Causalidade, coincidência, sorte e azar


Rui Rocha,

Existe, então, um mundo que se nos apresenta organizado de acordo com um princípio de causa e efeito. Por exemplo, não é difícil estabelecer um nexo entre os seguintes factos: a) Passos Coelho promete não aumentar impostos; b) Passos Coelho aumenta impostos; c) Passos Coelho perde popularidade.

 

Um encadeamento de factos desta natureza, ao qual conseguimos atribuir uma ligação e um sentido, não costuma provocar-nos qualquer frisson. Analisamos, compreendemos, nada nos perturba. Todavia, há outras situações que provocam, dependendo das circunstâncias, um friozinho, um olhar angustiado, uma perplexidade, um entrever de um mundo mágico ou um entreabrir de uma porta de espanto. Refiro-me àquelas situações a que chamamos coincidências. Não encontramos ali nenhum nexo, qualquer ligação, uma relação mecânica. E, todavia, se não formos precavidos, logo deixaremos que se crie no nosso espírito a ideia de que entre aqueles dois acontecimentos poderá existir um fio invisível que os une, um não sei quê entre eles que há-de estabelecer uma qualquer relação. É esta uma tentação perigosa que não deixou poucas vítimas ao longo da história. Veja-se o caso de Carl Jung. Atormentado pela necessidade de explicar estas situações, avançou a ideia de sincronia sem cuidar que isso afectaria irremediavelmente a sua reputação. Para Jung, a sincronia seria a explicação para as tais coincidências significativas, essas que ocorrem quando nos deparamos com acontecimentos paralelos e aparentemente acausais e que seriam justificados afinal (para Jung, entenda-se, e não para todos quantos nos queremos manter no domínio da racionalidade) por arquétipos localizados numa realidade unificada correspondente a uma inteligência colectiva. Coisa de tolinhos, já se vê. A que propósito vem tudo isto? Pois destas duas notícias, publicadas nas últimas horas:

 

a) No Verão desse ano, a administração da Tecnoforma negociou o assunto com a secretaria de Estado da Administração Local e a 31 de Julho escreveu ao seu titular, Miguel Relvas, ao cuidado da sua então secretário pessoal (Helena Belmar), que agora ocupa as mesmas funções no gabinete de Passos Coelho. “Na sequência das reuniões que têm vindo a ser realizadas com a área dos Transportes e com a Secretaria de Estado da Administração Local fomos incumbidos de apresentar um projecto nacional” de formação de técnicos de aeródromos e heliportos municipais, lê-se no ofício;

 

b) Uma das secretárias pessoais de Pedro Passos Coelho foi demitida por abuso de confiança. De acordo com o Correio da Manhã, Helena Belmar da Costa terá utilizado indevidamente bens do primeiro-ministro,


Ora, perante isto, devemos recusar qualquer hipótese que aponte para um nexo de causalidade entre um facto e outro ou que exista, sequer,  uma coincidência significativa na acepção utilizada por Jung. Na verdade, sendo nós pessoas racionais como efectivamente somos, sabemos que estas coisas se regem apenas e só pelas leis da sorte e do azar.

11 comentários em “Causalidade, coincidência, sorte e azar”

  1. Rui, mermão, té parece que tamos na mesma sintonia.

    Tinha lido esta notícia aqui, http://economico.sapo.pt/noticias/relvas-ajudou-empresa-ligada-a-passos-a-ter-monopolio-de-formacao-em-aerodromos_153661.html

    e depois li também sobre a publicação da demissão da secretária no diário da República, e garanto-lhe qu´inté fiquei no ying e yang. O Jung táva errado.

    Mas não me deu tal admiração sobre a notícia em si, inté porque já tinha dito naquele seu post sobre o “Ah bom” que o mais importante seria a formação contínua e que isto só lá ia com engenho…, para o bom sucesso empresarial. O mermão respondeu, muito acertadamente: “Com técnica e com forma”. Tou conformado à técnica.

    Tenho a certeza que os terroristas não usaram os aeródromos portugueses graças à formação então ministrada. É que com a queda das gémeas a malta tinha que ser muito bem formada, para que não se repetissem tais coisas através dos nossos aeródromos. Isto não é fruto do acaso.

    1. Certo. No que diz respeito à ausência de um único episódio de terrorismo em aeródromos portugueses, nomeadamente na região centro, devemos reconhecer um nexo de causalidade decisivo entre o facto e a formação ministrada. Bem hajam os autores da iniciativa.

  2. Quer-me cá parecer que, a haver um nexo de causalidade, é o contrário do que aparenta… Até porque uma exoneração em DR ainda demora alguns dias – dias esses que o CM não esperaria sentado numa notícia destas.

    Isto tresanda a ressabiamento…

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