The day after


Rui Rocha,

O PS matou o país. Agora, passa o dia no cemitério a berrar que estamos órfãos. O CDS chora muito. O Bloco de Esquerda e o PCP tornaram-se místicos e falam-nos de uma vida para além da morte. O CDS chora muito. O PSD diz que quer ressuscitar o morto dando-lhe porrada. O CDS continua a chorar.

Causalidade, coincidência, sorte e azar


Rui Rocha,

Existe, então, um mundo que se nos apresenta organizado de acordo com um princípio de causa e efeito. Por exemplo, não é difícil estabelecer um nexo entre os seguintes factos: a) Passos Coelho promete não aumentar impostos; b) Passos Coelho aumenta impostos; c) Passos Coelho perde popularidade.

 

Um encadeamento de factos desta natureza, ao qual conseguimos atribuir uma ligação e um sentido, não costuma provocar-nos qualquer frisson. Analisamos, compreendemos, nada nos perturba. Todavia, há outras situações que provocam, dependendo das circunstâncias, um friozinho, um olhar angustiado, uma perplexidade, um entrever de um mundo mágico ou um entreabrir de uma porta de espanto. Refiro-me àquelas situações a que chamamos coincidências. Não encontramos ali nenhum nexo, qualquer ligação, uma relação mecânica. E, todavia, se não formos precavidos, logo deixaremos que se crie no nosso espírito a ideia de que entre aqueles dois acontecimentos poderá existir um fio invisível que os une, um não sei quê entre eles que há-de estabelecer uma qualquer relação. É esta uma tentação perigosa que não deixou poucas vítimas ao longo da história. Veja-se o caso de Carl Jung. Atormentado pela necessidade de explicar estas situações, avançou a ideia de sincronia sem cuidar que isso afectaria irremediavelmente a sua reputação. Para Jung, a sincronia seria a explicação para as tais coincidências significativas, essas que ocorrem quando nos deparamos com acontecimentos paralelos e aparentemente acausais e que seriam justificados afinal (para Jung, entenda-se, e não para todos quantos nos queremos manter no domínio da racionalidade) por arquétipos localizados numa realidade unificada correspondente a uma inteligência colectiva. Coisa de tolinhos, já se vê. A que propósito vem tudo isto? Pois destas duas notícias, publicadas nas últimas horas:

 

a) No Verão desse ano, a administração da Tecnoforma negociou o assunto com a secretaria de Estado da Administração Local e a 31 de Julho escreveu ao seu titular, Miguel Relvas, ao cuidado da sua então secretário pessoal (Helena Belmar), que agora ocupa as mesmas funções no gabinete de Passos Coelho. “Na sequência das reuniões que têm vindo a ser realizadas com a área dos Transportes e com a Secretaria de Estado da Administração Local fomos incumbidos de apresentar um projecto nacional” de formação de técnicos de aeródromos e heliportos municipais, lê-se no ofício;

 

b) Uma das secretárias pessoais de Pedro Passos Coelho foi demitida por abuso de confiança. De acordo com o Correio da Manhã, Helena Belmar da Costa terá utilizado indevidamente bens do primeiro-ministro,


Ora, perante isto, devemos recusar qualquer hipótese que aponte para um nexo de causalidade entre um facto e outro ou que exista, sequer,  uma coincidência significativa na acepção utilizada por Jung. Na verdade, sendo nós pessoas racionais como efectivamente somos, sabemos que estas coisas se regem apenas e só pelas leis da sorte e do azar.

O Público


Rui Rocha,

A notícia do despedimento de cerca de 50 trabalhadores do Público, trinta e seis dos quais jornalistas, dá origem  aos mais variados comentários que vão desde a preocupação justificada com a situação das pessoas em causa até às dúvidas sobre o futuro da imprensa ou ao sublinhar dos perigos que pairam sobre o direito à informação, a liberdade de expressão e a própria democracia. Todos estes aspectos são pertinentes. Todavia, há  a propósito disto pelo menos duas perguntas a formular:

 

a) quem, de entre os que se pronunciam sobre o assunto, compra o Público com um mínimo de regularidade?

b) vale a pena comprar o Público?

 

Pessoalmente, respondo a ambas as perguntas com um não. Há anos que não compro o Público e há anos que deixei de achar que valia a pena. O Público foi o único periódico a que, em algum momento, chamei o “meu jornal”. Enquanto andei na Universidade, era compra diária. E foi no Público que li o anúncio daquele que viria a ser o meu primeiro emprego. Depois, a nossa relação de amizade deteriorou-se. Nestas coisas, há sempre razões de ambas as partes. Mas, se me perguntarem, direi que não mudei muito desde que nos conhecemos e que foi o Público que se foi tornando irreconhecível com o passar dos anos.

Com a ZON, na saúde e na doença


Rui Rocha,

Acto I (algures num balcão da ZON)

 

– Bom dia.

– Bom dia. Em que posso ajudar?

– A minha mãe é vossa cliente. Por motivo de doença teve de mudar de residência e agora pretendemos cancelar o vosso serviço.

– Pois, mas isso aqui ao balcão, só com a presença do próprio.

– Pois, mas isso é completamente impossível devido à doença.

(silêncio longo e olhar inquisitivo)

– Bem, atendendo à situação, vamos abrir uma excepção.

– Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).

– Traga, por favor, uma declaração da mãe a dizer que o autoriza a tratar da cessação do serviço. Traga os seus documentos pessoais e os da mãe.

– Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).

 

Acto II (uns dias depois, no mesmo balcão da ZON)


– Bom dia.

– Bom dia. Em que posso ajudar?

– A minha mãe é vossa cliente. Por motivo de doença teve de mudar de residência e agora pretendemos cancelar o vosso serviço. Trago aqui uma declaração assinada por ela a autorizar-me a tratar do assunto.

– Pois, mas essa declaração não serve.

– Não serve? Mas foi uma sua colega aqui da loja que me disse para proceder desta forma…

– Pois, mas cancelamento aqui ao balcão, só com a presença do próprio.

– Pois, mas isso é completamente impossível devido à doença.

(silêncio longo e olhar inquisitivo)

– De qualquer maneira, essa declaração não serve.

– Então…

– Bem, atendendo à situação, vamos abrir uma excepção.

– Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).

– Mas essa declaração não serve. Vou imprimir-lhe uma declaração para trazer assinada pela mãe.

– Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).

 

Acto III (contacto telefónico uns dias depois da entrega com sucesso da declaração)

 

– Sim?

– Boa tarde, estou a contactar da ZON na sequência do pedido de desactivação do serviço apresentada pela Senhora Y.

– Ah, muito bem. É a minha mãe.

– E poderia falar com ela?

– Não, por motivo de doença é impossível.

– Percebo. É que para concluir o processo preciso de contactar com a Senhora.

– Percebo. Mas por motivo de doença é completamente impossível.

– Percebo. Aproveito para apresentar os nossos votos de pronto restabelecimento. 

– Muito amável. Transmitir-lhe-ei o seu cuidado logo que acabarmos a chamada.

– Ahnnn… Muito obrigado. Estou a falar com o Senhor?

– Rui Rocha.

– Sugiro então que abramos uma excepção.

– Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).

– Se me permitir, coloco-lhe as questões que faltam para concluir o processo.

– É mesmo necessário? É que a minha mãe já declarou por escrito que não pretende o serviço. Não vejo a necessidade…

– Compreendo. Mas sim, não posso concluir o processo sem colocar as questões.

– Diga.

– A residência da Sra. Y é na Rua (…).

– Confirmo.

– E tinha contratado o pacote Funtastic com 142 canais e mensalidade promocional no valor de vinte e nove euros e trinta e dois cêntimos?

– Olhe… agora apanha-me em falso. Confesso que nos últimos dias andei a vasculhar nos papéis todos da minha mãe até descobrir qual o pacote de cabo que ela tinha. E estava capaz de jurar que eram vinte e quatro cêntimos… E 138 canais.

– Não, a informação que tenho é que era de  vinte e nove euros e trinta e dois cêntimos e 142 canais.

– Hmmm. E está certo de que era o pacote Funtastic?

– Sim, essa é a informação que tenho em sistema.

– Por vinte e nove euros e trinta e dois cêntimos e com 142 canais?

– Sim, é exactamente isso que está em sistema.

– Está mesmo seguro?

– Sim, exactamente.

– Então confirmo o pacote e o valor.

– Ah, muito obrigado. E pode dizer-me que tipo de canais são os preferidos da sua mãe?

– Se calhar era melhor dizer-me a lista de canais disponíveis para eu ver se me está a falhar algum.

– Sem qualquer problema. Mas… são 142 canais…

– Pois, mas para o inquérito ser rigoroso…

– Claro. Mas se tiver uma ideia aproximada. Por exemplo, se é uma pessoa com mais idade, talvez os canais de informação, os generalistas…

– Talvez… Mas acho que não. Ponha o MTV Rocks.

– O MTV Rocks?

– Sim, a minha mãe gostava muito de ouvir os Nirvana e dos Red Hot Chili Peppers.

– Ah… vou então registar os canais de música.

– Muito bem. Mas sublinhe o MTV Rocks.

– Muito bem. Senhor Rui Rocha, na residência onde está instalado o serviço pode dizer-me se vivia mais alguém?

– Porquê, desconfia de alguma coisa?

– Ahnn… Não. Não. É só mesmo uma informação requerida pelo sistema.

– Certo. O sistema. Pois então pergunte por favor ao sistema qual a carga de água que faz com que seja preciso dar-lhe informações sobre o número de pessoas que vive em casa da minha mãe para proceder ao cancelamento de um serviço.

– Muito bem, Sr. Rui Rocha.

– Perguntou?

– Quer dizer, não, quer dizer o sistema não responde.

– Foi abaixo?

– Não, quer dizer, não permite fazer perguntas.

– Ah… 73.

– Agora não percebi.

– Ponha que residem ainda 73 pessoas no T2 da minha mãe.

– 73?

– 73. Ponha 73.

– Muito bem, Sr. Rui Rocha.

– Não se esqueceu do 3 depois do 7, pois não?

– Não, de todo. Coloquei 73.

– Óptimo.

– Senhor Rui Rocha, uma outra pergunta. A mãe vivia em casa própria?

– Agradeço-lhe a preocupação. Mas sim, era adequada. Confortável e acolhedora. Só lhe faltava mesmo um bocadinho mais de sol. E de espaço porque eram 74 contando com ela.

– Não, não. O que eu quero saber é se era arrendada.

– É o Senhor que quer saber ou é o sistema? A si digo-lhe de bom grado. Depois desta conversa, já é como se fosse da família. Ao sistema custa-me mais um bocadinho.

– Bem, sou eu para inserir em sistema.

– Pronto. Se é para inserir, está bem. Eu digo-lhe: é arrendada. Mas, já vê. Era barato. A dividir por 74…

– Claro. E o Senhor Rui Rocha não tem o contacto do senhorio?

– Não me diga que vai fazer queixa de que viviam 74 num T2?

– Não, de todo. É só mesmo para inserir em sistema.

– Jura que não é para fazer queixa?

– É só mesmo para o sistema.

– Pois, mas não tenho o contacto. Agora, é capaz de o conhecer. É o Joaquim Couto que tem aquela empresa de construções em Vila Verde.

– Ah, pois. Não conheço. Eu estou em Lisboa.

– Ah, pronto. Então nada feito.

– Senhor Rui Rocha, uma última pergunta. Conhece alguém que não seja cliente da ZON que possa estar interessado em beneficiar da promoção do pacote Funtastic contratado pela sua mãe e que queira indicar-nos.

– O que me está a perguntar é se me estou a lembrar de alguém que me apeteça indicar para beneficiar de uma fantástica promoção aproveitando o facto de a minha mãe estar com uma doença grave?

– Pois, aproveitar a promoção…

– O preço é mesmo vinte e nove euros e trinta e dois cêntimos?

– Confirmo.

– Nesse caso, não. Ainda se fosse pelos vinte e nove e vinte e quatro…

– Agradeço-lhe então a sua disponibilidade e vou dar o processo por concluído. Nos próximos dias será contactado para recolher o equipamento. Muito obrigado.

– Não se preocupe. Não tem de quê. Não quer aproveitar para desejar as melhoras à minha mãe?

– Peço desculpa, agora não percebi.

– Como estava tão preocupado com a saúde dela no princípio da conversa, pensei que quisesse renovar o desejo de pronto restabelecimento.

– Ah, claro que sim.

– Esteja tranquilo. Não me esquecerei de lhe transmitir.

– Então muito obrigado e boa tarde.

– Boa tarde.

Escolhas


Rui Rocha,

– Estou farto disto.

– De quê?

– Da corrupção, da impunidade, do compadrio, do nepotismo, do amiguismo, das instituições que não funcionam, da falta de transparência e  de serem sempre os mesmos os beneficiados.

– Pois. Percebo.

– Está decidido. Vou daqui para fora.

– E já sabes para onde vais?

– Já. Vou para Angola.

– Ah, bom.

Processamento de salários à moda do Gaspar


Rui Rocha,

Senhor Director de Recursos Humanos,

 

Na sequência da comunicação de ontem do Sr. Ministro das Finanças, permito-me sugerir a V. Exa. uma alteração de procedimento que, estou certo, em muito beneficiará a produtividade da nossa empresa em matéria de processamento de salários no ano de 2013 e, muito provavelmente, em todos os que se lhe seguirem. Vª. Exa. verá. A empresa, como bem sabe, insiste em processar as remunerações em cada um dos doze meses do ano. Dá-se, em consequência, ao incómodo de desenvolver um conjunto de tarefas administrativas, como a emissão de recibo, a transferência do valor líquido para a conta bancária, a retenção na fonte do imposto sobre o rendimento, a cativação da contribuição para a segurança social e a entrega aos competentes departamentos do Estado de tais importâncias. Ora tudo isto parte de um lamentável equívoco. Está a empresa convencida que me deve pagar como contrapartida do meu trabalho. Nada mais falso. Embora não saibamos qual a dimensão exacta da coisa, a verdade é que a maior parte dessas remunerações são do Estado. Percebo que o que afirmo possa provocar-lhe algum espanto. A questão entende-se melhor com uma imagem. Tomemos a remuneração anual como se fosse um bolo. Corte V. Exa., sem grande preocupação de rigor, uma fatia que não ande longe de nove catorze avos. Pronto? Muito bem. Tente agora entregar-me essa parte do bolo. Viu? O Estado já a abocanhou, não é verdade? É mesmo assim que a coisa se passa. Ora, sendo isto assim, como é, não há nenhuma vantagem em andarmos com esta maçada dos recibos, das transferências e de tudo o mais. Assim, melhor será que dê V. Exa. instruções aos serviços para, pelo menos até Julho de 2013, entregarem directamente a totalidade das minhas remunerações ao Estado. Depois, antes de V. Exa. ir de férias em Agosto, logo voltaremos a falar sobre o assunto. E já veremos, face às medidas concretas aprovadas no Orçamento de Estado de 2013 e a outras que entretanto venham a ser arremessadas, se é questão de alterar o procedimento. Ou se a realidade aconselha que o mantenhamos até Dezembro.

 

Com os melhores cumprimentos,


Rui Rocha

 

P.S. (salvo seja): no que diz respeito ao subsídio de alimentação, autorizo desde já V. Exa. a optar entre a entrega ao Estado ou, como me parece mais adequado, o envio directo à Fundação Mário Soares.