Estivemos ontem a minutos de Auschwitz. Hesitámos até ao último momento. Praticamente nos portões, decidimos não fazer a visita. Não com os meninos. A educação que lhes procuramos dar assenta na ideia de confiança nos sentimentos e nas intenções dos outros seres humanos. Sentimos que entrar ali lhes arrasaria qualquer ideia de confiança. Podemos tentar prepará-los para as dificuldades da vida. Mas, ninguém é capaz de preparar os filhos para a barbárie. Abordámos o assunto com eles, claro. E voltaremos ao tema. Há todavia uma diferança de grau entre as palavras que evocam as sombras da história e as sombras que ainda hoje são projectadas por edifícios, muros e vedações de carne e osso. Eles decidirão um dia, quando tiverem autonomia e maturidade para isso, se estarão então em condições de enfrentar lugares como este e de pôr em causa as suas convicções sobre a natureza humana.
Luz e sombra
Rui Rocha,

Caro Rui,
Não sei que idade têm os seus filhos. Estive em Auschwitz, aliás até escrevi aqui sobre essa visita, a convite vosso, há alguns meses. Acredito que os seus filhos um dia quererão visitar Auschwitz, porque aquilo não pode ser esquecido. No presente, acho que tomaram uma decisão muito acertada, não os levando lá.
Eu, já muito adulto, não consegui entrar em Auschwitz. E em Bergen-Belsen entrei: os curtíssimos 5 minutos que lá permaneci pareceram-me uma demasiado longa e penosa eternidade. Não, decididamente.
Respeito a opção, mas manifesto a minha discordância.
As crianças compreendem intuitivamente a barbárie. Poderão não abarcar a sua extensão, mas captam a sua génese. O super-ego ainda não assumiu o controlo da consciência, e o acesso ao abismo não está ainda portajado.
Não se trata, pois, de os preparar para a barbárie, mas de os ensinar a ler os sinais, a reconhecer os próprios demónios, a trabalhar o auto-domínio e a ter a confiança de que o mal pode (deve) ser combatido e vencido, por mais terrível que seja.
Portanto: não há que temer entrar em Auschwitz. Embora me pareça mais útil, por exemplo, falar da Kristallnacht.
Se Auschwitz for como Sachsenhausen, há pouco de físico no lugar e apenas as palavras e essa memória pesada da barbárie poderão evocar as atrocidades. Julgo que dá para explicar tudo às crianças, mesmo omitindo o que não precisam de saber em tenra idade, mas será sempre uma oportunidade para ensinar o respeito pela diferença e vida humanas e o não rotundo a qualquer tipo de racismo e discriminação.
Concordo com a Teresa, Rui. É cedo para esse contacto directo com a barbárie, ainda que em forma de passado. Deixa-os acreditar durante mais algum tempo na incapacidade do ser humano de ir tão fundo no abismo. É preciso sonhar enquanto se pode (ou até sonhar sempre, apesar dos pesares) para se querer salvar o mundo. Acho que a vossa decisão foi muito acertada.
Bom… Eu devo dizer, com toda a honestidade, que quase perdi a totalidade da minha “confiança nos sentimentos e nas intenções dos outros seres humanos” no dia em que, pela mão da minha adorável Mãe (teria, então, eu os meus 9 anos de idade), entrei pela primeira vez na Basílica de São Pedro…
As minhas visitas a Auschwitz-Birkenau ou, pior ainda, à Haus der Wannseekonferenz, muitos, muitos anos mais tarde, só confirmaram os meus piores receios.
A visita a Santa Cruz do Vale dos Caídos, com aquela abobada cheia de falangistas e réquétés e até um tanque (!… [se a memória me não trai]) a subir ao Reino do Eterno em jubilante recepção de braços abertos pelo Cristo-Rei, também não me facilitaram a vida, confesso…
Mas isto sou eu.
Abraço a todos.
Luís F. Afonso, Japão
Caro Rui, na minha opinião as crianças devem entrar em Auschewitz. As explicações e justificações terão que ter “outro tom” da dos adultos
Só assim, conhecendo a realidade, embora de forma e conteúdo diferentes, poderão obter autonomia e maturidade.
Excelente decisão, Rui. Sobre matanças, os jovens de hoje já começam a aprender qualquer coisa nas ruas das cidades inglesas, iraquianas, sírias, líbias, timorenses e africanas.
Apesar de achar que depende muito da maturidade de cada um, como aliás se diz no post , também me parece que, tendo dúvidas, o melhor caminho é pensar melhor e se os pais, que melhor os conhecem, assim decidiram é porque sentiram que esse era o melhor caminho. A propósito aqui há uns meses também falei do assunto: http :/ diasimperfeitos.blogspot.com /2011/01 memorias-que-nao-queremos-ter.html