Os dias com Eulálio não foram simples. Não que tenham sido propriamente problemáticos ou fastidiosos, Eulálio é fluente e agradável na conversa, mesmo naquela cama de hospital e apesar dos cem anos – onde já se viu centenário com tamanha memória?- mas a história raramente tem o mesmo fim. Cada vez que se julga ter sido rematado o desaparecimento de Matilde surge mais uma versão. E assim andamos, corremos, cavalgamos páginas – quase duzentas- para saber como foi com Matilde, como foi com Matilde, afinal? Contudo, Eulálio, ainda cheio de pose e de pergaminhos, apesar de na penúria, Eulálio d’ Assumpção, não esqueçamos, é um velho arguto e sagaz que burila a história de um amor infeliz ao sabor de si próprio e da sua memória. Ora com a filha ora com as enfermeiras vai trocando palavras que oscilam esparsas ou consistentes na esperança de fixar a memória de ancião. E Matilde. Sempre Matilde. Voa temporariamente a resgatar os interlocutores perdidos no passado, há que perdoar Eulálio por estas ausências pontuais, para retomar a vida longa agora confinada às quatro paredes de um quarto de hospital, infecto, diz ele. E assim galgamos páginas. Mais e mais. Na senda de Matilde, com a história do Brasil em pano de fundo, as questões raciais, a família enredada em episódios curiosos de uma decadência anunciada, as alterações urbanísticas do Rio de Janeiro, várias gerações de Eulálios entre o casarão de Botafogo e a casa dos fundos de uma Igreja Evangélica, morada última antes da cama de hospital de onde lhe ouvimos a vida antes que chegue a morte. Deixei Eulálio ontem à noite mas continua comigo, o velho Eulálio d’ Assumpção, Lalinho, Lálá, Lilico, a prova evidente de que Leite Derramado vale a pena.


Já que não pude fazê-lo de outra forma, aqui ficam as minhas calorosas felicitações.
Obrigada. Foi ontem.
Eu sei. Mas agora só estou ligado ao mundo por esta via.
No problem 🙂
Assim não vale. Gosto de mandar flores… Parabéns atrasados.


:)))
Que amor 🙂
Muito obrigada por tanto mimo.
Beijinho
Leonor o mimo merece-se e pronto!
[Nem imagina o que aquela conversa sobre autores que não se conseguem ler mexeu comigo. Estes dias andei, mais uma vez, à volta do dito cujo. Pus-me a pensar que muitas vezes apanhamos os autores em alturas com pouca disponibilidade para os receber. Depois, uma indisponibilidade gera outra e pode bem dar-se o caso do problema ser mesmo nosso e somente conjuntural. Recuei uns anos largos e admiti que, talvez, fosse esse o caso. Depois lhe conto mais]
Mais uma vez obrigada 🙂
Espero que a conversa não a tenha incomodado, Maria do Sol. É um facto que há alturas na vida para certos livros e autores. Aconteceu-me com Morte em Veneza, só quando li a segunda vez é que gostei mesmo. Quando não gosto não insisto, a menos que seja mesmo por outro imperativo. Há tantos autores e livros, porquê perder tempo com quem não se gosta? E Leite Derramado, já leu? 😉
Este belo texto parece uma prenda que dá a si mesma, antes de partilhá-la: «(…) não me vou daqui embora / sem levar uma prenda dela / menina (…)»
Lamento não ter percebido a tempo. Parabéns sinceros.
Obrigada, João, também não tinha como entender pelo menos aqui 🙂
Já me abriste o apetite, Leonor. A coisa promete, não há dúvida. 🙂
Ai, que lá falhei os parabéns…
Com atraso, aqui ficam eles. Que contes muitos, Leonor!
Um beijo 🙂
Obrigada
Beijos
Mas este post não é sobre mim 😉
Sim, vale a pena, Ana. Acredita que enquanto escrevi o texto voltei ao livro e já descobri mais coisas. Porém, não me parece a obra-prima que se diz por aí.
E eu não disse que valia?
Li parabéns? Então seja: muitos parabéns Leonor!
Vale mesmo, Patti, mas gostei mais de Budapeste embora este me pareça mais consistente.
Obrigada 🙂
Ora então muitos parabéns 🙂
Obrigada, Teresa 🙂