Atentai, caros congéneres, que o assunto tem o seu melindre. Antes de mais, todavia, façamos um curto périplo por algumas certezas da medicina. O café faz mal, certo? Pois, parece que não. Comer laranja ao deitar pode ser muito prejudicial, não é verdade? Não, não é verdade. A ingestão de antioxidantes é uma medida eficaz na prevenção de doenças, correcto? De facto, talvez não seja bem assim. Da mesma maneira, outras verdades da medicina parecem estar em causa. Pelo visto, não é evidente que beber oito copos de água por dia seja benéfico para a saúde. Ou que comer peru provoque sonolência. Ou que comer ao deitar engorde. E quem o diz é o insuspeito British Medical Journal. O ponto é que, como salienta o José Meireles Graça, a ciência médica, na variedade do nutricionismo, está longe de apresentar resultados fiáveis. Reparai que até o axioma universal que liga a ligeireza de carnes à saúde está agora posto em causa. A que propósito vem tudo isto? Pois bem. Vem a propósito de uma decisão que muitos podem estar na iminência de tomar. Certo. A cada um cabe escolher o destino que dá aos seus pertences e ninguém deve atravessar-se no caminho de decisão que se quer pessoal e intransmissível. Em todo o caso, não ficaria de bem comigo mesmo se não deixasse aqui um alerta: meditai, ponderai, tomai o vosso tempo. Tende em conta que pode não ser evidente a vantagem de trocar a esperança de vida por uma vida sem esperança. Reflecti sobre os ensinamentos que resultam do facto de o único Prémio Nobel da Medicina atribuído a um português premiar os avanços extraordinários então reconhecidos à lobotomia, hoje considerada de modo consensual uma prática bárbara e destituída de sentido. E se acaso tiver perpassado pelas vossas mentes um resto de dúvida pelo facto de os exemplos de mitos infundados da medicina que aqui trouxe estarem relacionados com a área do nutricionismo, não sendo eventualmente a incerteza que daí resulta transponível para outras domínios da ciência médica em que o conhecimento estará mais desenvolvido, tende presente que esta é uma matéria que tem tudo a ver com tomates.


Meu caro Rui,
Obrigado por este receituário. O nosso Passos, que diz pertencer à geração que paga as dívidas, com o sacrifício dos outros (note-se), decidiu fazer um mistela de ervas (ou de merdas) para mostrar que é um homem honrado. Ainda irei tentar transformar esta atitude numa empresa de formação, desde que os fundos estejam garantidos; claro!. Haja empreendedores que ajam!
O nosso José Policarpo, que é meu irmão na fé, muito pouco, ou nada, católico (universal) lá veio dar uma ajudita ao rapaz dizendo que na rua não se resolve nada. E tudo isto é dito no meio da rua, através das ondas que circulam pelos telhados, a que uma multidão não tem acesso. Vai daí, uns dias antes desta douta declaração, afirma-nos que a Igreja (à qual eu pertenço) tem feito muito e calada. Mas não foi capaz de se calar para dizer que a Igreja faz muito.
Pois faço, D. José Policarpo. Faço-o na rua, no silêncio, na caixa das esmolas e nos peditórios; eu que considero que o que nada tenho não me pertence e, por isto, devolvo-o ao Provedor para que Ele faça o que bem entender. Olhe, com excepção deste momento, também tenho andado calado a este respeito.
E calo-me porque o que é dívida e dever é para se cumprir e não para ser apregoado. Tudo isto para dizer-lhe que nestas coisas do jejum, quando o faço, lavo a cara e venho para a rua sem mostrar tanto padecimento. É pela purificação, não há razão para queixumes ou ostentação.
Não obstante o que acima produzo, ocorre-me aquela narrativa da Boa Nova (creio que já foi) sobre a multiplicação dos pães.
Jesus, após atravessar o lago da Galileia, seguido de uma grande multidão, sentou-se com seus discípulos no monte.
Vendo que aquela gente estava com fome, dirigiu-se a Filipe e perguntou: “Onde compraremos pão para que todos estes tenham o que comer?”. Nota: Sabemos que Jesus falava assim para experimentar Filipe.
Respoudeu-lhe Filipe:
“Duzentos denários de pão não chegam para que cada um receba um pedaço”.
Todavia, André, irmão de Simão Pedro, disse-lhe:
“Está aqui um menino que tem 5 pães de cevada e 2 peixes (não me debruço agora sobre o significado do número 7)…, mas que é isto para tanta gente?”.
Jesus Fê-los sentar, pegando no alimento rendeu graças e distribuiu-o às pessoas, dando-lhes tanto quanto necessitavam de peixe e de pão.
Porém, como sobraram pedaços de pão (de pão e não dos peixes; nessa altura também era difícil encontar “peixes”), mandou que os recolhessem e com as sobras encheram 12 cestos (doze, também não vou debruçar agora sobre a simbologia deste número). Ou seja, tantos cestos quanto os apóstolos presentes. Aqueles que não tinham solução para a situação que viviam, a não ser ficar calados e verem-n´O agir.
Tudo isto aconteceu no meio do deserto, que é a rua por aquelas paragens.
Deve ser uma chatice pregar nas praças das cidades, das vilas, das aldeias, nos estádios, nos desertos… Os templos são mais cómodos, e quem quiser ver os discípulos que apareça por aí e deixe algum paozito. Sim, parece que o Ide transformou-se em Vinde.
D. José, receba a bênção fraternal.