Em tempo de guerra não se limpam cromados


Rui Rocha,

O país está em situação de emergência. O aumento de impostos é enorme. Reduzem-se remunerações. Os sacrifícios são brutais. Mais de 1 milhão de pessoas em idade activa está no desemprego ou vive em situação laboral de absoluta precariedade. Estamos a caminho de ter 3 milhões de portugueses em situação de pobreza. Milhares são obrigados a emigrar todos os meses. Desfazem-se famílias, vidas, deixam-se para trás memórias e amizades. Não há margem de manobra. Não há espaço para estados de alma, nem para países imaginários. Portugal está entre a espada e a parede. Pois muito bem. Há uma perguntinha que eu quero fazer. Na eventualidade de o contrato de leasing ou de AOV relativo às viaturas dos Senhores Ministros e Secretários de Estado terminar em 2013, o que é que vai ser? Teremos de novo os Audi e BMW de 70, 80 ou 120 mil euros ou, como recomenda o elementar sentido de decência no actual contexto, vamos substitui-los por uma vistosa,  prática e funcional frota de Renault Mégane? Que é como quem pergunta: resolvem isto a bem, ou vamos ter de nos incomodar, caralho?

Tal como Fernando Ulrich, também estou disponível para ajudar


Rui Rocha,

Fernando Ulrich tem uma solução para diminuir o desemprego. Em vez de suportar o subsídio, o Estado poderia pagar a desempregados para trabalharem em grandes empresas. Assim de repente, veio-lhe à ideia que um dos empregadores poderia ser o BPI. Parece-me bem. Mas, a ideia é tão boa, tão boa, que não a devíamos limitar às grandes empresas. Por mim, também estou disposto a ajudar. Se o Estado fornecesse os materiais, poderia mesmo pensar em demolir a habitação actual e construir uma nova com todas as necessidades de mão-de-obra que isso implicaria. Entretanto, mesmo que esse projecto não avance, não faltam oportunidades lá em casa. Deve haver outras, mas enquanto penso nisso, publico já o primeiro anúncio:


Pretende-se:

 

  • Cozinheiro/a – part-time de 4 horas por dia, incluindo feriados e fins-de-semana, ao almoço e ao jantar (necessidade permanente)
  • Empregado/a de limpeza – tempo inteiro (necessidade permanente)
  • Decorador de interiores e exteriores – tempo inteiro  (necessidade temporária: 1 mês)
  • Pintor/a – tempo inteiro (necessidade temporária: 1 a 2 meses)
  • Canalizador/a – tempo inteiro (necessidade temporária: 1 semana)
  • Baby sitter – noites de sexta-feira e sábado (necessidade permanente)
  • Professor/a de piano – part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de inglês – part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de francês – part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de alemão – part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de espanhol – part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Professor/a de mandarim – part-time de 4 horas por semana (necessidade permanente)
  • Pizzaiolo/a – para uma das folgas do/a cozinheiro/a
  • Sushiman/Sushiwoman – para outra das folgas do/a cozinheiro/a

 

Oferece-se: integração em domícilio sólido e dinâmico, bom ambiente de trabalho, remuneração suportada pelo Estado e oportunidades reais de desenvolvimento enquanto se mantiver o direito ao subsídio de desemprego.

O verdadeiro comunicado de Paulo Portas


Rui Rocha,

Face às especulações surgidas relativamente á questão orçamental, e sem embargo da reunião com o Grupo Parlamentar que terei na próxima 6.ª feira, cumpre-me afirmar o seguinte:

 

1 – O CDS votará o Orçamento de Estado considerando que Portugal não pode ter uma crise política que agravaria, ainda mais, a situação económica e social extremamente sensível que o nosso País atravessa.

 

2 – O CDS valoriza a estabilidade num momento especialmente critico para Portugal, dado que nos encontramos sujeitos a um Programa de Assistência Económica e Financeira da comunidade internacional. O CDS tem em atenção que Portugal depende desta assistência externa, de que é exemplo o financiamento que deverá ser aprovado na próxima semana.

 

3 –  Esta mensagem destruir-se-á nos próximos 30 segundos.

 

O Presidente do CDS, Paulo Portas

 

Só para apaixonados por quebra-cabeças


Rui Rocha,

Na eventualidade, meramente académica claro, de Portugal não ter um orçamento aprovado para 2013, as regras indicam que deve ser aplicado o orçamento de 2012 em regime de duodécimos, certo? Todavia, como o Tribunal Constitucional declarou a inconstitucionalidade dos cortes dos subsídios dos funcionários públicos e suspendeu essa decisão apenas para o ano em curso, esse corte não poderia ser feito, correcto? Ou será que poderia? Em todo o caso, se não pudesse, como se conciliaria essa situação com a regra constitucional que prevê que o orçamento deve incluir as receitas necessárias para cobrir a despesa?

Um orçamento que não se pode executar


Rui Rocha,

O Orçamento ontem apresentado por Vítor Gaspar não tem execução prática possível. Esta inviabilidade resulta de condições objectivas (natureza das medidas e contexto económico) e de condições subjectivas (estas relacionadas com quem as executa). Vejamos:

 

a) Condições objectivas: Portugal não é, em 2012/2013, o mesmo país onde o FMI interveio em 1983/1985. Claro. Já não temos moeda própria que possamos desvalorizar. E isso faz muita diferença. Mas, não é tudo. Há um outro dado fundamental que é preciso considerar no processo de ajustamento: o do endividamento das famílias:

 

 

Os dois gráficos traduxem bem a evolução da situação. A capacidade de ajustamento das famílias é hoje, como se vê, muito mais limitada. Mas há mais. Se tivermos em conta que uma parte do endividamento diz respeito à compra de habitação logo veremos que estamos perante uma situação de elevada rigidez. Neste cenário, o aumento brutal da carga fiscal previsto no OE 2013 só pode ter como consequência uma acentuada retracção no consumo, impossível de compensar por via de exportações. A hipótese de uma espiral recessiva é bem mais do que isso. Não se trata, portanto, de uma questão de opção ideológica por políticas de austeridade ou de crescimento (estas igualmente inviáveis nas actuais circunstâncias). Antes disso está a realidade. E sendo esta a realidade só é possível concluir que o cenário macroeconómico implícito (PIB: -1%; Consumo: – 2,2%; Taxa de  Desemprego: 16,4%) é, com alguma benevolência, um cenário macroastrológico. Objectivamente, as famílias portuguesas não podem pagar aquilo que o Estado lhes vai pedir.

 

Todavia, este não é, sequer, o problema fundamental da proposta de Orçamento para 2013. Se fosse, uma análise séria do seu mérito teria ainda que passar pelas avaliação de alternativas e pela análise dos objectivos do documento. Por exemplo, apesar de ser inexequível, o orçamento poderia permitir comprar algum tempo ou testemunhar mais uma vez a disponibilidade dos portugueses para suportar sacrifícios, tudo com a intenção de credibilizar uma negociação de um corte de cabelo decente daqui por uns meses. Porém, o problema fundamental está nas condições subjectivas de execução.

 

b) Condições subjectivas: este Governo, em concreto, não tem condições para executar este concreto orçamento. Procurando ser sintético, diria que lhe falta discurso, percurso, curso e coesão:

 

discurso – o Governo foi eleito com a promessa de não aumentar a carga fiscal, de não cortar remunerações, de reformar o Estado e de ser contido nas nomeações partidarárias. Fez tudo ao contrário. Ou Passos Coelho sabia da situação do país e mentiu ou não sabia e devia demitir-se por impossibilidade de dar cumprimento ao que prometeu. A legitimidade democrática obtida em eleições não pode servir para fazer tudo e o seu contrário.

percurso – o nível de sacrifícios exigido aos portugueses (e este deve ser medido em face da sua capacidade concreta de se ajustarem conforme foi referido mais acima) só pode ser pedido por quem apresente, para além da legitimidade do discurso, a autoridade do percurso. Lamentavelmente, um angariador de contratos da Tecnoforma e um gestor experiente das tricas das distritais do PSD, com sólida formação em tardes de sueca e bisca lambida, não cumprem os requisitos.  

curso – o de Miguel Relvas, naturalmente. A crise actual não se enfrenta a partir de uma dissonância cognitiva. A exigência para uns não é compatível com a permissividade para outros. Na bancarrota, os meios são escassos. Mas a gestão do simbólico não depende da existência de recursos materiais. Na actual circunstância, é mortal para a credibilidade de um governo que na percepção da opinião pública se tenha confundido licenciatura com licenciosidade.

coesão – a da coligação. Não é possível convencer os portugueses da bondade das soluções encontradas quando a própria maioria que suporta o governo dá sinais evidentes de falta de apoio.

 

Neste contexto, a falta de legitimidade, autoridade e credibilidade do governo levarão inevitavelmente a uma reacção social significativa. Os que desvalorizam as manifestações dos últimos dias, não interpretam correctamente o sentimento de uma maioria que ainda se mantém silenciosa. Antes que esta se torne incontrolável, é necessário renovar as condições políticas de condução do país. Note-se que dificilmente se poderá defender que essas condições serão renovadas com composições de interesses de iniciativa presidencial. A falta de legitimidade manter-se-ia, por maioria de razão. As eleições servem, antes de mais, para assegurar a transição pacífica do poder. Mais tarde ou mais cedo, chegaremos à conclusão de que é necessário deixar que cumpram novamente essa missão. 

Passos Coelho rules


Rui Rocha,

Tendo em conta as previsões de evolução do PIB, do desemprego e do consumo incluídas na proposta de OE 2013, talvez fosse melhor Vítor Gaspar entregar-se já às autoridades:

 

«Quem impõe tantos sacrifícios às pessoas e não cumpre, merece ou não merece ser responsabilizado civil e criminalmente pelos seus actos?»

 

«Não podemos permitir que todos aqueles que estão nas empresas privadas ou que estão no Estado fixem objectivos e não os cumpram. Sempre que se falham os objectivos, sempre que a execução do Orçamento derrapa, sempre que arranjamos buracos financeiros onde devíamos estar a criar excedentes de poupança, aquilo que se passa é que há mais pessoas que vão para o desemprego e a economia afunda-se.»

 

«Não se pode permitir que os responsáveis pelos maus resultados andem sempre de espinha direita, como se não fosse nada com eles».


Passos Coelho em 5 de Novembro de 2011

Tende presente, para além de tudo o mais, que o próprio FMI se engana no efeito multiplicador


Rui Rocha,

 

Atentai, caros congéneres, que o assunto tem o seu melindre. Antes de mais, todavia, façamos um curto périplo por algumas certezas da medicina. O café faz mal, certo? Pois, parece que não. Comer laranja ao deitar pode ser muito prejudicial, não é verdade? Não, não é verdade. A ingestão de antioxidantes é uma medida eficaz na prevenção de doenças, correcto? De facto, talvez não seja bem assim. Da mesma maneira, outras verdades da medicina parecem estar em causa. Pelo visto, não é evidente que beber oito copos de água por dia seja benéfico para a saúde. Ou que comer peru provoque sonolência. Ou que comer ao deitar engorde. E quem o diz é o insuspeito British Medical Journal. O ponto é que, como salienta o José Meireles Graça, a ciência médica, na variedade do nutricionismo, está longe de apresentar resultados fiáveis. Reparai que até o axioma universal que liga a ligeireza de carnes à saúde está agora posto em causa. A que propósito vem tudo isto? Pois bem. Vem a propósito de uma decisão que muitos podem estar na iminência de tomar. Certo. A cada um cabe escolher o destino que dá aos seus pertences e ninguém deve atravessar-se no caminho de decisão que se quer pessoal e intransmissível. Em todo o caso, não ficaria de bem comigo mesmo se não deixasse aqui um alerta: meditai, ponderai, tomai o vosso tempo. Tende em conta que pode não ser evidente a vantagem de trocar a esperança de vida por uma vida sem esperança. Reflecti sobre os ensinamentos que resultam do facto de o único Prémio Nobel da Medicina atribuído a um português premiar os avanços extraordinários então reconhecidos à lobotomia, hoje considerada de modo consensual uma prática bárbara e destituída de sentido. E se acaso tiver perpassado pelas vossas mentes um resto de dúvida pelo facto de os exemplos de mitos infundados da medicina que aqui trouxe estarem relacionados com a área do nutricionismo, não sendo eventualmente a incerteza que daí resulta transponível para outras domínios da ciência médica em que o conhecimento estará mais desenvolvido, tende presente que esta é uma matéria que tem tudo a ver com tomates.