Mais do mesmo


cronicasnofeminino,

Os políticos obtiveram um aumento remuneratório médio mensal dez vezes superior à média dos funcionários da Administração Central: entre salário e suplementos, o rendimento médio mensal dos membros do Governo e dos deputados cresceu de 5370 euros, em Outubro de 2011, para 5661 euros, em Janeiro deste ano, uma subida de 5,4%. Já o ganho médio de todos os trabalhadores da Administração Central registou, no mesmo período, um aumento de 0,5%, com o vencimento recebido no final do mês a subir de 1745 euros para 1754 euros. 

Não valia a pena terem diabolizado o Sócrates, pedirem sacríficios ao povo, roubarem-nos em impostos, taxas, subsídios, sobretaxas, portagens e tudo o que respire e viva e virem com aquele ar de honestidade de plástico doutrinarem-nos sobre a crise e a Troika, blá, blá, blá. Que se calem. E se possível se vão embora. Não vejo o dia.

Ai que se me falha a memória…


cronicasnofeminino,
Quando foi a última vez em Portugal que um Ministro se demitiu por:

• ter traído o seu elitorado?

• ter mentido ao eleitorado?

• ter quebrado a relação de confiança com o povo que o elegeu?

• ter visto o seu nome envolvido em situações obscuras?

• ter-se envolvido em situações constrangedoras?

• ter a hombridade de assumir a sua incompetência?

• considerar que um ministro deve estar acima de qualquer suspeita e ter um nome limpo?

A voz dos leitores


cronicasnofeminino,

Aqui vos deixo um texto do nosso estimado leitor e ‘seguidor’ no Facebook, João Azevedo, acerca duma causa que me parece pertinente:

 

“A nova lei do arrendamento urbano vem trazer consequências nefastas para as Repúblicas estudantis de Coimbra, casas únicas na transmissão de valores comunitários, de camaradagem e escolas de vida e de formação humana de muitos estudantes. Aqui idealizou-se a liberdade, as grandes lutas estudantis que marcam a história da academia coimbrã começaram nestas Repúblicas. Nos dias de hoje contam-se 26 casas, “sempre de porta aberta” para receberem o outro, com uma refeição e um tecto sempre disponível para o mais necessitado! Aqui presta-se um serviço social, no desenvolver de actividades culturais, no apoio aos estudantes mais necessitados e na grande partilha de conhecimento de geração em geração. É por tudo isto e muito mais que estas casas, hoje candidatas a património mundial da UNESCO em conjunto com a Universidade de Coimbra, devem ser salvaguardadas. 

Em 1982, no sentido de proteger este património material, mas sobretudo imaterial foi criada uma lei que protegia as repúblicas nas lutas que estas vinham a travar com os seus senhorios. Os contratos foram definidos por tempo indeterminado e as rendas foram congeladas, sendo uma das razões o facto de serem os estudantes que lá vivem obrigados a suportar todo o tipo de obras na casa. Hoje com a nova lei do arrendamento, esta lei de 1982 é automaticamente revogada e as repúblicas ficam facilmente sujeitas a acções de despejo por parte dos senhorios e os estudantes que lá vivem teriam de suportar rendas incomportáveis para permanecerem no imóvel! 

Assim, é extremamente necessário uma consciencialização de toda a sociedade civil para esta nobre causa. As Repúblicas são história viva da academia coimbrã, são um valor imaterial que tem de ser preservado e impedido de ser sacrificado a interesses imobiliários ou de circunstância. Preservar e salvaguardar as repúblicas é defender um património valioso e inalienável, que formam o espírito e a tradição da nossa academia.”

 

Sexta-feira, dia 25 de Maio, na Casa da Cultura em Coimbra realizar-se-á um debate sobre o mesmo tema, com a presença do Dr. Marinho e Pinto, Professor Rui Alarcão, Dr. Pio Abreu e Dr. Elísio Estanque.

Considerações femininas sobre o fabuloso mundo do futebol


cronicasnofeminino,

Noventa minutos, uma bola, onze jogadores para cada lado abraçados por uma multidão em júbilo, uma massa exultante que se vai dividindo e esmorecendo, enquanto o tempo decorre e na proporção dos golos metidos nas respectivas balizas. Um balneário vedado aos demais e onde, ao que parece, acontece muito mais do que uma troca de roupa e massagens nos gémeos. E é isto. O futebol para mim é isto. Há contudo variáveis a incluir: se os jogadores são giros e morenos, pode abrir-se uma excepção para alguns louros, ostentam um belo par de pernas e um torso de fazer ruborizar a mais benta das mulheres. A propósito acho um nojo que a UEFA ou a FIFA ou lá quem foi, tenha instituído essa tal regra de marcar falta ou mostrar cartão amarelo aos rapazes que em explosão de felicidade arremessam à maneira masculina as camisolas transpiradas e ostentam os torsos bem definidos. É que, a menos que compremos uma dessas revistas que se ocupa da vida alheia, o povo em austeridade perdeu a oportunidade de ver os abdominais trabalhados do nosso Cristiano Ronaldo e do nosso Nani. Isso sim, é, grosso modo, futebol. O mesmo é válido para os treinadores. Alguns, evidentemente. Outros não só podem como devem manter as camisolas, camisas e blazers, e preservar-se e preservar-nos de visões dantescas. O resto é como digo: um campo, onze robustos e atléticos jovens homens transbordando testosterona para cada lado, duas balizas, uns quantos que supervisionam os excessos dos miúdos, outro que gesticula do banco e pronto. Como em outras situações, parece que estou errada. 

Devia tê-lo percebido naquele dia em que um amigo holandês me mostrou ufano um livro sobre a vitória dos holandeses sobre os alemães. Recuava aos anos oitenta e o livro estava recheado de imagens de homens cabeludos vestidos de laranja e outros igualmente cabeludos e de bigode mas vestidos de branco. Dizia ele que os holandeses toleravam tudo, menos os alemães. Bela tolerância. Fiquei impressionada. Devia tê-lo entendido naquele dia em que sentada na esplanada da Mexicana, um colega benfiquista recusou a água com gás que o empregado lhe trouxera. Diz que era do Sousa Cintra e num outro dia em que, ao passarmos pela montra de uma loja de electrodomésticos, esse mesmo afirmou que não comprava nada marca Phillips. O PSV tinha derrotado o Benfica e isso não se faz.

Acontece que ontem o Chelsea derrotou o Bayern de Munique. Diz que era um jogo importante. Para mim apenas um jogo de futebol. Visto por um outro prisma, um jogo de futebol de duas equipas provenientes de duas cidades que estão nas minhas preferências: Londres em grande destaque e Munique com carinho. O meu mundo por uma Brezel e um Weissbier na Augustiner. Mas não. A derrota dos alemães foi a oportunidade perfeita para aguçar o ressentimento contra os alemães. Como toda a gente sabe, o povo não deve ser confundido com os seus governantes. Cruzes credo se me confundem com o Passos Coelho ou com o homem do ‘coiso’. Angela Merkel não é a Alemanha nem os alemães. Nada disso interessa. Ontem quem perdeu foi a Merkel e a supremacia alemã. A derrota de Merkel ontem no Arena de Munique fez o povo acreditar que ainda há esperança de correr com os alemães. Pouco importa se era o Bayern, o Mönchengladbach, ou o Hertha de Berlim. Podia até ser o FC Badenia St. Ilgen. Nunca a Schadenfreude foi ironicamente tão bem ilustrada. E eu a pensar que o futebol eram onze caramelos e uma bola.

 

Também aqui. 

A adaptação da excepção


cronicasnofeminino,

Gasta que está a palavra ‘excepções’, o governo resolveu adoptar à maneira de Orwell uma outra expressão: ‘adaptações’. As ‘adaptações’ são ‘excepções’ mas dá menos nas vistas dizer ‘adaptações’ e até é mais bonito. Pode ser que o povo engula. Fiquem pois a saber que “no corte salarial aos trabalhadores, uma medida que reduziu os salários entre 3,5% e 10% em 2011 – mas que foi mantida este ano –, também há «adaptações», segundo a expressão utilizada por membros do Governo. Em três empresas, está a ser seguida esta opção. Quem trabalha na CGD, na TAP e_na SATA vai receber o seu ordenado por inteiro este ano, sem os cortes médios de 5% para todos os trabalhadores do Estado que recebem mais de 1.500 euros mensais. Só na TAP e no banco público – os dados da SATA estão indisponíveis – esta alteração agrava a factura anual com os trabalhadores em cerca de 66 milhões de euros. Esta subida terá de ser compensada com cortes equivalentes noutras áreas.” Por mim fazia-se já uma ‘adaptação’ neste governo de ‘excepção’. Quem engana o eleitorado não merece respeito a não ser que seja em Singapura.

Estranha forma de vida


cronicasnofeminino,

Este Primeiro-ministro conseguiu um feito único: ser o Primeiro-ministro mais vaiado em menos tempo de governação e digamos que em termos de comunicação difícil é pior. Alguém que o aconselhe que o rapaz anda desgovernado. Como nós, de resto. Vem isto a propósito da vaia com que foi brindado ontem na Feira do Livro. Segundo se noticia  aqui, o PM iria numa visita particular acompanhado pelo Secretário de Estado da Cultura e pelo Secretário-geral da APEL. Câmaras não faltaram para noticiar o acontecimento e depois foi-se no automóvel oficial. Estranha ‘visita particular’. 

Foi você que pediu uma excepção? – Take 4.559 e três quartos


cronicasnofeminino,

Uma pessoa não pode passar um fim-de-semana soberbo com o lançamento de um livro excelentemente traduzido pela Helena Araújo à tarde e festa rija à noite com música passada pelo próprio escritor sem que a segunda-feira nos acorde com mais uma das belíssimas e decentíssimas manobras deste governo. Depois das enésimas excepções, os tais que nos exigem sacríficios com ar de beata de plástico brindam-nos com mais uma excepção aos cortes. A belíssima contemplada desta feita é a SATA. Quanto a decência e respeito pelos portugueses já tive oportunidade de me manifestar antes. Resta saber quem são os papalvos que continuam a ser roubados com a desculpa de que não há dinheiro e tal e resta saber qual é a próxima excepção. Aceitam-se apostas. Podem começar pelo próprio governo. Depois de tudo o que tenho visto nada me surpreenderá mas continuará a indignar-me. Merecíamos mais. Merecíamos melhor.

Também aqui.

25 de Abril de 2012


cronicasnofeminino,

 

(…)

Ou poderemos Abril ter perdido

O dia inicial inteiro e limpo

Que habitou nosso tempo mais concreto?

 

Será que vamos paralelamente

Relembrar e chorar como o verão ido

O país linear e transparente

 

E sua luz de prumo e de projecto?

 

in ‘Lagos II’, 1975

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dia Mundial do Livro


cronicasnofeminino,

Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura), collorfobia (medo do que ele vai nos aprontar agora) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até treiskaidekafobia (medo do número treze), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insónia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve, já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham «Frio» e «Quente» escritos por extenso, para saciar minha sede de letras, já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri a lista telefónica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa. Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insónia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, o sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência – e uma mensagem positiva. Recomendo «Génesis» pelo ímpeto narrativo, «O cântico dos cânticos» pela poesia e «Isaías» e «João» pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.

 

Luis Fernando Veríssimo, “Fobias” in Comédias para se ler na Escola.

 

Por quê procurar mais palavras se este texto exprime exactamente o que sinto? 

Mein Name ist Kaminer, Wladimir Kaminer


cronicasnofeminino,

A crítica é rapariga para não gostar. Vociferar pela falta de elipses, paralaxes, pleonasmos e eufemismos, a ausência de polifonia, cacofonia e telefonia, não tem nada a ver mas apeteceu-me, a critica gosta desta palavras difíceis e herméticas, não vá o povo entende-las, e ele escreve ao correr da pena, sem presunções, é dono de uma miraculante imaginação ou detentor de mais histórias do que a história permite e um pedaço vivo da História contemporânea. Chegou a Berlim directamente de Moscovo em 1990 e lá ficou até hoje. E escreve. E é DJ. E quase um desconhecido entre nós. Dele falei já aqui.

A tradução está acima de qualquer suspeita, porque foi feita pela ‘nossa’ Helena do 2 Dedos de Conversa, e eu mal posso esperar por o ter nas mãos.

O lançamento de Viagem a Tralalá acontecerá no dia 5 de Maio em Lisboa na Feira do Livro  e a festa continuará noite dentro. Para abrir o apetite, podem ler estes dois excertos de outras obras que nos chegam pela intrépida Helena. Falta muito para dia 5?

 

Nós, pelos outros


cronicasnofeminino,

(…) em Berlim, os furtos não compensam. Ao contrário de Lisboa, por exemplo, onde há tempos fomos roubados logo no primeiro dia da viagem. Eu tinha comprado o guia turístico português “A metrópole do Atlântico. Longe dos circuitos turísticos” e escolhera para o nosso primeiro dia a “Rota 1. Um aspecto geral de Lisboa”. (A propósito: nesse guia estava escrito que a criminalidade em Lisboa tem vindo a estagnar nos últimos anos e quase não se nota.) “No extremo superior da rua Garrett encontra-se o café mais antigo da cidade, A Brasileira. Quem quer realmente conhecer Lisboa deve beber lá um café, um copo de vinho verde ou um sumo de laranja acabado de espremer.”

 

É favor não perder este texto do Wladimir Kaminer traduzido de forma soberba pela ‘nossa’ Helena Araújo. Gosto de sentir que ela é cá da casa. Desta  é pelo menos.