Podemos imaginá-la, Penélope, à janela dos seus aposentos. Indagando o horizonte. À espera, sempre esperando o regresso de Ulisses. Ali ciente do desejo do seu pai de que voltasse a casar. Que se tornava mais evidente a cada um dos dias desses vinte anos de ausência. Ali congeminando quantas estratégias fossem possíveis para adiar o momento em que, se notícias de Ulisses não viessem, acabaria por ceder. Ali mesmo engendrara todas as formas de, dizendo que sim, obter na prática um ainda não. Por aquela mesma janela, se quiséssemos, a teríamos visto, de dia, tecendo com total dedicação o sudário de Laerte, pai de Ulisses, cuja conclusão constituía a condição por ela imposta ao seu próprio para casar com qualquer outro. Essa mesma janela por onde, tivéssemos nós cedido ao frémito da curiosidade, a veríamos, a cada noite, desfazendo com a mesma dedicação e um brilho de febre nos olhos, toda a obra que durante o dia tivesse feito. Ali, à janela, descoberto o ardil, imaginara ainda o desafio do arco de Ulisses. A evolução do mecanismo de supervisão bancária europeia, objecto de novo adiamento na passada semana, mostra que podemos imaginar Angela Merkel nessa mesma janela. Ali engendrando quantas formas existem de ir dizendo que sim para, na prática, obter um ainda não. Ali sempre esperando, sempre fiel ao sistema bancário alemão e ao seu projecto político europeu. A situação portuguesa só tem solução por via da solidariedade (outros dirão compaixão) europeia. Se quisermos perceber algo sobre a viabilidade dessa solução, é por essa janela que devemos espreitar. Essa mesma onde vemos Angela Merkel indagando o horizonte.
O casamento de Penélope e a supervisão bancária europeia
Rui Rocha,

…e o facto de Ulisses ter fundado Lisboa não ajuda muito! À compaixão, digo eu.
Assim, a titânide e os titãs, enfrentando Zeus e os deuses olímpicos que, por sinal, também são doze, resignada com o tecer do sudário e desenrolando as contas do nosso Rosário, lá se entrega a Orfeu para que este na sua benemérita sabedoria nos traga um poema sobre a morte, mostrando-nos que esta, ao invés de inimiga, é irmã caridosa.
Porra, hoje tá-me a dar com seriedade.
“A situação portuguesa só tem solução por via da solidariedade (outros dirão compaixão) europeia.”
Não tem. É o pior que nos poderia acontecer.
Parece que a única “vantagem” da crise é a de que aguça o engenho e promove a cultura geral! E então na escrita, é o máximo!