Ora muito bem. Então é assim:
a) recuso-me a votar em quem, estando no governo há 15 meses, e tendo apresentado uma proposta eleitoral baseada na ética e na reforma do Estado, chega a esta altura sem ter sido capaz de demonstrar uma vontade indómita de efectuar um corte claro e definitivo com o clientelismo, o amiguismo, o tachismo e o videirismo e sem apresentar provas tangíveis no que diz respeito à reestruturação do Estado. Lamento, mas não estou disponível para participar em palhaçadas. E é uma palhaçada continuar a ir-me alarvemente ao bolso enquanto ao nível das autarquias, das universidades, das fundações, das PPP e por aí fora tudo se mantém basicamente na mesma. Já sei que a racionalidade na gestão do Estado não é suficiente para que me deixem de ir ao bolso. Mas, a evidência de um mínimo de ética e de equilíbrio, não resguardando o bolso, proporcionaria alguma paz de espírito.
b) recuso-me a votar em quem, sendo co-responsável pela governação, procura passar entre os pingos da chuva (e se estão a chover canivetes, meu Deus) sem se molhar.
c) recuso-me a votar em partidos comunistas, trotskistas, maoistas e golpistas.
d) recuso-me a votar no coiso, como é que ele se chama, isso, no Tozé Seguro, no Costa, no Sócrates ou em qualquer seu sucedâneo.
Sendo isto assim, alguns aconselhar-me-ão calma. Afinal de contas, não há eleições legislativas marcadas para os próximos tempos. E, se a legislatura chegar ao fim (ah, ah, ah), ainda faltam 3 anos para as próximas. Não fico sossegado. Mesmo que assim seja, três anos não é nada. Se os últimos trinta e tal anos foram necessários para produzir os líderes políticos que temos tido, imagine-se o que poderá acontecer em três míseros anos. Em todo o caso, se tudo se mantiver como está, se o sistema não for capaz de gerar uma nova força alternativa e se o CDS, o PSD ou o PS não me surpreenderem com uma proposta política decente, não votarei. Problema teu, dirão alguns. Nada mais certo. Se for eu o único a pensar assim. Se alguns dos leitores pensarem como eu, o problema é um bocadinho maior. Se, todavia, este for um sentimento generalizado, estaremos perante uma grave crise de regime. Na Grécia, chamaram-lhe efeito PASOK. Em Portugal poderemos talvez chamar-lhe PASSOC, uma vez que o sinal mais visível, sem prejuízo de outros de elevada magnitude, resultará da contracção de Passos Coelho.

Rui Rocha,
Tal e qual. Concordo inteiramente e revejo-me no seu post.
Tanto quanto sei pode haver um governo de iniciativa presidencial em situações excepcionais. Isso não é nada bom, claro… Basicamente é passar um atestado de incometência ao Parlamento (berm, se calhar até era bom, porque não há ali ninguém que valha um caracol marreco…) Não sei como é que funciona, todavia, em termos de legitimidade, ou seja, quando é que é legítimo convocar um em vez de eleições. Em termos de percepção no exterior, sejamos francos, é uma vergonha. Dissolver parlamentos é uma grande vergonha, uma situação da qual custa muito recuperar em termos de credibilidade.
Aquilo a que chama “governo de iniciativa presidencial”, em Belém chamam governo da salvação nacional, (PSD, PS e CDS) e foi sempre a solução preferida do Presidente da Republica.
Há coisas que não acontecem por acaso, e as declarações de Alexandre Relvas há tres ou quatro dias, e a entrevista de Manuela Ferreira Leite ontem na TVI24, são o prenúncio disso mesmo.
Não me admiro que o Tozé hoje tenha ido a Belém dar o amém a essa solução, porque tambem a sobrevivencia dele à frente do PS passa por aí, depois dos socretinos comandados pelo Costa da camara, andarem outra vez a pôr a cabeça de fora, dizendo que o PS deve votar contra o OE, e que está pronto para governar(????).
Parece que se esqueceram depressa da merda que fizeram, assim como muita gente em Portugal.
Nem mais Rui.
Coisas simples por mais complexa que seja a realização das reformas necessárias ao emagrecimento do Monstro. É dogmática e evidente a gordura do Monstro e o elevado número dos seus tentáculos.
Não obstante esse facto indesmentível, é por demais evidente que ao longo dos anos, décadas (desde que Guterres gritou “no more jobs for the boys” -barões) que não há nem sentido de dever, nem hombridade, ética ou moral, profissionalismo entre aqueles que nos representam, eleitos por nós, eternamente perdidos na escolha de um “mal menor”.
Sócrates foi o “Pior dos piores” e após o seu mandato, o eleito tinha uma oportunidade dourada de se demarcar desta prática corrente de clientismo, compromisso, “amizades” e interesses instalados.
PPC nunca esteve à altura de tal missão, como Seguro não está à altura de representar Portugal como PM (deviam ter ficado eternamente nas jotas, a jogar ao Risco).
É possivelmente inevitável o sacrificio dos portugueses durante este período de ajuda (com congelamento de subsídios e agravamento de impostos. Não obstante, essa seria uma medida a tomar após um rigoroso estudo das necessárias reformas a implementar no Estado (Administração Pública, Saúde, Educação e Justiça), com a consequente eliminação de despesas e recursos que mais não são que pouso de boys e bois, espalhados pelo Monstro e pelos seus tentáculos.
Certamente que após a tomada à priori dessas medidas implicaria um menor sacríficio dos portugueses.
Os problemas resolvem-se a montante, nunca a jusante.
Infelizmente não vejo também em S.Bento ou em outras forças políticas não eleitas, uma alternativa credível. Ño entanto, os valores morais que me regem, a honra e sentido de isenção que procuro ter na minha conduta de vida pessoal e profissional, não se revê nestes sangue-sugas/parasitas que não tem o minímo conhecimento, ou tem e em consciência ignoram o esforço do trabalho (emprego tem eles!) do português comum.
Obrigado (sei que não tenho que agradecer) pelas suas palavras, humanas, sensatas e honradas, sem compromissos ou maquilhagens.
Grande Abraço.
Com efeito: se por um lado se recusa a votar nos partidos do Arco da Corrupção (PS, PSD e CDS); e se por outro se recusa a votar no partido comunista e nos que considera “trotskistas, maoistas e golpistas”, só lhe resta de facto a abstenção.
E porque não votar em Branco?
Não conta para nada, mas um voto elevado de brancos sempre serve para a malta ver que as pessoas se deram ao trabalho de ir votar e não escolheram nenhum da lista…
O voto em branco é paradoxal à abstenção.
A abstenção retira todo e qualquer direito de reinvidicação posterior como é óbvio.
A solução, embora não sendo a mais democrática, passa por imitar a Itália: cai o governo e faz-se outro de iniciativa presidencial com uma data limite (1/2 anos), encabeçado por alguém idóneo e que possa ser respeitado.
Com que políticas?
Sem ir além da Troika. É simples. Pode ser de direita, na mesma.
Ainda há pouco navegava eu por águas idênticas: http://lishbuna.blogspot.pt/2012/09/pens ando-alto-hipotese-1-mario-soares.html
… e não seria a primeira vez que não votava (ou votava branco ou nulo)
Cá em casa pensamos exactamente como o Rui,já decidimos,só votamos para eles sairem todos de lá.
Temos pena.
Acabou, não conseguimos confiar em mais ninguem.
Subscrevo!
Então sugiro ao Rui Rocha que assine a petição promovida pelo PAN no sentido de modificar o sistema eleitoral tornando-o mais proporcional, isto é tornando-o mais amigo dos partidos pequenos.
Só com um novo sistema eleitoral os votos dos descontentes como o Rui (e como eu) poderão passar a ter alguma consequência.
Muito bem. Parabéns. Pena é que tenham demorado 30 anos a perceber a fantochada de mau gosto que é este sistema eleitoral. Mas, antes tarde do que nunca. Cordialmente.
É extraordinário, este governo consegue não agradar a patrões, trabalhadores, sindicatos, associações empresariais etc, e agrada a Galp, Edp e Pts etc.
Chamar-lhe PASSOC seria injusto para Sócrates e outros que lhe antecederam. Eu chamar-lhe-ia antes efeito FP e não estou a pensar em Funcionalismo Público porque não gostaria de ver proposta minha chumbada por inconstitucionalidade.
Ao nível das universidades está tudo na mesma?! Desculpe lá, é não ter a mínima noção.
No resto, subscrevo integralmente.
“Não há pior analfabeto que o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. O analfabeto político é tão burro que se orgulha de o ser e, de peito feito, diz que detesta a política. Não sabe, o imbecil, que da sua ignorância política é que nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, desonesto, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”
Bertolt Brecht (1898-1956)
Pena que ele apreciasse tantos políticos que encaixam nessa frase; por exemplo e para não sair do Delito, leia por favor os comentários ao post: 60881.html
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/46
Uma das lacunas deste governo que vem desde o principio, é a falta de um ministro de estado forte que resguarde o 1º ministro e o governo nos momentos mais complicados, como é este que estamos a viver. Miguel Relvas não é esse ministro, e foi um erro de casting, como de resto escrevi em varios blogs logo que o governo tomou posse.
Comunicar ao país um aumento da austeridade da maneira como o governo o fez, é o mesmo que meter um elefante na loja da Vista Alegre, e o modo como a tem gerido, tambem tem sido desastrosa.
Posto isto, convem acrescentar o seguinte: por uma razão qualquer, os portugueses começaram a interiorizar que a “coisa” estava quase a passar, e que brevemente iriamos regressar “aos bons velhos tempos”.
Só que não há regresso possivel a tempos como a 1ª decada do sec XXI, e quanto mais depressa nos habituarmos a essa ideia, melhor.
E por várias razões, sendo a principal o facto de não haver neste mundo ou noutro qualquer nada nem ninguem que financie o modo de vida a que nos habituàmos, que como sabemos era pago com dinheiro emprestado.
Chegàmos assim às novas medidas de austeridade, que apesar da falta de bom senso com que foram anunciadas, são inevitáveis; e metendo a cabeça debaixo da areia, uma histeria colectiva tomou conta deste país, de uma maneira transversal a todos os sectores da vida portuguesa, desde a direita à esquerda, pondo no mesmo lado da barricada confederações patronais, centrais sindicais, e toda uma panoplia de personagens, desde especialistas em economia e finanças, comentadores, politologos, tudólogos, assim uma especie de “tutti-fruti”, sem que ninguem pare um bocadinho para pensar onde é que isto vai parar.
E para aumentar o suspense, o Senhor Presidente da Republica, mudo e quedo, tem deixado algumas pessoas que lhe são muito próximas, como Alexandre Relvas e Manuela Ferreira Leite, ajudarem a esta festa.
No meu caso pessoal, como de uma maneira ou de outra, já fiquei sem 17% de meu parco rendimento, estou curioso por saber como é que isto tudo vai acabar. Mas desconfio que é no Palácio de Belém!
Bem, Rui, vai então uma Ode (a IV) Alegórica de Bocage:
De Pôrto mal seguro e turvo Pego
Sai mesquinho Baixel com raras velas,
Vai crêspas ondas pávido talhando
À descrição dos ventos:
Nauta inexperto lhe dirige o leme,
Chusma (Marinhagem, equipagem) bisonha lhe mareia o pano;
De um lado fervem sirtes (bancos de areia, escolhos), doutro lado Navífragos (causadores de naufrágio) penedos:
Sussurante chuveiro os ares cerra,
Luz sulfúreo clarão de quando em quando,
De eminente Procela os negros vultos
Fero estrago ameaçam.
Já bravos Escarcéus, que se amontoam,
Por cima do convés soberbos saltam:
Prossegue na derrota o débil pinho (lenho),
Das vagas quasi absorto (absorvido, engolido).
Depois de longamente haver corrido
A estrada desigual com Céus abertos,
Em lugar de colhê-lo, o pano aumenta,
Desafia o naufrágio:
Imaginária Terra se lhe antolha,
De mil, e mil venturas semeada,
Anelas por surgir no pôrto amigo,
Cobiçosa Esperança:
Para cevar o horror mais campo havendo,
A torva Tempestade então mais zune,
Em raios, em tufões todo o ar converte
Todo o Pélago em serras:
O Mísero baixel desmantelado
Aos duros encontrões do Mar, do Vento
Sobe às Estrelas, aos Abismos desce
Entre o Pavor, e a Morte:
Súbito acode próvido (previdente, perito) Pilôto,
Que oprimido até ali jazera em ferros
Num vil cárcere escuro, onde Rebeldes o tinham Sopeado:
Estende a mão forçosa (esforçada, valente), aferra o leme,
o lenho desafronta, o rumo escolhe,
Com saber eficaz, com alta indústria
Vai sustendo a tormenta.
Já volumosas nuvens se adelgaçam,
O Vento se amacia, o Mar se aplana:
Do benigno Santelmo o ténue lume
Reluz ao aéreo tope.
Reina um pouco a suave, azul Bonança,
Mas eis se tolda o Céu de novas sombras;
Mais negra, mais feroz, mais horrorosa
Ressurge a Tempestade.
O Sábio Director, que todo ufano
Da recente vitória inda folgava,
A repetido assalto opõe debalde
Arte, vigor constância.
Tremendo aos furacões impetuosos,
Lá descorçoa, enfim, lá desalenta,
Co a Máquina infeliz, que já não rege,
Misérrimo sossobra.
Ó Ente racional! Ó Ente frágil!
Escravo das paixões, que te arrebatam!
Olhos sisudos neste Quadro emprega:
Eis o quadro da vida. (Eis o qudro desta nação. Esta nota é minha)
Já há uns tempos não voto em nenhuns desses de quem fala. Voto em branco, imaculadamente.
PASSOC, genial.
Quanto ao seu pensamento … igual ao meu.
Esta situação de aperto e de insegurança arrasa a mais serena das pessoas.
Tardam a concórdia, o desafogo financeiro, o desenvolvimento/crescimento, a igualdade de oportunidades, a alegria. Que sina a deste país!
Chegou à minha conclusão 10 anos depois…
Aliás dificilmente votarei sem ser nulo num regime que não reconhece o direito à diferença e consequentmente à objecção de consciência.
Os comunistas têm direito a ser comunistas e os liberais têm direito a ser liberais.
Enquanto foi só com os pensionistas e funcionários públicos …não fazia mal, pois não? Agora aguente-se, mas escreva:
se deixarmos não vai ficar pedra sobre pedra e não é com abstenção que vai resolver isso.
“Enquanto foi só com os pensionistas e funcionários públicos …não fazia mal, pois não?”
Deve estar a gozar. Quando só foi subida de impostos – perdemos nos impostos mas ganhamos no aumento de salários e promoção por antiguidade e os privados se lixavam – não fazia mal não era?
Nos anos 80 os estado consumia à volta de 30% da riqueza, hoje é mais de 50%…
Só quando tocou ao Estado é que as palavras como austeridade apareceram.
Com esse nome você sabe lá o que é a administração pública. Documente-se não vá atrás das parangonas dos jornais.