Pausa na licença


cadernoelastico,

Com a mente bastante mais ocupada por questões fundamentais como fraldas e horários de amamentação, pouco tenho ligado ao que se passa neste cantinho à beira-mar. Mas uma coisa prendeu-me a atenção nos minutos que pude dispensar à bloga. O CDS, partido em que nunca votei, deu um passo importante este fim-de-semana, provando ser um partido de gente crescida. Aparentemente, houve uma votação relacionada com as chamadas “questões fracturantes” no parlamento. O partido votou pela liberdade de voto, uma vez que as referidas questões não estão ligadas ao programa de governo, e dependem do julgamento pessoal de cada deputado. É isto que gente crescida faz: pensa pela sua própria cabeça, e toma decisões, com as quais se compromete. Parece que há quem pense que a matriz ideológica do CDS significa o militante voto contra toda e qualquer questão. Assim, acriticamente, como se não houvesse dilemas e complexidades em cada tema.

E porque é que isto me interessa? Por amiguismo puro, e não só. O Adolfo Mesquita Nunes, escriba deste blogue, tem sido violentamente atacado pelos tais puristas do CDS. Pelos verdadeiros CDS, pensam eles. Pelos vistos, um deputado não pode ser coerente com as posições públicas que sempre defendeu, quando estas não encaixam no que os puristas pensam ser o verdadeiro CDS. Ah, a beleza da tolerância, e do respeito pela escolha pessoal. Agora a parte do-e-não-só: este fim-de-semana, discretamente, o CDS demonstrou ser um partido que não se resume à política da alcova. Aliás, a política da alcova é uma escolha individual, pese embora alguma eventual indicação de voto da liderança. É assim que se passa dos 5% nas eleições, senhores e senhoras. É que nem todos vivemos obcecados com as questões fracturantes do BE e PCP. E, felizmente, nem todos no CDS pensam que um partido é um monolito eterno.

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8 comentários em “Pausa na licença”

  1. Ora vamos lá ver. Se um votante do pc visse um seu deputado a votar pela desregulamentação dos instrumentos financeiros, não terá direito a uma ligeira indignação? Afinal, embora burguesa, diria o militante pc, isto é uma democracia representativa…
    E se, perante os seus protestos, lhe disserem que o deputado amante do capital financeiro tinha ajustado com o comité central do partido a liberdade de voto em tais matérias, o votante pc não terá direito a sentir-se levemente, muito levemente insultado? É que o deputado do pc, escolhido pelo pc, e com as negociatas com as cúpulas do pc, não deixou de precisar do voto de quem nada sabia de tais arranjos, mas nada lhe disse…
    E continua até a receber o seu dinheiro que vem do bolso do indignado votante do pc e de outros.
    Sei lá, parece-me que este deputado do pc não teria uma carreira longa assim numa democracia mais seriazinha e mais vergonhazinha na cara. Era capaz de não fazer mal.

  2. Ana Margarida,

    Tenho acompanhado o debate e não vi um unico ataque ao Adolfo. Aliás mesmos quem propôs que o CDS tivesse disciplina de voto reconheceu elevação no Adolfo.

    Pode-me esclarecer onde e quem atacou o Adolfo?

    Pedro

  3. Margarida, as referidas questões não estão ligadas ao programa de governo porque o mesmo é omisso quanto a tudo o que vai para lá de economia e finanças. Mas fazem parte do património ideológico do partido e interessam a quem sempre votou nele. Espero que não considere um delito de opinião discordar de si, quando refere que essas questões “dependem do julgamento pessoal de cada deputado”. É que para muitos dos que votam no CDS em vez de votarem no PSD, há questões de princípio que se sobrepoem ao relativismo dos julgamentos de cada um, à mutação dos trempos e das vontades. Compreendo perfeitamente que discorde mas dê-me o direito de pensar diferente e de poder ter este pensamento no CDS. Gente crescida é coerente e transparente, como o Adolfo. Pena é que o partido não lhe siga esse exemplo. Acusar de purismo os que pensam como eu é também bastante intolerante porque recusa dialogar com a diferença de opinião.

    1. O julgamento pessoal de cada deputado? Sim, nas questões pessoais dele.
      Naquelas que se podem transformar em lei e afectar milhares de pessoas, tem de ser mais do que isso, ou estaríamos perante pequenos tiranetes caprichosos.
      Que ridículo!

    2. Tem razão, Maria. Sendo o programa de cada partido necessariamente incompleto, em todos os outros assuntos que nele se não contenham (inciativas de outros partidos, etc) os representantes eleitos passariam a representar-se apenas a si próprios! É evidente que não pode ser assim, e assunto está resolvido nas democracias avançadas: os deputados expõem os assuntos aos seus constituintes, recolhem a opinião destes (têm encontros regulares com os seus eleitores) e, além disso, tentam interpretar a vontade do seu eleitorado já que política não é uma técnica de resultado único e há que tentar respeitar o sentido do mandato.
      Tudo o mais é a costumada esperteza saloia, que tem a única vantagem de nos elucidar sobre a ética desta rapaziada.

  4. Um partido escolhe os militantes que pretende, e escolhe-os em função das suas ideias, mais ou menos próximas do seu ideário.

    Num país servil e clubístico-boleiro é que os militantes vão para o partido “aprender cálquer-coisinha”, nada sabendo responder sobre que papel para o Estado, que é a Pessoa Humana e seu espaço com a Sociedade, o valor da vida, enfim a política.

    Entrei no CDS, em 1987, assumidamente conservador e monárquico. Aprendi com destacados militantes. Recebi convites para as jotas “do costume” (a “sd” e a “s”). Nesse espaço criticamente aprofundei convicções, e rejeitei outras que tinha.

    No caso concreto, votou-se a legislação laboral. Ponto. Trata-se de um ponto que o cds tem participado ideologicamente. A questão dos feriados não é estritamente laboral, devendo ser regulada em diploma próprio onde o Dr. Ribeiro e Castro pode discutir e bem a sua vontade livre. Portanto, noutro lugar.

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