Cratês e outras manobras


cronicasnofeminino,

Na Revisão da Estrutura Curricular o Ministério da Educação aumentou a carga horária da disciplina de Português no Ensino Secundário em 45 minutos semanais. Muito bem. Medida aplaudida, pelo menos pela parte que me toca, mesmo tendo consciência que 45 minutos apenas no 12º ano são manifestamente pouco. Ontem soube-se que o número de alunos por turma vai aumentar, podendo as turmas ter até trinta alunos. Alguém me explica esta lógica? Ou aumentaram a carga horária exactamente porque, à maneira subreptícia deste governo, já tinham em mente aumentar o número de alunos por turma? E já que tanto se brada, e às vezes acertadamente, porque o ensino é público e está a ser pago pelos contribuintes que tal exigir do Ministério da Educação um minímo de condições e de respeito pela forma como o dinheiro de todos é aplicado na educação? Com trinta alunos por turma não estão reunidas condições para o sucesso. É impossível chegar a todos. Os que têm explicações e ajuda dos pais conseguirão ‘aguentar-se’, os que infelizmente não têm nem uma nem outra serão um número, um número, ouviram bem, um número incómodo nos relatórios da OCDE e quejandos. Nuno Crato sabe disso, sabe disso muito bem, mas a governite deu-lhe forte, Gaspar explicou-lhe muito devagar os milhares em caixa, Passos Coelho perorou com as balelas dos mercados e a imagem no ‘estrangeiro’ e o resto é conversa fiada. Como a educação neste país.

16 comentários em “Cratês e outras manobras”

    1. Claro que não mas em vez de diminuir o número de alunos de turma aumenta-se. Hoje 30, amanhã 32 e assim sucessivamente. Se dois ou três a mais fazem diferença? Fazem. Às vezes fazem mesmo toda a diferença. Ponha 30 alunos a redigir um texto em sala de aula e diga-me se consegue ajudar todos.

    2. A questão não é a diferença que faz de 28 para 30, é a opção e o que ela denota. Se em vez de aumentar de 28 para 30 se reduzisse de 28 para 26, já era uma diferença de 4…

      1. LOL. Espero que o André não seja prof de Matemática. Bela maneira para tentar provar um ponto de vista, sim senhor.

        Os tipos a tentar poupar dinheiro, e o aumento de 2 alunos por turma “denota” uma opção maléfica… Não altera nada, amigos. A partir de 14, va lá, 16 alunos, já há criaturas a mais numa turma, portanto 2 para cima ou 2 para baixo (não são 4, André…) é perfeitamente indiferente. O que está em causa é simplesmente poupar dinheiro – não há nenhuma “opção” pedagógica no meio disto.

  1. Aqui tem muitos mais http://www.youtube.com/user/khanacademy.

    É praticamente irrelevante quantos são com essas diferenças.
    Mas mais tarde ou mais cedo o edifício educativo tal como está ruirá.
    É das poucas área económicas que conseguiu o feito de piorar e com cada vez gastando mais recursos.

    1. A Educação em Portugal? Piorar? Nos últimos anos?
      Não pode estar a falar a sério. Independentemente da polémica que os envolve, os investimentos feitos na Parque Escolar ou na introdução de novas tecnologias no ensino estão e continuarão a dar frutos, assim não se destrua o que de bom foi feito.

  2. Eu gosto de ter mais pessoas na sala. Assim faço mais amigos! Mas mais 45m de português? Pfff que seca!

    1. Gostava que a Leonor dissesse se concorda comigo ou não. A não ser que só se digne a responder aos adultos.

      1. Pelo seu tipo de letra vi logo que não era um aluno. Quanto à resposta, pode dirigir uma reclamação ao Ministério da Educação quanto aos 45 minutos a mais de Português.

        1. Bem de facto engana-se porque sou aluno. Não sei o que quer dizer com “tipo de letra” mas apostava que isto seria Arial tamanho 12. Agradeço-lhe a sugestão/conselho em relação a uma possível reclamação mas o que lhe pedi foi uma opinião. É que sinceramente mais 45min de português são mesmo uma grande seca. Não me chegam os que já tenho?

          1. Estava a ser irónica evidentemente. Sugere que não lhe respondi porque era aluno. Eu não lhe respondi no tempo em que entendeu que eu o devia ter feito porque ainda não tinha visto o comentário.
            Em relação ao Português, o ‘reforço’ devia começar logo no 10º ano. Escreve-se muito mal, há uma falta de vocabulário assustadora e algo tem de ser feito. A reforma da estrutura curricular prevê mais horas para o Português logo no Básico e acho bem. Concluindo, sim, acho bem, quanto à ‘seca’, nada a fazer.

          2. Obrigado Leonor. Talvez tenha sido um mal entendido. Mas sabe que eu tenho tendência a olhar para pormenores: ora o meu comentário foi inserido às 21:03 e a Leonor respondeu ali ao VF às 22:45, logo pressupus que não quis apenas responder. É possível que a minha inferência tenha sido imprudente. E, de qualquer maneira, longe de mim querer iniciar uma crise de ciumeira!
            Mas bem, por que é que a Leonor acha que mais horas vão resolver essa tão preocupante falta de literacia? É que eu ouvi dizer – há por aí uns respeitados estudos PISA ou assim – que há países como a Finlândia que em média têm uma carga lectiva muito menor do que a nossa e apresentam resultados melhores (segundo os seus imparciais e rigorosos critérios claro!). O oposto também se verifica: países como a coreia do sul julgo eu, têm em média uma carga lectiva muito maior do que a nossa e saem-se igualmente melhor que os nossos estudantes. Isto tudo para concluir que não há nenhum relação causal (nem sequer correlacional) óbvia entre melhores resultados e maior carga lectiva. Oh!, se houvesse alguma maneira de aproveitar melhor o tempo que já se passa em aulas…! E sabe, como em geral eu sou mais a favor da brincadeira preferia poder passar mais tempo a fazer aquilo que gosto em vez daquilo que os assaz condescendentes pais, professores e adultos acham que é melhor para mim (aliás o seu “quanto à seca nada a fazer”, denota o quão considerada é a opinião das crianças hoje em dia). É que eu já não tenho propriamente 4 anos.
            A verdade é que prefiro ser iletrado e feliz do que um erudito frustrado e miserável. Mas no fundo é isso que o nosso opressivo sistema de educação está a fazer de mim, dos meus amigos, e dos meus colegas mais novos: um molho de putos reguilas que acham (com razão) que a escola é uma valente seca!

          3. Tudo está bem quando acaba bem, Manuel, acontecem muitas vezes mal-entendidos.
            Sabe que tenho sempre dúvidas em relação à comparação ‘pura e dura’ com a Finlândia. Somos povos diametralmente opostos, sinto isso do contacto que tenho com os professores finlandeses quando faço formação lá fora. Vale o que vale, é certo. Desse mesmo contacto, constato também que há tendências globais, e os problemas na expressão escrita ultrapassam fronteiras e não são apenas um problema do país. Se os 45 minutos a mais forem bem usados em proveito dos alunos, obviamente que acho que valem a pena. Se forem mais uma manobra de diversão, claro que não.
            Bem, mas o que eu acho mesmo, e matem-me se quiserem, é que a escola tem de ter a capacidade de pôr os alunos a pensar, a raciocinar e a aplicar as competências que adquiriram fora da sala de aula ao serviço da aprendizagem. Sou professora do Secundário e é impressionante verificar que alguns dos meus alunos não estão habituados a pensar, a fazer raciocínios elementares, e não porque sejam pouco ‘dotados’ (odeio esta expressão) mas porque não estão habituados a fazê-lo. Se as crianças hoje em dia são bem mais autónomas e desenvolvidas do que eram na minha geração e noutras a seguir à minha, como é que chegam ao Secundário assim? Algo está mal.
            Não sei o que considera as aulas serem seca. São os professores? São os programas que não lhe interessam minimamente? Preferia trabalhar? É que a escola nem sempre tem de ser lúdica. Aprender nem sempre tem de ser cheio de jogos e estratégias coloridas. É empenho, é trabalho, é persistência. Tem de haver tempo para tudo, e há. Contudo, aceito que este tipo de escola não sirva a todos. Tem de haver outra oferta de cursos de cariz diferente dos Científico-humanísticos e eventualmente dos Profissionais.
            Se a iliteracia lhe traz felicidade que hei-de eu fazer? Mas não acredito, é tudo menos iliterado pela maneira como desenvolve o seu raciocínio, argumenta e se exprime.

          4. Leonor,
            Não sei se sei o quer dizer com comparação “pura e dura”. Para mim a comparação é muito clara – aliás é quantitativa. Os dados que a PISA recolheu, segundo os seus critérios, mostram que a Finlândia tem melhores resultados que nós com menos horas de aulas. Os números assim o ditam. Mas bem, assim mesmo, concedendo, posso tentar esforçar-me por compreender o que quis dizer. Ora, estamos a referir-nos a dois países muito diferentes, com culturas e tradições profundamente distintas (deve saber melhor que eu, nunca lá fui). Parece-me (permita-me alvitrar) que quando se mostra reticente a fazer uma comparação “pura e dura” está na realidade a evidenciar uma certa desconfiança quanto à expressividade de indicadores quantitativos que são aplicados indiscriminadamente a países de culturas manifestamente incomensuráveis (Portugal? Finlândia? Estados Unidos? Coreia?). Pois a verdade é que, sob risco de me contradizer, até que partilho da sua desconfiança! São aqueles pequenos “senãos” da globalização, não concorda? Claro que estes testes PISA e outros estão em perfeita sintonia, diria melhor, em simbiose com a construção deste nosso ensino patentemente – e agora deixe-me usar a palavra cara – tecnocrata. Recuperando a questão dos 45min. Se a solução deste tipo de ensino for “se maus resultados então aumentar carga horária” eu no futuro aconselharei os meus filhos a não irem a escolas dessas (talvez a outras mais civilizadas), brincarem muito e estudarem com afinco aquilo que eles gostarem mais (não julgue que acho o trabalho uma seca. Já agora: eu não subscrevo o tipo de pedagogias lúdicas que impregnam o nosso ensino. Tratam os alunos como totós. É compreensível. Em vez de tentarem perceber o que está errado com este sistema recorrem a “estratégias coloridas” persuadindo o aluno a administrar o odioso comprimido mas agora empapadinho de açúcar. Isso nunca há-de convencer ninguém. Aliás administrar o comprimido seja de que maneira for nunca há-de convencer ninguém. Já é tempo de percebermos isso).
            Concordo plenamente consigo quando diz que a escola deve ajudar os alunos a pensar, a raciocinar. Mas pasme-se! Acha mesmo que esta escola vai fazer isso? Eu digo-lhe por que é que nós e os seus alunos nas suas aulas a surpreendem por não pensarem: é porque a nossa escola é uma fábrica de produção em massa. Pouco importa se pensamos ou não. Quanto menos melhor. Para os mais ilustres pedagogos de hoje em dia (Crato entre eles infelizmente) “pensar” é equivalente a saber adivinhar o que os professores querem de nós. Ora isso para mim não é pensar. É obedecer à autoridade. E é mesmo muito aborrecido garanto-lhe. Se nos dessem um bocadinho de espaço para decidirmos o que queremos aprender…! E não é cá com pseudo-opções no secundário, principalmente numa altura em que a maior parte dos meus amigos e colegas vêm para CT porque “tem mais saída”.
            No fundo nem discordamos assim tanto Leonor! A Leonor sabe que qualquer coisa está mal. E agora permita-me este nada de presunção, mas eu já sabia que qualquer coisa estava mal desde o meu 10º ano. Foi muito estranho passar a aprender coisas só porque vão “sair no exame”. É para isso que eu quero aprender? Porque vou ser posto à prova? Patético…
            O iliterato pode ser feliz ou infeliz tal como o erudito. O que eu quis dizer é que o mais importante é termos a possibilidade de escolher o nosso próprio caminho. Mas o nosso ensino autoritário está longe de nos ajudar a encontrá-lo…

          5. Com comparação ‘pura e dura’, Manuel Xavier, quero apenas dizer que estamos a comparar números sem qualquer contexto, ou seja, pega-se em alunos da mesma idade escolar e aplica-se-lhe um teste. Os resultados que daí saírem determinam que uns são ou não melhores que outros. Não há qualquer outra contextualização e para aferirmos se menor tempo de aulas é igual a maior sucesso parece-me manifestamente pouco. Pode até ser verdade, mas não o sabemos. Como são as condições na Finlândia? Que alunos são aqueles? Quais os programas? Qual a formação dos professores? Enfim, há muitos factores que desconhecemos mas sabemos que nós estamos mal, não há qualquer dúvida.
            Fiquei a pensar nesta sua frase: ‘ Para os mais ilustres pedagogos de hoje em dia “pensar” é equivalente a saber adivinhar o que os professores querem de nós.. Se os pedagogos assim pensam jamais serão ilustres, são apenas ‘conhecidos’. Ninguém no seu perfeito juízo e com ética profissional pode concordar com a sua afirmação. Contudo, sei bem do que fala.
            Manuel Xavier, permita-me agora a minha presunção, já cá ando há alguns anos, e há muitos que sei que algo está mal. Quando as pessoas não conseguem pensar por si, algo está muito mal, mas ainda assim não creio que o panorama seja assim tão calamitoso. Já lhe disse no comentário anterior: a si a escola não fez nada mal pela qualidade dos seus comentários. E tem razão, em alguns pontos não discordamos assim tanto.

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