Acto I (algures num balcão da ZON)
– Bom dia.
– Bom dia. Em que posso ajudar?
– A minha mãe é vossa cliente. Por motivo de doença teve de mudar de residência e agora pretendemos cancelar o vosso serviço.
– Pois, mas isso aqui ao balcão, só com a presença do próprio.
– Pois, mas isso é completamente impossível devido à doença.
(silêncio longo e olhar inquisitivo)
– Bem, atendendo à situação, vamos abrir uma excepção.
– Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).
– Traga, por favor, uma declaração da mãe a dizer que o autoriza a tratar da cessação do serviço. Traga os seus documentos pessoais e os da mãe.
– Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).
Acto II (uns dias depois, no mesmo balcão da ZON)
– Bom dia.
– Bom dia. Em que posso ajudar?
– A minha mãe é vossa cliente. Por motivo de doença teve de mudar de residência e agora pretendemos cancelar o vosso serviço. Trago aqui uma declaração assinada por ela a autorizar-me a tratar do assunto.
– Pois, mas essa declaração não serve.
– Não serve? Mas foi uma sua colega aqui da loja que me disse para proceder desta forma…
– Pois, mas cancelamento aqui ao balcão, só com a presença do próprio.
– Pois, mas isso é completamente impossível devido à doença.
(silêncio longo e olhar inquisitivo)
– De qualquer maneira, essa declaração não serve.
– Então…
– Bem, atendendo à situação, vamos abrir uma excepção.
– Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).
– Mas essa declaração não serve. Vou imprimir-lhe uma declaração para trazer assinada pela mãe.
– Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).
Acto III (contacto telefónico uns dias depois da entrega com sucesso da declaração)
– Sim?
– Boa tarde, estou a contactar da ZON na sequência do pedido de desactivação do serviço apresentada pela Senhora Y.
– Ah, muito bem. É a minha mãe.
– E poderia falar com ela?
– Não, por motivo de doença é impossível.
– Percebo. É que para concluir o processo preciso de contactar com a Senhora.
– Percebo. Mas por motivo de doença é completamente impossível.
– Percebo. Aproveito para apresentar os nossos votos de pronto restabelecimento.
– Muito amável. Transmitir-lhe-ei o seu cuidado logo que acabarmos a chamada.
– Ahnnn… Muito obrigado. Estou a falar com o Senhor?
– Rui Rocha.
– Sugiro então que abramos uma excepção.
– Ah, muito obrigado (faço, ao mesmo tempo, uma pronunciada vénia de agradecimento).
– Se me permitir, coloco-lhe as questões que faltam para concluir o processo.
– É mesmo necessário? É que a minha mãe já declarou por escrito que não pretende o serviço. Não vejo a necessidade…
– Compreendo. Mas sim, não posso concluir o processo sem colocar as questões.
– Diga.
– A residência da Sra. Y é na Rua (…).
– Confirmo.
– E tinha contratado o pacote Funtastic com 142 canais e mensalidade promocional no valor de vinte e nove euros e trinta e dois cêntimos?
– Olhe… agora apanha-me em falso. Confesso que nos últimos dias andei a vasculhar nos papéis todos da minha mãe até descobrir qual o pacote de cabo que ela tinha. E estava capaz de jurar que eram vinte e quatro cêntimos… E 138 canais.
– Não, a informação que tenho é que era de vinte e nove euros e trinta e dois cêntimos e 142 canais.
– Hmmm. E está certo de que era o pacote Funtastic?
– Sim, essa é a informação que tenho em sistema.
– Por vinte e nove euros e trinta e dois cêntimos e com 142 canais?
– Sim, é exactamente isso que está em sistema.
– Está mesmo seguro?
– Sim, exactamente.
– Então confirmo o pacote e o valor.
– Ah, muito obrigado. E pode dizer-me que tipo de canais são os preferidos da sua mãe?
– Se calhar era melhor dizer-me a lista de canais disponíveis para eu ver se me está a falhar algum.
– Sem qualquer problema. Mas… são 142 canais…
– Pois, mas para o inquérito ser rigoroso…
– Claro. Mas se tiver uma ideia aproximada. Por exemplo, se é uma pessoa com mais idade, talvez os canais de informação, os generalistas…
– Talvez… Mas acho que não. Ponha o MTV Rocks.
– O MTV Rocks?
– Sim, a minha mãe gostava muito de ouvir os Nirvana e dos Red Hot Chili Peppers.
– Ah… vou então registar os canais de música.
– Muito bem. Mas sublinhe o MTV Rocks.
– Muito bem. Senhor Rui Rocha, na residência onde está instalado o serviço pode dizer-me se vivia mais alguém?
– Porquê, desconfia de alguma coisa?
– Ahnn… Não. Não. É só mesmo uma informação requerida pelo sistema.
– Certo. O sistema. Pois então pergunte por favor ao sistema qual a carga de água que faz com que seja preciso dar-lhe informações sobre o número de pessoas que vive em casa da minha mãe para proceder ao cancelamento de um serviço.
– Muito bem, Sr. Rui Rocha.
– Perguntou?
– Quer dizer, não, quer dizer o sistema não responde.
– Foi abaixo?
– Não, quer dizer, não permite fazer perguntas.
– Ah… 73.
– Agora não percebi.
– Ponha que residem ainda 73 pessoas no T2 da minha mãe.
– 73?
– 73. Ponha 73.
– Muito bem, Sr. Rui Rocha.
– Não se esqueceu do 3 depois do 7, pois não?
– Não, de todo. Coloquei 73.
– Óptimo.
– Senhor Rui Rocha, uma outra pergunta. A mãe vivia em casa própria?
– Agradeço-lhe a preocupação. Mas sim, era adequada. Confortável e acolhedora. Só lhe faltava mesmo um bocadinho mais de sol. E de espaço porque eram 74 contando com ela.
– Não, não. O que eu quero saber é se era arrendada.
– É o Senhor que quer saber ou é o sistema? A si digo-lhe de bom grado. Depois desta conversa, já é como se fosse da família. Ao sistema custa-me mais um bocadinho.
– Bem, sou eu para inserir em sistema.
– Pronto. Se é para inserir, está bem. Eu digo-lhe: é arrendada. Mas, já vê. Era barato. A dividir por 74…
– Claro. E o Senhor Rui Rocha não tem o contacto do senhorio?
– Não me diga que vai fazer queixa de que viviam 74 num T2?
– Não, de todo. É só mesmo para inserir em sistema.
– Jura que não é para fazer queixa?
– É só mesmo para o sistema.
– Pois, mas não tenho o contacto. Agora, é capaz de o conhecer. É o Joaquim Couto que tem aquela empresa de construções em Vila Verde.
– Ah, pois. Não conheço. Eu estou em Lisboa.
– Ah, pronto. Então nada feito.
– Senhor Rui Rocha, uma última pergunta. Conhece alguém que não seja cliente da ZON que possa estar interessado em beneficiar da promoção do pacote Funtastic contratado pela sua mãe e que queira indicar-nos.
– O que me está a perguntar é se me estou a lembrar de alguém que me apeteça indicar para beneficiar de uma fantástica promoção aproveitando o facto de a minha mãe estar com uma doença grave?
– Pois, aproveitar a promoção…
– O preço é mesmo vinte e nove euros e trinta e dois cêntimos?
– Confirmo.
– Nesse caso, não. Ainda se fosse pelos vinte e nove e vinte e quatro…
– Agradeço-lhe então a sua disponibilidade e vou dar o processo por concluído. Nos próximos dias será contactado para recolher o equipamento. Muito obrigado.
– Não se preocupe. Não tem de quê. Não quer aproveitar para desejar as melhoras à minha mãe?
– Peço desculpa, agora não percebi.
– Como estava tão preocupado com a saúde dela no princípio da conversa, pensei que quisesse renovar o desejo de pronto restabelecimento.
– Ah, claro que sim.
– Esteja tranquilo. Não me esquecerei de lhe transmitir.
– Então muito obrigado e boa tarde.
– Boa tarde.