Da esperança ao absurdo


cronicasnofeminino,

Quando Maria de Lurdes Rodrigues assumiu a pasta da Educação, e mesmo depois de algumas tomadas de posição, esperei pacientemente antes de me indignar, dei-lhe e dei-me tempo, li e reli documentos, legislação, tentei desligar-me da habitual resistência à mudança, convicta, hoje ainda, de que urgia/urge uma mudança de rumo na educação deste país e certa de que as mudanças não se operam sem ondas de choque.

Cerca de três anos passaram. Três anos de lutas e de resistência, três anos de insultos e julgamentos em praça pública pelos doutos achistas deste país, gente que muito sabe sobre todos os assuntos e que tem sempre, em coabitação com outros especialistas sapientes, um pedagogo excelso.

E nestes anos desapareceu por completo o laivo de esperança na mudança. Um modelo de gestão salazarento permitindo que pequenos ditadores mostrem as garras e exijam que se faça como querem independentemente da justiça ou legitimidade perante os seus pares, um Estatuto da Carreira Docente perverso, um modelo de avaliação kafkiano, desprovido dos mais elementares princípios de rigor e competência que transformou as escolas num labirinto burocrático e que abre portas a um amiguismo preocupante, e leis que não passam pela cabeça de ninguém, sucessivamente revistas, mostrando claramente a incapacidade do Ministério da Educação e o desconhecimento do terreno.

Esta manhã surgiu mais uma notícia absurda que dá conta que os professores reformados podem, em regime de voluntariado, prestar serviços na Escola. Os mais de quatro mil professores que pediram a reforma no ano de 2008, alguns com prejuízo das suas reformas, deveriam ser suficientemente eloquentes para entender que eles não querem voltar e que, caso o Ministério precise de mais profissionais, deve contratá-los.

Três anos depois não há esperança.

Provavelmente


cronicasnofeminino,

 

A British Humanist Association, uma organização sem fins lucrativos livre de princípios religiosos, lançou em Outubro do ano passado uma campanha ateísta, em contraponto à publicidade cristã nos autocarros londrinos. Em alguns autocarros, comboios e até nos bilhetes de metro, em Inglaterra, Escócia e País de Gales, pode ler-se agora a mensagem There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life. Admito que gosto do slogan. Tendo dúvidas relativamente à existência de Deus, sou adepta fervorosa da segunda parte da mensagem: páre(m) de se preocupar e aprecie(m) a vida. A campanha, entretanto, angariou simpatizantes em Itália e em Espanha. Resta saber se algum dia veremos as parangonas de apelo a uma vida sem deus cá pelo cantinho lusitano. Algo me diz que as vozes dissonantes se levantariam em uníssono.

A recuperação e as provas


cronicasnofeminino,

As carteiras de senhora são um labirinto insondável, albergam mistérios e tralhas em número excessivo. Descobrir o que se procura pode ser uma tarefa hercúlea levada a cabo com tacto e persistência. O telemóvel tocava, insistente, num final de tarde em que acabava de deixar a escola. Para trás o dia que se aconchegava no crepúsculo gélido mas luminoso, o chilreio de adolescentes em delírio e a sala de professores pontilhada de rostos pessimistas. Para trás, tudo, então, o tempo que se afirmava peremptoriamente de tranquilidade e aconchego entre os livros e a lareira, a preguiça das gatas na arte de nada fazer, só os felinos o conseguem com mestria. Encontro finalmente o telemóvel, após tentativas infrutíferas. A um número desconhecido correspondeu uma voz igualmente desconhecida. Quem seria? Do lado de lá soava alguma inquietação e ansiedade. Reconhecida então a voz, a conversa foi correndo com sucessivas tentativas de acalmar a mãe da minha aluna: a burocracia não deve sobrepôr-se às partidas que a saúde ou falta dela pregam, tento convencer-me, tudo se resolverá, pois, tento acalmá-la, tudo tem solução. Depois de ter sido submetida a uma intervenção cirúrgica delicada e de recuperação lenta, a minha aluna ficará retida em casa por um tempo que se adivinha longo. Desencadeados mecanismos para colmatar a ausência forçada das aulas, acresce a inquietação de fazer provas de recuperação a todas as disciplinas assim que regressar à escola e que constituem apenas aquilo que tão bem se faz neste país: burocratizar o sistema. Nada me oporia às provas caso ela, e outros como ela, se tivessem entretido no café em frente à escola em vez de ir às aulas. O absentismo não deve ser premiado em circunstância alguma. Em caso de doença comprovada não são senão uma enorme injustiça.

Espalhar a palavra


cronicasnofeminino,

Na alvorada da modernização tecnológica, o Ministério da Educação abriu as portas virtuais. Para trás ficaram os concursos de professores feitos em impressos cheios de quadrículas minúsculas preenchidos com minúcia e rigor absolutos, os números e códigos com precisão inequívoca, qualquer imperfeição marcaria a diferença entre Vila Real e Faro, o processo lento e fastidioso. De há uns tempos a esta parte, ainda antes da Era Magalhães, o Ministério da Educação começou a tirar o partido devido, esperava-se, das imensas vantagens que a tecnologia acarreta. Foi assim que, exactamente para efeitos de um concurso, facultei o meu endereço de e-mail ao dito Ministério e foi assim que, cerca de um ano depois, comecei estranhamente a receber na minha caixa de correio virtual mensagens da tutela, esclarecimentos, chamavam-lhe, sobre a Avaliação de Professores. Não me lembro, em momento algum, de ter autorizado a utilização do meu e-mail para outros fins que não fossem o concurso em questão, findo em Julho de 2007. Para espalhar a palavra da boa nova avaliativa, vale tudo, portanto, inclusivamente usar os endereços de e-mail teoricamente protegidos.

Sentido de (in)oportunidade


cronicasnofeminino,

Cumprindo a tradição de Dia de Reis, foram cantadas as Janeiras a José Sócrates. O Primeiro-Ministro estava visivelmente bem-disposto e sorridente, recessão não lhe terá batido à porta certamente, e aproveitou a ocasião para desejar que, para o ano, os pequenos cantores o encontrassem em São Bento. Há que aproveitar todas as oportunidades. Se isto não é fazer campanha, não sei o que é.

A página em branco


cronicasnofeminino,

 

A angústia da página em branco. A incerteza do texto. A indecisão das palavras que se querem certeiras e eloquentes. E procuro. Escrevo sobre mim? Escrevo sobre outro assunto? Apresento-me? E vou oscilando na incerteza do texto, o texto primeiro que abrirá a minha participação neste projecto que abraço de alma cheia e que, mesmo sem conhecer pessoalmente nenhum dos meus companheiros de escrita, estou certa de que, além do delito diário que aqui será cometido, me dará um enorme prazer. Escrevo sobre mim? Escrevo sobre outro assunto? Apresento-me?