E lápis azuis, vendem?


cronicasnofeminino,

Dez anos depois, o grupo Auchan reincide na proibição da venda d’ A Casa dos Budas Ditosos de João Ubaldo Ribeiro. O responsável pelas compras do grupo considerou o livro pornográfico pela linguagem e decidiu não tê-lo disponível. Quando questionado acerca da proibição, o dito responsável considerou uma ‘falta de chá’ a pergunta, não tivesse ele de explicar a inanidade da censura ao Prémio Camões 2008. O livro foi escrito para a colecção Plenos  Pecados e versa sobre a luxúria, logo não é de esperar uma linguagem angelical e imaculada, ainda mais se tivermos em conta que é narrado por uma mulher vetusta que sem pudor relata as suas experiências sexuais. Um grande passo, porém, até à pornografia. Bela notícia para um vinte e cinco de Abril. 

 

25 de Abril (5)


cronicasnofeminino,

 Abril de Sim Abril de Não

 

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro

 vi o Abril que foi e Abril de agora

eu vi Abril em festa e Abril lamento

Abril como quem ri como quem chora.

 

Eu vi chorar Abril e Abril partir

vi o Abril de sim e Abril de não

Abril que já não é Abril por vir

e como tudo o mais contradição.

 

Vi o Abril que ganha e Abril que perde

Abril que foi Abril e o que não foi

eu vi Abril de ser e de não ser.

 

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)

Abril de Abril despido (Abril que dói)

Abril já feito. E ainda por fazer.

 

Manuel Alegre

Vida moderna


cronicasnofeminino,

Nesta onda do politicamente correcto, da vidinha saudável, casta, contida e longe de qualquer vício, nem a arte escapa. Desta vez a vítima foi Monsieur Hulot. Numa retrospectiva de Jacques Tati, a Cinemateca Francesa não pôde incluir o cachimbo de Monsieur Hulot, uma vez que a lei gaulesa não o permite. Resta saber o que virá a seguir. As mulheres de Rubens deverão ser sujeitas a uma lipoaspiração, às imagens de Botero impõe-se uma banda gástrica, às mulheres de Modigliani não faltarão rinoplastias e “A Criação do Mundo” de Courbet deverá ser submetida a uma depilação urgente. Não há paciência.

 

 

A arte de parar


cronicasnofeminino,
Na aldeia existe um código desconhecido a forasteiros e transeuntes de ocasião, um acordo não verbal, escrito em lado algum de que se tenha memória que dita de forma oculta as regras de conduta rodoviária. Desengane-se quem, em tempo de passeio ou de volta domingueira de arejamento da indumentária sagrada, ousar pensar que, entrando pelas ruas estreitas do vilarejo, está em posse dos conhecimentos basilares para circular em segurança.

Na aldeia reina quem está na aldeia e quem está na aldeia reina como entende: os ritmos impostos pelo remanso dos vagares e algum sossego. Na aldeia, não impera a preguiça, impera a sua própria cadência e nesta cadência idiossincrática não cabem as normas e prescrições dos afobados condutores citadinos a espumar pelos escapes o fumo do stress da urbe sempre marcado pelo fortissimo vivacissimo das correrias destemperadas.

Na aldeia, um sentido proibido é um sentido proibido, regra respeitada sem discussões ou transgressões conhecidas mas um estacionamento proibido nem sempre é estacionamento proibido. Há dias em que é proibido, outros em que as riscas amarelas servem apenas o propósito de quebrar a monotonia do asfalto acinzentado e outros ainda que são cabalmente ignorados, tão ignorados que se lhes estaciona por cima. Nos dias em que anda à roda a clientela da tabacaria espraia-se tabacaria afora, nesses dias o estacionamento proibido não é estacionamento proibido, a sorte pode ser uma urgência, nos dias em que há missa é maioritariamente ignorado e nos dias em que há velórios na igreja idem. Razões de monta evidentemente. Contudo, em dias de muita chuva ou muito sol os estacionamentos proibidos observam o mesmo lastro de permissividade. Se chove não há tempo para delongas e se está sol para quê ter tanta pressa.

Para viver na aldeia é preciso largar à porta os espartilhos da condução orientada pelo tempo limite de deslocação entre um ponto e outro. Atestei-o quando num dia passado me fiz à aldeia vinda da cidade, envolta num furioso incandescente de semáforos e passadeiras. Movida a frenesi urbano e ainda com o fumo dos escapes presente na pituitária, ousei entrar irrequieta na ruela estreita para desembocar na igreja. À minha frente um carro branco pausado e lento. Sem aviso prévio parou na faixa de rodagem e condutor e transeunte encetaram o que parecia ser uma conversa amistosa, o sol de fim de tarde convidava à cavaqueira inconsequente. Exasperei de impaciência, refilei de incompreensão e enraiveci de intolerância. Tudo isto sozinha no meu carro, enquanto a conversa continuava absolutamente alheia e indiferente ao meu desesperar colérico e, quando terminaram, fui ainda simpaticamente cumprimentada pelo condutor sorridente. Melhor do que qualquer livro de auto-ajuda a aldeia convida a um dos ensinamentos que tenho como válidos para os dias de correria desvairada: há que saber parar.

 

 

Esta crónica escrita para o PNETMulher foi inspirada pelo Mestre José Franco que se me atravessou no caminho num dia de correria desenfreada. Repesquei-a hoje no dia em partiu e deixou a aldeia mais pobre.

Anjos e demónios


cronicasnofeminino,

Convivo numa base diária com um desses seres extraordinários que encontram uma explicação esotérica para todos os fenómenos que nos rodeiam, pessoal ou profissionalmente. Naquilo que uns vêem coisa nenhuma ou apenas uma grande acaso ou uma fortuita coincidência, este ser de luz e mezinhas encontra desígnios e caminhos de uma grande ordem esotérica que, felizmente, escapa à maioria – mal de mim se tivesse de aturar isto sempre. Admito que a espaços até lhe acho piada. Sei pelo olhar ou sorriso que foi encontrada uma explicação para o perfume que se pôs no ar, a corrente de ar que atravessou a sala ou para os energúmenos – e quantos – que se atravessam nas vidas comuns de gente comum, na minha inclusive. Sabendo de antemão a teoria, as dificuldades surgem para que cresçamos, evoluamos e percorramos esse calvário de vidas passadas, o karma que se nos agarrou à nascença e que só percorrido nos libertará, ou coisa que o valha, prevejo com relativa facilidade – será porventura o meu karma?- a resposta adequada.

E assim vou vivendo tranquila, sem lhe dar grande crédito, confesso, nem sempre tenho paciência para estes devaneios onde os insubordinados e mal-educados me foram postos no caminho para que eu evolua. Ficaria eternamente grata se fossem fazer progredir ou evoluir outros necessitados seres e me deixassem cá sossegada, de preferência, sem ter de me irritar frequentemente e chamar a atenção para tudo e mais alguma coisa. Se viram A Turma sabem exactamente do que falo.

Mas hoje – há sempre um mas e também um hoje- fiquei estupefacta ao ler este comentário e fui na senda da notícia. Aparentemente o Ministério que me tutela, ou o organismo competente para o efeito, acreditou uma acção de formação sobre crianças índigo, os tais seres que se me atravessam na vida profissional e que afinal não são insolentes e malcriados, são seres de outro mundo, de aura colorida que têm uma grande dificuldade em aceitar a autoridade. Esta será umas das acções de formação acreditada para efeitos de progressão na carreira – ainda não consegui entender de todo onde foram buscar o enquadramento legal para a dita- o que não deixa de ser uma coisa do outro mundo, uma vez que actualmente o professor só pode formar-se em áreas que sejam do interesse da sua escola. Seria pois de esperar que o Ministério da Educação tão interessado em promover o rigor e competência apostasse nos mesmos.

Estou ansiosa que tal chegue à minha escola. Deve haver um desígnio superior para tanto dislate, tal como me ensina diariamente a criatura de luz. Depois das acções de formação de TIC e de outras sobre a avaliação de professores, eis que surge este fenómeno. Agradeço que me avisem quando houver algo verdadeiramente importante e que forme profissionais mais competentes cientifica e pedagogicamente. É disso que precisamos. Tudo o resto é conversa fiada e muito triste.

De braço dado com Kafka


cronicasnofeminino,

A história da minha vida profissional recente articula-se comedidamente com um poema de Martin Niemöller. Conta Niemöller nesse poema que primeiro levaram os comunistas, ele não quis saber, não era comunista, depois foram os sindicalistas, mas ele nada tinha a ver com sindicatos, seguiram-se-lhe os judeus, não lhe interessava, não era judeu, remeteu-se ao silêncio. Quando o levaram a ele, era tarde demais e não havia mais ninguém para protestar.

Assim é a minha vida profissional desde o início da discussão do Estatuto da Carreira Docente, o documento vital que faltava ao país para pôr os professores na linha. Primeiro foram-se aos absentistas, a lei é bem clara, eu, como nunca falto e cumpro religiosamente horários e tempos de trabalho, não quis saber, achei que não era para mim, depois foram-se aos baldas, sempre em nome de um pretenso rigor e eficácia, eu, como me tenho como uma rapariga atilada no que à profissão respeita fiquei tranquila e continuei a ver o povo descabelar-se em gritos e fúrias. Agora que me confundem com os baldas, absentistas, desinteressados e com todos esses que o Estatuto da Carreira Docente visa atingir, não há nada a fazer e vejo-me levada pela torrente de insultos que corre os profissionais do ensino como se tivesse uma tabuleta pendurada no pescoço com parangonas anunciando a profissão ou um autocolante no carro Professora a bordo. É favor vaiar ou Pode fazer Bú à vontade.

Desde a cabeleireira à manicure, do trolha ao padeiro, do carteiro ao professor doutor, do talhante à empregada de balcão todos alvitram, opinam, comentam, jorram verborreia educativa com palpites acintosos, uns verdadeiros Ruis Santos da pedagogia, sábios da didáctica, mestres do conhecimento, resta saber como se detiveram pelas respectivas profissões com tanta sapiência no que respeita ao mundo educativo.

Tem-me pois acompanhado o poema. Martin Niemöller dizia umas coisas acertadas e acutilantes e eu tenho um fraquinho por homens inteligentes e talentosos. Há dias, porém, em que Kafka me vem visitar. Nesses dias dou por mim a piscar-lhe o olho, uma mulher é feita de contradições e se as palavras de Niemöller me assentam na perfeição, há outros em que sou mais Kafka. Nesses dias, estou atolada em trabalho de sapa, papelada sem destino, logo agora que há que proteger as árvores e a natureza, e eis que o amigo Kafka vem pé ante pé, primeiro, depois instala-se como uma visita indesejada e por mais que o sacuda, com uma Praça da Cidade Velha tão bonita não há razão para me atazanar os dias, não se vai embora. Diz que vai retomar o Processo, uma nova versão contemporânea, e que lhe servirei de inspiração, nos dias que correm a vida dos professores é uma amálgama de frases sem sentido, leis absurdas e incongruentes, montanhas de papéis e formulários, um labirinto de decretos-lei, e objectivos com portfólios nas encruzilhadas, até já pensei em comprar umas mangas-de-alpaca. Não admira pois que me ronde os dias, o amigo Franz.

 

Esta crónica publicada aqui regressou hoje ao ouvir as declarações do Primeiro-Ministro sobre a redução do absentismo nas Escolas. Com o Estatuto do Aluno é até surpreendente que ainda haja faltas. Espero para ver sem surpresa a redução do abandono escolar e o povo em delírio a dar vivas a Sócrates por tamanha façanha.

É só amanhã, Zézito


cronicasnofeminino,

Alguém que diga a José Sócrates que a hora só muda amanhã. Chegar atrasado e alegar que a culpa é de outrem não é bonito e não lhe fica nada bem. Outra questão permanece porém: quem eram afinal os infiltrados que em pleno CCB vaiaram o Primeiro-ministro? Os comunistas, os sindicalistas ou os laboriosos da cabala que, ai dele, perseguem José Sócrates ardilosamente?

Dia Mundial da Poesia


cronicasnofeminino,

no tempo em que éramos felizes não chovia.

levantávamo-nos juntos, abraçados ao sol.

as manhãs eram um céu infinito. o nosso amor

era as manhãs. no tempo em que éramos felizes

o horizonte tocava-se com a ponta dos dedos.

as marés traziam o fim da tarde e não víamos

mais do que o olhar um do outro. brincávamos

e éramos crianças felizes. às vezes ainda

te espero como te esperava quando chegavas

com o uniforme lindo da tua inocência. há muito

tempo que te espero. há muito tempo que não vens.

 

José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas