Uns pândegos


Rui Rocha,

Absolutamente genial! O Conselho de Coordenação da Coligação, criado devido à necessidade (nas palavras dos próprios mentores da iniciativa) de ter uma coligação forte e empenhada na governação e apoiar um governo coeso, vai ocupar a primeira reunião a discutir aspectos essenciais da governação do país como a reestruturação da administração pública, a redução do défice, o financiamento da economia, o papel do estado, o mercado de emprego, o modelo de educação pública, a política de saúde, a posição a adoptar no contexto das instâncias europeias face à nova abordagem do BCE , a  estratégia autárquica do PSD e do CDS-PP. Se nas sessões seguintes não analisarem uma colectânea de Fábulas de Esopo, a jogabilidade do Fifa 2013 e a edição electrónica do Borda d’ Água, nem são homens nem são nada. 

Recuar é viver por Vítor Tesourinha


Rui Rocha,

Foi em Setembro que te conheci
Trazias nos olhos a luz de Maio,
Nas mãos o calor de Agosto e um sorriso
Um sorriso tão grande que não cabia no tempo
Ouve, vamos ver o mar…
Foste o 30 de fevereiro de um ano por inventar
Falamos, falamos coisas tão loucas e acabamos, em silêncio,
Por calar as nossas bocas e eu aprendi a amar

 

Sim eu sei que tudo são recordações
Sim eu sei é triste viver de ilusões
Mas tu foste a mais linda história de amor
Que um dia me aconteceu e recuar é viver
Só a tsu e eu

 

Foi em Setembro que partiste

Levavas nos olhos as chuvas de Março
E nas mãos o mês frio de Janeiro
Lembro-me que me disseste que o meu corpo tremia
E eu que queria ser forte, respondi que tinha frio
Falei-te do vento norte
Não me digas adeus, quem sabe talvez um dia…
Como eu tremia meu Deus! Amei como nunca amei
Fui louco? Não sei, talvez! Mas por pouco, muito pouco,
Eu voltaria a ser louco; amar-te-ia outra vez

 

Sim eu sei que tudo são recordações
Sim eu sei é triste viver de ilusões
Mas tu foste a mais linda historia de amor
Que um dia me aconteceu e recuar é viver
Só a tsu e eu (3x)

O Asno Vestido Com Pele De Leão


Rui Rocha,

Gosto muito de fábulas de Esopo. Uma que muito aprecio é a do Asno Vestido Com Pele de Leão. Se bem me recordo, diz mais ou menos assim: 

Certo dia, um asno encontrou, abandonda num bosque, uma pele de leão. Cansado de asnear, vestiu-a. E assim vestido reparou, com grande espanto, que os outros animais, que antes se mostravam indiferentes perante a sua asinina condição, se assustavam agora ao vê-lo passar. Entusiasmou-se o asno. E tanto se entusiasmou que começou a perseguir os outros animais, pregando-lhes sustos descomunais. E entusiasmou-se tanto que, quando se preparava para perseguir uma raposa, começou a zurrar. Virou-se então a raposa e, com um sorriso matreiro, disse ao asno: também a mim me terias assustado se não te tivesse ouvido zurrar. 

A moral é evidente. Um tonto pode esconder-se atrás das aparências, mas mais tarde ou mais cedo acaba por revelar a sua verdadeira identidade. Espero, por isso, que Miguel Macedo não tenha lido de Esopo apenas a fábula da Cigarra e da Formiga.

Cenas da vida em coligação


Rui Rocha,

– Modulação.

– Modelação.

– Não, não. Modulação

– Insisto. Modelação.

– Modulação, chiça.

– Modulação, porra.

– Meus senhores, meus senhores, infelizmente o tempo para a nossa reunião acabou. Dou a sessão por encerrada. Senhor Secretário, vamos redigir a acta.

– Muito bem, Sr. Presidente. Pode ditar quando quiser.

– Aos vinte e sete dias do mês de Setembro, pelas dezassete horas, em Lisboa, reuniu pela primeira vez a Comissão de Coordenação da Coligação com a presença de todos os seus quarenta e três membros.

– Somos só trinta e nove, Senhor Presidente.

– Pois, tem razão. É que parecíamos mais…

– Isso acontece sempre que o deputado Abreu Amorim está presente, Sr. Presidente. E de facto éramos quarenta e um. Mas o Dr. Nogueira Leite entretanto pirou-se e o Sr. Jacinto Leite Capelo Rêgo não chegou a aparecer.

– Tem razão, tem razão. Corrija então, por favor. Continuemos. Iniciados os trabalhos, procedeu-se de imediato à discussão do ponto único da ordem do dia, relativo à modelação da TSU.

– Modelação ou modulação, Sr. Presidente?

– Ahnn, modelação, acho eu. Ou será modulação?

– Oh Senhor Presidente, por amor de Deus. É modelação, Sr. Presidente. Modelação.

– Peço desculpa, Sr. Presidente. Mas se o deputado Abreu Amorim continuar a pressioná-lo desta maneira para influenciar o sentido da acta, abandonaremos de imediato esta Comissão. E, em todo o caso, é modulação, Sr. Presidente. Modulação.

– Modelação, chiça.

– Modulação, porra.

– Meus senhores, meus senhores, um pouco de calma. Deputado Abreu Amorim, peço-lhe encarecidamente que se sente e que largue imediatamente o pescoço do membro desta Comissão que estava sentado ao seu lado. Isso. Esse mesmo. Esse que está a ficar todo roxo. Obrigado. Muito bem, Sr. Secretário. Por favor risque esse último parágrafo e substitua pelo que passo a ditar: Tendo em conta o superior interesse nacional, esta Comissão constata a insuficiência dos meios de que dispõe e apresenta uma forte recomendação no sentido de serem criadas, na sua dependência, uma Unidade Técnica de Apoio, uma Estrutura de Missão e um Gabinete de Estudos que se consideram indispensáveis para a concretização dos objectivos de coordenação que lhe foram confiados. Da mesma forma, considera-se da maior importância  a aquisição imediata de um dicionário de língua portuguesa. Ilustrado.

– Quer consignar em acta a ordem de trabalhos prevista para a próxima reunião, Sr. Presidente?

– Sim, pode ser, Sr. Secretário. Na próxima reunião o ponto único será a remodelação do governo.

– Remodelação ou remodulação, Sr. Presidente?

– Chiça, porra, Sr. Secretário. Não ponha nada. E diga aí ao senhor deputado Amorim que nem pense em abrir o bico. 

Encontro de alto risco


Rui Rocha,

 

O PSD propôs e o CDS respondeu positivamente ao convite para uma reunião entre as direcções dos dois partidos. Entretanto, a Polícia de Segurança Pública (P.S.P.) classificou a reunião como «encontro de alto risco». O dispositivo policial destacado para o local será adequado a esta classificação e vai integrar cerca de 500 efectivos de várias áreas: divisão policial em patrulhamento apeado, auto, à civil e equipas de intervenção rápida, divisão de trânsito, unidade metropolitana de informações, equipas de inativação de engenhos explosivos, grupo operacional cinotécnico e corpo de intervenção. A reunião deverá ocorrer ainda hoje ao final da tarde, mas a operação policial arranca de imediato para garantir que são asseguradas todas as condições de segurança.

Toda a verdade sobre os efeitos da alteração das taxas da TSU


Rui Rocha,

 

Se a medida se mantivesse, os efeitos seriam os que esta sondagem indicia. A oferta de emprego para os militantes do PSD diminuiria significativamente nos próximos anos. Isso afectaria drasticamente a apetência desse grupo para comprar as prospostas políticas de Passos Coelho. Todavia, esta situação não beneficiaria nem o emprego dos militantes do PS, nem a sua predisposição para o investimento Seguro, prevendo-se até uma procura acrescida de bens de substituição.  Globalmente, PSD e PS perderiam clientelas e registar-se-ia uma transferência maciça de consumidores dos partidos percepcionados como capital-intensivos para aqueles que se apresentam ao eleitorado como  trabalho-intensivos. Escusam os senhores economistas de continuar a aprofundar cenários e modelos. Estas são as consequências que realmente interessam. E são suficientes para justificar todos os recuos e entendimentos. Os políticos têm horror à tsulidão e aversão congénita e insuperável ao tsuicídio.

Um governo com duas rotundas


Rui Rocha,

Pelo visto, a convivência entre os partidos da coligação governamental não está fácil. Creio, todavia, que existem soluções para superar a crise. O que proponho não é propriamente uma inovação. Trata-se de aplicar ao governo uma medida que vi referida um dia destes, já não sei bem onde. Resumindo, um autarca, em alguma parte deste vasto mundo cujo nome não posso recordar, lembrou-se de uma solução fantástica para um grave problema de trânsito. É sabido que uma rotunda colocada estrategicamente num ponto de congestionamento pode operar milagres na sua fluidez. Pois bem, a genialidade consiste em criar não uma, mas duas rotundas. Duplica-se assim, pelo menos, o efeito facilitador. Imagino o espanto dos caríssimos leitores perante esta notícia que vos trago. Claro, não tinham pensado nisso. Não faz mal. É precisamente para isso que existem autarcas. Nós damos o trânsito. Eles dão as rotundas. Os autarcas comuns pensam em rotundas singulares. Os que aspiram à imortalidade (ou à liderança do partido político de que são militantes logo que o que lá está dê com os Zorrinhos na água) têm a singularidade de as tornarem plurais. Confesso que não tive oportunidade de confirmar se os efeitos da colocação no terreno de uma segunda rotunda foram benéficos. Em abono da verdade, devo admitir que não me preocupei muito com isso. A medida é de tal forma genial, a progressão aritmética do benefício que a sustenta é tão evidente que não tenho grandes dúvidas sobre o resultado final. Deve ter corrido bem. Por isso, digo que a solução pode ter aplicação para descongestionar as relações entre os dois partidos que suportam o governo.  Proponho, assim, um governo com duas rotundas. Os ministros do PSD, na qualidade de representantes do maior partido, circulariam na rotunda exterior, permitindo esta, no sentido ascendente, o acesso à majoração da TSU para os trabalhadores e no sentido descendente a ligação à baixa (apenas no sentido Entidades Patronais). A rotunda interior, reservada aos ministros do CDS, ligaria directamente aos Combatentes na primeira saída e aos Mártires logo na seguinte. 

A fenomenologia do nosso ser


Rui Rocha,

Tendo em conta a sucessão de fenómenos a que temos assistido, Portugal pode estar a converter-se num Entroncamento em ponto grande. Vejamos. A circulação em auto-estradas sem custos para o utilizador passou a ser paga. As portagens são virtuais. Todavia, o dinheiro sai-nos efectivamente do bolso. A taxa social é única. Mas parece que, apesar disso, pode vir a ter taxas diferentes, de acordo com o valor do rendimento sujeito a contribuição. Os entendidos dizem que a isto se chama modelação (ou modulação, não percebi bem). Teríamos, portanto, uma taxa social única que seria única não por ter uma taxa única mas por ser a única taxa social única com tal diversidade. Pensando bem, nada com que nos devamos espantar. Afinal de contas, Portugal é o país em que, graças a Sócrates e Teixeira dos Santos, os PEC se tornaram dinastias. O PEC IV, por exemplo, está para as contas públicas como D. Sebastião estava para o governo do reino. Desaparecido no nevoeiro, não falta por aí quem defenda que seria a solução para todos os problemas. Voltando ao presente, fala-se também de um crédito fiscal aplicável aos rendimentos mais baixos para compensar o agravamento da tal taxa social que poderá vir a tornar-se única na sua diversidade. Nem todos nos damos conta, mas este pode ser um novo passo na direcção de um mundo mágico em que os rios nascem no mar. Não pretendo roubar a ninguém a vertigem da descoberta. Mas não resisto a levantar uma pontinha do véu para dizer que é muito possível que o crédito fiscal se destine, em boa parte, a situações em que os rendimentos estão, logo à partida, isentos de imposto. Ou muito me engano ou ainda vamos ter tantas situações de crédito mal parado como de crédito fiscal mal preparado. Não que isso aflija os nossos governantes. Tudo se resolve com taxas. E se estas não chegarem, recorre-se a mais uma excpcional descoberta lusitana. A taxa com mezzanine, também conhecida por sobretaxa. Como a originalidade desta boa gente não tem limites, a estas taxas não lhes basta serem sobretaxas. Não, para além disso ainda hão-de ser sempre extraordinárias. Não podíamos, claro, fazer a coisa por menos. Ora, neste contexto fenomenal, faltava ainda a contribuição do coiso, ai como é que ele se chama… isso, o Tozé. Tardou, mas não faltou. Vai daí, toca de propor um imposto sobre as Parcerias Público-Privadas. É, talvez, a maior descoberta depois do negócio consigo mesmo. O Estado, para mostrar que não tem contemplações com ninguém, tributa-se a si próprio. Mais, tendo em conta o track record do PS em matéria de PPP, é bem possível que a proposta final consista na tributação apenas da parte pública da parceria, ficando os privados, muito nomeadamente o BES e a Mota Engil, isentos pelo período de 135 anos. Período este não renovável, claro, que isto não está propriamente para brincadeiras.

O efeito PASSOC


Rui Rocha,

Ora muito bem. Então é assim:

 

a) recuso-me a votar em quem, estando no governo há 15 meses, e tendo apresentado uma proposta eleitoral baseada na ética e na reforma do Estado, chega a esta altura sem ter sido capaz de demonstrar uma vontade indómita de efectuar um corte claro e definitivo com o clientelismo, o amiguismo, o tachismo e o videirismo e sem apresentar provas tangíveis no que diz respeito à reestruturação do Estado. Lamento, mas não estou disponível para participar em palhaçadas. E é uma palhaçada continuar a ir-me alarvemente ao bolso  enquanto ao nível das autarquias, das universidades, das fundações, das PPP e por aí fora tudo se mantém basicamente na mesma. Já sei que a racionalidade na gestão do Estado não é suficiente para que me deixem de ir ao bolso. Mas, a evidência de um mínimo de ética e de equilíbrio, não resguardando o bolso, proporcionaria alguma paz de espírito.

 

b) recuso-me a votar em quem, sendo co-responsável pela governação, procura passar entre os pingos da chuva (e se estão a chover canivetes, meu Deus) sem se molhar.

 

c) recuso-me a votar em partidos comunistas, trotskistas, maoistas e golpistas.

 

d) recuso-me a votar no coiso, como é que ele se chama, isso, no Tozé Seguro, no Costa, no Sócrates ou em qualquer seu sucedâneo.

 

Sendo isto assim, alguns aconselhar-me-ão calma. Afinal de contas, não há eleições legislativas marcadas para os próximos tempos. E, se a legislatura chegar ao fim (ah, ah, ah), ainda faltam 3 anos para as próximas. Não fico sossegado. Mesmo que assim seja, três anos não é nada. Se os últimos trinta e tal anos foram necessários para produzir os líderes políticos que temos tido, imagine-se o que poderá acontecer em três míseros anos. Em todo o caso, se tudo se mantiver como está, se o sistema não for capaz de gerar uma nova força alternativa e se o CDS, o PSD ou o PS não me surpreenderem com uma proposta política decente, não votarei. Problema teu, dirão alguns. Nada mais certo. Se for eu o único a pensar assim. Se alguns dos leitores pensarem como eu, o problema é um bocadinho maior. Se, todavia, este for um sentimento generalizado, estaremos perante uma grave crise de regime. Na Grécia, chamaram-lhe efeito PASOK. Em Portugal poderemos talvez chamar-lhe PASSOC, uma vez que o sinal mais visível, sem prejuízo de outros de elevada magnitude, resultará da contracção de Passos Coelho.