A história da minha vida profissional recente articula-se comedidamente com um poema de Martin Niemöller. Conta Niemöller nesse poema que primeiro levaram os comunistas, ele não quis saber, não era comunista, depois foram os sindicalistas, mas ele nada tinha a ver com sindicatos, seguiram-se-lhe os judeus, não lhe interessava, não era judeu, remeteu-se ao silêncio. Quando o levaram a ele, era tarde demais e não havia mais ninguém para protestar.
Assim é a minha vida profissional desde o início da discussão do Estatuto da Carreira Docente, o documento vital que faltava ao país para pôr os professores na linha. Primeiro foram-se aos absentistas, a lei é bem clara, eu, como nunca falto e cumpro religiosamente horários e tempos de trabalho, não quis saber, achei que não era para mim, depois foram-se aos baldas, sempre em nome de um pretenso rigor e eficácia, eu, como me tenho como uma rapariga atilada no que à profissão respeita fiquei tranquila e continuei a ver o povo descabelar-se em gritos e fúrias. Agora que me confundem com os baldas, absentistas, desinteressados e com todos esses que o Estatuto da Carreira Docente visa atingir, não há nada a fazer e vejo-me levada pela torrente de insultos que corre os profissionais do ensino como se tivesse uma tabuleta pendurada no pescoço com parangonas anunciando a profissão ou um autocolante no carro Professora a bordo. É favor vaiar ou Pode fazer Bú à vontade.
Desde a cabeleireira à manicure, do trolha ao padeiro, do carteiro ao professor doutor, do talhante à empregada de balcão todos alvitram, opinam, comentam, jorram verborreia educativa com palpites acintosos, uns verdadeiros Ruis Santos da pedagogia, sábios da didáctica, mestres do conhecimento, resta saber como se detiveram pelas respectivas profissões com tanta sapiência no que respeita ao mundo educativo.
Tem-me pois acompanhado o poema. Martin Niemöller dizia umas coisas acertadas e acutilantes e eu tenho um fraquinho por homens inteligentes e talentosos. Há dias, porém, em que Kafka me vem visitar. Nesses dias dou por mim a piscar-lhe o olho, uma mulher é feita de contradições e se as palavras de Niemöller me assentam na perfeição, há outros em que sou mais Kafka. Nesses dias, estou atolada em trabalho de sapa, papelada sem destino, logo agora que há que proteger as árvores e a natureza, e eis que o amigo Kafka vem pé ante pé, primeiro, depois instala-se como uma visita indesejada e por mais que o sacuda, com uma Praça da Cidade Velha tão bonita não há razão para me atazanar os dias, não se vai embora. Diz que vai retomar o Processo, uma nova versão contemporânea, e que lhe servirei de inspiração, nos dias que correm a vida dos professores é uma amálgama de frases sem sentido, leis absurdas e incongruentes, montanhas de papéis e formulários, um labirinto de decretos-lei, e objectivos com portfólios nas encruzilhadas, até já pensei em comprar umas mangas-de-alpaca. Não admira pois que me ronde os dias, o amigo Franz.
Esta crónica publicada aqui regressou hoje ao ouvir as declarações do Primeiro-Ministro sobre a redução do absentismo nas Escolas. Com o Estatuto do Aluno é até surpreendente que ainda haja faltas. Espero para ver sem surpresa a redução do abandono escolar e o povo em delírio a dar vivas a Sócrates por tamanha façanha.