Viver com medo é vegetar


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Nunca direi à minha filha de 19 anos, que estuda cinema em Londres, que não vá a um concerto ou a uma peça de teatro, que não vá filmar aqui ou ali, que não atravesse a ponte que atravessa todos os dias, que não saia de casa, que se proteja. Persistirei em protegê-la do medo, o maior inimigo da liberdade. Viver com medo é vegetar. 

Alyssa Elsman, uma jovem de 18 anos, foi mortalmente atropelada há um par de dias por um terrorista que lançou um automóvel sobre as pessoas que passeavam em Times Square, Nova Iorque. Podia ter acontecido à minha filha. Será cruel chamar-lhe terrorista: sim, ele disse que queria matar e ser morto, mas não era por nada; estava louco, dizem-me. Terrorista, no meu dicionário, é o que pratica o terror. Nunca há justificação para o terror. Setenta e não sei quantas virgens no céu, um artesão de barbas e voz grossa que teria feito o mundo, a vitória da pureza suprema contra a badalhoquice das mulheres, não são argumentos que me convençam, nem podem ser levados a sério por ninguém. Este, de Times Square, era só doente mental: tivessem-no tratado antes que ele matasse uma menina que tinha direito à vida. Não esquecerei Alyssa. Do assassino não quero lembrar-me. Muitos deles matam para ficar na História, numa página de jornal, Hamlets de sarjeta, míseros assassinos que se vingam por interposta pessoa.

Por isso tenho pedido e continuarei a pedir aos órgãos de comunicação social: não dêem eternidade aos biltres. Apaguem-lhes os nomes. Quando a extrema-direita clama pelo fechamento de fronteiras e expulsão de imigrantes, é útil revelar que estes assassinos, na maioria das vezes, não são imigrantes – parece ser esse o caso do de Manchester. Mas para dizer isso não é preciso dar glória e fama ao seu nome. Este silenciamento dos carniceiros desincentivará futuros criminosos. A juventude é influenciável, pois. Mas a conversa mole sobre a discriminação social como justificação derradeira do terrorismo também não me serve. Há tempos, umas criaturas, certamente acéfalas (ou muito distraídas) chamaram-me «racista» no twitter porque recordei que, se a discriminação social fosse o motor do terrorismo, os negros seriam os grandes terroristas do mundo – e não são, nem nunca foram. Caramba: houve povo mais mal-tratado na história da Humanidade que o de origem africana? Pois é.

De modo que, quer queiramos quer não, acabamos na violência religiosa – e na especialíssima violência contemporânea da religião islâmica. O islamismo radical está furioso com a liberdade de costumes do Ocidente, com os direitos das mulheres e dos homossexuais, com a alegria e a realização sexual. E o islamismo não-radical é – que me desculpem essas santas almas, se existirem – de um silêncio tão ruidoso que me faz mal à cabeça.    

Na Síria, no último ano, morreram centenas de meninas e meninos de todas as idades. Não nos afecta porque não nos imaginamos ali. Imaginamos pouco. Quando a minha filha chorava porque não queria ir para o infantário, eu dizia-lhe: «Estás a chorar porquê? Nasceste no Afeganistão?”. Aos três anos de idade falava da vida do Afeganistão a quem a quisesse ouvir. Dizia: «Aquilo é só pedras, não há água. E, se houver, não dão a água às mulheres.»

Nunca disse à minha filha nada sobre a água do Afeganistão. Sucedeu apenas que ela começou a imaginar como seria ter nascido ali. Educação é empatia com o sofrimento humano, ou não é nada. Penso assim. Penso, logo existo, dizia Descartes – frase ainda hoje revolucionária.     

Editor português, precisa-se


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«Sejamos reaccionários ou progressistas, voltados nostalgicamente para o passado ou resolutamente para o futuro, todos somos modernos, porque reivindicamos e exercemos a liberdade de amar quem quisermos, como quisermos e durante quanto tempo quisermos.  
Somos, por outras palavras, senhores dos compromissos que assumimos. Esta soberania preenche-nos, mas também nos confronta, sem evasão possível, com as questões que atormentavam a Princesa de Clèves : basta que amemos para sabermos amar?  O amor será em si mesmo amável, digno de estima e de confiança? 
Podemos tratar destas questões através da estatística e das ciências sociais.Sem subestimar a utilidade dessas aproximações, escolhi uma outra: a literatura. Madame de La Fayette, Ingmar Bergman, Philip Roth e Milan Kundera foram os meus guias.»
Alain Finkielkraut.

Terceiro Mundo é isto


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«A cantora terá também pedido ao Benfica para o filho treinar no centro de estágio do Seixal. O treinador anunciou  aos jogadores da equipa de sub-12 das Águias que passariam a treinar no campo nº 1, devido ao facto de contarem com o filho de uma estrela da música mundial.»

(de uma notícia sobre a provável mudança de Madonna para Lisboa)

Que violência mostrar?


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Deve ou não um telejornal mostrar actos de violência? A resposta a esta questão é fundamental, e o que sobre ela decidirmos define uma ética. Há uma coerência de base exigível a qualquer sistema valorativo ou legal – valores ou leis arbitrárias representam o terror, a mais tenebrosa e incontrolável das imprevisibilidades. Estaline e Hitler usaram a prerrogativa da excepção contínua para manterem toda a gente – dos seus íntimos à população anónima – imóvel, obediente, submissa, incapaz de reacção, em permanente estado de aterrorização.

Alguns responderão um «não» curto e imediato, argumentando que violência desencadeia violência e que a exibição da violência tem o defeito suplementar de excitar o voyeurismo. Outros responderão um «sim» igualmente célere, enfatizando a necessidade de alertar os cidadãos, de os tornar mais atentos, precavidos e, se possível, interventivos, reduzindo, deste modo, a probabilidade de futuros actos violentos.

O argumento pacifista de que a visão da violência gera um acréscimo de violência depara-se com uma dificuldade essencial e intransponível: a violência que inunda a cultura – popular e erudita – do século XXI. Da mais permissiva televisão ao mais exigente cinema, o culto da violência é uma constante – para permanecermos no registo da imagem e, em particular, da imagem em movimento, mais irresistível e, por conseguinte, mais alienante do que as imagens estáticas ou as imagens mentais, desenhadas a partir da leitura ou da audição. Desde há muitos anos tenho vindo a anotar e a registar que a preocupação dos adultos com a protecção das crianças face ao mundo da pornografia é muito mais forte do que a de as proteger do universo da violência. Como se a violência fosse um dado adquirido – e até como se fosse útil às crianças o contacto com esse mundo, para as tornar mais resistentes e competitivas. A competição, não o esqueçamos, é o pilar universal da cultura contemporânea: do auto-denominado Estado Islâmico até ao mais aprazível dos estados nórdicos, a ideia de «superação» subjaz a tudo. Quando os pais dizem que só querem que os filhos sejam “mais” qualquer coisa do que eles próprios (felizes, ricos, inteligentes, etc) estão a criar neles uma ansiedade competitiva profunda: ninguém vale pelo que é, todos somos chamados a ser «mais» qualquer coisa do que os progenitores ou o vizinho do lado. A cultura da competição é uma cultura de violência.

O argumento belicista de que a visão da violência forma uma camada de protecção em relação a essa violência também não colhe: décadas de estudos têm provado que educação é exemplo, ou seja, que a violência é, de facto, contagiosa. Tudo está impregnado de violência, na nossa cultura de matriz cristã e católica, cujo símbolo icónico é um homem pregado numa cruz. Que muitos pais católicos coloquem esta imagem sobre o berço dos filhos recém-nascidos, eis uma forma de violência que sempre me incomodou. De resto, todas as religiões são férteis em fábulas de violência – porque o medo estimula a dependência, o acatamento e a crença. Acresce que a publicitação da violência provoca directamente o seu crescimento: o culto dos mártires, como o dos heróis, é auto-reprodutivo: cada mártir ou herói, sozinho, se bem propagandeado, gera centenas de outros. 

Não havendo uma forma ideal de lidar com este tema, creio que o mais sensato será adoptar um princípio misto, mas de contornos firmes e claros:os telejornais deverão mostrar os actos violentos, porque não os mostrar seria restringir o direito democrático à informação total. Os cidadãos têm direito a conhecer a fundo as questões sociais do mundo em que vivem, de modo a poderem tomar decisões informadas. Mas esses filmes nunca poderão expor o rosto das vítimas nem dos verdugos (porque a publicitação dos verdugos também os multiplica). Actos de tortura e extrema violência – por exemplo, as decapitações do ISIS, os enforcamentos no Irão ou a morte na cadeira eléctrica nos Estados Unidos – não devem ser mostrados ( mais uma vez, por uma questão de protecção da dignidade individual e também para não incrementar pulsões assassinas, mais comuns do que se imagina)  – mas devem ser narrados. Já tenho escrito várias vezes que deveria criar-se um consenso nos media quanto à não divulgação pública do nome de autores de massacres – para não lhes conceder essa fama póstuma que os engrandece aos olhos de outros. 

Virarmos a cabeça à violência ou apontarmos o dedo a quem a denuncia não me parece a forma correcta de lidar com este problema central do nosso tempo.

Acresce que há formas de violência psicológica praticadas diariamente pela comunicação social – a difamação através da insinuação, por exemplo – sobre as quais ninguém parece disposto a pensar seriamente: atira-se, na melhor das hipóteses, um “alegadamente” sobre o carácter de alguém cuja força e influência se pretende diminuir, e chama-se-lhe tudo, de ladrão a abusador. Com esta forma de violência as pessoas facilmente pactuam, caso a caso, ao sabor dos seus amores e ódios pessoais ou ideológicos, sem quererem entender que a questão de fundo é grave e afecta-nos a todos: trata-se do direito de cada um (vedeta ou não, político ou pastor) ao bom nome, à reserva da vida privada, à auto-determinação individual, à opinião e à liberdade. Seres moralmente moídos tornam-se presas dos poderes – e os poderes, sejam eles o 1º, o 4º ou o 5º, sabem-no bem.    

Na morte de B.B.


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Baptista-Bastos foi um escritor bem bom. Escrita sensorial, a dele – com cheiro, cor, corpo, ritmo. Fulminante na ironia, felino na narração das contradições do tempo e das pessoas, dono um vocabulário preciso, imaginativo e riquíssimo. Quem quiser saber como era o Portugal urbano e pseudo-intelectual amansado pela ditadura tem de passar pelos seus romances. Pareceu-me sempre muito subestimado enquanto romancista, creio que por ser jornalista. Havia (e há ainda, mas não posso dizê-lo porque lá virão umas doutas almas dizer que sou parte interessada) na intelligentzia local um entendimento geral segundo o qual médicos ou professores dão bons romancistas: jornalistas, nunca: sapateiros a quererem ir além da chinela. Esse entendimento era (e é) acirrado pelos próprios camaradas jornalistas, que odeiam os camaradas que escrevem livros, pelo menos enquanto eles próprios não os escreverem também. Reli há meses O Secreto Adeus e Elegia para Um Caixão Vazio e confirmei: resistem ao tempo, à releitura. Lêem-se de um trago, fazem-nos sorrir, pensar. E amar melhor Lisboa, apesar de todas as suas mazelas, ou precisamente por causa delas. B.B. pintava a cidade com engenho e arte.   

“O adjectivo é a prosa a tomar partido”, disse-me o BB, era eu uma miúda recém-chegada aos jornais. BB era gentil com a miudagem, e sem paternalismos. A união destas duas características, na época, era rara nos jornais. O Fernando Assis Pacheco e o Fernando Dacosta faziam questão de ser assim: poucos mais. À distância percebe-se como o ser e o escrever afinal se entrelaçam: os atentos, os sensíveis, os disponíveis, os ternos, os cáusticos, os autênticos, eram também os de melhor texto. “Não tenhas medo do adjectivo: o adjectivo é a prosa a tomar partido”, repetia, então, o B.B. Respirei fundo, cheia de alegria: passava a vida a ouvir discursos contra os adjectivos proferidos por poderosos jornalistas que tinham chegado aos cabeçalhos da imprensa com um mini-vocabulário de Cartilha Maternal de João de Deus, em versão pornográfica.

B.B. tomava partido: essa era uma das coisas que eu apreciava nele, concordasse ou não (muitas vezes não) com os partidos que ele tomava. Nunca sofreu da famosa má-língua nacional, indústria caseira produzida em barracas clandestinas, mais rápida a estragar fígados do que a produção vinícola. Não praticava aquela cortesia tão portuguesa de esperar que uma pessoa vire costas para começar a falar mal dela. Pegava-se de caras. Amava e odiava sem hipocrisias. Sabia que nada estraga tanto a escrita como a hipocrisia e a videirice. 

B.B. continuará vivo enquanto for lido. Da minha vida não desaparecerá. 

A geração esquecida


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Acabo de ler O Pianista de Hotel, novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, que andava desaparecido do mundo da ficção há dez anos. Fico contente com este regresso, e ainda mais contente porque se trata de um bom romance. Procuro acompanhar o que se vai publicando em língua portuguesa; creio que ninguém pode ser um honesto artífice de uma determinada literatura (pelo menos isso) sem a conhecer bem, no seu passado e no seu presente. Espanta-me a quantidade de escritores contemporâneos que nunca leram Raul Brandão nem Machado de Assis, e choca-me que se possa despachar o génio de Agustina Bessa-Luís com o disparate “é uma chata”, sem que um raio caia em cima de quem profere tal aleivosia ( mais uma prova de que não existem milagres, e que a justiça divina é tão ronceira como a terrena).

Entre os meus contemporâneos, confesso que corro a ler com particular interesse e carinho os livros dos meus companheiros de geração, isto é: os escritores do meu país que começaram a publicar na segunda metade da década de oitenta ou no início da década de noventa do século passado. O Rodrigo publicou o primeiro romance exactamente há 25 anos, como eu. Nesse ano de 1992, estrearam-se também José Riço Direitinho ( com A Casa do Fim) e Pedro Paixão ( com A Noiva Judia). Esta geração literária que surgiu imediatamente a seguir – e na contramão – da geração do pós-25 de Abril (a chamada geração da guerra-colonial: António Lobo Antunes, Lídia Jorge, João de Melo, Mário de Carvalho, etc), teve em Adeus, Princesa ( Clara Pinto Correia, 1985) e Hotel Lusitano (Rui Zink, 1987) os seus dois pilares inaugurais – dois magníficos romances sobre uma nova era, a era da globalização, feita de novos desafios, esperanças e desesperos e, acima de tudo, novas linguagens. Os leitores perceberam e amaram estes dois romances muito mais depressa e melhor do que a crítica – e isso mesmo foi acontecendo a todos os outros escritores portugueses desta geração, que inclui, além dos já mencionados, Ana Teresa Pereira, Francisco José Viegas e Rita Ferro, por exemplo.  

O novo milénio veio revelar uma novíssima geração de múltiplas e variadas vozes, que teve a sorte de aparecer num tempo em que a juventude é, por si só, considerada uma forma de talento ( é ver a quantidade de prémios destinados a escritores jovens). No tempo em que éramos jovens, nós, os tais da geração-sanduíche entre os heróis da guerra colonial e as estrelas da pós-globalização, o melhor que podia acontecer-nos era ninguém nos ligar. Quando nos ligavam, raramente era por bem – nunca esquecerei, por exemplo, a violência personalizada e agigantada com que, no Expresso, foi espancado o segundo romance de Clara Pinto Correia, Ponto Pé-de-Flor. Suponho que pretenderam castigá-la pelo sucesso que Adeus, Princesa alcançara junto dos leitores -prémios, teve zero; esta geração tem sido aliás pouquíssimo premiada, por comparação com as imediatamente anteriores e posteriores.Certo é que a editora francesa Gallimard desistiu do contrato de publicação que tinha proposto a Clara Pinto Correia por causa da extrema brutalidade dessa crítica, alegando que não podia apostar num autor estrangeiro cujo segundo livro desmentia a promessa do primeiro. A Gallimard acreditou na “ciência” da crítica; não sabe que este pequeno país é uma lâmina de microscópio onde todos se conhecem e interferem directamente na vida alheia, todos se amam ou se odeiam.

A geração literária dos que eram demasiado crianças para poderem ter sido heróis de Abril e parecem agora demasiado velhos para serem adorados como oráculos do futuro tem vivido à margem do reconhecimento oficial. O que, na minha opinião, só a favorece. Sim, há grandes e belas vozes nesta minha geração. 

Filosofar é combater o paternalismo


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Ruwen Ogien morreu há dois dias (a 4 de Maio). Recebo a notícia hoje, 6 de Maio, quando se completam 19 anos sobre a morte do meu pai, coincidência que obviamente não coincide com coisa nenhuma a não ser com os meus labirintos interiores. Quem era Ogien? Interessantíssimo filósofo francês, defensor de uma ética minimal que nos defenda do paternalismo e garanta a liberdade de cada um ser o que quiser e como quiser. Este pensador parte do princípio de que não temos qualquer “dever” ou “imperativo” moral para connosco, mas apenas para com os outros; esses deveres podem ser positivos (ajudar, fazer o bem) ou negativos ( não fazer mal), sendo que devemos privilegiar o dever negativo, isto é, o de não interferir na vida alheia, de forma a evitar o paternalismo – nomeadamente, o perigo de fornecermos “ajudas” indesejadas pelo alvo da nossa ajuda, desrespeitando desse modo a sua individualidade e auto-determinação. Particularmente estimulante era o seu método de pensar; Ogien servia-se de toda a espécie de materiais leves e pesados: intuições, experiências pessoais, dados históricos, sociológicos, jurídicos, normas lógicas, etc: entendia que do ecletismo bem organizado nasce a luz.  

O último livro de Ruwen Ogien é uma reflexão cáustica e acutilante sobre o culto do “dolorismo” e da suposta redenção através do sofrimento. É também uma crítica cortante ao totalitarismo hospitalar, ao elitismo dos médicos e ao modo como os doentes têm de se transformar em Sherazades do pessoal clínico, encantando-o para merecer os seus favores, designadamente analgésicos. O livro intitula-se: Mes Mille et Une Nuits. La maladie comme drame et comme comédie ( Albin Michel, 2017). Outros livros dele que destaco: L’éthique aujourd’hui. Maximalistes et minimalistes. (Gallimard, 2007) e  L’influence de l’odeur des croissants chauds sur la bonté humaine et autres questions de philosophie morale expérimentale (Grasset,2011). Alô, alô, há algum editor por aí com coragem para os publicar? 

Dicionário prático de neologismos, 1: Assédio


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Comecei a trabalhar na redacção do semanário O Jornal, a tempo inteiro e com salário zero – estágio, chamavam-lhe eles – a 2 de Janeiro de 1983. Ainda não havia o capitalismo neo-liberal e não sei que mais, nem a crise dos mercados financeiros, nem o modo de vida do Sócrates, enfim, nada dessas coisas tenebrosas que vieram perverter o mundo e, segundo os entendidos, atrair as pessoas para a extrema-direita, a loucura e a morte. Certo é que, sem nenhum desses horrores no horizonte, já se praticavam os estágios gratuitos, mesmo em jornais de esquerda como, segundo as boas línguas, era o caso daquele.

Tive sorte: o jornal, então maioritariamente masculino, queria jovens do sexo feminino para mandar para a Assembleia da República. Explicaram-me os chefes que, sendo a maioria dos deputados do sexo masculino, convinha que fossem entrevistados por jornalistas do sexo oposto, com decotes generosos, para os levar a responder com maior sinceridade. O Rogério Rodrigues foi incumbido de me levar ao Parlamento para me apresentar as pessoas.

Não correu muito bem: assim que me viu, Almeida Santos fez-me uma festa na cabeça e pespegou-me dois beijos nas bochechas, antes que o Rogério tivesse tido tempo de explicar quem eu era. “Homem, vocês agora vão buscar jornalistas ao infantário?” – perguntou, embaraçado, Almeida Santos. Ofendida, retorqui que já tinha 20 anos. O então Ministro de Estado e dos Assuntos Parlamentares declarou: “Pois olhe, eu não lhe dava mais de 15”. Assim terminou a minha promissora carreira de repórter parlamentar. Aproveito para prestar as minhas homenagens a Anabela Neves, minha colega de turma na universidade, e a Maria Flor Pedroso, que honraram e honram a difícil e delicada especialização do jornalismo parlamentar, em décadas de trabalho isento e exemplarmente rigoroso. Entraram para a profissão nessa época em que as redacções machas queriam meninas para impressionar os deputados, e sobreviveram magistralmente a essa sinuosa forma de assédio profissional.

 

A palavra assédio, pura e simplesmente, não existia. Quando o orientador de estágio que me fora designado no jornal começou a sussurrar-me que tinha de ir jantar com ele para garantirmos que eu conseguiria o emprego, valeu-me o apoio da Clara Pinto Correia, que entrara um ou dois anos antes para o jornal e tinha uma inteligentíssima capacidade de contra-ataque. Aconselhou-me a Clara a que marcasse o jantar na agenda de serviço do jornal, que estava colada na parede, no meio da redacção. De facto, essa boa acção teve o condão de anular de imediato o apetite do meu orientador. Pouco depois, consegui que me transferissem para a secção de cultura e passei a ser orientada pelo Fernando Dacosta, a quem devo lições essenciais sobre jornalismo, teatro, literatura e, sobretudo, dignidade humana.  

Ao fim de um ano e meio de estágio gratuito, o José Carlos Vasconcelos e o António Mega Ferreira, respectivamente director e chefe de redacção do JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, contrataram-me para a redacção deste jornal cultural, que passava então de quinzenal a semanal. Um belo dia, fui encarregada de entrevistar um escritor já em processo de consagração que, enquanto ia respondendo à entrevista, tentava meter-me as mãos em todas as partes do corpo (excepto, salvo erro, os tornozelos e os pés). Lembro-me de ter pensado de mim para comigo: “Respira fundo e faz de conta que estás numa daquelas comédias italianas desesperadamente ansiosas por parecerem picantes”. O literato Don Juan extraira da minha cândida pessoa a confissão de que eu queria um dia escrever romances e, enquanto me dedilhava, dissertava sobre a superior facilidade de escrita que eu experimentaria se me deitasse com ele. Respondi-lhe que, mesmo que o talento se contagiasse sexualmente, preferiria escrever à minha maneira, e não à dele, o que o fez concluir, escandalizado: ” Além de pespineta, você é uma arrogante”.

Infelizmente, esses dois grandes defeitos não o fizeram desistir do assédio, antes pelo contrário, e o ordálio continuou por uns tempos, sem que eu me tivesse queixado a ninguém. Nem me ocorria. Nesses tempos considerávamos tais ataques como “normais”. Preço a pagar pela ousadia de querermos afirmar-nos num mundo de homens. 

 

Hoje, sabemos identificar o assédio. Continuamos todavia a deixar que nos desmereçam. A aceitar que nos diminuam. A pactuar com o desmerecimento e a diminuição de outras mulheres. Sem sequer darmos por isso. 

– Ele a mim tratou-me sempre muito bem.

A frequência com que ouço esta frase, entre mulheres e contra mulheres, em situações de relações pessoais ou laborais, e o que ela representa de falta de solidariedade, cobardia, indiferença, obediência e auto-depreciação, leva-me a pensar que o pior assédio é o do medo. Invisível, inatacável, persistente, mantendo cada ovelhinha no seu lugar.

 

Crónica Feminina


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Escrevi durante nove anos consecutivos, sem uma semana de férias que fosse, uma crónica semanal com este título para a revista do jornal Expresso. Homenagem irónica à velhinha Crónica Feminina: um dia o então director do Expresso  José António Saraiva propôs-me que fizesse “uma crónica para a mulher” e eu, respirando fundo, perguntei: ” Uma espécie de Crónica Feminina? ” Para minha sorte, Saraiva tinha boas memórias da revista. Eu também: aos 12 anos de idade, ganhara nessa revista os primeiros 500 escudos da minha vida, prémio do concurso semanal “Cartas de Amor, Quem as Não tem”. Ganhei-o com uma carta de amor à minha mãe, enviada para o concurso por uma prima – e deu-me um gozo especial porque a minha mãe detestava a revista e não queria que eu a lesse, por causa das fotonovelas que trazia. Mas eram fotonovelas bem eruditas: a edição em que se publicava a minha carta tinha um capítulo da fotonovela Madame Bovary. Ironicamente também, essa minha crónica acabou uma noite em que o recém-nomeado director do Expresso Ricardo Costa me telefonou dizendo que, para continuar, a crónica teria de ser quinzenal e eu teria de, cito, “alternar com um homem”. Respondi (para gáudio do meu camarada Rui Zink, que estava a jantar comigo e assistiu a este diálogo) que já não tinha idade nem posição para iniciar uma vida de alterne. E assim se finou a minha Crónica Feminina.  

Vim a descobrir mais tarde que também Clarice Lispector escrevera, mais ou menos pelas mesmas razões do que eu,  uma Crónica Feminina. Quando cheguei ao Brasil tinha vergonha de não ter lido Clarice, sobretudo porque todos os jornalistas diziam que se notava haver uma cumplicidade entre mim e ela. Tinham razão: eu é que ainda não sabia. 

Lembrei-me desta história ao ver esta noite uma reportagem classista e presunçosa, na RTP 2, sobre essa popular e pioneira revista feminina. Valeu à memória da revista a Maria Antónia Palla, mulher livre, sem parvoíces peneirentas nem papas na língua. Houvesse mais mulheres assim e a paridade não estaria no pântano em que continua: muita lei, muito paleio, e nada de prática. Podiam pelo menos ter recordado a jornalista que lançou a revista, Maria Carlota Álvares da Guerra, por sinal mãe dessa fabulosa (e subestimada em Portugal, embora justamente idolatrada no Brasil)  actriz que é Maria do Céu Guerra. Mas a memória, neste país de mansos sonsos medíocres e fatais invejosos, é uma rapariga sem vício nenhum, nem o menor dos contactos com a verdade.

Descubra as diferenças


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Na reportagem que o Expresso online publicou sobre a leitura pública do romance O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, realizada na Fundação José Saramago, escreve-se: “Foi a escritora e antiga presidente da Casa Fernando Pessoa quem deu início à leitura, lembrando que estavam todos ali por serem amigos do Valter” (conferir aqui). A gravação video da minha prestação demonstra que eu não “lembrei” isso – nem nunca o “lembraria”, não só porque não sou íntima do Valter, mas sobretudo porque se tratava de valorizar a qualidade de um livro e de um escritor. O reconhecimento do talento faz muita confusão a certa imprensa; custa-lhe a crer que haja outras coisas entre a terra e o céu além do corporativismo. Deixo aqui a gravação, para mostrar a diferença.

 

 

O regulador da democracia


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O regulador da democracia

 

         O que irreversivelmente se perde com a idade é a fé nas pessoas. O peso das decepções rasga-nos as asas e torce-nos a perspectiva. Passada a fase da inocência bruta em que dividimos o mundo em bons e maus, entramos numa zona de nevoeiro. Habituamo-nos depressa a ela porque, bem vistas as coisas, é confortável: a mistura entre o bem e o mal pode ser amarga e complicada, mas poupa-nos a má-consciência e o remorso. Sem darmos por isso, tornamo-nos desconfiados, pensando que deste modo nos defenderemos melhor das armadilhas da vida. Essa defesa é a verdadeira armadilha; tira-nos o gozo de viver, que é o da partilha, impossível sem confiança.

Conheci demasiadas pessoas que morreram sozinhas – sobretudo mulheres – porque não aceitavam ninguém perto delas: começaram por desconfiar dos amigos, depois da família, depois de qualquer mortal. Tenho um amigo que costuma dizer: «cada vez gosto mais de menos gente». O António Alçada Baptista, que teria feito 85 anos no passado dia 29, dizia que há uma tribo que se reconhece pelo gesto e pelo olhar. E dizia outra coisa muito importante: que as pessoas se dividem entre as que preferem, em qualquer circunstância, a liberdade – e as outras, maioritárias, que escolhem a segurança. Dizia-me que a razão da sua amizade profunda e indefectível por Mário Soares era essa: Soares sempre escolhera a liberdade – e escolhera-a quando essa escolha, mais do que difícil (como sempre é) era perigosa e implicava uma coragem invulgar.

A democracia portuguesa deve muito a Mário Soares; independentemente de aproximações partidárias, penso que só os que ainda acreditam na bondade das ditaduras do proletariado não serão capazes de o reconhecer. Podemos discordar dos seus pontos de vista sobre este ou aquele tema, mas é impossível não lhe reconhecer uma sabedoria política e uma argúcia inultrapassáveis.

Há sete anos discordei da sua terceira candidatura à Presidência da República pensando que a democracia exigia mudança nos cargos de poder, renovação. Mas o panorama das figuras políticas é hoje tão desolador que já não consigo pensar assim. Não é uma questão de idade: aos 50 anos Soares conseguiu impedir a guerra civil em Portugal, estabelecer no país uma democracia ocidental e integrar Portugal na Comunidade Europeia. O ensaio «autobiográfico, político e ideológico» que publicou recentemente (Mário Soares – um político assume-se – edição Temas e Debates/ Círculo de Leitores) reclama o primado da política e a sua dignificação, lembrando essa coisa básica e esquecida: a economia é uma ciência ao serviço das pessoas, não um Deus ao qual as populações devam ser imoladas.

Numa entrevista concedida a Paula Moura Pinheiro, na RTP-2, Soares explicou como aproveitou o tempo de prisão para ler, ler muito, ler continuamente – e não apenas ensaios políticos, mas romances, através dos quais ampliou o seu conhecimento da existência humana. E disse que não se pode ser um bom político sem se ler muito. A leitura afinou-lhe a inteligência e aguçou-lhe a inocência, sem a qual ninguém pode ser livre nem coisa nenhuma que valha: assim, diz tranquilamente que o problema da direita americana é que «está cheia de gente de má qualidade». É importante manter o fio dos ideais e saber distinguir a qualidade das pessoas.

Há tanta entidade reguladora de coisa nenhuma. No estado actual do país, devíamos criar para Mário Soares o lugar de regulador da democracia. Ele saberia negociar com Angela Merkel e com as troikas. Talvez até conseguisse injectar um litro de bom senso neste governo que dispensa o Carnaval.

 

 ( crónica publicada a 10.2.2012 no semanário Sol) 

Se alguém lhe oferecer flores…


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… isso significa que essa pessoa gosta de si, quer sair consigo, eventualmente iniciar um namoro consigo. Se a oferta das flores vier de um cônjuge que habitualmente não lhe faz essas surpresas, pode ser um acto de má-consciência na sequência de uma infidelidade. 

Oferecer flores não é “assédio sexual” – a não ser que quem oferece seja chefe de quem recebe as flores e que as ditas venham acompanhadas de uma intimação para um encontro a sós. Nesse caso, e pressupondo que  não sente qualquer interesse romântico pelo/a dito/a chefe (porque não é crime desenvolver um interesse pessoal por um superior hierárquico), a pessoa que se sente intimada deve declarar de imediato e tranquilamente o seu repúdio pela proposta e afirmar que tomará medidas se essa aproximação indesejada continuar.

Qualificar toda e qualquer tentativa de aproximação como “assédio sexual” é grave, porque desvaloriza a realidade – tão torturante e criminosa – do assédio sexual, favorecendo a sua continuidade e o aumento de vítimas.

Querer “comer”, sexualmente falando, outra pessoa, é aquilo a que se chama “desejo”, e uma das grandes alegrias da existência.

A âncora da memória, 1: Caetano Veloso


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A MENSAGEM DO TROPICALISMO

 

Caetano Veloso

 

Em 1968, atendendo ao convite de uma emissora de televisão e ao pedido de meu empresário, o fascinantemente esclarecido carioca Guilherme Araújo, apresentei uma canção chamada É proibido proibir. Como eu não via valor intrínseco na canção, animei-me a enriquecê-la com os timbres da banda Os Mutantes em arranjo estruturado pelo maestro Rogério Duprat e a transformar a apresentação num happening complexo. E como a abreviadíssima peça se resumia à repetição de uma frase francesa tratada com procedimentos do rock anglo-americano, tudo isso influenciado pela música eletrónica erudita alemã, decidi recitar as seguintes palavras enquanto os três músicos disparavam sons atonais sobre um ritmo de marchinha quebrado (ou desdobrado) em seis por oito:

 

«Sperai! Cahi no areal e na hora adversa

Que Deus concede aos seus

Para o intervalo em que esteja a alma imersa

Em sonhos que são Deus.

 

/Que importa o areal, a morte e a desventura

Se com Deus me guardei?

É O que eu me sonhei que eterno dura

É Esse que regressarei.»

 

Assim o fiz porque queria e precisava me aproximar do que me atraía e me amedrontava – sem falar no que me repugnava – na mística sebastianista que conhecera através de amigos que tinham, na Bahia, tido contato com o professor Agostinho da Silva. A apresentação aconteceu no auge do que veio a se chamar tropicalismo. Fazia exatamente um ano que essa aventura começara e esse momento – sem sequer uma boa canção – significava para mim o ingresso de corpo inteiro no desconhecido. Dada a reacção furiosa da platéia, Gilberto Gil, meu parceiro no projeto, ficou amedrontado. Eu também fiquei. Mas, por imaturidade e desconhecimento da vida, bem menos do que ele. O misto de atração e pavor, tingidos por certa repulsa, não estava ausente de minha aproximação do rock ou da música atonal. Assim, o sebastianismo seria apenas mais uma terra semi-incógnita entre as tantas que tentava visitar. Mas eu sabia que, por mais que essa fantasia de volta do encoberto fosse a mais estranha aos interesses compartilhados pelas pessoas com quem eu convivia – direta ou indiretamente – ela era central e estruturante do movimento que desencadeávamos. Ela, e não o rock ou a vanguarda erudita, podia servir de substrato ideológico ao tropicalismo.

O apelido que nosso movimento ao princípio ganhara e com o qual, em parte, se identificava, era som universal. Tropicalismo me parecia restritivo – e o sebastianismo de Agostinho como sua infraestrutura, redutor, equivocado e assombroso. Mesmo assim, era ele, e nada mais, que se sustentava por trás do enfrentamento da ditadura militar sem adesão ao imaginário de esquerda vigente, por trás do redimensionamento da cultura popular norte-americana e do amor aos experimentalismos formais da arte e da poesia.

Minha vinda a Lisboa agora me exige a pergunta: como avalio hoje o papel que Mensagem – e a visão de Agostinho sobre ela; Fernando Pessoa – e a visão de Agostinho sobre ele – tiveram na minha música ligeira, nas minhas escolhas políticas e no meu pensamento íntimo?

Não deixa de ser significativo que me tenham convidado para falar ao lado de Antonio Cicero – e que ele tenha me trazido a casa, entre outras coisas para ler antes da nossa vinda – e estendendo-o em primeiro lugar – exatamente o livro Um Fernando Pessoa, de Agostinho da Silva, que foi também o que me deram a ler na Bahia quando, tendo assistido a uma conferência do professor, disse ao meu amigo (que era o mais entregue discípulo entre os que Agostinho tinha em Salvador) que dela saíra impressionado. O que Cicero, na contramão das modas pós-estruturalistas, foi buscar no nascedouro da modernidade, ou seja, em Descartes, sua ideia de absoluto negativo, o cogito ultracartesiano e, como ele próprio já disse com belas palavras aqui mesmo em Lisboa, encontrou no racionalismo pessoano (e na concepção pessoana do eu  independente do sujeito empírico) ilustrações para sua tese. Isso me põe numa situação bastante sugestiva e algo incômoda: «A Europa em que Portugal assenta não é, felizmente, a Europa cartesiana»  – são as palavras de Agostinho da Silva num de seus momentos de revelação do sentido geral de Mensagem e da poesia de Fernando Pessoa. O que poderá reconciliar uma afirmação como essa com a decisão filosófica de Antonio Cicero? No entanto, mesmo na apreciação – por mais vaga, inexperta e desavisada que seja – que esboço do pensamento de Cicero, essa perspectiva sebastianista ainda se apresenta como pano de fundo ou como arcabouço provisório. Quer me parecer que o fato de que se tenha escrito justamente em português brasileiro a mais consequente defesa do fundamento cartesiano diz muito sobre a originalidade brasileira; e, mais importante, sobre a responsabilidade brasileira com relação à criação desabusada de um futuro cheio de grandeza espiritual. Fernando Pessoa não desprezaria essa incoerência, esse paradoxo.

Uma outra ideia de Agostinho pensando Pessoa que reluz à aproximação de Cicero é a complexa observação de que a atitude de Ricardo Reis diante da vida que existe à sua volta é, em parte, como a de um romano, «mas não com a alegria que, estranhamente, nós passsamos do nosso cristianismo para o paganismo antigo – e o julgarmos o cristianismo triste é ainda um resto do nosso paganismo –  mas com uma tão intensa melancolia que os próprios jogos do amor, o desabrochar das rosas e o saborear dos vinhos têm sempre diante de si o homem impassível que já está pressentindo como hão-de os ventos de outono varrer amor, flores, aroma».

Meu psicanalista, que se chama MD Magno, e, sendo um inventor dentro da disciplina que elegeu, progrediu do lacanismo para uma produção esotérica que, para minha surpresa, apresenta uma versão de sucessão de impérios, usando termos semelhantes aos de Vieira, Pessoa e da Silva, ao me ouvir comentar esse trecho, disparou: «o cristianismo é depressivo, e dessa perspectiva o paganismo surge como portador da alegria». O que me fez pensar imediatamente: «eu não soube contar bem o que li no trecho citado». Esse MD Magno é muito engraçado e esperto. Possivelmente ele também pensou algo além do que disse, pois viu em minha cara a relativa insatisfação e eu logo vi na sua a insinuação de outra volta do raciocínio –  mas tínhamos coisas mais urgentes a tratar, a vinda a Lisboa e as leituras a isso relacionadas eram apenas parte de um drama mais confuso e abrangente e, de todo modo, o tempo da sessão se esgotara. Mas o que pensei foi que Agostinho flagrara a alegria da luz do Espírito Santo sendo projetada na alegria melancólica dos romanos – e ainda por cima com o cuidado de distingui-los dos gregos, cuja complexidade, se levada em conta na construção da frase, exigiria outras palavras. Agostinho tinha acabado de dizer que Fernando Pessoa julgara Ricardo Reis um semi-helenista e tinha comentado: «e se há algum domínio em que seja difícil ser semi, esse domínio é exactamente o da Grécia:  a Grécia é muito mais complicada do que a fizeram os franceses, e saber só metade de uma complexidade é na realidade não a saber; ao passo que não há perigo nenhum em se saber só metade da simplicidade que foi Roma». Depois disso é que a frase sobre a perspectiva cristã projetar alegria na vida e poesia romanas apareceu no texto. Não posso deixar de notar, aqui, que  ele nada disse sobre o que os alemães fizeram da Grécia.

Seja como for, nem Cicero nem meu psicanalista sentiriam o contentamento de identificação que senti com a frase de Agostinho sobre a alegria do cristianismo, quando ela chegou no correr do texto. No entanto, talvez mais difícil para mim seria aderir à exigência de que, no Império a ser fundado, a definição do conceito Portugal exclua «as formas institucionais que vão, como o autoritarismo político, o liberalismo econômico ou a negação do Espírito Santo, contra o que há de estrutural no próprio homem». Sei que, exatamente no tempo em que Agostinho escrevia essas palavras e em que eu as lia, Portugal e Brasil viviam sob autoritarismo político e aderiam a algum liberalismo econômico. O ritual anual de uma criança vestida de imperador, soltar um preso no dia do Espírito Santo, eu ainda o encontrei na Bahia da minha adolescência. Eu odiava crianças, mas achava bonito esse rito. Confesso que odiava crianças porque a criança aparece como figura idealizada em toda a interpretação que faz Agostinho da obra e dos sonhos de Pessoa. O Menino Jesus do poema de Alberto Caeiro se espalha por toda a visão que Agostinho tinha dos quatro poetas e da mensagem de Mensagem. A trindade fomada por Maria, o Menino Jesus e o Espírito Santo é-me imediatamente muito mais simpática do que a formada por este mais o Pai e o Filho. Assim, como já  não odeio crianças (o nascimento de meus filhos foi o maior acontecimento de minha vida adulta) e continuo a odiar autoritarismos políticos, esbarro na negação em bloco do liberalismo econômico. É bem verdade que, saturado da iconografia católica e um tanto enjoado com as idéias tipo O Pequeno Príncipe como interpretação do chamado de Jesus, «deixai vir a mim as criancinhas», posso por vezes me sentir um pouco incomodado pela supervalorização da infância (uma coisa que as crianças são as primeiras a desprezar: ou será isso um sintoma da glorificação da vida adulta que teria invadido Portugal com a vitória da Europa sobre os atrasos medievalizantes de sua corte?). Mas gosto de ler a revolta que causa em Agostinho o reconhecimento de que na Inglaterra da Revolução Industrial o monstruoso não era que houvesse crianças de oito anos trabalhando em fábricas, mas que aquilo fossem adultos de oito anos. Assim como hoje, nas favelas do Rio, vemos adultos de nove, dez, treze anos trabalhando no tráfico de drogas e carregando armas de fogo. O que não consigo ver é como as liberdades políticas se podem dar sem que haja algo como o liberalismo econômico. Mas que digo? Se justamente a força de sonho que me encanta no projeto sebastianista que Agostinho achou desenvolvido em Pessoa e passou, tanto por meu intermédio quanto pelo de Glauber, para os tropicalistas? Será? Se me maravilho diante de declarações como «Portugal já civilizou Ásia, África e América, falta civilizar Europa», por que esbarraria numa condenação do liberalismo? Pela simples razão de que vejo esses arroubos, esses mitos e esses sonhos como a sugestão de assumir tarefas.  

Faz pouco, causei, meio involuntariamente, um pequeno escândalo no Brasil por ter aparecido num jornal dizendo que o presidente é analfabeto. Era realmente algo feio de se ler na primeira página do jornal. Feio porque, primeiro, não é verdade factual: Lula não é analfabeto. Segundo: porque esse tom me aparecia semelhante ao tom grosseiro que tanto me desagrada na nova direita que faz sucesso nos media (ou na mídia, como se diz no Brasil). No entanto, nem quis corrigir o que me pareceu edição sensacionalista de minhas palavras: estava mais interessado em quebrar o tabu de, em certas rodas (amplamente majoritárias) estar proibido dizer-se mal de Lula. Mas a verdade é que, à luz tropical do sebastianismo de Pessoa via Agostinho, Lula surge a meus olhos como uma figura de grandeza histórica e épica. Uma grandeza bem do tipo épico em versos líricos que se encontra em Mensagem. Sinto ternura, simpatia, amor pelas figuras que parecem carregar a tocha dessa caminhada em que me descobri implicado desde menino: um uso da visão supersticiosa para assumir tarefas em que a superstição desaparece. E que pretende livrar-me, e a todos nós,  para sempre, das superstições. Perante as superstições tomadas a sério, como os marxismos de minorias de massa, o sebastianismo que me ficou do acaso de ter nascido no Brasil, falar português e ter sido apresentado a Pessoa (e ao que dele disse Agostinho) num momento crucial de minha vida se traduz hoje assim: ver a imagem do Cristo Redentor do Rio de Janeiro subir como um foguete na capa da The Economist na mesma semana em que fui informado de que não poderá haver turnée do meu show nos Estados Unidos por causa da enorme desvalorização do dólar. E completar essa trama com a nota de Paul Kruegman sobre Obama ter titubeado e mostrado insegurança em entrevista à Fox News me dá angústia. Penso em MD Magno dizendo que a passagem do Império do Filho para o do Espírito Santo não se dará sem muito sofrimento e que já estamos em começos dela. É demasiado simbólico que Obama seja o primeiro presidente negro e que ele tenha um nome-do-meio árabe (suponho que Barak seja bíblico, Hussein, árabe, e Obama, subsaariano). Que ele tenha assumido num momento de desestabilização do Império Americano e de ameaças ao Ocidente por parte de extremistas muçulmanos só amplia e intensifica essa impressão. O Brasil de Lula que é o Brasil de Fernando Henrique, o primeiro Brasil realmente pós-ditadura, já que Collor apenas abriu o Mercado e quase destruiu o país, não é só o Brasil do inchaço do Estado. É sobretudo o Brasil da promessa de ganhar crescente poder mundial e apresentar uma maneira nova de exercê-lo: sem a força das armas nem da grana como determinantes. Mas como chegaremos a algo assim, se há adultos de nove anos segurando armas pesadas nas favelas e a crueldade da polícia contra os pobres pode ser imensa; e a crueldade dos grupos que detêm poderes econômicos ilegais, mas fortes, pode ser infernal? É na coragem do enfrentamento disso que se encontra a nossa tarefa. De minha parte, apenas canto canções ligeiras e busco pensar como se exerce essa atividade entre nós.

 

Conferência proferida na Casa Fernando Pessoa a 4 de Dezembro de 2009, posteriormente publicada no 1º número da revista Pessoa, em Dezembro de 2010.

O melhor cliente é o que ainda não chegou


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Há uns tempos aconteceu-me no restaurante Muralhas, em Óbidos: “Essa mesa não pode ser, está reservada”. Perguntei se o autor da reserva tinha pedido especificamente aquela mesa para duas pessoas, encostada à parede. Responderam-me que sim. Só ficámos porque já era tarde e estávamos num desses dias celebrativos em que os restaurantes transbordam. Nunca chegou ninguém para a tal mesa que não podia ser. Nunca mais lá voltámos, claro. 

Agora foi no restaurante Prim, na Ericeira. Éramos dois, já passava das nove e meia da noite, dirigíamo-nos a uma mesa para quatro, num cantinho. A empregada disse-nos que não podia ser, porque podia ainda chegar um grupo de quatro pesssoas, e encaminhou-nos para a outra mesa disponível, para duas pessoas, ao lado dessa e praticamente colada a outra mesa ocupada. Volvidos 20 minutos chegaram mais duas pessoas… que foram encaminhadas para a simpática mesa de quatro, mais isolada, que nós tínhamos pretendido. Só não saímos porque já estávamos a comer. Mas não voltaremos, evidentemente. Para muitos restaurantes portugueses, os clientes que merecem ser bem tratados são os que ainda não chegaram. Sebastianismo gastronómico. 

 

Avalanche


blogprimario94472,

Morreu Leonard Cohen. Eu ter-lhe-ia dado um Nobel qualquer. Por exemplo, o da química. O meu corpo e a minha alma explicam porquê, desde que, aos 11 ou 12 anos, ouvi pela primeira vez esta canção. So long, Leonard.