Palhaçada


cronicasnofeminino,

Nada como uma derrota nas eleições europeias para surgirem as alterações que hipoteticamente granjearão mais votos. Esta é um bom exemplo. Ou admitimos isso ou teremos de admitir que o Ministério da Educação não sabe o que faz e nos andou a enganar a todos com a verborreia do mérito.

Os dias com Eulálio


cronicasnofeminino,

 Os dias com Eulálio não foram simples. Não que tenham sido propriamente problemáticos ou fastidiosos, Eulálio é fluente e agradável na conversa, mesmo naquela cama de hospital e apesar dos cem anos – onde já se viu centenário com tamanha memória?- mas a história raramente tem o mesmo fim. Cada vez que se julga ter sido rematado o desaparecimento de Matilde surge mais uma versão. E assim andamos, corremos, cavalgamos páginas – quase duzentas- para saber como foi com Matilde, como foi com Matilde, afinal? Contudo, Eulálio, ainda cheio de pose e de pergaminhos, apesar de na penúria, Eulálio d’ Assumpção, não esqueçamos, é um velho arguto e sagaz que burila a história de um amor infeliz ao sabor de si próprio e da sua memória. Ora com a filha ora com as enfermeiras vai trocando palavras que oscilam esparsas ou consistentes na esperança de fixar a memória de ancião. E Matilde. Sempre Matilde. Voa temporariamente a resgatar os interlocutores perdidos no passado, há que perdoar Eulálio por estas ausências pontuais, para retomar a vida longa agora confinada às quatro paredes de um quarto de hospital, infecto, diz ele. E assim galgamos páginas. Mais e mais. Na senda de Matilde, com a história do Brasil em pano de fundo, as questões raciais, a família enredada em episódios curiosos de uma decadência anunciada, as alterações urbanísticas do Rio de Janeiro, várias gerações de Eulálios entre o casarão de Botafogo e a casa dos fundos de uma Igreja Evangélica, morada última antes da cama de hospital de onde lhe ouvimos a vida antes que chegue a morte. Deixei Eulálio ontem à noite mas continua comigo, o velho Eulálio d’ Assumpção, Lalinho, Lálá, Lilico, a prova evidente de que Leite Derramado vale a pena.

 

 

Lobo-antuninos e saramaguianos


cronicasnofeminino,

 

José Saramago, oitenta e seis anos, o único laureado com o Prémio Nobel da Literatura, dono de um temperamento difícil e de palavra afiada, provoca a opinião pública sempre que Portugal é tema de conversa, desencadeando reacções em cadeia de repúdio e rejeição que, estou convicta, apreciará na intimidade com júbilo, cumprido que está um dos papéis principais do escritor para com o labor da escrita e para com os seus leitores: provocar.

António Lobo Antunes, sessenta e seis anos, alfacinha bisonho e ensimesmado, o eterno candidato ao Nobel que desmente categoricamente a mágoa pelo seu gladiador de escrita, José Saramago, ter trazido a medalha dourada e refulgente para o cantinho luso, diz que escreve o mesmo livro há anos, afirma que ninguém escreve como ele ad nauseam e reafirma os locais da escrita como únicos.

Em comum parecem ter a nacionalidade, excepto nos dias em que Saramago lhe dá para o salero e nos momentos em que Lobo Antunes deambula por Angola, como se amanhã nunca tivesse havido e o tempo permancesse parado nas páginas d’ Os Cus de Judas, ambos partilham o mester da escrita e a atitude de permanente provocação, tanto pelo ar blasée de António Lobo Antunes, quer sempre ir para casa escrever em vez de estar a receber prémios e a largar palavras de circunstância, quer pela atitude agressiva e furiosa de José Saramago. Há sempre uma farpa afiada com que espicaçar alguém, provavelmente a sua Pilar será o único ser imaculado e incólume, aqui ganha aos pontos a Lobo Antunes. Qualquer mulher aprecia este amor maior ostentado em praça pública como grinalda da vida em comum.

Contudo, nem só pela atitude se distinguem. Existe um exército armado de palavras e argumentos, leitores e seguidores fervorosos que abraçam a causa de cada um dos escribas como se escolhessem lugares e adversários no campo de batalha ou armas num duelo A baioneta saramaguiana ou o florete lobo-antunino? Estes séquitos são incapazes de olhar apenas a escrita, que saudades dos tempos em que os escritores apenas escreviam e apareciam esporadicamente para uma sessão de autógrafos pontual, e bebem as peroradelas de cada um dos escritores grandes da contemporaneidade, como se de palavra benta se tratasse.

Percebi, pois, que os amantes da literatura portuguesa se dividiam nestes dois grupos armados, quando um dia alguém se admirou profundamente por eu gostar de António Lobo Antunes e de José Saramago, da escrita bem entendido, dispenso-os aos dois em pessoa. Até esse dia não me tinha passado pela cabeça que a literatura fosse composta por princípios activos incompatíveis – que ingénua – capazes de provocar reacções adversas caso combinados ou tomados em conjunto. Se há fenómenos que não entendo é a contenda que opõe estas duas espécies de leitores aficionados: saramaguianos e lobo-antuninos, duas castas aguerridas e belicosas capazes de disparar argumentos se e quando cada um dos dois lança um livro ou sempre que um dos dois faz uma aparição pública e larga palavras como quem atira pedras. Eu, por mim, fico-me apenas pelos livros, a maneira única que conheço de amar a literatura, o resto, como diria António Lobo Antunes em relação ao Nobel, é bullshit.

 imagem: Richard Baumgart, "The writer"

 

Esta crónica foi originalmente publicada no PNETMulher. Regressou hoje pela conversa animada que se travou nesta caixa de comentários em torno de livros e escritores, apesar de não se ter sentido a presença de qualquer um dos dois. Onde andarão?

 

O pequeno ditador


cronicasnofeminino,

Domingo de manhã é um dia improvável para visitas ao supermercado. Contudo acontece, raramente, mas acontece e por isso neste Domingo cumpriu-se a improbabilidade e a excepção.

Entre o burburinho que presumo habitual, uma fila desencorajadora no peixe e os carrinhos a abarrotar, cruzei-me com uma mãe carregando o filho de um lado e o carrinho de compras no outro. O ar de desânimo e estafa no rosto da mulher bem jovem denunciam o suplício que passará entre dois pólos da sua existência, a vida doméstica de um lado, e do outro, a maternidade, empurrada como quem empurra o mundo, o contraste infeliz com a manhã tépida e apaziguadora de sol. Mais um volta e ouço o grito de uma outra mãe, o eco lá para o corredor das bolachas Francisco! Ó Francisco! e depois a reincidência num tom ainda mais elevado Francisco! Avisto entretanto o Francisco, uma criança de uns quatro, cinco anos previsivelmente, a empurrar o carrinho de compras, cada vez mais alheado ao chamamento da mãe. Impávido e sereno o Francisco seguia o seu caminho como se nada, rigorosamente nada, fosse. Francisco! Desta feita, o Francisco ia já bem ligeiro a afastar-se da vista da mãe. A progenitora acorreu à criança para que não a perdesse de vista e arremessou-lhe com mais uma ralhadelas sonoras, a que o Francisco correspondeu com uma altaneira ignorância do alto da sua ínfima idade. Francisco, o que é que tínhamos combinado? Nada. Mãos adentro de uma prateleira, ia lampeiro buscar algo da sua preferência. Já que o obrigaram a ficar pelo menos traria algo consigo. Mais uma admoestação e nada. A mãe corre lesta para o carrinho, furiosa e descontrolada, e retira algo a que o Francisco finalmente reage com o choro imediato. A mãe, com o desespero estampado no rosto, cede e diz-lhe Então pronto! Surpreendente que aos quatro, cinco anos aquela mãe não consiga impor-se, ceda às chantagens do pequenote e que fique desesperada. Menos surpreendente é, pois, que quando adolescentes não lhes consigam fazer nada.

Os quadros das nossas vidas (5)


cronicasnofeminino,

Acaso. Puro acaso o que me levou num dia escaldante de Julho a sentar-me de frente para ele. Exausta pela tertúlia da noite anterior salpicada moderadamente com Riesling austríaco e condimentada com palavras numa língua estrangeira, o elo comum que nos uniu ao longo daquelas duas semanas repartidas entre Graz e Viena, procurei o descanso discreto. Ali seria. Na sala contígua, a multidão amontoava-se num burburinho reverencial e extático em torno de um dos mais conhecidos quadros do mundo, motivo para t-shirts, porta-chaves, lenços de senhora, cadernos, caderninhos, lápis e um sem fim de lembranças, o destino fatídico contemporâneo das grandes obras de arte. Gustav Klimt estava longe de imaginar que o seu Beijo, ainda hoje gerador de tanta curiosidade quanto à identidade do homem e da mulher que se beijam num campo florido, seria um dos motivos preferidos para a panóplia kitsch que as lojas dos museus albergam e simultaneamente um dos mais admirados e apreciados quadros.

À semelhança de quase todos os pintores e artistas plásticos, também Egon Schiele, o autor do quadro que eu contemplava fortuitamente e que acabara de entrar na minha vida, estaria nos antípodas de imaginar o futuro das imagens quase grotescas, longílineas e esquálidas que povoam a sua paisagem artística. O jovem pintor austríaco teve pouco tempo para inundar o mundo com o seu talento, o suficiente porém para ter sido considerado indecoroso e pornográfico pelos seus contemporâneos. Após ter criado a Neukunstgruppe em oposição directa aos cânones do seu tempo e uma breve passagem pela 49ª Secessão, Egon Schiele deixou o seu nome inscrito na cena expressionista austríaca. Partiu precocemente, pouco tempo depois da mulher grávida, vitimada pela gripe.

E naquele quadro há algo dessa separação. A premonição inscrita no calor dos corpos abraçados. Schiele separar-se-ia da mulher e da vida cerca de um ano depois de ter pintado o Abraço. Um homem e uma mulher nus contra um lençol branco em desalinho, os corpos contrastantes, o homem que a envolve e agarra. O abraço pungente. Mais do que carinhoso ou ternurento, o abraço final e crepuscular que antecede as separações definitivas.

Anos depois voltei ao Belvedere.  Numa tarde gélida de Dezembro, sentada no mesmíssimo banco, contemplei os amantes. O mesmo abraço intenso e dramático, tão belo como me pareceu naquele Julho distante. Decididamente um dos quadros da minha vida.

 

Egon Schiele, (1917), Umarmung

Nós, os papagaios


cronicasnofeminino,

O Ministério da Educação emanou um Manual do Utilizador em que estão lavradas as frases que deverão ler aos alunos, quando amanhã se iniciarem as Provas de Aferição do Ensino Básico. Podem ser lidos nacos de prosa como  "Em primeiro lugar, chamo a atenção para o facto de não poderem falar com os vossos colegas". Não basta, portanto, alertar para o facto de que não podem falar uns com os outros. Que fizessem recomendações é absolutamente natural e esperado. Que tratem os professores como débeis mentais também não é novidade absoluta, mas que depois de tantos dislates continuem na senda do disparate é uma prova de falta de inteligência. Espero ansiosamente a versão dos exames do Secundário para ver qual a verborreia que terei de papaguear. À semelhança do que aqui se diz, resta-me também esperar que a redacção não tenha ficado a cargo da Moreira.

Leituras e manias


cronicasnofeminino,

Há tentações a que um amante de livros não consegue resistir. Uma novidade acabada de chegar do escritor de eleição, os livros arrumados e virgens, o aroma que as páginas acabadas de imprimir soltam. Desgraçadamente qualquer livro, independentemente do seu autor ou da qualidade do conteúdo, consegue soltar aquela fragrância irresistível. Mandasse eu e declararia quais os livros, talvez quais os autores deviam sair perfumados da gráfica. Não há pior do que sentir-me seduzida pela fragrância de livros de escrita duvidosa, a traição a que os sentidos nos obrigam amiúde. Desses fujo, não vá perder-me encantada e acabar a ler romances de vão de escada.

Naquele dia não houve fragrância. Excluamos, pois, este factor de sedução. Naquele dia, na Feira do Livro, os olhos ter-me-ão brilhado, quando chegada à caixa com três livros me informaram que, se comprasse quatro, o mais barato era oferta. E porque aos livros não se viram as costas e tamanha generosidade livreira é inaudita por cá, retomei o périplo anteriormente interrompido pela auto-disciplina a que surpreendentemente me havia submetido. Rumei direita e sem hesitação a um livro que namorara meses antes, também ainda desgostosa pela quase ausência de livros brasileiros no certame luso e Os Lados do Círculo de Amílcar Bettega juntou-se a Um Passado Perfeito de Leonardo Padura, O Melhor da Comédia da Vida Privada de Luís Fernando Veríssimo e a O Planalto e a Estepe de Pepetela. E estaria tudo a correr muito bem, se não tivesse entretanto regressado ao livro e esbarrado em dois, logo dois, dois pontos e vírgulas, na primeira página. Num texto nutro especial animosidade contra os ditos. Erguem-se na prosa como barreiras, um salto a que obrigam para que se prossiga. Incomodam-me, fazem-me parar expectante na enumeração que se adivinha e, admito-o, irritam-me, detestto-os. Não sei se volte à Feira e reclame o produto defeituoso ou faça o que os leitores sem manias fazem: ler o livro.

Quero, posso e mando


cronicasnofeminino,

Na inauguração da Biblioteca Escolar de uma escola em Fafe, a um Domingo de manhã, faltaram professores, faltaram alunos, mas não faltaram retaliações. Assim sendo, em virtude da ausência de mole humana para dar vivas à obra, o Coordenador da Biblioteca foi destituido. O excelentíssimo Director do Agrupamento afirmou perante o afastamento: "Nomeio pessoas da minha confiança e decidi trocar aquele coordenador".  Eis para que serve um Director.

Socialismo à moda antiga


cronicasnofeminino,

O Ministério da Educação escreveu-me, um destes dias, uma carta. Desta feita não utilizou indevidamente o meu endereço electrónico, como havia feito há uns tempos, e fez o obséquio de me endereçar uma carta escrita através dos serviços administrativos da minha escola. Na dita carta, fui então informada que o contrato que firmei com o Ministério no início da década de 90 e segundo o qual era professora efectiva na minha escola deixou de vigorar. O legislador, que terá usado o pé que tinha mais à mão para delinear as leis que nos regem e que regem o Ministério da Educação, decidiu que a partir de agora tenho um contrato por tempo indeterminado. Assim, sem mais. O tempo indeterminado do contrato implica que, caso haja professores a mais, estes possam ser dispensados para outra escola. A escolha dos professores excedentários é feita através dessa figura bafienta de outrora, que este governo fez o favor de instituir nas escolas, o Director. Cabe a este decidir qual o professor que vai para outra escola. Ora, como a avaliação de professores é o que se conhece, também elaborada com os pés, e com o belíssimo sistema de quotas, onde os Muito Bons e Excelentes são distribuídos magnanimamente ainda antes da avaliação – se não como pagar aquele favorzinho especial? Onde ficariam os amigos dos amigos, os tios dos sobrinhos, os primos do sobrinho da avó e do cunhado? – ficaremos todos desgraçadamente entregues à mercê do Senhor Director, esse ser de uma estirpe superior que manda, põe e dispõe como muito bem entender – obrigada, Partido Socialista – e qualquer um de nós pode ir parar a outra escola, independentemente das habilitações literárias ou profissionais ou do serviço que prestou à Escola. Posso ser eu ou qualquer outro que não caia nas boas graças do Senhor Director e que também pela mesma razão não tenha tido Muito Bom ou Excelente. Tudo isto pela mão de um partido que se diz socialista.

 

Em torno dos livros


cronicasnofeminino,

Daqui a umas horas, pelas 18.30, vou estar na Feira do Livro à conversa com outros dois bookcrossers, a fungaga e o Jota-P. No Bookcrossing  também não sou Leonor mas se chamarem por papalagui eu respondo. A mesa-redonda, subordinada ao tema  "O Bookcrossing e a Biblioteca Global – do fenómeno cultural ao fenómeno social",  vai ser moderada pelo João Morales da revista Os Meus Livros e insere-se na iniciativa do Lisboa Encruzilhada de Mundos que teve a amabilidade de convidar o Bookcrossing a participar. Se não tiverem paciência para me ver e ouvir podem sempre espreitar o pavilhão do LEM, a funcionar como um ponto de troca de livros bem ao estilo Bookcrossing.

Caldo entornado


cronicasnofeminino,

Faço parte daquela espécie de portugueses que cresceu com os livros de Jorge Amado, ainda do tempo em que eram proibidos pela censura e que chegavam às mãos dos meus pais através da tia carioca. Desse tempo é também José Mauro de Vasconcellos e depois desse tempo a literatura brasileira passou a fazer parte integrante das minhas preferências literárias. Não há viagem ao Brasil sem um périplo pelas livrarias. Já dei por mim a arrumar os livros numa livraria em Maceió, a tentar entender uma ordem que me apareceu obscura em Natal até ter percebido que os livros estavam arrumados pelo primeiro nome do autor e não pelo apelido e a escapulir-me dentro de um centro comercial apenas para poder comprar mais um livro, aquele mesmo que tanta falta me fazia. Frequentemente vem-me à memória o primeiro livro que comprei na Livraria da Travessa em Ipanema, Rio de Janeiro, Carnaval no Fogo de Ruy Castro: a experiência matricial numa livraria com estantes de madeira e empregados solícitos na mais bela cidade do meu mundo. Não há viagem a Terras de Vera Cruz em que não venha a abarrotar de livros que me alimentam as longas noites de Inverno e perfumam a esperança de dias mais quentes e tropicais. Quando soube, consequentemente que o Brasil iria ser o país convidado na Feira do Livro, comecei a salivar esperançosamente, as capas, os livros, a possibilidade que se me abria de comprar livros de autores brasileiros em edições brasileiras, quem sabe não iria descobrir escritores novos e certamente teriam o livro que me tem deixado em suspense na ansiedade de o devorar e ter entre mãos.

Sábado soalheiro e escaldante. Dirijo-me aos pavilhões do Brasil para satisfazer o meu desejo. Fui informada de que havia livros de autores brasileiros na representante habitual em Portugal e, depois de atravessar o parque, dei de caras com a editora. Os livros brasileiros ocupavam um espaço ínfimo, ainda consegui vislumbrar do lado de lá alguns livros do Drummond. Nada de novo, portanto, motivo suficiente para uma rotunda desilusão. Não seria de esperar uma maior oferta tendo em conta o país convidado? Um homem não muito jovem acorreu em meu auxílio, ter-me-á visto de cabeça esticada a tentar decifrar as lombadas, e após a habitual procura nas estantes decidiu-se Não tenho, mas espere que vou perguntar se há no armazém. Seguiu-se uma troca curiosa de palavras. O homem perguntava-me se eu tinha internet, que podia pedir pela internet, que também podia ir à livraria, era mesmo ali, para ir lá. Ora uma mulher tem os seus limites e nunca vi alguém estar em plena Feira do Livro e sugerirem-lhe que mandasse vir o livro pela internet ou que fosse à livraria. O meu desagrado pelo insólito começava a notar-se. Livraria? Internet?  Entretanto aproximou-se um homem mais jovem. Que ia ver se tinha no armazém. Pedi-lhe então que me reservasse um exemplar de Leite Derramado de Chico Buarque, caso houvesse, e que passaria um dia desta semana para o ir buscar. O homem não se deu por achado. Não era preciso. Não era preciso deixar nome. Ia ver e se houvesse trazia uns para a feira. Tentei explicar em vão que queria mesmo o livro e que não queria correr o risco de que fosse vendido antes de eu lá ir. O homem menos jovem insistia na internet, também na livraria, ali, é mesmo ali. O mais jovem acrescentou que segunda-feira de manhã me ligaria então, sem falta nenhuma. Hoje é quarta-feira e, pelo caminho e sintomático silêncio, não só não há Leite Derramado, como temos o caldo entornado.

Feira do Livro


cronicasnofeminino,

 

A Feira do Livro é estar sentado debaixo de um guarda-sol às listras a dar autógrafos e a comer os gelados que a minha filha Isabel me vai trazendo de uma barraquinha três editoras adiante, preocupada com as atribulações de um pai suado, de repente da idade dela, a escrever dedicatórias, de língua de fora, numa aplicação escolar. Isto não é uma queixa: gosto das pessoas, gosto que me leiam, gosto sobretudo de conhecer as pessoas que me lêem e me ajudam a sentir que não lanço ao acaso do mar garrafas com mensagens corsárias que não se sabe onde vão ter, e gosto dos romances que escrevi. Tenho orgulho neles e tenho orgulho em mim por ter sido capaz de os fazer. De modo que ali estou, satisfeito e tímido, acompanhado pelo Nelson de Matos que me pastoreia com paciência, com uma placa com o meu nome e as capas em leque à minha frente, um pouco como a sensação de vender bijuterias marroquinas nos túneis do Metropolitano do Marquês ou fatos de treino fosforescentes na Feira do Relógio, que os leitores folheiam, compram, me estendem para o selo branco, e eu em lugar de lhes explicar obsequioso e seguro que os livros não debotam nem encolhem na máquina limito-me por falta de vocação cigana a pôr a etiqueta lá dentro

(Deus sabe o que me apetece às vezes assinar Hermés ou Valentino)

e a devolvê-los com o sorriso lojista de quem garante qualidade e boa malha.

 

 

António Lobo Antunes, Livro de Crónicas

 

 

A  Feira do Livro de Lisboa  já está no Parque.

Desnorte


cronicasnofeminino,

A Norte andam a passar-se fenómenos estranhos. Primeiro foi o caso Charrua, magistralmente resolvido pela Moreira excelentíssima. Agora mais a Norte surge outro fenómeno curioso. Na sequência da chuva de ovos com que a Ministra da Educação foi recebida em Novembro último, a diligente Inspecção-Geral da Educação pôs pés ao caminho para averiguar do feito. Até aqui tudo normal. Contudo, nem tudo correu bem e o alerta foi dado pelos pais dos alunos da Escola Secundária de Fafe. A fazer fé na notícia, o Inspector lembrou-se de questionar os alunos sobre o possível envolvimento de professores na chuvada de ovos,estimulando a delacão. Além dos menores não poderem ser ouvidos sem a presença dos pais ou quem os represente e não o tendo sido, como parece ser o caso, foi cometida uma ilegalidade, não se entende o teor destas inquirições. Prefiro acreditar que foi trabalho do Bruxo de Fafe a admitir que este país vai de mal a pior e que se perdeu por completo o pudor.

 

 

O tempo da descoberta


cronicasnofeminino,

Faz hoje trinta e cinco anos que a mulher do PIDE dormiu lá em casa. Apesar do meu pai ter visto o PIDE rumar ao seu trabalho, talvez na António Maria Cardoso, e não o ter avisado de que havia uma revolução em curso e que provavelmente não voltaria para jantar, a mulher do PIDE era colega da minha mãe na escola, tinha dois filhos pequenos, o mais novo ainda de colo, e ficou completamente só com as crianças numa casa que ficava na mesma rua que a nossa, apenas umas casas abaixo e do outro lado. Do PIDE ninguém teve pena lá em casa, havia de pagar o que fez aos outros, os primos da minha mãe eram repetidas vezes presos pela PIDE bem como o padre amigo da família, sabia-se lá em casa muito bem quem eram e ao que iam, mas a pobre mulher, professora de Francês com duas crianças pequenas, era digna de compaixão e assim dormiu a primeira de algumas noites no sofá-cama da sala com a criançada.

Além da mulher do PIDE havia também a mulher do capitão que por não ser de confiança tinha ficado de fora de todas as movimentações dos capitães e no dia exacto, enquanto todos se deslocavam para Lisboa, ele dormia o sono dos justos. A mulher do capitão não sabia de nada naquele 25 de Abril. Foi portanto com enorme surpresa e risco de apoplexia que a minha mãe sob o olhar vigilante de Américo Tomás e Marcelo Caetano pendurados a cinzento numa sala do liceu, a informou de que algo estava a acontecer. A mulher do capitão não dormiu lá em casa, mas faz parte das personagens que vivem no meu vinte e cinco de Abril, onde a protagonista continua a ser a minha mãe, uma vez que foi através dela que a revolução chegou até mim.

Naquele dia de manhã, acho que estava um dia cinzento, a minha mãe tentava sintonizar em vão uma estação de rádio que transmitisse a música habitual mas em vez disso encontrava música clássica. Terá sido num desses momentos que ouviu o comunicado das Forças Armadas e que não mais se conteve de alegria. Fomos acordados com a sua euforia pueril, a chama da espera que se acendia, o tempo de todas as utopias, de repente, tão presente nas nossas vidas, e que permaneceu durante muito tempo.

E depois vieram mais pessoas, pessoas tão díspares: os amigos do Ultramar com as inevitáveis incertezas e ressentimento contra algo que lhes tirara tudo o que haviam construído ao longo de décadas em Angola, o exotismo da fala e das roupas, tudo tão novo, tão rápido, o amigo desertor que encontrara abrigo em casa dos meus pais durante a recruta e que se desfardava no mais ínfimo espaço de tempo para se libertar da grilheta de uma guerra que ele antecipava mas para a qual a Bélgica surgiu como a fuga plausível, os amigos que nos acusavam de sermos progressistas e que reclamavam estranhamente que a politica estraga as amizades, o chefe de polícia temido e temível pela população estudantil e o padre do "reviralho" que se tornara nosso amigo inseparável, a amizade dura até hoje, e que se juntava ao grupo de amigos que coloria aquele tempo de mudança súbita.

E depois vieram palavras desconhecidas antes, uma explosão lexical de braço dado com as pessoas pela rua subitamente coloridas e livres, a música que ecoava a cada esquina, as tertúlias estimulantes lá por casa e a descoberta de um outro tempo, enquanto eu deixava abruptamente a minha infância. Muitas descobertas, portanto.