Passado. A espuma dos dias transactos. A matriz sem a qual o presente se torna inócuo e sensaborão. A referência indelével marcada na pele. A tatuagem dos afectos e mágoas desenhada em rabiscos pela alma. O aroma que se liberta dos livros antigos. Páginas de risos distantes e de brumas indecifráveis num outro país estranho e longínquo. O toque da caneta que ficou para escrever estórias nas linhas do presente. O remanescente da garimpa de vidas pretéritas.
O passado é um país distante ao qual regresso raramente, mas ao qual retornei na procura incessante dessa matriz, desse tempo que já não há, obsoleto e distante, tangível apenas através do exercício de recuperação dos momentos, as peças dum puzzle cuidadosamente unidas, assim coopere a memória.
E no meu regresso, o vasculhar vigoroso de gavetas e prateleiras, o deambular pela casa à procura de objectos, máquinas do tempo através das quais a memória viaja e se torna mais vívida, fui encontrar-me, sem perceber muito bem como, com uma parte dos meus Verões de menina, ainda em idade pré-escolar e que os meus pais, pelas raízes que os uniam à Beira Alta, passavam na Figueira da Foz.
A Figueira fazia parte dos rituais de Verão. A tralha que se transferia de armas e bagagens, criadas incluídas, para a estância à beira-mar e os Verões que se sucediam num clima áspero e impetuoso, ao qual não eram estranhas as tempestades no areal, um verdadeiro Sahara para uma criança de tenra idade. A travessia do Sahara acontecia duas vezes por dia, antes e depois do almoço. Era feita com sacrifício, dada a distância até às barracas onde nos recolhíamos quando o tempo não estava de feição – muitas vezes, portanto – e repetida sempre que se impunha um banho nas águas mais geladas que alguma vez experimentei e o banho impunha-se todos os dias. A Figueira era, pois, um mistério insondável de prazeres ocultos que eu não conseguia decifar mas que cumpria com afinco.
E nesse tempo distante, a anos-luz do tempo presente colorido de computadores, jogos e horas infindáveis de torpor físico em frente do ecrã e de contacto social reduzido, as idas à praia tinham duas atracções que constituíam o ponto alto das expedições areia afora: a bolacha americana, trazida até nós por um vendedor ambulante num carrinho verde, uma cruzada pelo areal extenso sob um sol implacável, e os robertos. Os robertos atraíam a criançada e eram teatros de fantoches que deambulavam pela praia, fazendo actuações. Havia sempre pancadaria entre os robertos para gáudio dos assistentes que se reuniam em bandos em torno do teatrinho e que aplaudiam vigorosamente sempre que os wrestlers desse tempo ido se envolviam em brigas acintosas.
Nunca percebi o amor pela Figueira, até ter entendido que mais do que o tempo que foi presente ele me permitiu a memória plena de uma infância tranquila, sem perigos a espreitar a cada esquina. O passado é um país distante ao qual regresso raramente. Está na hora de voltar agora.
Crónica daqui inspirada na série Passado Presente