Cratês e outras manobras reloaded


cronicasnofeminino,

Nuno Crato autoriza escolas a separar bons dos maus alunos. Meus amigos, isto é gente perigosa, muito perigosa. Um assunto da gravidade destes não pode ser deixado ao critério do Conselho Pedagógico nem ao bom-senso dos órgãos de gestão. A propósito, o que é isso? Um assunto destes nem sequer devia ser assunto. Criar turmas só de bons e só de maus alunos? 

39 comentários em “Cratês e outras manobras reloaded”

  1. Eu chamo-lhe eugenismo extremo ou Nuno Crato em busca do aperfeiçoamento e da pureza da raça lusitana. Acho que já se viu uma experiência do género, há uns anos, no País da moda do Governo, na Alemanha. Não era a Merkel mas era o Adolf. Pormenores…

  2. Pensava que estes assuntos eram típicos do Conselho Pedagógico e do bom-senso dos órgãos de gestão!
    Cremos no estado e descremos de nós mesmos…
    Ora, o modelo anterior não deu: o nível de literacia e alfabetização dos portugueses é o mais baixo da Europa. Na alfabetização estamos 21 (vin-te e um) lugares abaixo da Espanha, com quem, com toda a desenvoltura gostamos de nos comparar tu cá tu lá….
    Conviria termos sempre presente estes números para não se perder o contacto com a realidade.
    Nenhum modelo é garantido e é necessário que haja um efectivo controlo democrático daqueles órgãos.

    1. Sim, descreio de alguns de nós, é verdade. Se há Conselhos Pedagógicos e Órgãos de Gestão que terão bom-senso não é o caso de outros evidentemente. Se o modelo anterior não deu resultado, acha que como mais alunos por turma e com esta divisão, com a qual discordo, algo vai melhorar?

  3. Carissimo Socialistas,

    Tenho sérias dúvidas que aceitem o comentário mas arrisco de qualquer forma!

    A vida não espera por ninguém, porque deve a escola esperar?

    Vocês partem sempre do mesmo pressuposto errado…..não somos todos iguais. Antes pelo contrário…..porque raio tem um génio de esperar que o burro aprenda?

    1. Não tenha dúvidas. Não censuro comentários e só não os publico se forem ofensivos.
      Vocês? Mas está a falar com quem? Se quiser conversar sobre o assunto sem essa partidarite dos ‘socialistas’ muito bem. Partir do principio de que eu critico o governo porque sou socialista é não me conhecer minimamente.

        1. Não me ofende, André, mas não suporto não se consigam discutir pontos de vista e que apenas porque se discorda do governo isso seja visto como a atitude normal da oposição e não como uma opinião fundamentada.

          1. Leonor, este tipo de atitude é típica de quem sente fragilidade no que vai argumentar, por isso começa logo por estigmatizar e barricar.
            A mim dá-me gozo, quando nos conseguem bater nos argumentos não precisam disto.

    2. Porque a Escola é a preparação para a Vida e quanto mais cedo se aceitarem desigualdades, mais vincadas elas serão aquando da chegada à idade adulta, com o sofrimento que isso implica.

      Para além disso é suposto que o Estado minimize os danos do facto de a vida não esperar por todo, ou nem sempre impor os seus ditames da forma mais justa e previsível. É por isso que existem muitas vertentes do Estado Social.

    3. Segundo esse ponto de vista a escola devia existir para os ‘génios’. Os ‘burros’, como diz, que ficassem em casa a ser escravos dos ‘génios’. Bela perspectiva de vida e excelente projecto de sociedade.

  4. Excelente notícia. Liberdade de Reunião Finalmente.

    Mas será só no papel, as escolas portuguesas estão cheias de Leonor Barros.

    Já é mais que tempo que a destruição dos bons alunos pare.
    Os bons alunos não cometeram nenhum crime para sofrerem o que sofrem ás mãos dos maus alunos por razões políticas.

    1. Não lhe admito que faça considerações em relação à minha pessoa. Não lhe admito, repito. Não me conhece se não daqui e não lhe admito que teça considerandos gratuitos e desprezíveis em relação à minha vida pessoal ou profissional. Eu tenho um nome não me escondo cobardemente atrás de um pseudónimo, comentando sempre sem ter a hombridade de mostrar quem é, uma cancro da blogosfera . Lamento que faça parte dele.

      1. O que é que eu disse que denegriu a sua pessoa? Você não defende o contrário do que eu defendo?
        A maior parte das pessoas no sistema educativo não defendem o sacrifício dos bons alunos? Ou tem a lata de dizer que é mentira e os bons alunos não são prejudicados pelo sistema vigente?

        A maioria não defende que eles paguem, e muitos pagam caro pelo nivelamento por baixo das aulas?

        Eu conheci como aluno todos os resultados daquilo que você defende: aulas destruídas, palhaçadas intermináveis, ameaças e claro andar lentamente, muito lentamente ou simplesmente o professor desistir.

        1. Não sei em que se baseia para dizer que a maior parte das pessoas defende o sacrifício dos melhores. O mérito não se consegue com apartheids entre os que sabem mais e que sabem menos. Digo-lhe o contrário, em algumas situações os mais fracos são prejudicados, há menos tempo para eles se a maioria for muito boa. O mérito consegue-se com exigência, trabalho, muito empenho, uma boa formação de professores, alunos que queiram aprender e rigor. E o que lhe dá o direito de dizer que eu defendo isto: “aulas destruídas, palhaçadas intermináveis, ameaças e claro andar lentamente, muito lentamente ou simplesmente o professor desistir.”? Se é ofensivo? É, é ofensivo, é ofensivo da minha dignidade pessoal e profissional que eu defenda ‘palhaçadas’. O que eu defendo é que as turmas tenham menos alunos, que seja feito um trabalho de acompanhamento de cada aluno e que sejam criadas condições para que os alunos mais fracos se aproximem e aprendam com os mais fortes. De repente, neste país todos somos génios desaproveitados pelo sistema. Não sei como chegámos aqui.

          1. Apartheid é baseado na diferença entre raças e a critica ao sistema de Apartheid é feita pela facto de que o que conta é o valor das pessoas não a sua raça ou cor da pele por isso deixe de usar argumentos de susto para justificar a sua posição com algo completemente contrário. Um preto ,um amarelo e um branco que gostam de matemática poderão ter muito mais em comum que o rapaz branco(etc etc) com outros dois da mesma raça mas que não com os mesmos interesses.

            Todos os alunos têm o seu ritmo e aos melhores é preciso mantê-los interessados isso não se faz em aulas poucos disciplinadas e ou que andam a passo – normalmente estas duas caraterísticas andam de mãos dadas. Isso prejudica os melhores e não só.

            “De repente, neste país todos somos génios desaproveitados pelo sistema.”
            Muitos são. Basta olhar para os nossos resultados como país…
            Claro que isso não interessa ao sistema apurar, mas o meu ponto vai além dos muito bons também é sobre os outros que vêm a seguir, é aos bons que ficam médios e aos medios que ficam medíocres. É aos que ficam presos na lógica da cultura de uma turma destrutiva e medíocre.

            Se os adultos já tem dificuldades em fugir ás pressões sociais más porque é que as crianças são servidas no altar do igualitarismo como cobaias por decisão política? Porque é que os professores passaram a responsabilidade, ou uma parte dela, de os fracos aprenderem para os “alunos mais fortes” e não são eles próprios professores?
            Não será então justo que uma parte do ordenado dos professores deveria ser entregue aos alunos mais fortes?

          2. Mal estamos quando só se conhece o sentido literal das palavras. Percebeu muito bem o que quis dizer com ‘apartheid’, ou será que é tão difícil de entender?
            ‘Aprender’ uns com os outros não é evidentemente passar esse trabalho aos melhores alunos e o professor furtar-se à sua função como mais uma vez insinua. qualquer um sabe isso. Já fui explícita e já entendeu o meu ponto de vista se vai pegar em cada palavra e escalpeliza-la para mais uma vez fazer insinuações não vale a pena.

          3. Percebi muito bem o que você quiz. Foi empestar o outro lado. “Denier” “Racista” é essa a sua onda.

            Segundo, eu não insinuei nada. Disse-o claramente.
            Não percebo é como um professor pode considerar ético obrigar os alunos a prejudicarem-se, a não desenvolverem as suas capacidades, a serem travados pela igualdade .
            E é isso que você defende.

          4. O problema é não ouvir os outros e continuar a insistir em coisas que eu não disse nem defendi. Passe bem. Poupe-me a moralismos de pacotilha.

  5. Dá vontade de chorar para descarregar a raiva. Dantes as mulheres não iam à escola. Só os homens e nem todos por falta de meios. Agora os maus ficam todos juntos e o Nuno vai lá ensinar. Clotilde

  6. Vocês são muito ingénuos.

    O que são, na prática, hoje, os CEF e os profissionais?

    O que significam, na prática, as escolas que enxameiam os primeiros lugares dos sucessivos «rankings»?

    E não pensem que estou a defender Nuno Crato, que, para mim, é uma parcial desilusão. A realidade é que a «escola portuguesa» é demasiado heterogénea para que jornalistas, bloguers, comentadores, etc., se pronunciem com conhecimento de causa sobre ela.

    1. Sim, tem razão num ponto. Os cursos profissionais tem um estigma social como se fossem algo de negativo votado apenas aos menos ‘dotados’. Muitos pais e professores pensam assim, mas esse é um problema de um novo-riquismo português aplicado ao ensino. É socialmente desprestigiante. Qual é o problema de um aluno frequentar um curso profissional? Se o aluno prefere optar por uma via mais prática que lhe confira uma qualificação profissional não vejo qual o problema, aliás nem vejo problema nenhum. A escola, tal como está, não serve a todos. Há alunos que têm um outro perfil e para os quais estar fechado numa sala a ouvir o que consideram inutilidades é um suplício. Dêem-lhe por outro lado algo mais prático e será certamente mais feliz e mais útil ao país.
      Quanto à ‘escola portuguesa’, sim, a maior parte fala sem saber, só conhece a escola do tempo que lá andou, e como mudou desde então, e tem a cabeça cheia daquilo que é veiculado por governos e comunicação social. Viver a escola é outra coisa.

  7. Eu sou do tempo em nos liceus existiam as turmas “A”, “B”, “C”, de acordo com o aproveitamento dos alunos e das alunas, porque o meu liceu era misto, e havia turmas mistas. Não discuto os desméritos educacionais ou pedagogicos destas divisões por aproveitamento nem agora, nem no principio dos anos 60. Mas sei que nesses tempos tinham o merito de fazer com que os que estavam nas turmas “A” se esforçassem por não sair de lá, e muitos dos que estavam nas turmas “B”, E “C”, se esforçassem para ir para as “A”, o que levava a que muitos alunos se aplicassem mais nos estudos, o que só por si já era positivo.
    Por outro lado, é uma pena que um assunto destes muitas vezes seja discutido com a paixão com que se fala de futebol.

    1. Concordo inteiramente com o último parágrafo, Alexandre. Eu sou contra pelos argumentos que já apresentei, os fracos podem aprender e crescer com os melhores e não há estigmatização. Os alunos hoje em dia são profundamente competitivos, muitas vezes não têm contemplações com os colegas e esta medida iria dividir a escola. Não acho que seja proveitoso. Defendo mais tempo para dedicar a cada aluno, mais investimento nas aulas por parte dos professores, mais investimento por parte dos alunos, programas ajustados e muito menos tolerância em relação ao regime de assiduidade e comportamentos desrespeitosos por parte dos alunos.

      1. Leonor, respeito o seu ponto, e como disse no meu comentario, não sei avaliar a bondade ou a maldade da medida em causa, mas não a classificaria como um “apartheid”.
        Mas uma coisa eu sei: o merito tem que ser incentivado, e até acho que deviam ser recuperados os “quadros de honra”.

        1. Claro que o mérito deve ser incentivado e o facilitismo combatido, mas precisamos de trabalhar juntos; pais e professores. Esta geração está habituada a ‘safar-se’ e a responsabilidade é sempre dos outros se algo não corre bem, Na minha escola há quadro de mérito.

  8. Também não me parece que abundem os Conselhos Pedagógicos constituídos apenas por incompetentes e de pessoas desprovidas de bom senso…
    Quero com isto dizer que não me parece que a medida tomada possa merecer total repulsa, parecendo-me que, neste campo tão sensível, também há muita coisa que deve mudar: ninguém pode ignorar que se constituem, hoje, turmas com os melhores alunos (muitas vezes com fortes ligações aos professores encarregados de as organizar), e que alguns maus alunos prejudicam, efectiva e deliberadamente, os seus colegas, e transformam a vida de alguns professores num autêntico inferno.
    Portanto, temos que acreditar nos pais dos alunos, nos Conselhos Pedagógicos e nas Direcções das escolas, acreditando que terão capacidade para evitar a constituição de guetos e a marginalização dos alunos menos dotados, apenas por que são mais lentos a apreender.
    Aqui está uma questão onde, todos nós, devemos dar as mãos.

    1. Incompetentes não direi mas o bom-senso é um conceito muito lato e muito variável. É perigoso. Não sei. Assusta-me bastante.
      Julgo que quando fala de ‘maus alunos’ se refere a questões de comportamento. Deve haver tolerância zero com esses, inteiramente de acordo, e claro que não podem, não devem perturbar quem quer aprender independentemente das suas capacidades mas então que haja mecanismos mais eficientes para tal e para o regime de assiduidade, que é uma vergonha.
      E concordo inteiramente, pais e professores devem trabalhar sempre na mesma direcção e em prol duma única coisa: os seus filhos e alunos. Como se vê por aqui, salta-se facilmente para a acusação gratuita apenas porque se é socialista ou professor. Obrigada pelo seu contributo.

      1. Inteiramente de acordo consigo.
        Não sei porquê, desapareceu o primeiro parágrafo do meu comentário, onde tinha escrito o seguinte: “Permitam-me que ponho um bocado de água nesta fogueira: não me parece que o ministro advogue, pura e simplesmente, a constituição de turmas apenas com alunos bons, a par de turmas com os alunos maus. Neste particular, como em quase tudo, não há apenas o preto e o branco…”
        Pelo que escreveu, vejo que, podendo não concordar inteiramente comigo, aceita que um tema destes deve ser debatido sem extremismos, nem preconceitos. Que assim aconteça, são os meus votos.

        1. Falar com alguém assim faz-me ter esperança na humanidade 🙂 Tudo se pode conversar se houver respeito pelas opiniões alheias. Vamos ver o resultado que esta medida vai dar.
          Bom fim-de-semana.

          1. Leonor, como dizem os brasileiros, você deixou-me sem jeito… O que escrevi está longe de merecer tão grande elogio, só possível se apoiado em muita generosidade.
            Bom fim-de- semana também para si.

  9. Parece-me que a nossa sociedade deve, com urgência, acalmar-se para reflectir. Reflectir sobre o propósito do ensino, da vida em comunidade, e, em abstracção, daquilo que pretendemos para todos nós enquanto espécie.

    Reunir os bons alunos em turmas exclusivas pode, de facto, ter resultados ao nível das suas apetências intelectuais, mas terá também grandes desvantagens do ponto de vista das suas competências sociais.

    Uma pessoa inteligente acabará sempre (tal como toda gente) por ter de dedicar as suas competências à figura do “outro”. Um bom médico cuida dos “outros”. Um bom arquitecto projecta para os “outros”. Um político (deve) ser capaz de incorporar as ânsias dos “outros”. Foi assim que a nossa sociedade evoluiu.

    Agora, pergunto eu, como poderá isto ser possível caso estas pessoas tenham sido cultivadas em ambientes artificiais, elitistas e preconceituosos? Parece-me uma jogada arriscada e perigosa.

    Agora, a minha experiência pessoal: na minha escola básica existia uma turma específica para alunos com “dificuldades de aprendizagem”. Como eram tratados pelos outros? Como burros. Algum professor tentou corrigir isto? Não. O estigma, podre e peçonhento, vagueava pelos corredores da escola em liberdade total. Nunca ninguém se insurgiu. Ainda hoje lá deve estar.

    Mais tarde, na faculdade (de arquitectura), o confronto com os colegas vindos de colégios privados – os mais preconceituosos, arrogantes, egoístas e impassíveis com que me cruzei, salvo algumas excepções. E as suas bocas abertas em espanto, quando sabiam que eu e muitos outros, vínhamos com excelentes notas de escolas públicas na margem sul.

    Quando alguma crítica é feita aos seus projectos, têm dificuldades em aceitá-las. Se a questão se prende exclusivamente com a possível não-aceitação da estética do edifício por parte da população a quem se destina, a resposta é um encolher de ombros – “azar o deles, eu gosto e é assim que vai ser.”

    Não costumo falar do meu aproveitamento escolar, mas parece-me que neste momento pode ser relevante: até ao 9º ano, as minhas pautas eram sempre coroadas com cinco a todas as disciplinas. Entrei no ensino superior com média de 18,1 valores. Resumindo – houvesse turmas para bons alunos nessa época (não há muito tempo porque tenho 25 anos) e eu teria sido encaminhada para uma delas. Felizmente, FELIZMENTE, não havia. Foi assim que aprendi o que é a realidade. Foi assim que aprendi a relacionar-me com pessoas diferentes de mim e a aceitar que o mundo é tão seu como meu. Que o Ser Humano é múltiplo, e que é por isso mesmo que somos todos iguais.

    Se tive aulas terríveis, com colegas indisciplinados e professores impotentes? Sim, claro. Mas aí entra a competência do professor. Formem-se melhores professores, devolva-se a autoridade às escolas, e todos ficam a ganhar.

    Perdoem-me o texto longo, mas teve de ser.

    1. Não temos de lhe perdoar o longo texto, Susana, só tenho de lhe agradecer a serenidade e a fundamentação.
      Porque também sou professora sei o estigma que esta separação absurda iria criar: as turmas dos ‘burros’ de quem uma grande parte dos professores fugiria e as turmas dos ‘inteligentes’. Um dos desafios amplamente discutidos na didáctica e pedagogia e que nada tem a ver com modas ou balelas é lidar com turmas com alunos com diferentes níveis ou capacidades. A escola tem de promover a aceitação da diferença, preparar para a diversidade e não instigar à intolerância.
      Quanto à escola pública e privada, dou-me conta do preconceito quando, por exemplo, as pessoas se admiram da forma como sou tratada pelos meus alunos no Facebook. Só aí vejo que se pensa que a escola pública e os alunos são um bando de delinquentes sem respeito e onde não se faz nada de jeito e nós, professores, uns pobres coitados a viver à conta do Estado.
      Plenamente de acordo com uma melhor formação de professores, maior supervisão e uma avaliação séria que promova o mérito dos professores.
      Bom fim-de-semana

  10. Cara Leonor, lembro-me de um texto de Eduardo Prado Coelho onde fazia a defesa do elitismo. Do ponto de vista de EPC, o elitismo fazia sentido porque ajudava ao crescimento da sociedade, do ponto de vista intelectual e humano. Não fazia uma apologia da diferenciação (“ghettização”, se quisermos), mas apenas do reconhecimento que as elites são necessárias a uma sociedade avançada.

    Com isto não quero dizer que deva existir tal separação, apenas que os méritos dos melhores alunos deve ser reconhecido. Note que escrevo “melhores alunos” e não “alunos com melhores notas”. Ao contrário do que o anónimo luckylucky quer fazer crer, uma turma com piores resultados não é uma turma desordeira. Já uma turma de desordeiros, independentemente da capacidade intelectual e de aprendizagem, vai ser quase de certeza uma turma com maus resultados. Há aqui uma distinção importante e que deve ser feita por quem sempre a fez: os professores.

    O objectivo de misturar alunos fracos com outros mais fortes é simples: ensinar aos melhores alunos que há outras pessoas na sociedade (uma turma de alunos muito fortes criaria resultados fantásticos mas seria socialmente asséptica) e motivar os alunos mais fracos pela presença dos mais fortes. Mesmo que não haja uma política governamental nesse sentido, haverá muitas vezes tendência de as escolas tentarem maximizar certas turmas de alunos mais fortes (reduzindo os alunos fracos) e harmonizar as turmas de alunos mais fracos (colocando só um ou outro aluno mais capaz). É uma solução imperfeita, mas melhor que a ghettização.

    Seja como for, num sistema de ensino que se empenhe de facto na avaliação, os maus alunos ficarão retidos (quando eu estava na escola secundária dizíamos “chumbados”) e não irão prejudicar os outros. Isto já os separa, quer-me parecer. Além disso, um sistema de pau e cenoura pode ajudar. O pau é a reprovação e a cenoura poderia passar por algumas bolsas (mesmo no secundário, porque não?).

    Há forma de promover elites, mas não por selecção antecipada. Caso contrário, e salvo algumas muito honrosas excepções, iríamos criar uma sociedade de castas. Antes de 1974 era o que tínhamos. Talvez Crato (e o actual governo) queiram voltar a esse tempo. Só falta reduzir a escolaridade obrigatória à 4ª classe. Já estivemos mais longe.

    1. João André, não tenho a menor dúvida de que o mérito deve ser reconhecido.
      Quanto a ‘alunos com melhores notas’ e ‘melhores alunos’, bem, é uma discussão antiga, já que a segunda pressupõe um perfil que não se prende apenas com os alunos que conseguem melhores classificações. Em turmas muito competitivas pode acontecer que os ‘alunos com melhores notas’ não sejam os ‘melhores alunos’.
      Eu discordo veementemente com a separação porque há um juízo de valor implícito que me arrepia, um estigma e uma total ausência de valores daquilo que a escola deve ser além de um local de aprendizagem de conteúdos: um espaço de tolerância e de integração, de aceitação da diferença, de ajuda mútua e de solidariedade. Como diz e muito bem, maus resultados não implica mau comportamento, pode não haver uma relação directa e uma coisa é a aprendizagem e outra a disciplina.
      Quanto à formação de turmas, só posso mesmo falar-lhe da minha escola. Há orientações superiores que são escrupulosamente cumpridas e os alunos nunca são divididos entre fortes e fracos nem se fazem turmas de repetentes. Quando chegam ao 10º ano não os conhecemos, são divididos pelas suas opções, e a experiência mostra-me que um aluno pode ter tido resultados médios no Básico e melhorar no Secundário. Acontece muito. Cresceu, mudou de escola, tem outra atitude, integrou-se melhor e isso reflectiu-se nas notas. Tem de lhes ser dada a oportunidade de saírem dessa espiral de guetização, quer seja porque são filhos de gente proeminente ou porque tiveram boas notas e são considerados bons alunos e foram agrupados numa mesma turma. Contudo, pode acontecer que se juntem muitos alunos com boas notas numa mesma turma, bem como o oposto.
      O que prejudica os bons alunos é o que prejudica os menos bons: alunos que perturbam as aulas, que não têm o menor respeito pelos colegas, aulas e professores e para esses há que tomar outras medidas. Pulso firme.

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