“Maria suspeitou que ele se exprimia em verso ou como tal. Com efeito falava sem a olhar mas rindo-se para não dar importância ao que dizia e que apenas lhe saía da boca porque o tinha escrito dentro dele. «Estás aqui comigo à sombra do sol e tenho pena de ser só isto», disse a certa altura. E dói-me um braço, e sei que sou o pior aspecto do que sou.»
Maria: «Não é nada pior. Eu até tenho os seus livros todos.»
O poeta Ruy Belo se a ouviu não se mostrou entusiasmado. Mergulhou na caneca de cerveja e ficou por lá a pensar. Ao cabo de alguns instantes levantou a boca cheia de espuma:
«Acabo de inventar um advérbio: helenamente.» Acenou para o copo: «É isso. A maneira mais triste de estar contente.»
Voltou-se para a Maria: Helenamente, a maneira mais triste de estar contente não tinha nada a ver com estóicos nem com filosofias gregas, a boa menina que não pensasse. Aquilo vinha do nome duma mulher que só ele sabia, e queria dizer o mar, a terra, o fumo e a pedra simultaneamente. Helenamente, simultaneamente.“
José Cardoso Pires, Alexandra Alpha, 1987, pp 425-426.

![19746141_rb2Fi[1].jpg 19746141_rb2Fi[1].jpg](http://1.fotos.web.sapo.io/i/B3804d879/19746400_ks9WF.jpeg)
– “Helenamente” ou “ele na mente”?
Toda a “selecção nacional” com “ele na mente”… é uma boa hiper-bola ao CR7.
O primeiro livro de Cardoso Pires que li e ainda hoje é talvez o que mais gostei dele. Não sendo tão revolucionário para a época como fora “O Delfim”, a verdade é que agradou muito mais.