Acaso. Puro acaso o que me levou num dia escaldante de Julho a sentar-me de frente para ele. Exausta pela tertúlia da noite anterior salpicada moderadamente com Riesling austríaco e condimentada com palavras numa língua estrangeira, o elo comum que nos uniu ao longo daquelas duas semanas repartidas entre Graz e Viena, procurei o descanso discreto. Ali seria. Na sala contígua, a multidão amontoava-se num burburinho reverencial e extático em torno de um dos mais conhecidos quadros do mundo, motivo para t-shirts, porta-chaves, lenços de senhora, cadernos, caderninhos, lápis e um sem fim de lembranças, o destino fatídico contemporâneo das grandes obras de arte. Gustav Klimt estava longe de imaginar que o seu Beijo, ainda hoje gerador de tanta curiosidade quanto à identidade do homem e da mulher que se beijam num campo florido, seria um dos motivos preferidos para a panóplia kitsch que as lojas dos museus albergam e simultaneamente um dos mais admirados e apreciados quadros.
À semelhança de quase todos os pintores e artistas plásticos, também Egon Schiele, o autor do quadro que eu contemplava fortuitamente e que acabara de entrar na minha vida, estaria nos antípodas de imaginar o futuro das imagens quase grotescas, longílineas e esquálidas que povoam a sua paisagem artística. O jovem pintor austríaco teve pouco tempo para inundar o mundo com o seu talento, o suficiente porém para ter sido considerado indecoroso e pornográfico pelos seus contemporâneos. Após ter criado a Neukunstgruppe em oposição directa aos cânones do seu tempo e uma breve passagem pela 49ª Secessão, Egon Schiele deixou o seu nome inscrito na cena expressionista austríaca. Partiu precocemente, pouco tempo depois da mulher grávida, vitimada pela gripe.
E naquele quadro há algo dessa separação. A premonição inscrita no calor dos corpos abraçados. Schiele separar-se-ia da mulher e da vida cerca de um ano depois de ter pintado o
Abraço. Um homem e uma mulher nus contra um lençol branco em desalinho, os corpos contrastantes, o homem que a envolve e agarra. O abraço pungente. Mais do que carinhoso ou ternurento, o abraço final e crepuscular que antecede as separações definitivas.
Anos depois voltei ao Belvedere. Numa tarde gélida de Dezembro, sentada no mesmíssimo banco, contemplei os amantes. O mesmo abraço intenso e dramático, tão belo como me pareceu naquele Julho distante. Decididamente um dos quadros da minha vida.

Egon Schiele, (1917), Umarmung