Sussexo


Ana Vidal,


 

Sucesso não é termos muitos parceiros sexuais, é termos aqueles que escolhemos. Ou seja, exactamente aqueles que queremos ter – sejam muitos ou poucos – e não outros. Vem isto a propósito deste post do Pedro sobre… galináceos. É a sempiterna questão da qualidade e da quantidade, da oposição ou da intersecção entre esses conceitos, aplicados ao sexo. Se, por um lado, quanto mais alargarmos o universo exploratório, maior será (diz a mais elementar lógica matemática) o conhecimento e a experiência acumulada, por outro lado, a verdadeira e completa intimidade só se consegue com tempo, muito tempo, dedicado a uma única pessoa. A intimidade é uma conquista lenta, valiosa e insuperável, que vai muito além do sexo propriamente dito. Até que um cheiro, um gesto, um hálito ou uma prega de pele se nos tornem familiares a ponto de serem já “nossos”, muitas luas terão de passar. O resto pode ser óptimo – e é, frequentemente – mas não passa de uma ilusão de intimidade e de sucesso.

 

Não existem (salvo as inevitáveis excepções para os dois extremos) pessoas “boas” ou “más” na cama. Há, isso sim, “boas” ou “más” conjugações. Basta fazer meia dúzia de perguntas cirúrgicas, individualmente, aos membros de um clássico triângulo amoroso, e as respostas serão, com toda a certeza, contraditórias. Aquele(a) que um(a) descreve como uma “bomba sexual”, pode ser visto pelo(a) outro(a) como um monumento à frigidez. Toda a magia está na conjugação. É claro que a tão aclamada “química” é quase sempre perceptível nas primeiras impressões (ou existe ou não existe, é simples), mas ela é apenas o “abre-te sésamo” para uma caverna de Ali Babá cheia de labirintos insuspeitados, repletos de tesouros que só o tempo – e um bom mapa – poderão revelar.

 

24 comentários em “Sussexo”

  1. De uma maneira geral, Ana, concordo com o que escreveu. Mas também é verdade que há pessoas que nasceram “prá coisa”, e aí não há quimica que nos valha.
    Por outro lado há pessoas que à partida não nos dizem nada, e depois revelam-se verdadeiras surpresas.
    Tenho um amigo que costuma dizer que as melhores experiencias sexuais que teve foram com “coirões”. (peço desculpa pelo meu amigo, porque eu nunca caracterizaria assim uma mulher menos vistosa!)
    No sexo como em tudo na vida, quem vê caras não vê corações, que é como quem diz, uma boa queca!

    1. A estética é um outro aspecto da questão, Alexandre. O que diz o seu amigo – embora de uma forma muito pouco elegante, convenhamos – faz sentido: quem tem menos atributos óbvios tem de recorrer a outros, mais subtis. E esses outros, são, quase sempre, muito mais decisivos. 🙂

  2. Se me permite, aquilo é uma anedota datada de algures entre 1923 e 1929… IMHO, deve ser entendida apenas no plano do humor…

  3. Pois é, com a inevitável questão: Afinal, depois desta quantidade de sexo consumida o que ficou? De permeio, a atrapalhação indisfarçável do olhar para um relógio como se a essas horas algum compromisso tivesse sido perdido, ou adiado. Foge já antes que te apresentem o pequeno-almoço.

    http://www.youtube.com/watch?feature=related&hl=en&v=Epk5bcmLDns

      1. Eu que agradeço o excelente post. Tomei a liberdade de comprtilhá-lo no facebook. É a primeira vez que leio algo seu. Falha minha, pretendo corrigir-me daqui por diante. Bom domingo.

  4. Ana, percebo a sua ideia – mormente a do pequeno-almoço -, mas não concordo por inteiro. Será, por ventura, quando «um cheiro, um gesto, um hálito ou uma prega de pele se nos tornem familiares a ponto de serem já “nossos”» que a coisa, digo a ideia, pode resvalar. Um homem, como uma mulher, não olha só para a sua árvore; tende a olhar e a desejar outros jardins, sentir-lhes a seiva, cheirar as flores e comer os frutos.

    1. Claro que sim, Paulo. A espécie humana não tem a monogamia impressa no genoma, isso é certo. Aliás, há muito poucas espécies animais com essa característica… os gansos e pouco mais, pelo menos que eu saiba. Já a curiosidade, essa sim, faz parte da nossa natureza. E o prazer da descoberta também. Mas nada disso invalida a minha tese. Afinal, sem experiência e variedade não há termos de comparação para podermos saber o que queremos…

      1. Volto para dizer que o meu ponto é sobretudo este: é um erro frequente medir o sucesso sexual pela quantidade de parceiros. A qualidade, quanto a mim, é um elemento da equação bem mais caro… e raro.

  5. De facto, a questão de intimidade – acrescentaria, também, o à vontade – é preponderante nessa temática. Quantas vezes não se lavram termos, rebuscando um sincero, e se termina por aceitar as diferenças do “fazer amor” e do “fazer sexo“.

    Penso ainda assim que os dogmas do socialmente correcto até na introspecção exercem as suas influências sobre o nosso esponjoso superego; complicando a aceitação moral, dos indivíduos, sobre a descoberta, e até o auto-conhecimento, que novas relações, em diferentes dinâmicas, chamemos-lhes, das relações e convívios sexuais permitem. Afinal, tudo é descoberta. Quem seriamos, hoje, nós, sem aquela experiência passageira com a outra pessoa, ou até mesmo com aquela onde de romance nada houve e onde o simples contacto se transformava em luxuria.

    Simplesmente, não há nem melhor nem pior, há diferente.

    1. CeC, espero que ninguém tenha lido no meu post uma lição de moral. Não tenho nada contra a variedade nem contra a procura do desconhecido, já o disse, e a experimentação é uma parte fundamental do processo. Só defendo que a intimidade é uma conquista lenta, difícil e persistente, mas que vale a pena.

      1. Concordo plenamente. E duvido que alguém tenha visto no seu comentário uma critica – por mim, ao menos, falo.
        O meu próprio comentário foi no sentido de existirem sempre pressões; nem a pessoa que se se ostracize dos comentários alheios será imune à critica.

        1. Tem razão, existem sempre pressões em matéria de sexo. E muitos preconceitos, quase sempre partindo de quem, secretamente, gostaria de ter coragem ou oportunidade para fazer o que critica…

  6. Um bom mapa?

    Sophia: Navegavam sem o mapa que faziam

    (Já agora, diz a minha melhor ou mais antiga amiga que as suas melhores experiências sexuais foram em primeiros encontros; digo eu: não há receitas)

    1. Não, de facto não há receitas. Até porque tudo tem que ver com expectativas, com o que se espera de um encontro sexual. Se é a surpresa e a novidade que mais se valoriza, então os primeiros encontros são os melhores. A sua amiga está tão certa como qualquer outra pessoa que defenda o contrário, Isabel.

      (quanto à Sophia, um bom mapa pode ser feito em plena navegação… porque não?)

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