscoa para ti, minha querida.
Para ti, também, Teresa 🙂
Uma beijoca grande
Leonor, boa Páscoa, ainda bem que há pessoas que escrevem e pensam como tu. Páscoa, para mim, é o pintar de ovos na quinta-feira com o meu tio, tudo preparado para comermos os folares que as minhas tias faziam. É voltar atrás, portanto. Beijo P
Ai Patrícia, vocês hoje tiraram o dia para me deixar de lagrimita ao canto do olho com tanto carinho. É, é voltar atrás. Beijinhos
Grande texto, Leonor. Para mim, Páscoa, no que respeita a beijar a cruz, é fazê-lo em casa dos pais e depois sair para o fazer na dos tios e na dos avós (sendo que a ordem variava). E é também muitas amêndoas mas apenas brancas, amarelas e cor-de-rosa.
Obrigada. Cruzes nunca me lembro de beijar mas é capaz de ter acontecido. Só me lembro de ter passado a Páscoa em Viseu até à adolescência. Depois disso não sei foram as hormonas ou se deixámos de lá ir nessa altura 🙂 Inclino-me mais para a segunda, se bem que as hormonas são tramadas.
A Páscoa torna-se mais linda quando se lê um sublime texto como este.
Muito obrigada e boa Páscoa.
Passo por aqui diariamente porque sei que, num qualquer dia, encontro pérolas como esta.
Nasci em Lisboa, sou dos que não tenho terra, e quando ouço: “vou passar o Natal à terra”, “vou passar a Páscoa à terra”, fica-me sempre uma melancolia miudinha.
Laico que sou, tenho para com o Natal, para com a Páscoa, uma solução simples: chamo-lhes a festa dos amigos.
Lembro-me de António Gedeão a dizer: “claro que eu não sou capaz de perguntar quem criou isto tudo. Por isso não pergunto.”
Obrigado.
Boa Páscoa.
Eu é que agradeço as suas palavras.
Eu também nasci em Lisboa e sinto-me mais do Sul que do Norte. Ficar cá era ficar em casa e era muito bom.
Para mim Natal e Páscoa são mais dos amigos do que qualquer outra coisa. Não sou mulher de fé religiosa.
Boa Páscoa também.