Pão por um deus desconhecido


cronicasnofeminino,

Nove e vinte e cinco. Os cães ladram inquietos. Eles vêm aí. Sei que são eles. Espreito pela janela do quarto e vejo-os. Desço as escadas a tempo de lhes abrir a porta. Dizem ao que vêm sorridentes para soltar um lamento de seguida ‘Está tudo na missa. Ninguém nos abre a porta’. E o outro ‘e ele tem de se ir embora às dez’. Sempre achei que a religião é como o amor ainda em que numa proporção diferente, em demasia matar-nos-á e agradeço aos meus deuses por me terem arredado de sacristias e outros lugares estranhos de santos em esgares e sofrimentos, não nos bastasse já a vida. As crianças terão doces. Abrem-me os sacos de pano e para lá vou despejando com a supervisão dos dois a mesma, a mesmíssima quantidade de guloseimas: chupas, rebuçados, moedas de chocolate. Foram as primeiras das últimas crianças que vieram a minha casa pedir Pão-por-Deus. Acabou este ano com uma garota sorridente de sobrancelhas ralas que me inquiriu à saída ‘Posso fazer uma pergunta?’ Claro!’ ‘Esta árvore que tem aqui chama-se como?’ ‘Azevinho.’ ‘É isso’ diz-me. E a conversa corre solta sobre o azevinho e as bolinhas vermelhas numa manhã de sol brilhante indiferente ao país que anoitece. Quando voltei para dentro e a minha porta fechou-se pela derradeira vez. Dentro dela anoiteci. Estranho país o que mata as tradições. Estranho país o que nos matará a todos.

 

Também aqui.

Será hoje?


cronicasnofeminino,

Há dias em que me apetece partir para a ignorância e dizer que somos um país de parolos que precisa de carros e mordomias para mascarar o que não têm nem são. E um país de energúmenos incapazes de respeitar o seu semelhante em qualquer situação. Enquanto o povo conta os cêntimos há quem vá trocando de carro com o dinheiro do povo. Enquanto não chegar o dia, tomem lá, governantes, aspirantes a governantes, derivados e sucedâneos. 

 

Gorduras do estado em que estamos (2)


cronicasnofeminino,

Enquanto no Ensino Público os cortes foram brutais e as turmas rebentam com trinta alunos, o financiamento do Estado ao ensino privado manteve-se e assim continuaram a receber os chorudos 85 mil euros por turma.  Mais uma excepção. Ou uma adaptação. Acontece que aqui perto já em 2006 um colégio tinha recebido cerca de 13 milhões de euros, verba que era capaz de dar para construir um escola pública nova.  Hoje veio a lume esta notícia. Se não houve cortes no financiamento e o número de alunos não aumentou, pergunto-me o que andarão a fazer com o nosso dinheiro ou será muito incómodo? 

Isto não são excepções e não vai haver aumento de impostos e eu sou o Pai Natal


cronicasnofeminino,

O (des)governo abre mão de milhões de euros em excepções que simpaticamente epitetou de ‘adaptações’ e outros sinónimos agradáveis. Honra lhes seja feita que são muito criativos a dourar a realidade: Relvas licenciou-se como se viu mas não é bem assim. É tudo legal e transparente e a léguas de distância de José Sócrates que pelo menos não teve equivalências por rancho folclórico nenhum. Menos mal para ele. Na sexta-feira brindaram-nos com o mais abjecto aumento de impostos, apelidaram-no, contudo, de qualquer outra coisa como se fôssemos incapazes de fazer contas e pensar. Nada é o que parece. Nem mesmo o (des)governo. É bem pior do que parecia. 

 

Também aqui.