“Há quem me considere perigosa e também quem me diga visionária por querer salvar a Pátria portuguesa, mas há igualmente quem se ria nas minhas costas, querendo colar-me a imagem daquela a quem não se pode dar crédito, devendo por isso ser afastada.
As sombras adensam-se em torno da minha casa da Rua da Boa Morte. Assustada, vejo-me a esbracejar em vão, sem poder deixar de lutar por aquilo em que acredito, tentando encontrar o caminho mais hábil para combater o despotismo que sempre sufocou as nações.
Só a poesia me dá algum alento, pois mesmo com as minhas amigas e meu irmão brigo, desconcertando-me comigo própria. E apesar de muitos serem os motivos desencorajadores, todos os dias persisto: saio de casa cedo e fico esquecida, esperando inutilmente nas antecâmaras dos ministérios, sentindo-me transparente aos olhos de quem se recusa a receber-me.
Sabendo-me considerada uma ameaça.
Afinal, em nada do que pretendo se acoita o perigo.”
Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, 2011, p. 957.

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