Figuras de estilo


cronicasnofeminino,

Margarida Moreira, essa maga da palavra escrita, foi hoje, a propósito disto, particularmente cuidadosa e literária. Chamou “monoblocos” aos contentores e a esta magnífica ideia de dar aulas aos alunos de etnia cigana nos ditos contentores “projecto”. E é por isso que gosto tanto de eufemismos. Eles servem sempre para lavar a cara às palavras menos próprias ou prenhes de uma verdade incómoda, exactamente como eu agora, aqui à procura dum eufemismo para qualificar a Moreira, mas dado o adiantado da hora só me ocorrem impropérios. Onde estão os eufemismos quando precisamos deles?

5ª frase, página 161


cronicasnofeminino,

Dita a corrente gentilmente passada pela Ana  que se agarre no primeiro livro à mão, que se abra na página 161 e que se procure a quinta frase completa. Escusei, portanto, o livro que ando a ler, Life is Elsewhere do Kundera, até porque não estava à mão e agarrei um que será provavelmente o próximo a ser lido e que veio comigo de uma viagem de férias, Jonas, o Copromanta de Patrícia Melo. Reza assim a quinta frase:

 

Ela aprendera que certos "conteúdos metafísicos só poderiam se tornar atingíveis através de meios abstratos”, e que nossa ciência divinatória era um exemplo disso.

 

Passo a corrente ao João Carvalho, ilustre geminiano cá da casa, à Carlota, à Pitucha, à mdsol e ao Bandeira.

 

País distante


cronicasnofeminino,

Passado. A espuma dos dias transactos. A matriz sem a qual o presente se torna inócuo e sensaborão. A referência indelével marcada na pele. A tatuagem dos afectos e mágoas desenhada em rabiscos pela alma. O aroma que se liberta dos livros antigos. Páginas de risos distantes e de brumas indecifráveis num outro país estranho e longínquo. O toque da caneta que ficou para escrever estórias nas linhas do presente. O remanescente da garimpa de vidas pretéritas.

O passado é um país distante ao qual regresso raramente, mas ao qual retornei na procura incessante dessa matriz, desse tempo que já não há, obsoleto e distante, tangível apenas através do exercício de recuperação dos momentos, as peças dum puzzle cuidadosamente unidas, assim coopere a memória.

E no meu regresso, o vasculhar vigoroso de gavetas e prateleiras, o deambular pela casa à procura de objectos, máquinas do tempo através das quais a memória viaja e se torna mais vívida, fui encontrar-me, sem perceber muito bem como, com uma parte dos meus Verões de menina, ainda em idade pré-escolar e que os meus pais, pelas raízes que os uniam à Beira Alta, passavam na Figueira da Foz.

A Figueira fazia parte dos rituais de Verão. A tralha que se transferia de armas e bagagens, criadas incluídas, para a estância à beira-mar e os Verões que se sucediam num clima áspero e impetuoso, ao qual não eram estranhas as tempestades no areal, um verdadeiro Sahara para uma criança de tenra idade. A travessia do Sahara acontecia duas vezes por dia, antes e depois do almoço. Era feita com sacrifício, dada a distância até às barracas onde nos recolhíamos quando o tempo não estava de feição – muitas vezes, portanto – e repetida sempre que se impunha um banho nas águas mais geladas que alguma vez experimentei e o banho impunha-se todos os dias. A Figueira era, pois, um mistério insondável de prazeres ocultos que eu não conseguia decifar mas que cumpria com afinco.

E nesse tempo distante, a anos-luz do tempo presente colorido de computadores, jogos e horas infindáveis de torpor físico em frente do ecrã e de contacto social reduzido, as idas à praia tinham duas atracções que constituíam o ponto alto das expedições areia afora: a bolacha americana, trazida até nós por um vendedor ambulante num carrinho verde, uma cruzada pelo areal extenso sob um sol implacável, e os robertos. Os robertos atraíam a criançada e eram teatros de fantoches que deambulavam pela praia, fazendo actuações. Havia sempre pancadaria entre os robertos para gáudio dos assistentes que se reuniam em bandos em torno do teatrinho e que aplaudiam vigorosamente sempre que os wrestlers desse tempo ido se envolviam em brigas acintosas.

Nunca percebi o amor pela Figueira, até ter entendido que mais do que o tempo que foi presente ele me permitiu a memória plena de uma infância tranquila, sem perigos a espreitar a cada esquina. O passado é um país distante ao qual regresso raramente. Está na hora de voltar agora.

 

 

Crónica daqui inspirada na série Passado Presente

Gente como esta


cronicasnofeminino,

O Magalhães continua a dar que falar. Desta vez descobriu-se, pergunto-me porquê só agora, que as instruções dos jogos têm erros de ortografia e de sintaxe sem qualificação possível. A tradução foi feita por um emigrante português, desde os dez anos em França, com a quarta classe, e que adianta não ter havido ninguém para fazer a revisão daquele português. O Ministério da Educação também não esteve disponível.

A Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular, DGIDC para os amigos, responsável pela análise do software do dito computador, admitiu que não conseguir verificar todos os conteúdos, o que nos deixa a todos nós, pais, educadores e professores muito mais tranquilos. Diz Teresa Evaristo, subdirectora da DGIDC, que verificaram a adequação à faixa etária, interesse educativo, programa e currículo mas ter-lhes-á falhado esta manifestação do mais puro português contida nas instruções dos jogos. Quem sabe se o Magalhães não terá sido a fonte de inspiração para Margarida Moreira, a indefectível seguidora de Maria de Lurdes Rodrigues, escrever ofícios tão airosos.

E é a gente desta que a Educação está entregue. Gente que alardeia o rigor e competência. Gente que almeja em distribuir a justiça e repor a ordem no sistema educativo. Gente que admite não exercer o que lhes compete e deixar as 200 mil crianças que adquiriram o prodígio expostas a um chorrilho de asneiras e de disparates. São estes e outros parecidos que querem mudar a Educação deste país.   

Meia-dúzia de manias


cronicasnofeminino,

Primeiro a pedido da Marta, depois a pedido do Pedro , aqui ficam seis das minhas manias:

 

1. Tenho uma paixão inabalável por livros e por livrarias. Tenho livros por todo o lado e rodeio-me sempre deles. Sou incapaz de sair do país ou passar férias sem os levar ou comprar mais no destino, se não for excluída por uma língua que não domino.

 

2. Abomino trabalhos domésticos mas gosto muito de cozinhar e, se cozinhar, transgrido sempre nas receitas.

 

3. Odeio portadas fechadas durante o dia e falta de luz.

 

4. O meu olfacto é muito apurado. Sou capaz de detectar um aroma conhecido facilmente e de ficar perturbada com alguns.

 

5. Ao contrário do que é geralmente atribuído ao sexo feminino, tenho um bom sentido de orientação e nunca tenho medo de me perder.

 

6. Quando estou fora não tenho saudades do país nem da comida nem das pessoas, só de algumas muito especiais que não chegam a ocupar os dedos de uma mão, e jamais sou acometida pela nostalgia do bitoque.

 

E para que a corrente não pare passo-a à Ana das Palavras dos Outros, ao André Carvalho do Geração Rasca, à Teresa C. do Sem Pénis nem Inveja, à Dobra do Grito, à Isabela d’ O Mundo Perfeito e à Ana Cristina Leonardo da Meditação na Pastelaria.

 

 

Moreira excelentíssima


cronicasnofeminino,

Margarida Moreira, essa fiel seguidora de Sócrates e dedicado capacho de Maria de Lurdes Rodrigues, usou – ou abusou?- do poder que lhe é instituído através do cargo de Directora Regional do Norte e mandou que se fizesse o Cortejo de Carnaval que o Conselho Pedagógico do Agrupamento de Escolas de Paredes de Coura  tinha decido não fazer por falta de tempo, argumento que fará saltar de júbilo a opinião pública sempre pronta a brindar os professores com epítetos carinhosos mas que compreendo na perfeição.

Esse ser férreo que arfa à primeira verbalização de José Sócrates e abana a cauda à respiração de Maria de Lurdes Rodrigues, não é apenas a dama devotada que se conhece. Descobri aqui que é uma escritora de qualidade. Imagine-se se fosse avaliada pela qualidade do que produz. Seria Muito Bom ou Excelente?

Com data marcada


cronicasnofeminino,

António Lobo Antunes, o eterno candidato ao Nobel e dono de uma escrita ímpar, consubstanciada pelo próprio através da afirmação frequente Ninguém escreve como eu, declarou que deixará de escrever dentro de dois anos. Reiterou que quer deixar a obra redonda e que se calará a partir dessa altura. António Lobo Antunes cultiva a imagem irreverente de quem está em estado de enfado permanente e de sofrimento intenso, contudo esta declaração terá apanhado de surpresa os fãs da obra e seguidores do próprio escritor. Sendo óbvio que a escrita é também trabalho e que esse pode ser interrompido por razões mais ou menos voluntárias, é menos óbvio que a criatividade e genialidade de que se alimentam as escritas maiores possam ser interrompidas com data. Não entendo.

 

A fronteira da dignidade


cronicasnofeminino,

Viver é um direito, não uma obrigação. A frase foi retirada de um excerto do filme Mar Adentro, um dos filmes mais perturbantes que vi e a que regresso amiúde sempre que se me colocam as questões inerentes à eutanásia ou ao suicídio assistido, mas que poderia aplicar-se ao caso de Eluana Englaro, uma mulher de trinta e oito anos, em coma desde 1992, em sequência de um acidente de viação. Depois de interposto um recurso pelo pai de Eluana para que o seu corpo possa finalmente descansar e de ter sido autorizada pelo Supremo Tribunal Italiano a suspensão da alimentação e hidratação artificial que prendem Eluana à vida, o executivo de Berlusconi prepara-se para passar um decreto-lei proibindo a interrupção da administração de água e alimentos a doentes em estado de morte clínica. Alega que o “Governo não pode ignorar as pressões da Igreja Católica”, cujas vozes se têm feito naturalmente feito ouvir em Itália manifestando o seu óbvio desacordo. A questão não é pacífica, a vontade do doente deve ser respeitada até à última instância e neste caso, sabe-se através do pai de Eluana, que seria de sua vontade morrer, dada a situação que se prolonga há dezassete anos. Acredito que viver assim não deve nunca ser uma obrigação nem jamais servir propósitos políticos e religiosos. Respeite-se a vontade de Eluana, refém do seu próprio corpo há dezassete anos, e a vontade do pai de Eluana que apelou ao silêncio nos últimos dias da filha.