TSU – Tshame on you


Rui Rocha,

Como se sabe, a alteração da TSU apresentada por Passos Coelho no dia do concerto do Paulo de Carvalho tinha como consequência um aumento da contribuição suportada pelos trabalhadores e a sua transferência, quase integral, para os empregadores. Para o Estado sobrariam, com essa operação, cerca de 500 milhões de euros. Embora não existam dados concretos, o brutal aumento de impostos hoje apresentado por Vìtor Gaspar deve representar uma arrecadação muito superior a essa importância, pelo que só em parte pode aceitar-se que as medidas de hoje substituem as que Passos anunciou. Ora, isto significa que em 7 de Setembro o governo preparava não só uma descida do rendimento de trabalho correspondente aos 7% do agravamento da TSU, como também um aumento significativo de impostos. Percebe-se agora que o que esteve em cima da mesa foi então um projecto cuja consequência seria a aniquilação do pouco poder de compra que resta, com o consequente e definitivo afundamento do consumo interno e da economia, impossível de compensar com eventual acréscimo de competitividade do sector exportador. Convenhamos. É preciso estar num estado de total alheamento da realidade para imaginar que uma solução desse tipo fosse  viável sem uma colossal reacção social. E é também necessário ter muita lata para, depois de um ano e meio de governo, o executivo considerar a mera hipótese de avançar com medidas desta gravidade sem se dar ao trabalho de apresentar uma minuciosa explicação sobre os resultados concretos de redução de despesa supérflua do Estado que prometeu.

Coisas que me tiram do sério


Rui Rocha,

Esta coisa de marcar as comunicações ao país para imediatamente antes dos jogos de futebol irrita-me solenemente. Depois de o Coiso e aquele ministro das finanças muito competente terem falado no intervalo do Barcelona-Real Madrid, foi o Passos Coelho a utilizar a mesma táctica meia-hora antes do Portugal-Luxemburgo. Agora, é o Gaspar que fala cinco horas antes do Porto-PSG. Mais uma vez com a clara intenção de acabar a intervenção em cima da hora do jogo para abafar as reações negativas.

Calma, ó gentes!


Rui Rocha,

O Senhor ministro das finanças não vai, por certo, anunciar nada de especial. Se fosse o caso de comunicar medidas graves, com impacto significativo na vida dos portugueses, seriam, naturalmente, o primeiro-ministro e o líder do outro partido da coligação a falar, olhos nos olhos, à população. 

Dois secos e podiam ter sido mais


Rui Rocha,

Resultado indiscutível e escasso. A equipa visitante deu um banho de bola ao adversário e este nunca pareceu ter condições para contrariar a sua superioridade. Há, evidentemente, uma diferença de classe gritante entre as equipas. A segurança no passe, a capacidade de acelerar o jogo no momento certo, a solidez defensiva, o sentido colectivo, a inspiração dos elementos fundamentais, a sua genialidade em alguns momentos, desequilibraram o jogo sempre para o mesmo lado. Em resumo, de um lado a corriqueira vulgaridade. A incapacidade para contrariar o rame-rame. A insuficiência táctica. A escassez de ideias do treinador. A desinpiração dos melhores jogadores que parecem esconder-se nos momentos mais importantes. A intranquilidade em campo que poderá ser o reflexo do momento conturbado que o clube estará a atravessar e de uma eventual crise directiva. Do outro, a excelência. A coisa só não foi pior devido à actuação do único jogador dos derrotados que fugiu à mediocridade: o guarda-redes. A certa altura, os adeptos da equipa da casa temeram mesmo a vergonha de um resultado extremamente desnivelado. Os locais evitaram-no com mais sorte do que mérito. Mas não conseguiram impedir que se fizesse alguma justiça já no final da partida.

Sair do Euro? Jamé…


Rui Rocha,

É bem possível que o Jaa tenha razão. Mas tem-na antes de tempo. E ter razão antes de tempo é não ter razão. A solução final pode, de facto, vir a ser a saída do Euro. Mas não é indiferente o momento e a forma como isso se faz.

 

Vejamos então. Portugal tem hoje uma dívida externa bruta de mais de 250% do PIB e uma dívida externa líquida que se prepara para ultrapassar os 120%. Entretanto, com essa dívida predominantemente denominada em Euro, uma desvalorização do novo Escudo (a propósito, proponho que a nova moeda se chame Sócrates, porque a memória é curta e convém não esquecer) que seria sempre na ordem dos 30% (ou dos 40%), teria como consequência imediata que esta disparasse para valores astronómicos e absolutamente insustentáveis.

 

Por outro lado, na perspectiva das famílias e das empresas o tempo não é um factor indiferente. Os últimos indicadores demontram que o consumo privado diminuiu mais do que proporcionalmente à queda do rendimento e que a poupança aumentou de forma significativa. Isto é, os portugueses estão a fazer um esforço de ajustamento sério. A actual situação representa pois uma oportunidade de adaptação a uma realidade dura. Prolongá-la na medida do possível é comprar tempo para que as pessoas se ajustem a um novo perfil de consumo muito mais austero de uma forma, apesar de tudo, gradual. Entretanto, pode acontecer que consigam pagar as prestações do automóvel. E do frigorífico, e do LCD e das férias de sonho em Cancun. Ou que encontrem emprego lá fora. E quando o céu lhes cair definitivamente em cima da cabeça o impacto será severo, mas poderá já não ser mortal.

 

Da mesma maneira, as empresas, com todas as dificuldades, estão a dar respostas positivas no contexto extremamente exigente e competitivo da moeda única. Conscientes de que o mercado interno trará péssimas notícias nos próximos anos, é fundamental comprar-lhes tempo para acentuarem o seu perfil exportador, procurarem novos mercados, reflectirem e colocarem em prática novas estratégias que não poderão passar por vender em Portugal. Sair agora do Euro seria sair cedo de mais, impedindo empresas e particulares de aprofundarem um esforço de ajustamento que já iniciaram.

 

E se o tempo em que se faz a saída é importante, o modo não é menos. Portugal não pode voltar ao Escudo com o nível actual de dívida. O endividamento nacional tem de ser diminuído. Para isso, para além do esforço de particulares e empresas, era necessário o contributo do Estado. Através de um programa sério de racionalização da sua estrutura e da sua actividade. É por isso que nos últimos tempos me tenho manifestado de forma dura e impaciente com o governo de Passos Coelho. Porque o governo não está a fazer a sua parte. O problema fundamental das contas públicas relativas ao 1º semestre de 2012 não é a diminuição da receita e a parte da despesa que diz respeito a juros, pois isso era razoavelmente previsível. A questão está no facto, por exemplo, de os consumos intermédios continuarem a aumentar. Entretanto, era fundamental que o Governo fizesse a sua parte antes da saída do Euro e não depois. Porquê? Pois porque o esforço de redução da dívida, por si só, dará escasso resultado. Mas trará uma credibilidade que permitirá negociar um haircut de dimensão bem razoável que tornará viável uma saída controlada do Euro.

 

Por isso, a melhor posição é a de comprar tempo. Permitindo ao sector público e ao sector privado que se ajustem de forma decidida, mas faseada, exigindo naturalmente que todos façam a sua parte de forma séria e empenhada. Devemos dizer, portanto, tal como Mário Lino fez em relação ao aeroporto, que sair do Euro, jamé, sabendo de antemão que essa é uma possibilidade séria e que todo o nosso esforço deve ser orientado para que, se não houver alternativa, não aconteça de forma desordenada.  É claro que tempo é dinheiro e que o dinheiro paga juros. E que os juros aumentam a dívida. Mas, relativamente a esse ponto, creio que já vos referi a necessidade de um belo corte de cabelo… No fundo, e concluindo, o caminho que ainda nos pode levar a permanecer no Euro é, em boa medida, também aquele que melhor nos prepara para sair dele.

Mais desemprego, novas oportunidades


Rui Rocha,

O primeiro-ministro tem razão. O desemprego é uma oportunidade. E a boa notícia é que há cada vez mais oportunidades. Com tantas e novas perspectivas, assistiremos em breve a uma alteração profunda do mercado de trabalho e das próprias designações das actividades profissionais. Na verdade, muitas profissões cairão em desuso e serão substituídas por novas e desafiantes ocupações. Os Solicitadores, por exemplo, serão substituídos pelos Imploradores. O Médico do Trabalho, por seu lado, dará lugar ao Terapeuta Desocupacional. Também muito solicitado será o Técnico de Higiene e Insegurança (angustiados mas asseados). Nas tarefas administrativas, os novos tempos trarão profissionais altamente qualificados: os Desempregados de Escritório. Igualmente na primeira linha do mercado de trabalho do futuro encontraremos os Terapeutas da Falta, os Mestres de Sobras e os Técnicos Oficiais de Pontas. No domínio da saúde, os Dietistas continuarão em alta. Todavia, as estrelas nesta área serão, sem dúvida, os Anestesistas. Na construção, o mercado proporcionará excelentes oportunidades para os Semtectos Paisagistas e para os Engenheiros de Infra Estruturas, estes últimos especialistas em pequenas obras como a reabilitação de vãos de escada e o recondicionamento da parte de baixo das pontes. As preocupações com a ocupação do espaço darão lugar a tudo o que diz respeito ao preenchimento do tempo, com oportunidades desafiantes para a Engenharia de Batalha Naval. Os Engenheiros Magrários e, em geral, todos os que trabalham nos diversos ramos da Magricultura e da Engenharia Magro-Industrial têm boas razões para encarar os próximos tempos com confiança. Na área comercial, o novo mundo será dos Tácticos de Vendas. Encontrar um cliente será tão difícil que vender deixará de ser uma técnica e passará a pressupor vastos conhecimentos de perseguição e emboscada. Nas ciências, destacar-se-ão os Físicos Teóricos. Embora sem a mesma garantia de sucesso, haverá também lugar para os Químicos Inorgânicos. Com boas perspectivas, surgem também as áreas da Matemática Discreta, da Nicklesbiologia (evolução da Microbiologia e da Nanobiologia) e da Citologia (o estudo das citações será fundamental para entreter o tempo). Na educação, serão criadas as novas profissões de Professor do Ensino Básico (o ensino será mesmo muito básico), de Professor do Ensino Secundário (assumindo definitivamente que o ensino é tudo menos prioritário) e, naturalmente, de Professor do Ensino Inferior. No que diz respeito às profissões ligadas à História, apesar de, em geral, as coisas não se apresentarem risonhas, aparecerão novas ocupações como a de Engenheiro Alimentar (o estudo dos alimentos integrará o ramo da arqueologia) e de Especialista em Parasitologia (persistirá, apesar de tudo, alguma curiosidade em perceber como chegámos até aqui).

A montanha pariu um rato


Rui Rocha,

 

E mais alguns teclados e um ou outro monitor, vá. Tirando o corte com a afundação do Magalhães, o resto são 45.600.000€ (quarenta e cinco vírgula seis milhões de euros, assim por extenso que é para não haver dúvidas) e o mais é treta. Uma farturinha. Carrega, Passos. Que o Zé está cá para aguentar mais impostos e taxas e cortes na saúde e 30 crianças dentro de uma sala de aula só para termos o gosto de ver parte do pessoal a ir de férias para a Foz do Arelho através do INATEL e para o Mário Soares poder continuar a promover umas exposições de fotografia lá na baiuca dele.

Os vícios do escrutíno da acção política, a representação e a legitimidade


Rui Rocha,

Nos últimos dias, foram publicados no DELITO DE OPINIÃO textos notáveis (passe a publicidade em casa própria) que sublinharam algumas fragilidades da democracia. Aqui, o Jaa salienta a tensão que existe entre a pressão popular e o processo democrático. O Pedro Correia, entretanto, chamou-nos a atenção para o valor a atribuir aos protestos de rua e para o desvalor dos excessos que ali se cometem, quer no que diz respeito à linguagem utilizada e a eventuais episódios de violência, quer no que toca às generalização dos protestos que atingem, de forma indiscriminada e injusta, todos os actores políticos e instituições. Na mesma linha, o Pedro alertou-nos ainda hoje, a propósito da situação em Espanha, para a necessidade de preservação dos aspectos essenciais do sistema democrático. Já ontem, o Jaa tinha dirigido a sua ironia para o tratamento jornalístico dos factos. Ainda relativamente a estes, o José Maria Pimentel partilhou uma reflexão sobre as escorregadelas dos políticos e o actual contexto de mediatismo levado ao extremo.

 

Estas reflexões, pertinentes e fundamentadas, salientam todavia apenas um dos lados da questão democrática (e sim, creio que estamos perante uma questão – uma encruzilhada – democrática). O lado do, chamemos-lhe assim, escrutínio excessivo ou desfocado da acção política. Parece-me que essa é uma discussão necessária mas insuficiente. Na verdade, se ficarmos por aí, podemos ser levados a uma interpretação da realidade em que os agentes políticos e as instituições são entendidos como objectos passivos, sujeitos a pressões dos cidadãos e dos meios de comunicação, às quais vão reagindo a partir de uma posição inicial de neutralidade. Ora, o governo, a presidência, o parlamento, os partidos, os lobbys, estão longe de ter um comportamento passivo de mera adaptação às pressões que vão sofrendo. A crítica sobre o modo como se faz escrutínio da acção política, precisamente porque ela é acção e não mera reacção, deve por isso ser complementada com a análise desse exercício. No momento actual, há questões a que a acção política deve responder. Deixo aqui, a título de exemplo, apenas algumas:

a)      Os parlamentares representam efectivamente aqueles que os elegeram?

b)      É possível aos eleitores terem uma ideia clara dos vencimentos, regalias e benefícios dos eleitos e das suas iniciativas políticas? Os custos (e respectivas justificações) dos eleitos são transparentes?

c)       Os candidatos à Presidência da República são claros quanto à sua interpretação dos poderes constitucionais quando apresentam os propósitos das suas candidaturas?

d)      A legitimidade obtida nas urnas justifica a governação na contramão do programa eleitoral apresentado? Qual o limite? Mais, a própria alteração excepcional de circunstâncias, sempre invocada em momentos de inflexão de políticas, justifica essa inflexão ou implicaria, precisamente, a necessidade de renovação da legitimidade nas urnas? Para sermos claros, pode um governo eleito com fundamento na reestruturação do Estado e na recusa do aumento da carga fiscal fazer exactamente o seu contrário? Em que circunstâncias?

e)      Os agentes políticos contribuem para o enriquecimento do debate, com propostas fundamentadas e argumentação séria, ou escudam-se, genericamente, em fórmulas vazias, teses mal estruturadas, cortinas de fumo, estudos sem sustentação e soundbytes?

 

É que, e com isto concluo, parece-me que os textos do Pedro, do Jaa e do José Maria focam os sintomas (os excessos do escrutínio). Todavia, a minha tese é a de que a doença está essencialmente na acção política e, concretamente, num défice de legitimidade (que, em tempos de crise, facilmente se transforma em défice de autoridade moral). E mais, creio ainda que os excessos de escrutínio não são simétricos do défice de legitimidade. Aqueles são pontuais e este tem sido permanente e estrutural. Aqueles contribuem para descredibilizar o sistema. Este faz apodrecer o sistema por dentro. Em concreto, está mal que se meta toda a classe política no mesmo saco, que se utilizem palavras ou actos violentos, que a pressão sobre os poderes democráticos seja irracional e que o jornalismo, os blogs ou as redes sociais sigam, mais do que os factos, a sua agenda e se fixem nas calinadas e no episódio pícaro mais do que nas questões essenciais. Mas, do lado da acção política, quem se demarcou, quem explicou, quem se preocupou com a legitimidade e a representatividade? E, já agora, se tirarmos da boca dos agentes políticos as Fábulas de Esopo, não encontraremos, em seu lugar, um tremendo vazio?