A febre do next ou o arrivismo como modo de vida


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Na manhã seguinte à derrota de Hillary Clinton já estava em curso uma suposta campanha em prol da candidatura presidencial de Michelle Obama, em 2020. Nem vou comentar a estupidez política da iniciativa, tão óbvia é: uma das razões da rejeição de Hillary foi a questão “dinástica”, pelo que propor imediatamente Michelle só pode servir para a queimar. Nem vou alongar-me sobre a – também óbvia – misoginia desta ideia de que a melhor candidata mulher terá de ter sido necessariamente mulher de um Presidente. A minha questão é outra, e ética: a arrasadora imoralidade deste abandono imediato de Hillary. Não gostavam dela, é isso? Mesmo que seja isso: quando apoiamos alguém, o mínimo olímpico de ética que se exige é que fiquemos ao lado dessa pessoa no momento da sua queda. Que lhe seguremos a mão quando tudo se esboroa, caraças. Pergunto a esses febris corredores de lebres: gostariam que os vossos próximos desertassem no momento de maior dor? Achariam natural? 

Como o próprio T***p acabou por dizer no discurso da vitória (depois de ter passado a campanha eleitoral a insultá-la soezmente e até a prometer mandá-la para a prisão, é preciso não esquecer), Hillary Clinton tem uma vida inteira de dedicação ao serviço público. Em 1977, co-fundou a associação Advogados em Defesa das Crianças e Famílias do Arkansas. Entre 1979 e 1992, liderou a reforma do sistema de ensino do Arkansas. O seu plano de saúde (de 1993) era muito mais avançado do que o de Obama – tão avançado que não conseguiu que fosse aprovado. Entre 1997 e 1999, criou o Programa de Seguro de Saúde para Crianças, a Lei da Adopção e da Segurança Familiar e a importantíssima e inovadora Lei dos Adoptivos Indepententes. Como secretária de Estado de Obama, visitou mais países do que qualquer dos seus antecessores e incentivou o acesso das mulheres aos cargos de poder. Terá cometido erros, evidentemente: só quem não faz nada não os comete. E foi sujeita a um escrutínio e a uma crueldade que não se aplica a nenhum político do sexo masculino: a eleição de T***p é prova disso. Ah, é que T***p não era político, e por conseguinte não sofre de nenhum dos múltiplos vícios de que essa classe padece – é esta a lengalenga do populismo triunfante. Sabem que 87% do dinheiro da Fundação Clinton é mesmo aplicado em programas destinados a melhorar o mundo? Quantas fundações portuguesas conhecem que façam isto? E o que fez T***p em prol do seu semelhante?      

O empenhamento e a capacidade política de Hillary pareceram-me sempre muito maiores do que os de Bill – que, aliás, várias vezes tem afirmado que foi ela quem o empurrou para a política. Tive pena que não fosse ela a candidata em 1992; evidentemente, não teria qualquer hipótese, nessa época. Nem agora a teve, não só porque a misoginia custa muito mais a ultrapassar do que o racismo, mas também por ser a mulher de um ex-presidente. Até das infidelidades do marido a acusaram: T***p chegou a dizer publicamente que, se Hillary nem sequer conseguia satisfazer o marido, certamente não conseguiria satisfazer a América. Sim, é nisto que ainda estamos. Ou que cada vez mais voltamos a estar. Poucos meses antes de morrer, em 1993, Natália Correia disse-me que não tinha vontade de continuar a viver porque o início do milénio seguinte seria de acentuado retrocesso civilizacional, e preferia não assistir a isso. Lembro-me muitas vezes dessas palavras proféticas. 

Não é só T***p nem o que ele significa; é o facto de, no lado pretensamente oposto ao racismo, ao sexismo, ao isolacionismo e à arrogância que o dito cujo representa, se encontrar gente para a qual palavras como lealdade e solidariedade não representam nada. Este cavalo perdeu a corrida? Apostemos já noutro, adiante. É a febre do next, a ambição sem freio nem reflexão, uma visão da existência como gigantesca onda a surfar, de sucesso em sucesso. Quando lhes dizemos: «tenham vergonha», espantam-se do nosso arcaísmo. Boa sorte com esse modo de vida.  

Celebrar Agustina


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Agustina Bessa-Luís faz hoje anos. Das saudades que tenho dela, das suas palavras, do seu carinho, daquela sua gargalhada que vale mil bibliotecas, não sei falar, nem vêm ao caso. O melhor presente que se pode oferecer a um escritor é ler os seus livros. Deixo aqui o texto que publiquei no Expresso, em 1999, sobre o romance A Quinta-Essência  (Guimarães,1999), uma das muitas obras-primas que Agustina nos ofereceu.  

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Em que consiste a Quinta-Essência? Agustina dá-nos uma primeira aproximação ao enigma a páginas 67/68: « As mulheres não são pacientes com o amor. São pacientes com tudo e de tudo fazem hábitos. Do amor é que não. Daí que muitas delas deixem de ser honestas e se entreguem a uma forma de criação que é principiar do nada coisas efémeras que nunca acabam. Chama-se a isto a Quinta-Essência, a região do fogo e do amor. Mas é muito raro que alguém possa atingir essa última metamorfose.» Todo o universo agustiniano circula em torno dessa incandescência sobrenatural; este romance, porque se situa em Macau, infinita roleta em que se cruzam Ocidente e Oriente, ilumina de forma particular a demanda dessa espécie de Graal interior.

No aparente lugar do protagonista ( porque em Agustina todos os protagonismos são ilusórias aparências) temos um homem que parte para Macau movido pelo abstracto sentido da vingança: despojado da sua casa, dos seus bens e da sua família pela revolucionária lei das Ocupações, decide, uma década depois, ferir o capitão que a assinara, através da filha ilegítima que o mesmo deixara em Macau. Puro pretexto para fugir à sua própria sombra, que o mesmo é dizer, para se afundar nos abismos dela. Chama-se Pessanha, este homem que gosta de impressionar as mulheres ao ponto de para isso se tornar catedrático em ciências humanas, com a candura cerebral que muitas vezes assiste aos grandes imorais. Chegado a Macau, afasta-se desse seu nome, que substitui pelo outro, de pior historial, de Santos Pastor, de modo a que o fantasma do Pessanha poeta se desimagine dele. Mas Camilo Pessanha sobrevoa o seu destino, entranha-se-lhe na memória da pele à medida que o seu caminho pelas portas da China se torna irreversível.

Na origem dessa irreversibilidade está o amor que se revela a José Carlos Pessanha através de Iluminada, a filha do seu inimigo. Um amor praticamente impossível, a que siara Debra, a pequenina e férrea avó chinesa de Iluminada, concede um breve tempo de floração, para que a vida lhe sobreviva nos ritos das estações. «Sempre é pouco para o amor», diz ela, e pouco mais diz. Nesta frase resume a quinta-essência do encontro de José Carlos e Iluminada.      

«Ela sabia, por tradição muito antiga, que o amor não estava ao alcance dos mortais. Conheciam os ritos do sexo, as paixões que tornam os homens assassinos ou profetas, ou que os levam a viver nos mais áridos desertos. Mas a quinta-essência era-lhes vedada. Se assim não fosse, viviam eternamente, o que é grave infracção às leis que pesam sobre o mar Morto e sobre o qual Satanás tem grande poder.»( p.211).

Não é de sexo que se trata – embora o sexo seja tratado com um desassombro e um rigor de acupunctura, tocando todos os equívocos da sua afirmação actual, incluindo o caso da «descarada e encantadora menina Lewinsky» neste livro especificamente oriental de Agustina – mas da melancolia do conhecimento que o acende.«A quinta-essência, de que os chineses conhecem a cadeia perfeitamente combinada, atribui ao sexo um meio de atingir a divina longevidade. Mas é tão subtil o seu uso e fundamental a sua harmonia, que poucos conseguem obter algo mais do que o prazer.»(pp. 217-218) Trata-se do intratável: o amor, palavra devorada pelo quotidiano mediático da civilização ocidental. Trata-se, por conseguinte, de deslocar a palavra para lhe desocultar a luz afogada e lhe entender a voz, através das frinchas de outra civilização. «A quinta-essência consumava-se na memória do encontro que não é da carne, mas das profundas faculdades da inteligência comum. Nada era mais galante do que o viver tal companhia. E, estando separados, se encontravam no enigma.» (p. 257).

A história de José Carlos e Iluminada desenha-se com sublime delicadeza sobre o manto imenso dos mistérios da História próxima e distante de Portugal e da China, não só porque o jogo das interrogações infinitas amplia os limites e a sapiência do amor, mas sobretudo porque no mundo de Agustina o tempo é o menor dos escultores, o burocrata de serviço às modas que ofuscam para a terrível contemporaneidade da natureza humana, por todos os séculos dos séculos. Já em 1964, a propósito de Os Quatro Rios, Eduardo Lourenço definia a escrita de Agustina Bessa-Luís como «uma tapeçaria, mas dum género especial, aberta». ( in O Tempo e o Modo, nº 22).«”A vida é feita de arrumações de coisas que não são nossas” – pensou Iluminada. Pensamentos que muito antes de nós já comoveram alguém e que estão em toda a parte, no vento, na água, no sol. Uma vez encontrados, a quinta-essência destaca-se como um ponto brilhante no universo e tudo volta ao seu lugar.»( p.248).

 

A Quinta Essência.jpgA expressão aforística, que neste romance atinge um grau de autêntico esplendor, prende-se, não com uma exibição compulsiva de autoridade individual, como certas leituras ligeiras frequentemente sugerem, mas com esta impessoalidade profunda que, como sublinhou Silvina Rodrigues Lopes num dos seus penetrantes estudos sobre a escritora,«(…)produz um pensamento indeterminado, simultaneamente inteligência contagiante, revelação que interfere na formação do leitor, e abertura de múltiplas hipóteses(…)» ( Agustina Bessa Luís – As Hipóteses do Romance, Asa, 1992, p. 30). Sob um estilo aparentemente clássico, a autora estilhaça todas as regras convencionais da criação de personagens e de desenvolvimento da acção: as personagens – em particular os homens – são intrinsecamente virtuais ( imprevisíveis, permeáveis, porosas), a acção deixa-se contaminar pelas múltiplas recriações da memória de acções anteriores, a citação vicia e vigia inconscientemente o tecido íntimo do devir. Como o par de apaixonados deste romance, a escritora pensa sem temor nem repouso no pensável e no impensável, arriscando saltar no escuro todos os muros até hoje estabelecidos. Nesse sentido, Agustina foi post-moderna avant la lettre.

A ousadia deste romance que investiga as semelhanças entre portugueses e chineses, o encontro entre Ocidente e Oriente, prepara-o para atravessar, numa intocável fórmula de beleza, o milénio que vem aí – como O Sonho no Pavilhão Vermelho de Cao Xueqin atravessou o mar do tempo até chegar a Agustina, que fez do autor um onomatopaico e próximo «amigo Joaquim» e da saudade desse sonho oriental a pedra de toque desta portentosa declinação das idades do amor eterno. 

Do princípio ao fim (15)


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“Eulália começou a morrer na terça-feira. Esquecida do último almoço de domingo, quando a família se reunira em torno da longa mesa especialmente armada para receber filhos e netos. À cabeceira, Madruga presidia os festejos e os hábitos implantados na casa desde a sua chegada à América. Olhava então os presentes com certo tédio, deles cobrando sangue e apreço pelas travessas com a comida adornada.”

Assim arrancam as 705 páginas de A República dos Sonhos, romance de 1984 recentemente reeditado em Portugal pela Temas e Debates. Os romances inesquecíveis são longas conversas sobre política, lendas, memórias, sentimentos, mágoas e descobertas. A ficção de Nélida Piñon pertence a este caudal. Os seus romances são ensaios, experiências existenciais em que o passado se esclarece e o futuro se revela; os seus textos ensaísticos convocam memórias, descobertas e esse dom da surpresa próprio do ficcionista – a associação atrevida, a brincadeira com os círculos imprevisíveis do tempo, a elasticidade da escrita.

         A República dos Sonhos narra a saga de uma família de emigrantes galegos no Brasil, de um modo muito original, a partir dos três dias em que a matriarca decide morrer – a grande decisão da sua vida – e convoca filhos e netos para a despedida. A vida do patriarca e dos seus descendentes entretece-se com as vicissitudes do Brasil ao longo do século XX. Quando Getúlio Vargas chegou ao poder, em Novembro de 1930, pondo fim à chamada República Velha, o Brasil quis acreditar que poderia transformar-se numa República dos Sonhos.  A brutalidade da ditadura, com o seu cortejo de torturas e ignomínias, adiou esse sonho, mas nunca conseguiu matá-lo, talvez porque a omnipresença da morte exalte os impulsos da vida. Madruga, o emigrante bem sucedido, avisa o seu contraponto Venâncio, emigrante falhado, mas nunca desistente: “ Não se pode conviver intensamente com dois países mortíferos como o Brasil e Espanha. Você terá de abrandar um deles dentro da alma. De outro jeito, eles terminam por matá-lo.” (p. 173). O paralelo permanente entre a Espanha e o Brasil, “países vorazes e movediços”  é a pedra de toque deste romance. Nélida, como Breta – a neta escritora de Madruga, que partilha com ele e com a autora o relato da história – assume-se como uma voz claramente brasileira e americana, mas arqueóloga das suas raízes galegas e europeias. Essa ligação a dois territórios tão distantes permite-lhe o entendimento profundo que advém da conjugação entre intimidade e estranheza, estar dentro e fora do tempo, num lugar, não de omnisciência, mas de límpida ciência do particular. O retrato minucioso do tempo da ditadura militar, e do modo como ele se reflecte nos comportamentos e destinos individuais, é particularmente rico e pormenorizado. Os ditadores não caem do céu – nem os Madrugas desbravadores, sobreviventes à fome e avessos à resignação.

8341277330326G.jpgNélida Piñon tem um talento particular para cruzar o pessoal e o político. As múltiplas personagens deste romance, com o seu lastro e as suas vozes singulares, dão-nos a conhecer as forças e fraquezas do Brasil e também da Galiza, reconciliando-nos com o oceano do tempo ao qual, enquanto mortais, estamos sujeitos. Nós morremos – mas a República dos Sonhos não. Nélida Piñon consegue ser simultaneamente estilista da língua, historiadora, psicóloga, socióloga, filósofa, pintora. “É preciso buscar a linguagem certa. Pobre do escritor que se equivoque nessa escolha. Sobretudo há que se escrever na língua principal que o país está produzindo naquele momento. Se Montaigne tivesse escrito em latim, ninguém o recordaria agora.” ( p. 669). A aliança com uma língua representa um compromisso com a memória dos povos que a utilizam. Romancista que não domine todas as áreas das artes e ciências do humano, não é nada. Há menos romancistas do que se pensa, neste tempo de especialização e fragmentação aguda.

         Breta permanece sempre menina porque é escritora. Isso permite-lhe confiar na palavra e ousar as ilusões e desilusões que são a matéria fundamental da escrita e do conhecimento. A arte cria uma película de candura que nos protege da vida e nos ensina a não desistir dela. Diz o avô Madruga à neta escritora: “Essa graça que temos de narrar se deve ao facto de sermos celtas, Breta. É a nossa maior herança. Mas, também, o que sobra de um povo sem o seu imaginário? Deve ser por isso que o primeiro ato das ditaduras é proibir a imaginação. Nada asfixia mais do que sermos privados de inventar.” ( p. 79).  Na imaginação radica a liberdade. Hannah Arendt explicou como o totalitarismo esmaga o indivíduo, retirando-lhe qualquer espaço de acção, anulando-o na massa. O romance é um dispositivo de combate anti-totalitário – e A República dos Sonhos é um vigoroso e clarividente exemplo disso. Eulália, a mulher apagada que se ilumina quando decide morrer, explica-nos em que consiste o ofício de sonhar: “O sonho é uma distinção, Madruga. É como saber construir com perfeição uma gaiola ou um barco, fazendo-os parecer um palácio mourisco”. Saibamos merecer este palácio.

Um trabalhinho para o engenheiro Guterres


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As sauditas iniciaram há 90 dias uma campanha no twitter, sob a hashtag #StopEnslavingSaudiWomen, tentando acabar com a prisão masculina a que estão sujeitas para absolutamente tudo, incluindo tratamento médico. Sim, se o “guarda” de uma mulher da Arábia Saudita decidir proibir-lhe a assistência médica, tem esse direito. A Arábia Saudita prometeu na ONU acabar com o sistema de “guarda masculina” para as mulheres em 2009, depois em 2013. Agora atira esse projecto para 2030, e as sauditas fartaram-se de viver nesta hedionda escravatura e iniciaram a corajosa campanha sobre a qual escrevi aqui 

Espero que o novo secretário-geral da ONU use o seu poder e as tais qualidades extraordinárias que dizem que ele tem para pôr fim a esta ignomínia. Se o conseguir, talvez eu consiga encontrar-lhe atenuante para o desprezo que mostrou pela saúde reprodutiva das portuguesas, em 1998, quando substituiu a lei da interrupção voluntária da gravidez aprovada no Parlamento por um referendo que prolongou por mais dez anos o drama da mutilação e morte por aborto clandestino em Portugal.

Jornalismo, dizem eles


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No sábado passado houve celebração internacional conjunta dos idosos e da música. O Presidente da República foi à Casa do Artista, que apresentou um curto espectáculo musical, e prestou homenagem à minha querida amiga Nini Remartinez, antiga cantora do dueto Irmãs Remartinez, que aos 97 anos é uma das pessoas mais jovens e inspiradoras que conheço. Como o Presidente chegou rodeado de câmaras de televisão, à noite passeei pelos telejornais em busca da reportagem da visita. Na RTP, mostraram o Presidente a falar do sigilo bancário, à porta da Casa do Artista, sem qualquer referência ao local e ao motivo da visita. Sobre o dia do idoso, o telejornal do canal público de televisão apresentou uma reportagem sobre a crescente obesidade dos mais velhos, por preferirem dietas pouco saudáveis. A TVI foi mais longe no esticar dos princípios deontológicos do jornalismo: utilizou o coro de crianças que cantou para o Presidente na Casa do Artista como ilustração do “coro das críticas da esquerda” ao veto presidencial da lei sobre a quebra do sigilo bancário. Nem uma referência à instituição, à homenagem, ou ao anúncio feito por Marcelo de que realizaria em breve, na Presidência, um evento conjunto com a Casa do Artista. Só a SIC apresentou, depois das declarações sobre o sigilo bancário, uma reportagem sobre o evento em que tais declarações haviam sido feitas.

O bom-senso e a boa educação mandariam que, em visitas oficiais a instituições de solidariedade ou cultura, o Presidente se limitasse a falar dos temas das visitas. Isso não evitaria o uso abusivo de imagens ( no caso, ainda por cima, de crianças), mas obrigaria a chamar a atenção dos meios de comunicação para o assunto ou a instituição em causa. Os afectos não podem ser só cenário, pois não?        

Sobre Crónica do Tempo, de Maria Isabel Barreno


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Um escritor continua vivo enquanto tiver leitores. Maria Isabel Barreno não foi apenas uma das magníficas Três Marias; seria injusto que a excepcionalidade de Novas Cartas Portuguesas apagasse a obra desta escritora, menos conhecida do que a das suas duas companheiras de aventura e risco – Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa -, mas forte, singular, composta por uma série de romances fundamentais para compreender o Portugal contemporâneo. Destacaria A Morte da Mãe (1979), Inventário de Ana (1982), Célia e Celina (1985) ou Crónica do Tempo ( 1990 – Prémio Fernando Namora). Ao longo dos anos, fui escrevendo nos jornais sobre vários dos seus livros – deixo aqui um excerto do texto que escrevi em 1990 para o Expresso sobre Crónica do Tempo, esperando estimular potenciais leitores para a descoberta desta voz woodyalleneana da nossa literatura.    

“Maria Isabel Barreno dá-nos a fala das cidades, geração após geração. E um dos principais méritos desta Crónica do Tempo é o de não enquistar na perspectiva e na voz da uma geração, escapando assim  à vulgata dos lugares comuns e dos juízos cataclísmicos sobre a decadência do mundo. A narradora ( ou narrador, pouco importa) olha todos os seus personagens, sejam eles o avô Jorge, colonialista, ou o neto Miguel, surfista, com um mesmo e intenso amor relativo. O amor relativo é o que mora na única assoalhada imutável do coração. Trata-se de um amor desapaixonado, meigo, atento, que permanece para além da fúria dos mitos e que procura compreender em vez de devorar. Um olhar lúcido e cáustico, como só o olhar da ternura pode ser, pousado sobre os pais da ditadura, os filhos do  «vício da sua geração, a palavra. Que aliás já deixara perplexa a geração anterior. A nova geração trazia o ouro do silêncio, talvez fosse isso.» (p.115) Um amor estranho, sobretudo num país de resignações e raivas absolutas. Um país ajoelhado em frente a Nossa Senhora Lá de Fora: « Lá fora é o país onde todos os escritores são ricos e reconhecidos como geniais, onde os pintores pintam entre honrarias diversas, onde não há burocracia(…)» Assim fala Maria Isabel Barreno, através das palavras de Rosa. Jorge: «São os preconceitos contra o dinheiro que nos fazem pobres.O preconceito é inveja» (p. 46) « As casas diminuíram, as mulheres devem ter sentido reduzido seu espaço. As meninas de boas famílias começaram a falar com voz de quem ocupa um espaço pequenino no mundo e se esforça por mostrar isso aos outros. Eu sou doce e frágil, não ameaço ninguém, tratem-me bem.» (p. 66)  «Construímos os nossos ideais políticos tão por fora das realidades como as donzelas românticas constroem seus príncipes encantados no silêncio dos quartos. O confronto com a ditadura em nada nos ajudava, só agudizava a nossa febre, a nossa urgência. Um pai tirano não prepara a donzela para o amor, para o casamento.» (p. 127) «Salazar, tirano triste. Há tiranos benévolos, tiranos loucos. O nosso foi um tirano triste e solitário, este era o seu carisma. De tristeza e solidão convenceu os portugueses, como de um destino natural.» (p. 127).Jorge: «Se os nossos intelectuais não vivessem tão embasbacados defronte da França e da Inglaterra, não teriam dado o monopólio da identidade nacional a Salazar.» (p. 141) Rosa: « O que nos acontece de pior é essa vivência miserabilista de todas as coisas, a grandeza vive-se, não se inventa».”

O blogue da semana


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Como já terão percebido, não sou muito blogueira. Gosto da ideia do blogue, gosto de ler blogues, mas a verdade é que, parafraseando o sábio Herman, eu é mais livros. E também é verdade que, quando me ponho a espreitar os blogues, inúmeras vezes encontro declarações que me deixam a ferver. Tendo sido criada ainda na longa noite do Dr. Salazar, fervo em pouca água. Hábitos da austeridade. A fervura é uma grande musa, mas já não me convém, na minha provecta idade, gastar a água toda, nem ferver por dá cá aquela palha. De modo que, confesso, evito. Um dos poucos blogues que sigo com regularidade e apreço desde há anos é este, onde, por gentil convite do Pedro Correia, vou tentando, a pouco e pouco, ultrapassar as minhas reticências e limitações informáticas, que são vastas.

Neste momento em que as atenções se concentram no Rio de Janeiro, sugiro que descubram o blogue do Instituto Moreira Salles, uma espécie de Fundação Calouste Gulbenkian brasileira, com sede no Rio, dedicada às artes plásticas (sobretudo fotografia), ao cinema (ou não fossem dois Moreira Salles cineastas – o João Moreira Salles e o seu irmão Walter Salles), à literatura e à música. O blog do IMS tem excelentes cronistas (entre os quais o escritor brasileiro Bernardo Carvalho) e fala de livros, filmes, viagens, política, além das exposições e actividades do próprio Instituto. Tem um design límpido e sedutor, com imagens de grande qualidade. Através dele podemos aceder também às edições anteriores da revista Serrote, uma revista de arte & ensaios, belíssima, e com o melhor do pensamento contemporâneo  (também publicada pelo IMS, editada por Paulo Roberto Pires, jornalista, escritor e editor de extrema argúcia). Procurem-no, porque vale mesmo a pena. O endereço deste blogue é: www.blogdoims.com.br.

Selecção Nacional – 6


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“A cama flutuante eleva-se agora sobre as nuvens, as chaminés, e os telhados encanecidos. A cama dirige-se para o Criador. E é uma auto-estrada fluida, a que liga a Terra, onde Cristina se encontra, ao infinito, onde está o Criador. A cama sobe até às estrelas, e Cristina sente que está quase a atingir o seu destino. Tem tantas perguntas, nem sabe por onde começar. Quando encontrar Deus, promete, tentará não desatar logo em invectivas, a insultá-lo violentamente, que é o que lhe apetece. É o que lhe apetece, mas controla-se. Será esperta, melíflua, cínica mesmo. Irá com calma. Oferecer-Lhe-á os seus favores, se for caso disso, para melhor O enganar. O coração de Cristina devia estar a bater com força, à medida que se aproxima do ente supremo, mas o que acontece é precisamente o contrário, vai ficando cada vez mais calma, serena, senhora de si própria. ” 

Rui Zink, O Suplente, 2000, 344 pp, p. 86. 

Selecção Nacional – 5


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“A chuva ia e vinha como uma cortina que ora se fecha ora se esgarça, e ele acrescentou, com o candeeiro levantado e os olhos cravados nos dela — «Nunca te dei nada». E ela continuava completamente surpreendida, pois sabia que não era assim, e quis mostrar como não era assim, como estava rodeada de objectos e seres deixados por ele, imagens, ideias e fundamentos, tecidos e desenhos, os suficientes e adequados, provenientes dele, e se tinha desejado aquele encontro, era só para lhe explicar como vivia com ele, na ausência dele, por tudo isso que possuía. Queria dizer-lhe que não lhe devia nada, pelo contrário, que tudo estava certo como uma conta de multiplicar bem contada, que até ao fim da lógica e dos séculos sempre resiste à mesma prova real. Mas nessa noite era impossível explicar, pois talvez ela não tivesse as palavras, ou tivesse mas não as soubesse unir, ou pelo menos assim acontecia, naquele momento de surpresa em que ele a visitava.” 

Lídia Jorge, O Vale da Paixão, 1998, p. 16. 

 

Selecção Nacional – 4


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“Não amo a desgraça nem o excesso de graça, mas posso contá-los. Era um salão com lustres e de gente com duzentos milhões, pelo menos, de renda anual em angolares e francos suíços. O meu coração não é duro, porque nesse tempo eu não faria contas dessas. Ao princípio fascinaram-me as relações exemplares. Depois apercebi-me que essa raridade era uma ofensa, como uma desmesurada conta na Suíça e, felizmente, muito mais rara. Os amores únicos e a sua crónica devem ser deixados a escritores menores, os agiotas da ilusão. Ou pervertores de consciências. Ah, se o amor é fulminante e arbitrário, porque não preferir o poder ou a sua prima triste – o conhecimento?” ( pp. 92-93) 

Maria Velho da Costa, Missa in Albis, 1988, 465 pp.

Selecção Nacional -3


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“Há quem me considere perigosa e também quem me diga visionária por querer salvar a Pátria portuguesa, mas há igualmente quem se ria nas minhas costas, querendo colar-me a imagem daquela a quem não se pode dar crédito, devendo por isso ser afastada.

As sombras adensam-se em torno da minha casa da Rua da Boa Morte. Assustada, vejo-me a esbracejar em vão, sem poder deixar de lutar por aquilo em que acredito, tentando encontrar o caminho mais hábil para combater o despotismo que sempre sufocou as nações.

Só a poesia me dá algum alento, pois mesmo com as minhas amigas e meu irmão brigo, desconcertando-me comigo própria. E apesar de muitos serem os motivos desencorajadores, todos os dias persisto: saio de casa cedo e fico esquecida, esperando inutilmente nas antecâmaras dos ministérios, sentindo-me transparente aos olhos de quem se recusa a receber-me.

Sabendo-me considerada uma ameaça.

Afinal, em nada do que pretendo se acoita o perigo.”

Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, 2011, p. 957.

Selecção Nacional – 2


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“Maria suspeitou que ele se exprimia em verso ou como tal. Com efeito falava sem a olhar mas rindo-se para não dar importância ao que dizia e que apenas lhe saía da boca porque o tinha escrito dentro dele. «Estás aqui comigo à sombra do sol e tenho pena de ser só isto», disse a certa altura. E dói-me um braço, e sei que sou o pior aspecto do que sou.»

Maria: «Não é nada pior. Eu até tenho os seus livros todos.»

O poeta Ruy Belo se a ouviu não se mostrou entusiasmado. Mergulhou na caneca de cerveja e ficou por lá a pensar. Ao cabo de alguns instantes levantou a boca cheia de espuma:

«Acabo de inventar um advérbio: helenamente.» Acenou para o copo: «É isso. A maneira mais triste de estar contente.»

Voltou-se para a Maria: Helenamente, a maneira mais triste de estar contente não tinha nada a ver com estóicos nem com filosofias gregas, a boa menina que não pensasse. Aquilo vinha do nome duma mulher que só ele sabia, e queria dizer o mar, a terra, o fumo e a pedra simultaneamente. Helenamente, simultaneamente.“

José Cardoso Pires, Alexandra Alpha, 1987, pp 425-426.

Elie Wiesel: nunca esqueceremos


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Morreu hoje, 2 de Julho, aos 87 anos, a última das grandes vozes literárias do Holocausto: Elie Wiesel. “Noite” narra a sua experiência de prisioneiro nos campos da morte de Auschwitz e Buchenwald, de onde foi libertado aos 16 anos. Enquanto o lermos, enquanto passarmos a sua palavra, Wiesel continuará vivo. E os milhões de assassinados do horror nazi não serão esquecidos.

Selecção Nacional -1


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“Só é estável o que nos parece perecível. Busco, volto, abandono e chamo de novo. É isto amor. Trago no meu seio irmãos e horas, luzes, palavras, mitos; o caldeiro cheio de corações humanos onde cozem as suas ervas as feiticeiras do tempo; a roça e a espada, a flor e a poeira. Isto é amor. Quem pode obstar a esta torrente, quem vem, com pé leviano e peca sombra, interceptar o sentido dalguma coisa que nasce no seio do seu próprio sentido? Vou, volto, danço de roda das trípodes e das fogueiras, devasso os corações lívidos dos vivos e o seu frágil comércio sentimental. E percebo que tudo o que foi criado muda, que a alma corre como o vento em busca da sua guarida que é por momentos alguém, depois um projecto, uma dor do lado esquerdo ou o jornal da manhã, o dinheiro, a fama ou o desdentado riso dum mendigo. Que são romances? Histórias fingidas, presenças estudadas, um coro de actividades morais, a burocracia da personalidade. Não é tempo talvez de tais jogos mais ou menos argutos e meditabundos. Cada voz reclama a sua parte de luz, não há heróis, já que tão bem sabemos que o convívio com eles se torna funesto e nos absorve. Cada voz está só e é única, e é contra o coração dos outros, vertiginosamente, que ela ressoa.”

Agustina Bessa-Luís, A Muralha, 1957, pp 38-39.

Feira do Livro de Lisboa: sessões de autógrafos


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26 DE MAIO

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Inês Pedrosa (16.30); Maria Manuel Viana (16.30); Patrícia Müller (16 h).

 

27 DE MAIO

Helena Sacadura Cabral (18 h); Maria Manuel Viana (17 h).

 

28 DE MAIO

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Cristina Carvalho (16 h); Cristina Norton (17 h); Deana Barroqueiro (16 h); Gabriela Ruivo Trindade (16 h); Inês Pedrosa (17h); Maria Manuel Viana (17 h); Patrícia Reis (17 h); Rita Ferro (17 h); Rita Taborda Duarte (16 h).

 

29 DE MAIO

Alice Vieira (16.30); Ana Margarida de Carvalho (16 h); Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Ana Zanatti(15.30); Helena Sacadura Cabral (15 h); Joana Bértholo (16 h); Maria João Lopo de Carvalho (17 h); Maria Teresa Horta ( 16.30); Patrícia Portela (16 h).

 

4 DE JUNHO

Ana Margarida de Carvalho (16 h); Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Deana Barroqueiro (16 h); Filipa Leal (16 h); Helena Sacadura Cabral (17 h); Inês Pedrosa (16.30); Isabel Rio Novo (16 h); Julieta Monginho (16 h); Lídia Jorge (16.30); Mafalda Moutinho (16 h); Margarida Fonseca Santos (17 h); Maria João Lopo de Carvalho (16.30); Maria Manuel Viana (16.30); Rosário Alçada Araújo (17 h).

 

5 DE JUNHO

Ana Cristina Silva (16 h); Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Ana Zanatti (15.30); Isabel Rio Novo (16 h); Mafalda Moutinho (16 h); Maria Manuel Viana (16.30); Maria Teresa Horta (16.30); Patrícia Müller (16 h); Patrícia Reis (16.30); Rita Taborda Duarte (16 h); Teolinda Gersão (15.30).

 

10 DE JUNHO

Alice Vieira (16.30); Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada (16.30); Inês Pedrosa (16.30); Isabel Zambujal (17 h); Joana Bértholo (16.30); Rita Ferro (16.30).

 

11 DE JUNHO

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Dorothy Koomson (17 h); Helena Vasconcelos (17 h); Luísa Costa Gomes (17 h); Mafalda Moutinho (16 h); Patrícia Portela (16 h); Tatiana Salem-Levy (15 h).

 

12 DE JUNHO

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Dorothy Koomson (17 h); Helena Sacadura Cabral (15 h); Inês Pedrosa (16.30); Rita Ferro (16.30); Teolinda Gersão (15.30).

 

13 DE JUNHO

Alice Vieira (16.30); Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Dorothy Koomson (17 h).

Milan, quem dera!


blogprimario94472,

Milan Kundera tem levado a vida a protestar porque críticos e académicos insistem em definir os seus romances como “políticos”. Sobre A insustentável leveza do ser repetiu incessantemente – e com bons resultados – que se trata de “um romance de amor”. O meu problema é exactamente o contrário: quando publiquei o meu penúltimo romance, que falava do 11 de Setembro, de uma iraniana fugida de Inglaterra para escapar de um casamento forçado, que em Portugal se vê obrigada a fugir dos que querem fazer dela uma Vítima Exemplar e do drama identitário dos filhos post-modernos de pais anónimos, entre outros assuntos políticos contemporâneos, a maioria da crítica descreveu-o como um romance de amor. A propósito desse romance, um jornalista perguntou-me, ultrajado: “Por que razão as mulheres preferem sistematicamente os homens casados?”. O romance tinha, de facto, uma mulher que se apaixonava por um homem casado, mas creio que, de Tolstoi a Kundera, inúmeros escritores lhe poderiam explicar que o contrário também acontece, e que não há nenhuma estatística divina que faça desses casos um destino. Pedro Mexia declarou, na revista Ler, que eu me tenho ocupado a recuperar a “tradição” do “romance sentimental”. A minha mãe gostaria que assim fosse, e creio que o fantasma de Bernardim Ribeiro também. Se ao menos eu pudesse sentar-me com Milan Kundera no café de Flore a trocar cromos: eu ficava com o rótulo do “romance político”, ele com o do “romance de amor”. E talvez assim lhe dessem finalmente o prémio Nobel que ele tanto merece e que, certamente por amor, lhe têm negado.

Fábula onde os animais não falam


blogprimario94472,

Primeiro ouvi o carro a subir a ladeira, aceleração no máximo: que não se duvidasse da potência de quem o conduzia. Depois o choque: bem feita, pensei. Em seguida, o ruído da marcha-atrás e o arranque veloz. Então ocorreu-me que o meu carro estava estacionado mesmo ali, de onde viera o ruído do choque, e saltei do sofá onde estava tranquilamente absorvida pelas reflexões de Milan Kundera sobre a falta de sentido das acções humanas. Encontrei a traseira do meu pobre automóvel, que me serve sem sobressaltos desde 2003, desfeita. Da besta que o esmagou, só os traços das rodas no asfalto. O cão dos vizinhos sabe quem é, fartou-se de ladrar, mas infelizmente não fala. A GNR veio com rapidez, dois agentes muito simpáticos; anotada a ocorrência, prometeram uma volta nos arredores dos bares das aldeias próximas, procurando o responsável. Mas não o encontraram: os cobardes safam-se quase sempre, no mundo de Kundera como no nosso. Passei anos a rejeitar as redes sociais por causa da infestação de ratos humanos. A certa altura, descobri que um jornalista que eu mal conhecia estava zangado comigo por causa de comentários que alguém lhe dirigira num blogue, fazendo-se passar por mim. Descobri também duas páginas de facebook feitas por um alter-ego meu, totalmente desconhecido e tonto. Acabei por aderir ao Twitter, e agora aceitei o gentil convite que o Delito de Opinião me endereçou. Haverá sempre cobardes infames: tanto podem atacar no mundo virtual como no mais remansoso e real recanto rural. Mas não nos vencerão.

Inês Pedrosa