O mundo é de quem o reinventa – edição memória


Rui Rocha,

Durante uma guerra, a economia sofre, naturalmente, alterações profundas. As importações ficam condicionadas, os recursos são realocados para a indústria bélica e a prioridade passa a ser a disponibilidade de bens e serviços para as forças militares. Em Inglaterra, por exemplo, durante a 2ª Guerra Mundial foi activado um esquema de racionamento de bens essenciais (alimentos, combustíveis, roupas, etc.). O racionamento, na verdade, para além de corresponder a uma necessidade inerente ao esforço de guerra, tinha também como consequência um certo sentimento de igualdade perante os sacrifícios que, se não fosse observada, tornaria a situação insuportável.

Já por aqui se vê que a história contém vários ensinamentos sobre a gestão em tempos de crise e que, apesar disso, não aprendemos nada. O certo é que determinados comportamentos passaram a ser incentivados por campanhas públicas de propaganda: a partilha de veículos, a reutilização de materiais ou a frugalidade dos hábitos eram não só uma necessidade, como o novo normal (creio que a expressão não se utilizava por esses tempos), sendo qualquer comportamento desvidado desse padrão entendido como uma espécie de traição. A utilização individual de um automóvel fazia automaticamente crescer um incómodo bigodinho à Hitler no solitário e nada solidário condutor. Da mesma forma,  meios alternativos de propulsão eram valorizados. Na falta de um Sócrates que promovesse a utilização de carros eléctricos, tornaram-se populares, em determinadas zonas, os veículos a gás obtido, normalmente, a partir da combustão de lenha ou carvão. Já então, o objectivo era favorecer os amigos, sendo que estes eram entendidos por essa altura como abrangendo toda a população.

Já se sabe, entretanto, que a necessidade aguça o engenho. E que as crianças são as primeiras a dar a volta às circunstâncias. Nada de essencial lhes faltava, até porque tinham um cartão de racionamento próprio. Não tinham acesso, todavia, a certas guloseimas (o açúcar também estava racionado). Na falta destas, o seu lugar era ocupado por saudáveis cenouras.

 

E, se é certo que em tempo de guerra não se limpam armas, não é menos verdade que há certas características femininas que nunca mudam. Assim, se a escassez de nylon e outros materiais impedia o normal abastecimento de meias e collants, um novo negócio floresceu: o da pintura dos femininos tornozelos e pernas.

 

 

* com agradecimento e pedido de desculpas antecipados à Ana Vidal pela usurpação do título.

Ridiculum Vitae


Rui Rocha,

Como era de esperar, já se ouvem vozes que se agigantam para tentar diminuir o novo treinador do Sporting. Um dos argumentos mais utilizados é a insuficiência de currículo: ganhou pouco e ganhou em circunstâncias em que era fácil ganhar. Vale então a pena tomar os factos por aquilo que são e comparar o percurso de Franky Vercauteren com a carreira dos actuais treinadores de Porto e Benfica no momento em que assumiram funções nos respectivos clubes:

 

Franky Vercauteren – chega ao Sporting em Outubro de 2012. Ganhou, até à data, três Ligas e uma Supertaça da Bélgica. Treinou, entre outros, o Genk, o Anderlecht e, de forma interina, a Selecção da Bélgica.

 

Jorge Jesus – chegou ao Benfica em 2009/2010. Vencera, até então, uma Taça Intertoto. Tinha treinado o Braga, o Belenenses, o Leiria, o Guimarães, o Moreirense, o Setúbal, o Estrela da Amadora, o União da Madeira, o Felgueiras e o Amora.

 

Vítor Pereira – assumiu funções de treinador principal em 2011/2012. Até então tinha vencido um nacional de juniores. Tinha sido treinador do Santa Clara, do Espinho, da Sanjoanense, do Arrifanense (adjunto) e dos juniores do Porto e do Padroense.

 

Perante isto, não faço ideia se o novo treinador terá sucesso no Sporting. Sei apenas que desejo o melhor para ele e para o meu clube. E sei também que, se o ridículo matasse, muita gente nunca chegaria a ver as vitórias e derrotas de Vercauteren nesta nova etapa da sua vida.

 

* originalmente publicado aqui.

Argumentos e falácias a propósito da acção do governo


Rui Rocha,

Há uma tese desculpabilizante da acção do governo que procura ganhar o seu espaço. Tentarei, sucintamente, enunciar os três argumentos principais da dita tese e sublinhar as razões que justificam que as considere meras falácias:

 

Argumento nº 1 – Na, na, na, a execução do orçamento de 2012 não falhou porque o governo obteve bons resultados do lado da despesa.


Comentário: Demos de barato, ainda que se saiba que o barato sai caro, que o governo controlou a despesa. Todavia, não nos deixemos enganar. O Orçamento de Estado é um único documento, cuja elaboração e execução cabe, globalmente, ao governo. Este não é menos responsável pela receita do que pela despesa. As contas do Estado são um sistema em que as variáveis se influenciam mutuamente. A responsabilidade do governo estende-se ao saldo final da execução. Se a realidade fica aquém do orçamento, seja lá de que lado for, o governo falhou.

 

Argumento nº 2 –  Sim, sim, sim, existe um enorme desvio entre o que os portugueses querem do Estado e o que estão dispostos a pagar. Mais, quando perguntados, os portugueses pronunciam-se de forma esmagadora no sentido de preferirem cortes na despesa. Todavia, quando se trata de identificar cortes concretos, aparece sempre uma massa de lusitanos ingovernáveis que se opõe, contra toda a racionalidade, a cada um deles.

 

Comentário: Não foram esses que lançaram na discussão pública a ideia de que seria viável uma gestão eficiente de um Estado perdulário que permitiria equilibrar as contas públicas sem envolver corte nas remunerações e sem aumento de impostos. Não. Foi a maioria que sustenta o actual governo que prometeu exactamente isso a quem quis ouvir. Com tal eficácia que muitos acreditaram. E, se os portugueses podem agora ser acusados de alguma coisa, é de terem aprendido aquilo que lhes quiseram ensinar e de terem alguma dificuldade em desaprender. Por outro lado, o argumentário da oposição às medidas do governo só é utilizado para uma parte da realidade. Que diabo. Se existe uma grande resistência a cortes em determinado tipo de despesa, não existe menos em relação ao aumento de impostos. Todavia, este avança sem piedade, ao mesmo tempo que o governo se queixa da enorme oposição ao corte na despesa. Ora, e por incrível que pareça, a existência de um governo resulta precisamente da necessidade de decidir perante interesses divergentes. Se há interesses que se opõem ao que deve ser feito, pois que o governo os enfrente. Se não o faz, só há uma razão (que não uma justificação) possível: falta-lhe legitimidade por pretender executar o contrário daquilo que prometeu.

 

Argumento nº 3 – Pois, pois, pois, os portugueses indignam-se com pequenas coisas e esquecem-se de que os agregados com verdadeira dimensão dizem respeito às remunerações dos funcionários públicos, à saúde e às prestações sociais.

 

Comentário: é verdade que cortar no valor do aluguer operacional dos veículos de Carlos Zorrinho ou de Mota Soares, nas transferências para a Fundação Mário Soares ou nas isenções fiscais da Fundação do PSD da Madeira ou lá o que é, não resolve os problemas do défice e da dívida. É uma evidência que qualquer um pode constatar numa folha de Excel. Há, todavia, uma falha de concepção das folhas de cálculo. Não existe ali qualquer célula onde se possa contabilizar o valor do exemplo e da gestão do simbolismo. Para além disso, como refere JMGraça, não faltam por aí sugestões para concretizar cortes efectivos na despesa.

 

Por tudo isto, talvez fosse melhor investir menos tempo na construção de um universo paralelo em que receita e despesa vivem de costas voltadas e nunca se encontram, em que os compromissos eleitorais se varrem para debaixo do tapete e em que se usam as grandezas dos agregados que compõem a despesa para justificar a inaceitável complacência com práticas inadmissíveis em tempo de profunda crise. É que, antes de avançar com propostas de redução do valor mínimo do subsídio de desemprego e outras prestações sociais, há um mundo de caminhos que tem de ser percorrido. As folhas de Excel não têm em memória as propostas eleitorais e os programas de governo. E não atribuem qualquer valor à ética. É essa lacuna insuperável que os portugueses (des)esperam que possa ser suprida pela acção política e governativa.

O casamento de Penélope e a supervisão bancária europeia


Rui Rocha,

Podemos imaginá-la, Penélope, à janela dos seus aposentos. Indagando o horizonte. À espera, sempre esperando o regresso de Ulisses. Ali ciente do desejo do seu pai de que voltasse a casar. Que se tornava mais evidente a cada um dos dias desses vinte anos de ausência. Ali congeminando quantas estratégias fossem possíveis para adiar o momento em que, se notícias de Ulisses não viessem, acabaria por ceder. Ali mesmo engendrara todas as formas de, dizendo que sim, obter na prática um ainda não. Por aquela mesma janela, se quiséssemos, a teríamos visto, de dia, tecendo com total dedicação o sudário de Laerte, pai de Ulisses, cuja conclusão constituía a condição por ela imposta ao seu próprio para casar com qualquer outro. Essa mesma janela por onde, tivéssemos nós cedido ao frémito da curiosidade, a veríamos, a cada noite, desfazendo com a mesma dedicação e um brilho de febre nos olhos, toda a obra que durante o dia tivesse feito. Ali, à janela, descoberto o ardil, imaginara ainda o desafio do arco de Ulisses. A evolução do mecanismo de supervisão bancária europeia, objecto de novo adiamento na passada semana, mostra que podemos imaginar Angela Merkel nessa mesma janela. Ali engendrando quantas formas existem de ir dizendo que sim para, na prática, obter um ainda não. Ali sempre esperando, sempre fiel ao sistema bancário alemão e ao seu projecto político europeu. A situação portuguesa só tem solução por via da solidariedade (outros dirão compaixão) europeia. Se quisermos perceber algo sobre a viabilidade dessa solução, é por essa janela que devemos espreitar. Essa mesma onde vemos Angela Merkel indagando o horizonte.