
Cadeira modelo Ricardo Carvalho
Rui Rocha,

Ontem anunciaram que o aumento do número de crianças por sala permitirá criar 20 mil novas vagas nas creches. É, claro, uma má medida. Todos sabemos que as crianças precisam de espaço e vistas largas. Para estreitezas bem basta o pouco tempo que passam em casa, confinados à cadeirinha, enquanto o pai vê o Benfica, assim o nevoeiro o permita, a mãe actualiza conhecimentos no Facebook e o irmão de seis anos estuda com a profundidade necessária todas as potencialidades da Wii. Por isso, não admira que os corações dos progenitores se apertem em sofrimento perante a antevisão de pilhas de crianças amontoadas, partilhando, com evidente falta de privacidade, babas, ranhos e, tremam os pilares da psicologia infantil, os arrotos que se seguem à sopa passada. E que o pequeno Rúben se desfaça em pranto. Na verdade, só não chora quem não tem coração. Vocês tentam, mas ainda não estão lá, é o que é. Falta a essas almas empedernidas uma fina capa de sensibilidade social. Um polimento final em esmerado eduquês. Uns ornamentos de destreza estatística. Um certo amor pelo estado social. Explico-vos como se faz (atentos, que não duro sempre):
Lucrécia Algodãodoce, Presidente da Comissão do Livro Arco-íris para a Compreensão dos Estados de Alma da Primeira Idade e Promoção da Felicidade Infantil, apresentou as conclusões preliminares do trabalho desenvolvido nos últimos meses a pedido do governo. A Investigadora, licenciada em Estudos da Criança pela Escola Superior de Educação de Cabeça Gorda e doutorada em Serviço Social e Geriatria (isto dá jeito, porque podem usar a mesma pessoa quando tiverem que tratar da questão dos velhotes) pela Universidade de Wayne Bridge, afirmou que o estudo permitirá adoptar, a curtíssimo prazo, um conjunto de best practices educativas que colocarão Portugal na vanguarda dos sistemas e equipamentos sociais de apoio às famílias e às crianças, bilu bilu bilu. Avançando algumas conclusões do trabalho efectuado, a investigadora afirmou que todos os estudos recentes apontam no sentido da necessidade de uma maior proximidade entre as crianças e que esta deve ser assegurada logo a partir do berçário. O contacto físico e visual entre os bebés, cuchi cuchi cuchi, promove e reforça laços de afectividade e promove uma socialização precoce, potenciando estratégias e abordagens educativas ricas e diferenciadas de estruturação da socio-afectividade infantil, quem é lindo quem é. Face a estas conclusões, Lucrécia Algodãodoce acrescentou que a Comissão a que preside formulará uma forte recomendação ao governo no sentido de aumentar significativamente o número de crianças em cada sala: “a sociedade deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para assegurar um desenvolvimento saudável, harmonioso e equilibrado aos nossos filhos“.
Uma medida muito diferente, como se vê. E que, por isso, não provocaria choro e ranger de dentes, mas Catarinas e Franciscos sorridentes e confiantes no futuro.

Este pulha publicou esta foto, em que aparece com uma arma na mão e uma criança a seus pés, como se fosse um troféu de caça, na sua página do Facebook. Gosta de chamar-se a si próprio Eugene Terrorblanche. Tinha 588 amigos na rede social. Desde que o escândalo rebentou na África do Sul, 25 desamigaram-se. Os outros continuam, impávidos e serenos. Reconheço que sou profundamente racista. Contra cabrões como este.
Percebe-se a indignação do Tozé. Onde é que já se viu um Governo «exigir a quem mais tem e a quem mais ganha» e demonstrar uma total «ausência de insensibilidade social». Não há alma socialista que se cale perante uma coisa destas.
em que os treinadores do Sporting (quase) chegavam ao Natal.

Existirá algum ponto em que Portugal se distinga, realmente, de outros destinos turísticos? Temos Sol, é certo. Mas, outros têm-no também. Até mais intenso. O mar? Temos tanto mar, de facto. Todavia, já vi águas mais turquesa, mais calmas e mais quentes. Somos ainda, é verdade, um país relativamente seguro. Tão seguro como muitos outros lugares. Ao contrário do que se possa pensar, os nossos preços não são baixos. Pelo contrário. Não faltam destinos muito interessantes com relação qualidade preço mais favorável. Temos uma história longa, mas estamos longe de dispor de uma oferta cultural ou monumental tão entusiasmante como aquela que se pode encontrar em Itália, França ou Espanha, para só dar alguns exemplos. A nossa simpatia? Sim, é certo que não somos franceses no trato. Mas daí a dizer-se que somos um povo extraordinariamente hospitaleiro ainda vão mais uns passos. Será então a alegria contagiante que nos distingue?. Pois, quanto a isso estamos conversados. O leitor, por esta altura, depois de tanta hipótese sugerida e refutada, estará já com pouca paciência para continuar a acompanhar este exercício de erro e tentativa. É pois tempo de partilhar as conclusões a que cheguei. Sim, parece-me que Portugal tem uma marca distintiva, um aspecto em que é imbatível. Refiro-me à gastronomia. Rica, diversificada, apurada. Entradas, sopas, peixes, carnes, sobremesas. Uma profusão de sabores, cores e paladares. Ao dispor de quem nos visita em qualquer canto e esquina, mesmo (ou sobretudo) nos locais menos pretensiosos. Não conheço ainda meio mundo. Mas, por onde tenho passado, nunca encontrei nada assim.
Há coisas que são evidjentes. Uma djefesa com o Colga e o Parriço é o melhor ataque. Dja equipa contrária. Cadja canto djos adjversários vale-lhes o mesmo que uma grande penalidjadje. E um ataque com o Djostiga e o Djaló é a melhor djefesa. Djos adjversários. Se o Djomingos, 15 contratações djepois, não tem outras soluções, sugiro-lhe que coloque o Colga e o Parriço no ataque e o Djostiga e o Djaló à djefesa. Pior djo que está agora não fica. Se resultar, é um dgénio. Se falhar, acaba djespedjidjo e a caminho djo Djragão. Nadja que não vá acontecer se insistir na solução actual.

Há lugares que parecem feitos para os adoradores do sol. Não é o caso de Esposende. Aqui, celebra-se o vento. É ele o grande organizador dos dias de Verão. É a permanência do vento que nos dá tempo para saborear a pequena cidade. Em tantos dias, é impossível estar na praia. Não são horas perdidas. Praticamente com um pé no Cávado e outro no Atlântico, abrigo-me no Café da Foz, numa plácida disputa entre a contemplação de uma das mais belas paisagens de Portugal e o afago daquele livro que guardei todo um ano para o poder ler naquele exacto momento. É também ali que a angústia do dia-a-dia, por momentos, me toma. Mas, logo na Foz do Cávado, é a calma que contemplo. Está tanto vento. Esse é o meu sossego. Tenho tempo. O vento, o vento. É com ele que chegam as recordações do dia em que o meu pai correu meia praia, e eu com ele, atrás de um guarda-sol desgovernado que a nortada teimava em levar para longe de nós. Já então a vida lhe fugia. E as de mergulhos gelados envoltos em nevoeiro. Com os ossos a doerem da cabeça aos pés. E da toalha tão morna que a minha mãe me estendia. A mesma que ainda estende quando preciso e que lhe devolvo sempre encharcada. Aqui a maresia entra-nos pelos olhos dentro. Será por isso que os tenho marejados. Será por isso que peço uma cerveja. Não porque o calor imponha a sede. Mas, porque preciso de retomar o fio do tempo. E o livro que guardei todo um ano para ler aqui. Talvez ainda não seja este o exacto momento. Há lugares que não são carne nem peixe. Esposende é peixe. Aquele que servem no Forno, na Apúlia. Ou o que hei-de comprar com a Adélia, no mercado, depois de escolhermos, na vendedeira do costume, os pimentos de Padrón de cada sábado. Apetece-me dar o corpo ao manifesto do vento que varre a marginal. Sei que me há-de levar lá bem ao centro, à Marbela ou à Lili. O vento salgado pede um doce. O vento, o vento. Devia ser assim a vida também. A cada pedaço de sal, a garantia de um doce que nos compensasse. Em Esposende, os doces são clarinhas. Percorrer a marginal dá-me tempo. Para lembrar as mãozitas do Dinis quando, na praia mais lá atrás, pegou em areia pela primeira vez. Era então um Dezembro e a areia fugia-lhe por entre os dedos. Esses com que começa, agora adolescente, a agarrar a vida. Essa vida que a Leonor, por agora ainda menina, também há-de agarrar com a mesma alegria com que gritava Zendi sempre que aqui chegávamos. Gosto de os ver dormir nas noites frias de Esposende. Aconchegados, tal como nós, pela sirene do farol. Sei agora que, mais logo, quando adormecerem, será a sirene a anunciar o momento em que vou, finalmente, abrir o livro que guardei um ano inteiro para ler. Exactamente aqui. Em Esposende.
Estivemos ontem a minutos de Auschwitz. Hesitámos até ao último momento. Praticamente nos portões, decidimos não fazer a visita. Não com os meninos. A educação que lhes procuramos dar assenta na ideia de confiança nos sentimentos e nas intenções dos outros seres humanos. Sentimos que entrar ali lhes arrasaria qualquer ideia de confiança. Podemos tentar prepará-los para as dificuldades da vida. Mas, ninguém é capaz de preparar os filhos para a barbárie. Abordámos o assunto com eles, claro. E voltaremos ao tema. Há todavia uma diferança de grau entre as palavras que evocam as sombras da história e as sombras que ainda hoje são projectadas por edifícios, muros e vedações de carne e osso. Eles decidirão um dia, quando tiverem autonomia e maturidade para isso, se estarão então em condições de enfrentar lugares como este e de pôr em causa as suas convicções sobre a natureza humana.
Indiana Jones Indiana Holmes
Sherlock Holmes Sherflop Holmes
A Inglaterra tem actualmente uma taxa de desemprego de 7.7%. É uma taxa historicamente elevada mas, ainda assim, bem mais amigável do que a de certos países do sul da Europa que conhecemos demasiado bem. Por outro lado, os Jogos Olímpicos de 2012 darão origem a uma oferta maciça de empregos naquele país. Neste contexto, os que justificam os actos de vandalismo que ocorreram nos últimos dias com a falta de perspectivas de futuro e outras profundezas sociológicas falam exactamente de quê?
Parece-me ter chegado a altura de falar claro. Para além de tudo o que por aqui já foi dito sobre o assunto, importa distinguir entre o direito à opinião e a instigação à violência (ou a sua apologia) e à prática de crimes. Para mim, isto integra a segunda categoria: Se o próximo destino forem os meios de produção, amanhã ou apanho um avião para Heathrow ou um autocarro para a Autoeuropa. E, como tal, trata-se de matéria punível nos termos do Código Penal. A convivência de democratas com revolucionários será sempre feita com armas desiguais. E está ao nível da convivência dos cordeiros com os lobos. A democracia é, por natureza, o domínio do revogável. A revolução pretende a transformação irrevogável da natureza humana a partir de um poder que é, por natureza, concentrado e assente na exclusão de alternativas. Não existe, por isso, nenhuma razão para que o poder democrático prescinda das suas parcas defesas perante o ataque do lobo. Aliás, não posso imaginar aspiração mais revolucionária do que responder perante um tribunal burguês. É isto, ou admitir a irreversível inimputabilidade do sujeito. Sim, porque antes de dividirmos a humanidade entre esquerda e direita, importa estabelecer a fronteira entre imputáveis e inimputáveis. Com a consciência de que certos inimputáveis, por o serem, não são menos nocivos nem perigosos.
Só para dizer que a agressão a Pedro Proença não foi consumada por um benfiquista. Foi, isso sim, realizada por um energúmeno e os energúmenos têm um clube só deles, mesmo que digam que apoiam outros clubes.
De cada vez que recebo um e-mail da DECO o meu coração estremece. Será desta que me oferecem, sem qualquer compromisso, a casa e o carro dos meus sonhos? Se bem me lembro, da primeira vez ofereciam-me um mini hi-fi e um medidor de distâncias digital. Agora, é uma câmara digital e uma ecológica lanterna de bolso a energia solar. Infelizmente, ainda não foi desta. Mas, o dia há-de chegar. Até lá, aguardo. E confio que melhores ofertas virão.
O maior parte das medidas do Programa de Emergência Social não ataca as causas da pobreza, constituindo apenas um apoio destinado a aliviar situações de aflição vividas pelos seus destinatários. A discussão global sobre a justificação e eficácia dessas medidas não estruturais tem sido feita de forma intensa nos últimos dias, não sendo minha intenção acrescentar-lhe novos pontos. Prefiro concentrar a análise naquela que me parece ser a medida verdadeiramente estrutural prevista no referido programa: a prestação de trabalho socialmente necessário pelos beneficiários, nomeadamente, do Rendimento Social de Inserção. A propósito deste ponto, considero útil partilhar dois momentos que, sobre esta matéria, me impressionaram nos últimos meses:
– uma amiga da família, que dá aulas numa escola de Terras do Bouro, perguntou aos alunos quais os projectos que tinham para o futuro. Um em cada três referiram que pretendiam viver do rendimento mínimo e fazer uns biscates.
– Isabel Jonet, Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, foi entrevistada por Carlos Vaz Marques (Pessoal e Transmissível – TSF) em Janeiro de 2010 (reemitida em antena na quinta-feira passada). Na entrevista, Isabel Jonet refere a cultura de pobreza como principal inimigo daqueles que não conseguem sobreviver pelos seus próprios meios com um mínimo de dignidade. Uma cultura de pobreza que resulta da acomodação, de não se saber que é possível viver de outra maneira. Quanto ao rendimento mínimo, Jonet refere que este deve ser pontual, para acorrer a situações de verdadeira emergência, e que o seu valor não deve ser semelhante ao de outras prestações sociais, como o subsídio de desemprego.
Parece-me que Isabel Jonet tem razão. O Rendimento Social de Inserção é uma medida socialmente útil. Mas, o seu resultado não pode ser o de criar dependência e acomodação nos seus beneficiários, porque isso seria contribuir para reproduzir a pobreza. A prestação de trabalho socialmente necessário, por parte daqueles que estejam em condições de o fazer e como contrapartida do apoio do Estado, é uma forma de proporcionar a essas pessoas uma oportunidade e não deve ser encarada como um castigo. Cumprir horários, ser útil a quem precisa, assumir responsabilidades perante si próprio e os outros são aspectos positivos e como tal devem ser encarados. Acresce que o Rendimento Social de Inserção não é contrapartida de qualquer contribuição dos seus beneficiários (ao contrário do subsídio de desemprego). Resulta do altruísmo dos contribuintes. Recusar qualquer tipo de contrapartida face a esse altruísmo constitui um abuso. Por isso, parece-me que a prestação de trabalho socialmente necessário, efectuado em condições adequadas, é um passo decisivo no sentido de inverter a cultura de pobreza estrutural que ainda se encontra numa parte da população do nosso país.