Com os Holandeses ou a arte da crítica


cronicasnofeminino,

Corria o ano da graça de dois mil e nove, era mês de Abril e estava um calor inusitado para aquele mês. O povo tinha saído à rua. Literalmente. A pé, de bicicleta, de qualquer maneira e feitio e pairava no ar a atmosfera festiva de que só os dias radiosos de sol são capazes, ainda mais se tivermos em conta um país onde Setembro é quase mês de Inverno, anoitece com as galinhas, a bruma instala-se sem cerimónia e o frio húmido entra-se-nos pelas frestas da roupa e esgueira-se para as profundezas da alma. Mas aquele era dia de muito calor. Tinha acabado de sair de uma dessas lojas de roupa barata, as únicas que frequento em tempos de crise e não crise, o calor foi a desculpa perfeita pata comprar uma camisa fresca, quando o telefone tocou. Atendo o telemóvel na praça, no meio da multidão esfusiante por aquela bênção fora de tempo e enquanto falo vou reparando nas pessoas à minha volta. Nos corpos tão pálidos mas indiferentemente expostos ao sol de Abril, nos turistas que na sua condição de turistas nunca passam anónimos numa qualquer multidão, a máquina fotográfica sempre em punho e o olhar inquiridor sobre tudo e mais alguma coisa sempre mesclado com uma pitada de desconfiança e os outros, os que não sendo nem uma coisa nem outra andavam saltitantes nas suas vidinhas repentinamente soalheiras.

Ora neste preciso momento, o meu olhar de turista aterra num objecto circular, na verdade cónico, bem plantado no meio da praça e com homens em redor. Não se pense que se tratava de um altar de testosterona onde os homens largavam as suas preces, desconfio até que os homens têm pouco dessas atitudes tementes e virtuosas. Uns segundos depois vejo um dos homens apertar a braguilha, reparem na propriedade da palavra, e uma vez aliviados das cervejas e líquidos que se lhes haviam descido para as partes baixas, os homens seguiam assim mesmo, sem mãos lavadas, a higiene relegada para milionésimo lugar, os seus caminhos. Isso mesmo. Um urinol amovível sem qualquer privacidade, ali no meio da praça, qual instalação contemporânea, e sem mais questiúnculas de decências e moralidades. Não se lhes pode criticar a falta de sentido prático. Era sexta-feira, numa praça rodeada de bares e restaurantes e em vez de inundarem o lugar com o cheiro fétido nauseabundo, nada como instalar aquele curioso objecto. Na segunda-feira desaparecera.

E vem tudo isto a propósito do livro de Rentes de Carvalho Com os Holandeses. Sempre os achei algo rudes de tão práticos e pragmáticos, sem rodriguinhos e salamaleques, algo que colide com os nossos costumes tão decentezinhos e tão agradavelmente acolhedores. O livro, escrito em 1971 e reeditado recentemente, é um relato dos quinze primeiros anos que Rentes de Carvalho viveu na Holanda e do inevitável choque cultural. Dá-nos um olhar por dentro da personalidade e carácter dos holandeses, vista e sentida lá do território onde turista algum consegue penetrar e bem longe dos campos de tulipas, Van Gogh e Rembrandt, e a léguas da imagem da alegada tolerância de coffee shops e prostitutas nas montras, como se toda a Holanda fosse Amesterdão e como se mulheres nas montras fossem só por si sinal de tolerância.

Escrito de forma escorreita e irrepreensível, Rentes de Carvalho não tem complacências com o politicamente correcto ou o socialmente aceitável. Não tem papas na língua e não se atemoriza perante os ditames dos discursos da multiculturalidade de plástico. Consegue num estilo único só permitido aos grandes:  criticar sem ofender, ser frontal sem nunca resvalar para a grosseria. E isto é muito. A força do livro consiste ainda neste desabafo, como Rentes de Carvalho o classifica, e no amor e afeição que acabou por desenvolver pela Holanda. Contraditório depois de tanta crítica? Os amores grandes são feitos de máculas e virtudes, de mistérios insondáveis e perguntas por responder. Tal como o que nutre pelo país que escolheu como seu.

Fiquei no entanto a pensar o que aconteceria em Portugal se alguém ousasse escrever um livro expondo sem cerimónias as nossas desvirtudes, que belo eufemismo, ainda por cima se um estrangeiro o fizesse. O bruá, a indignação, posts calorosos e a dignidade lusa de oitocentos anos de História ofendida de morte com palavras certeiras, honestas, directas. Somos bons nas ofensas. Diz Rentes de Carvalho que na Holanda não foi assim. Agradeceram-lhe a franqueza. Que diferença de Portugal.

“Amsterdam não precisa de mim para lhe cantar a beleza. Os canais, a torres, as casas apertadas nos bairros pobres e as outras, senhoriais à beira de água, falando de fortunas passadas e presentes, têm tido melhores poetas, melhores pintores. (…) A cara com que me recebeu num chuvoso dia de Março não foi das mais hospitaleiras. Mas essa primeira impressão cedo se desfez, e quando finalmente me habituei ao que durante muito tempo foi para mim um labirinto de canais e ruas estranhamente idênticas, dei-me conta de que se se não tratava de amor à primeira vista, com certeza a afeição entre nós ia ficar para  a vida.”

Rentes de Carvalho, Com os Holandeses.

fotografia minha

Também aqui.

30 comentários em “Com os Holandeses ou a arte da crítica”

  1. Belo post. E tens tanta razão… passamos a vida a dizer mal de nós e do país, mas se algum estrangeiro nos faz uma criticazinha que seja, transfiguramo-nos em virgens ofendidas como se não tivéssemos defeitos. Uma visão crítica e desapaixonada (ou pelo menos não emotiva) é sempre muito útil e devia ser objecto de reflexão. Falta-nos espaço, é o que é. Devíamos sair mais deste belo rectângulo.
    Essa de um urinol amovível no meio dos Restauradores é que não lembra o australopithecus careca!

    1. Obrigada, Ana, O livro fez-me pensar muito. Gostei imenso porque se lê com agrado, é uma prosa honesta e despretensiosa, mas fiquei sempre na dúvida da recepção da obra na Holanda. Posteriormente pensei como seria por cá. Há uns meses por causa do clip que vou deixar o link andou tudo furioso. Era humor, uma brincadeira, não devíamos ser tão melindrosos. Espreita aqui:
      http://www.youtube.com/watch?v=YgFAq46tKAI

      1. Não conhecia a série. É um humor inofensivo, embora sem ter uma graça por aí além. Mas qual é o mal de gozarem connosco, se nós o fazemos também com outros? Tanto melindre não faz sentido nenhum.

      2. Não tinha visto este clip. Excelente. Ora, ora, claro que teríamos de ficar ofendidos. Incapazes de perceber sequer que os americanos também estavam (e sem qualquer problema) a brincar com a sua própria ignorância.

      3. Belo post! Agora o link é de gritos. Devolve-nos à nossa real insignificância. Um americano de Filadélfia deve saber tanto sobre Portugal como um lisboeta saberá sobre a Bielorússia (que por acaso é bem maior e mais central do que nós). Confesso que além da cortiça e do vinho do Porto, também não me lembro de outro produto nosso exportável…

        1. Obrigada. Temos a mania que ainda somos grandes e que todos nos conhecem e os que não conhecem são ignorantes. Aquele episódio é puro humor, não me parece que haja matéria para ofensa mas paciência, é assim que também somos.

    2. Ah e o urinol! Eu como rapariga do campo fiquei a olhar para aquilo, é verdade 🙂 É que não tinha protecção à volta. Estás a ver aqueles comedores circulares para os animais? Era assim, mas versão urinol.

  2. Excelente texto. Não me apercebi de qualquer urinol (tenho de lá voltar, portanto). Eu li três livros de Rentes de Carvalho mas ainda tenho o “Com os Holandeses” na estante, por abrir. Os constrangimentos das 24 horas num dia… (Ou então tenho de passar a escrever menos comentários no Delito…)

    Já agora: “onde os homens largavam as suas preces, desconfio até que os homens têm pouco dessas atitudes tementes e virtuosas”. Então, que dúvidas são estas? Nunca viste como alguns olham para o autocarro que transporta os jogadores do seu clube de futebol – ou vão receber estes ao aeroporto depois de uma vitória internacional? Ou ainda como, de forma absolutamente coordenada e reverencial, olham para certas mulheres?

    1. O urinol era amovível. Depois do fim-de-semana desapareceu. Foi no Leidsen Plein.
      Gostei que pegasses na provocação lá bem escondida no meio do texto. Tens razão, onde é que eu tinha a cabeça? 😉

      1. De certa forma, é. Trata-se de um olhar em direcção à perfeição e ao inatingível. E contém uma prece, ainda que por vezes misturada com alguma agressividade. Como um crente que, no meio de inúmeras dificuldades, ergue os olhos para o céu e grita: «Meu Deus, porque me fazes sofrer?» 🙂

          1. Embevecido? Só se for ai a Norte 🙂 Eu vejo um olhar grosseiro e uma coisa que começa por ‘r’ tem ‘barba’ pelo meio e acaba em o” 🙂

  3. Confesso: 8 anos e meio a viver na Holanda (igualmente repartidos por duas cidades diferentes, Enschede e Maastricht) e concluo que não gosto dos holandeses. Não é que sejam porcos, feios, maus, estúpidos ou outra coisa qualquer. Tudo o que sejam funciona na sua sociedade. Aliás, individualmente tenho tanto contra eles como tenho contr portugueses, espanhóis, alemães ou tibetanos: gosto de uns e não de outros. É da sociedade que não gosto.

    Primeiro ponto: a Holanda não é Amesterdão. Segundo ponto: Amesterdão não é Amesterdão. Ou melhor, Amesterdão, a verdadeira Amesterdão onde mora tanta gente, não é aquele espaço compreendido entre a Estação Central e a Praça dos Museus, delimitada a leste pela Casa de Rembrandt e a Oeste pela Casa de Anne Frank. Essa é a Amesterdão turística, onde se ouve tanto inglês como holandês.

    A verdadeira Holanda tem uma mentalidade ainda fortemente calvinista (mesmo quando as pessoas não o são), muito crítica e moralizadora dos outros e fortemente directa. Pessoalmente vejo-os como rudes e com pouca capacidade de encaixe (curiosamente, para um povo tão directo). Também são pouco dados a intimidades com outros, ao contrário dos “frios” alemães (os primeiros são mais fáceis no trato inicial mas a relação não se desenvolve muito, ao contrário dos segundos). É curioso, aliás, que os holandeses se pareçam muito mais com a imagem que temos dos alemães do que os próprios alemães.

    São, por outro lado, altamente tolerantes. Só que aqui o conceito de tolerante é isso mesmo, tolerância. Convém lembrar que as drogas leves não são legais, antes são toleradas. O mesmo em relação a muitas outras facetas da sociedade. Muitos dos aspectos que imaginamos serem livres e perfeitamente integrados na sociedade são apenas tolerados, mas julgados frequentemente como indesejáveis.

    Seja como for, quem se incorpore facilmente na sociedade (e aprenda a língua, factor fundamental ao contrário do que os holandeses muitas vezes dizem), pode ter uma vida agradável. Sem correrias, sem preocupações de maior e vivendo de forma semelhante à dos seus vizinhos. Cerca de 90% da população (contas minhas) é completamente indistinguível, trate-se de porteiros ou gestores de empresas. Pessoalmente não gosto do estilo, mas para quem dele goste, a Holanda é um paraíso (fora o clima).

    Já agora, se me perguntam porque razão ainda cá estou, a resposta é simples: razões familiares e profissionais. Por minha vontade ter-me-ia ido embora.

    PS – Abril, pelo menos desde que cá estou, é frequentemente o mês com o clima mais agradável do ano. Tem habitualmente muito sol, algum calor (claro que um holandês faz saltar do armário as sandálias quando o termómetro chega aos 20 graus) e pouca humidade (ao contrário de Junho e Julho). É de longe o meu mês preferido, o oposto do de Novembro.

    PPS – os holandeses aceitaram graciosamente as críticas de Rentes de Carvalho, mas ficaria por saber o quanto e o livro conhecido no país. Igualmente se Rentes de Carvalho terá uma boa amostra da reacção ou se falará de pessoas ao redor de Amesterdão (e possivelmente do seu círculo de amigos) que poderão ser mais cosmopolitas e cultas. por outro lado há uma questão geracional: as pessoas em 1971 poderiam ser bastante mais afáveis que as gerações posteriores. Tenho muitas vezes essa impressão.

    1. Estive duas vezes em turismo e outra um pouco mais longa que nada teve a ver com turismo e constatei que Amesterdão como a conhecemos só existe para nós, turistas. Para os holandeses é outra cidade. Outra coisa curiosa foi viajar até ao Norte do país e verificar como nem em todas as vilas os turistas são bem.vindos. Como diz e muito bem Amesterdão não é a Holanda. Foi uma experiência muito interessante. Foi também ai que aprendi que os holandeses odeiam os alemães. Testemunhei uma vez em Noordwijk num restaurante um casal de alemães ser ostensivamente mal atendido. Eu e a pessoa em casa de quem estava falávamos alemão, era a língua que tínhamos em comum. Fiquei quase ofendida quando ela me pediu para não falarmos alemão porque não queria ser confundida com alemães. Fui com a ideia de ficar mas voltei.
      Pelo que diz uma coisa agradar-me-ia: que as pessoas sejam indistinguíveis. Não suporto tanto salamaleque português e que tenho de usar se não passam-me por cima.
      E ainda, muitos países e cidades parecem-nos muito bonitos mas viver lá é completamente diferente. Portugal é lindo mas se não estivesse velha e acabada para o mercado de trabalho ia-me embora.
      Muito obrigada pelo seu contributo, João André.

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