Faz hoje trinta e cinco anos que a mulher do PIDE dormiu lá em casa. Apesar do meu pai ter visto o PIDE rumar ao seu trabalho, talvez na António Maria Cardoso, e não o ter avisado de que havia uma revolução em curso e que provavelmente não voltaria para jantar, a mulher do PIDE era colega da minha mãe na escola, tinha dois filhos pequenos, o mais novo ainda de colo, e ficou completamente só com as crianças numa casa que ficava na mesma rua que a nossa, apenas umas casas abaixo e do outro lado. Do PIDE ninguém teve pena lá em casa, havia de pagar o que fez aos outros, os primos da minha mãe eram repetidas vezes presos pela PIDE bem como o padre amigo da família, sabia-se lá em casa muito bem quem eram e ao que iam, mas a pobre mulher, professora de Francês com duas crianças pequenas, era digna de compaixão e assim dormiu a primeira de algumas noites no sofá-cama da sala com a criançada.
Naquele dia de manhã, acho que estava um dia cinzento, a minha mãe tentava sintonizar em vão uma estação de rádio que transmitisse a música habitual mas em vez disso encontrava música clássica. Terá sido num desses momentos que ouviu o comunicado das Forças Armadas e que não mais se conteve de alegria. Fomos acordados com a sua euforia pueril, a chama da espera que se acendia, o tempo de todas as utopias, de repente, tão presente nas nossas vidas, e que permaneceu durante muito tempo.
E depois vieram mais pessoas, pessoas tão díspares: os amigos do Ultramar com as inevitáveis incertezas e ressentimento contra algo que lhes tirara tudo o que haviam construído ao longo de décadas em Angola, o exotismo da fala e das roupas, tudo tão novo, tão rápido, o amigo desertor que encontrara abrigo em casa dos meus pais durante a recruta e que se desfardava no mais ínfimo espaço de tempo para se libertar da grilheta de uma guerra que ele antecipava mas para a qual a Bélgica surgiu como a fuga plausível, os amigos que nos acusavam de sermos progressistas e que reclamavam estranhamente que a politica estraga as amizades, o chefe de polícia temido e temível pela população estudantil e o padre do "reviralho" que se tornara nosso amigo inseparável, a amizade dura até hoje, e que se juntava ao grupo de amigos que coloria aquele tempo de mudança súbita.
E depois vieram palavras desconhecidas antes, uma explosão lexical de braço dado com as pessoas pela rua subitamente coloridas e livres, a música que ecoava a cada esquina, as tertúlias estimulantes lá por casa e a descoberta de um outro tempo, enquanto eu deixava abruptamente a minha infância. Muitas descobertas, portanto.

Extraordinárias memórias, Leonor. Algo me diz que tem muito para escrever sobre elas.
Obrigada, João. Ando a digeri-las e revivê-las desde ontem graças ao Delito. Aquela sucessão de posts ontem levou-me a um tempo que eu tinha adormecido.
Pode ter chegado a altura de deixar acordar.
Acredito que há, de facto, uma altura para tudo e que as memórias são caprichosas, surgem quando querem e não quando as procuramos.
Deixa-as sair agora, Leonor. Gostei imenso deste texto.
Já as guardei outra vez 🙂 Obrigada, Ana.
Como escrevi ontem aqui num comentário a um texto da Cristina, nada há tão fascinante como a memória. Foi uma descoberta relativamente recente que fiz – e cada vez penso mais assim. Pelos mais diversos motivos.
E o mais engraçado é que embora a memória não mude, muda a forma como perspectivamos essas memórias e como as escrevemos.
E como foi o futuro dessas pessoas, Leonor?
Nunca mais soube nada da mulher do PIDE, Joaquim. Lembro-me que o marido passou algum tempo em Peniche e que ela ia vê-lo com os garotos, mas depois como ela não era daqui terá regressado à sua terra. A mulher do capitão lá ficou tranquila, sendo professora também terá rumado a outra terra. Quanto aos restantes, ficaram todos nas nossas vidas tal como já estavam nesse momento e contrariamente ao vaticínio de que a polítca afasta as amizades, o tempo veio provar que a política nada pode quando a amizade é amizade. Também esta história é curiosa.
Acorde e ponha mãos à obra, Leonor. Afinal do que é que precisa mais? ;D
Que o Sócrates me liberte da carga burocrática para melhorar as estatísticas, Mike 😉
Desculpas e mais desculpas… (risos)
Não acha bem que eu culpe o Sócrates, Mike? 😉